{"id":638,"date":"2013-07-19T17:01:40","date_gmt":"2013-07-19T17:01:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=638"},"modified":"2013-07-19T17:01:40","modified_gmt":"2013-07-19T17:01:40","slug":"egito-para-ajudar-a-entender-a-esfinge","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/egito-para-ajudar-a-entender-a-esfinge\/","title":{"rendered":"Egito: para ajudar a entender a esfinge"},"content":{"rendered":"<p>Para a maioria dos observadores ocidentais, pouco habituados a enxergar al\u00e9m dos discursos manique\u00edstas sobre regimes \u00abdemocr\u00e1ticos\u00bb e \u00abautorit\u00e1rios\u00bb, foi uma surpresa ver dezenas de milh\u00f5es de eg\u00edpcios nas ruas das maiores cidades do pa\u00eds, para protestar furiosamente contra o democraticamente eleito presidente Mohamed Mursi. E a surpresa se converteu em choque, ap\u00f3s a deposi\u00e7\u00e3o de Mursi pelas For\u00e7as Armadas, na quarta-feira 3 de julho, e sua pronta substitui\u00e7\u00e3o pelo presidente do Tribunal Constitucional, Adli Mansour, empossado como presidente interino at\u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es gerais, prometida para seis meses. No entanto, o que alguns analistas apressados rotulam como um retrocesso para a \u00abPrimavera \u00c1rabe\u00bb, envolve aspectos mais profundos que uma mera rejei\u00e7\u00e3o da democracia de padr\u00e3o ocidental pelos povos isl\u00e2micos &#8211; na verdade, embora quase 90% da popula\u00e7\u00e3o seja mu\u00e7ulmana, a maioria dos eg\u00edpcios rejeita, precisamente, a \u00abislamiza\u00e7\u00e3o\u00bb for\u00e7ada, n\u00e3o apenas da pol\u00edtica, mas de todos os aspectos de suas vidas, como estava evidenciado na agenda da Irmandade Mu\u00e7ulmana de Mursi. E a derrocada de Mursi significa, tamb\u00e9m, um duro golpe no maldisfar\u00e7ado empenho das pot\u00eancias ocidentais no sentido de instrumentalizar o radicalismo isl\u00e2mico em favor da sua agenda hegem\u00f4nica na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um in\u00edcio de mandato promissor, em que chegou a ensaiar uma linha equidistante do alinhamento autom\u00e1tico com o Ocidente e do radicalismo clerical da Irmandade Mu\u00e7ulmana (<em>Resenha Estrat\u00e9gica<\/em>, 29\/08\/2012), Mursi passou a pautar as suas a\u00e7\u00f5es de uma forma crescente pela agenda da Irmandade, colocando seus representantes em postos-chave do gabinete ministerial, como as pastas da Educa\u00e7\u00e3o, M\u00eddia, Assuntos Religiosos, Assuntos Sociais e Cultura &#8211; processo rotulado por seus opositores como \u00abAkhwwana\u00bb, ou \u00abFraterniza\u00e7\u00e3o\u00bb. Em um artigo publicado no s\u00edtio Al-Monitor.com, em 2 de julho (\u00ab\u00c9 a identidade eg\u00edpcia, est\u00fapido!\u00bb), o escritor e ativista pol\u00edtico Wael Nawara explica:<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 claro que os eg\u00edpcios est\u00e3o zangados com os pre\u00e7os, a escassez de combust\u00edvel e os cortes de eletricidade, e que estes problemas amplificaram a causa da rebeli\u00e3o. Mas o Egito \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o que tem lidado, h\u00e1 d\u00e9cadas, pacientemente, com a escassez. O que, agora, enraiveceu as pessoas, em particular, foi a sensa\u00e7\u00e3o de estarem perdendo o meio de vida distinto do Egito. Para iniciantes, a constitui\u00e7\u00e3o aprovada por uma maioria islamista codificava restri\u00e7\u00f5es ultraconservadoras sobre a liberdade de culto e express\u00e3o, usando termos que, de fato, penalizam as pessoas que, alegadamente, n\u00e3o respeitam os \u00abvalores sociais\u00bb, o que significa, mais ou menos, quaisquer valores que o governo e seus aliados considerem como tais. Especialistas em educa\u00e7\u00e3o advertiram que os Irm\u00e3os recentemente nomeados para o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o estavam alterando os curr\u00edculos, para ajust\u00e1-los \u00e0 ideologia conservadora da Irmandade Mu\u00e7ulmana. Os Irm\u00e3os tamb\u00e9m removeram dos livros de Hist\u00f3ria os cap\u00edtulos que descreviam o passado violento de sua organiza\u00e7\u00e3o. Quando o ministro da Cultura demitiu alguns funcion\u00e1rios de alto escal\u00e3o e surgiram rumores de que ele estava considerando um banimento do bal\u00e9, artistas e perform\u00e1ticos fizeram manifesta\u00e7\u00f5es e exibi\u00e7\u00f5es de bal\u00e9 na rua, incluindo \u00abZorba o Grego\u00bb.<\/p>\n<p>As emo\u00e7\u00f5es e os sentimentos desempanham um papel importante na maneira como as pessoas tomam decis\u00f5es, que n\u00e3o se baseiam apenas em c\u00e1lculos racionais. Em vez disto, os sentimentos e emo\u00e7\u00f5es usam avalia\u00e7\u00f5es complexas, que ocorrem no n\u00edvel dos instintos de sobreviv\u00eancia profundamente enraizados. Muitos fatores emocionais t\u00eam contribu\u00eddo para fazer os eg\u00edpcios sentirem um amea\u00e7a \u00e0 sobreviv\u00eancia do Egito como na\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>De fato, o que parece ter sido a gota d&#8217;\u00e1gua para a decis\u00e3o dos militares de depor Mursi foi o escandaloso endosso do presidente a uma \u00abguerra santa\u00bb (jihad) contra o regime do presidente s\u00edrio Bashar al-Assad, conclamada por cl\u00e9rigos radicais da Irmandade Mu\u00e7ulmana, em meados de junho. Na ocasi\u00e3o, Mursi determinou o rompimento de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Damasco, o que muitos observadores consideraram um tremendo erro estrat\u00e9gico de alt\u00edssimo potencial desestabilizador. Por ironia, o primeiro a ser desestabilizado foi o seu pr\u00f3prio governo, enquanto o regime de Assad ganhava um inesperado refor\u00e7o pol\u00edtico. Em entrevista \u00e0 ag\u00eancia Sana, em 6 de julho, o pr\u00f3prio l\u00edder s\u00edrio observou:<\/p>\n<blockquote><p>O que est\u00e1 acontecendo no Egito \u00e9, essencialmente, a queda do Isl\u00e3 pol\u00edtico, o tipo de sistema de governo que a Irmandade Mu\u00e7ulmana tentava promover regionalmente&#8230; A experi\u00eancia fracassou rapidamente, porque se fundamentava em uma base errada&#8230; Usar a religi\u00e3o para a pol\u00edtica ou um certo partido pol\u00edtico est\u00e1, inevitavelmente, destinado a fracassar em qualquer lugar do mundo. Pa\u00edses como o Egito, Iraque e S\u00edria est\u00e3o localizados estrategicamente e profundamente enraizados na ist\u00f3ria da regi\u00e3o, por milhares de anos. Consequentemente, os povos dessas terras t\u00eam um rico reservat\u00f3rio de conhecimento, percep\u00e7\u00e3o, cultura e civiliza\u00e7\u00e3o humana, que os torna imunes a narrativas enganosas&#8230; Isto se aplica, especialmente, aos eg\u00edpcios, que representam uma civiliza\u00e7\u00e3o de milhares de anos uma uma ideologia nacionalista \u00e1rabe singular. O que aconteceu h\u00e1 um ano foi uma consequ\u00eancia n\u00e3o testada do partido pol\u00edtico que governava antes, mas, agora, o quadro emergiu mais claramente para os eg\u00edpcios e o desempenho da Irmandade Mu\u00e7ulmana revelou as mentiras que expunham no in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o. (&#8230;)<\/p><\/blockquote>\n<p>A queda de Mursi significa, igualmente, um s\u00e9rio rev\u00e9s para o premier turco Recep Tayyip Erdogan, ele pr\u00f3prio um islamista nominalmente moderado, que teve recentemente a sua cota de problemas com manifestantes contr\u00e1rios \u00e0s suas tentativas de impor preceitos isl\u00e2micos ao cotidiano dos turcos, ferrenhamente ciosos da seculariza\u00e7\u00e3o do seu Estado (<em>Resenha Estrat\u00e9gica<\/em>, 12\/06\/2013).<\/p>\n<p>Segundo a imprensa turca, Erdogan sentiu-se quase pessoalmente atingido pela deposi\u00e7\u00e3o de Mursi, retornando antecipadamente de um descanso de alguns dias, para desfechar uma s\u00e9rie de acusa\u00e7\u00f5es contra o Ocidente, em especial, a Europa, pela relut\u00e2ncia inicial em rotular a a\u00e7\u00e3o dos militares eg\u00edpcios como um golpe de Estado (ensejada pelos EUA, devido \u00e0s restri\u00e7\u00f5es do Congresso contra ao fornecimento de ajuda financeira a pa\u00edses sob regimes de exce\u00e7\u00e3o pol\u00edtica). Depois de estragar a sua anteriormente bem sucedida pol\u00edtica externa de \u00abzero problema com os vizinhos\u00bb e adotar a agenda intervencionista da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN), tanto na L\u00edbia como na S\u00edria, Erdogan e seu chanceler Ahmet Davutoglu sonhavam com o estabelecimento de um eixo Ancara-Cairo, devidamente azeitado pelas inclina\u00e7\u00f5es islamistas dos dois governos. Agora, ser\u00e3o obrigados a refazer o dever de casa.<\/p>\n<p>Mas, acima de tudo, a derrocada de Mursi foi celebrada e, provavelmente, apoiada por uma ampla coaliz\u00e3o de for\u00e7as da regi\u00e3o e de fora dela, que atuam para tentar neutralizar a agenda hegem\u00f4nica das pot\u00eancias da OTAN, potencializada ap\u00f3s a decis\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Russa de tra\u00e7ar a sua pr\u00f3pria \u00ablinha vermelha\u00bb no ch\u00e3o, contra a convers\u00e3o da S\u00edria em uma nova L\u00edbia. Em uma an\u00e1lise publicada pela Funda\u00e7\u00e3o de Cultura Estrat\u00e9gica russa, o jornalista investigativo estadunidense Wayne Madsen, ex-analista da Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional (NSA), observou:<\/p>\n<blockquote><p>Os xiitas do Oriente M\u00e9dio, representados pelo Ir\u00e3 e o Hisbol\u00e1 liban\u00eas; os alau\u00edtas minorit\u00e1rios, representados pelo governo de Assad e a oposi\u00e7\u00e3o secular do Partido Popular Republicano (CHP) da Turquia e seu l\u00edder alau\u00edta Kemal Kililcdaroglu; o legado crist\u00e3o da regi\u00e3o, representado pelo presidente liban\u00eas Michael Suleiman e os crist\u00e3os pr\u00f3-Assad no gabinete liban\u00eas; a Arm\u00eania, R\u00fassia, Gr\u00e9cia e o Vaticano viam como uma \u00ablinha no ch\u00e3o\u00bb a tentativa de dominar a S\u00edria dos salafistas radicais, inclusive membros da Al-Qaida. Depois que [o presidente Barack] Obama autorizou a transfer\u00eancia de armas estadunidenses para os rebeldes s\u00edrios, que consistem, principalmente, de guerrilheiros <em>mujahidin<\/em> estrangeiros que acabam de retornar dos combates no Afeganist\u00e3o, Iraque, L\u00edbia, Som\u00e1lia e I\u00eamen, aqueles que se recusavam a ver o Oriente M\u00e9dio cair sob o dom\u00ednio de um bloco sunita wahabita dominado pelo Catar e a Ar\u00e1bia Saudita, desfrutando do apoio t\u00e1cito de Israel e dos EUA, decidiram agir. Os militares eg\u00edpcios foram os primeiros a atuar.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a \u00abDoutrina Obama\u00bb, que pedia o apoio pol\u00edtico e financeiro dos EUA para a deposi\u00e7\u00e3o de regimes seculares com legados de socialismo pan-\u00e1rabe, seguido pelo apoio militar via terceiros, como a OTAN e o Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo, monarquista, \u00e1rabe e wahabita, morreu na Pra\u00e7a Tahrir, em meio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o do \u00abVer\u00e3o \u00c1rabe\u00bb eg\u00edpcio. (&#8230;) (Strategic-Culture Foundation, 5\/07\/2013).<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora qualquer progn\u00f3stico sobre a situa\u00e7\u00e3o do Egito seja temer\u00e1rio, pois o risco de um grave conflito civil no pa\u00eds n\u00e3o pode ser descartado, e apesar da amea\u00e7a sempre latente de uma provoca\u00e7\u00e3o de Israel, o quadro regional n\u00e3o se mostra, efetivamente, favor\u00e1vel \u00e0 agenda das pot\u00eancias hegem\u00f4nicas. E n\u00e3o deixa de ser uma ironia que tal cen\u00e1rio ostente uma tintura da Guerra Fria, quando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica atuava como contrapeso \u00e0s maquina\u00e7\u00f5es da alian\u00e7a ocidental.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a maioria dos observadores ocidentais, pouco habituados a enxergar al\u00e9m dos discursos manique\u00edstas sobre regimes \u00abdemocr\u00e1ticos\u00bb e \u00abautorit\u00e1rios\u00bb, foi uma surpresa ver dezenas de milh\u00f5es de eg\u00edpcios nas ruas das maiores cidades do pa\u00eds, para protestar furiosamente contra o democraticamente eleito presidente Mohamed Mursi. 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