{"id":604,"date":"2013-05-31T14:58:02","date_gmt":"2013-05-31T14:58:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=604"},"modified":"2013-05-31T14:58:02","modified_gmt":"2013-05-31T14:58:02","slug":"francisco-e-o-esplendor-da-doutrina-social-da-igreja-frente-a-crise-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/francisco-e-o-esplendor-da-doutrina-social-da-igreja-frente-a-crise-global\/","title":{"rendered":"Francisco e o esplendor da Doutrina Social da Igreja frente \u00e0 crise global"},"content":{"rendered":"<p>Em uma sucess\u00e3o de pronunciamentos recentes, o papa Francisco desfechou duros ataques ao que chamou o \u00abculto do dinheiro\u00bb e instou os governantes mundiais a promover uma imediata reforma do sistema financeiro internacional. Por sua relev\u00e2ncia e devido \u00e0 escassa divulga\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, instamos os nossos leitores a observar com certo detalhe as interven\u00e7\u00f5es papais.<\/p>\n<p>A primeira delas ocorreu em 16 de maio, perante o corpo diplom\u00e1tico acreditado no Vaticano, por ocasi\u00e3o da entrega das credenciais dos novos embaixadores do Quirguist\u00e3o, Ant\u00edgua e Barbados, Luxemburgo e Botswana. Na oportunidade, Francisco fez uma das mais contundentes s\u00ednteses do momento atual do planeta j\u00e1 proferida por uma autoridade da sua estatura, nos \u00faltimos tempos.<\/p>\n<p>\u00abPrezados embaixadores, seria desej\u00e1vel a realiza\u00e7\u00e3o de uma reforma financeira que fosse \u00e9tica e produzisse, por sua vez, uma reforma econ\u00f4mica salutar para todos. Isso, por\u00e9m, requereria por parte dos dirigentes pol\u00edticos uma corajosa mudan\u00e7a de atitude\u00bb, disse o Pont\u00edfice.<\/p>\n<p>Embora tenham sido grandemente ignoradas pela m\u00eddia mundial, as iniciativas do papa denotam, uma vez mais, o empenho do Vaticano em apontar as causas fundamentais e a natureza civilizat\u00f3ria da crise global, num momento em que as aten\u00e7\u00f5es se concentram no seu aspecto financeiro.<\/p>\n<p>\u00abEste momento de crise, fiquemos atentos, n\u00e3o consiste numa crise meramente econ\u00f4mica, n\u00e3o \u00e9 uma crise cultural. \u00c9 uma crise do homem: quem est\u00e1 em crise \u00e9 o homem! E quem pode ser destru\u00eddo \u00e9 o homem!\u00bb &#8211; enfatizou Francisco.<\/p>\n<p>O encontro foi uma surpreendente jornada de otimismo e confian\u00e7a em favor da justi\u00e7a, transbordante do simbolismo de Pentecostes. Na presente altura da crise global, \u00e9 ineg\u00e1vel que a Doutrina Social da Igreja tem demarcado pautas renovadoras para o mundo, desde que foi lan\u00e7ada pelo papa Le\u00e3o XIII, no final do s\u00e9culo XIX. Diante do j\u00e1 previs\u00edvel colapso do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, a enc\u00edclica\u00a0<em>Rerum Novarum<\/em>\u00a0sacudiu o mundo sedento de justi\u00e7a, que padecia a \u00abvoraz usura\u00bb. N\u00e3o obstante, desde aquela \u00e9poca, ficou pendente a configura\u00e7\u00e3o de novas estruturas necess\u00e1rias para preparar o mundo para enfrentar a conviv\u00eancia p\u00f3s-colonial. Em uma similitude hist\u00f3rica, o papa Francisco vivifica o esp\u00edrito de tais ensinamentos, enquadradas no que o mundo mais anseia: estruturas econ\u00f4micas e sociais para um processo definitivo de descoloniza\u00e7\u00e3o, baseado na configura\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas segundo os crit\u00e9rios do bem comum.<\/p>\n<p>Tais observa\u00e7\u00f5es ganham uma relev\u00e2ncia particular, com a vindoura reuni\u00e3o do G-20, em setembro, em Moscou, onde se manifestar\u00e1 uma nova oportunidade para se dar partida a uma reforma financeira ordenada, como resposta ao recrudescimento da crise global, ensejado pelas medidas paliativas tomadas pelos governos ap\u00f3s a crise de 2008.<\/p>\n<p>Entre as poucas rea\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que captaram a dimens\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es papais, vale citar a do historiador estadunidense Joseph P. Farrell, em seu blog, em 22 de maio, na qual observou um importante aspecto geopol\u00edtico:<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) Eu sugiro que h\u00e1 um contexto geopol\u00edtico, no qual as afirmativas de Sua Santidade devem ser vistas. Com a crescente tend\u00eancia entre as na\u00e7\u00f5es do BRICS de agir como um contraponto geopol\u00edtico e financeiro \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es financeiras e imperiais do Ocidente, uma coisa inevit\u00e1vel que acontecer\u00e1 \u00e9 que pode estar em curso um entendimento entre o bloco e o Vaticano. Isto ocorreria em benef\u00edcio de ambos os lados: o Papado, nos tempos modernos, tem procurado consistentemente uma entrada na China e um\u00a0modus vivendi\u00a0de alguma forma com a Ortodoxia Oriental, onde a Igreja Ortodoxa Russa&#8230; tem a influ\u00eancia num\u00e9rica e pol\u00edtica majorit\u00e1ria. E com as tentativas do Sr. Putin de refor\u00e7ar a frente dom\u00e9stica, o seu papel na era p\u00f3s-sovi\u00e9tica, pelo menos como um conduto pol\u00edtico e cultural, somente tem crescido&#8230; Um apelo por reformas, em benef\u00edcio dos pobres ou subdesenvolvidos, \u00e9 talhado para a agenda dos BRICS, especialmente, \u00e0 luz da falta de considera\u00e7\u00e3o dos oligarcas ocidentais com qualquer um que n\u00e3o sejam eles pr\u00f3prios.<\/p><\/blockquote>\n<p align=\"center\"><strong>Governos do mundo, despertem!<\/strong><\/p>\n<p>Por outro lado, durante a vig\u00edlia de Pentecostes, em 18 de maio, presenciada por mais de 200 mil jovens de todo o mundo, Francisco deixou de lado por um momento o texto preparado para a ocasi\u00e3o e reiterou, com veem\u00eancia, que, na crise atual, os l\u00edderes \u00abse preocupam pelos bancos, e n\u00e3o pelas fam\u00edlias que morrem de fome&#8230; a pol\u00edtica se ocupa de finan\u00e7as e de bancos, n\u00e3o dos que t\u00eam fome\u00bb.<\/p>\n<p>Ressaltando a sua forte mensagem sobre a insensibilidade da vis\u00e3o econ\u00f4mica prevalecente, ele disparou: \u00abN\u00e3o interessa se as pessoas n\u00e3o t\u00eam nada. Se os investimentos e os bancos caem, todos dizem que \u00e9 uma trag\u00e9dia. Se as fam\u00edlias est\u00e3o mal, n\u00e3o t\u00eam o que comer, n\u00e3o importa&#8230; Esta \u00e9 a nossa crise!\u00bb<\/p>\n<p>\u00abA Igreja pobre para os pobres est\u00e1 contra essa mentalidade\u00bb, agregou Francisco, despertando o entusiasmo da sua jovem assist\u00eancia.<\/p>\n<p>No evento, o Pont\u00edfice tamb\u00e9m respondeu a perguntas feitas pelos participantes, que abordaram temas pol\u00eamicos. Um deles foi o reconhecimento dos problemas enfrentados pela pr\u00f3pria Igreja: \u00abA Igreja n\u00e3o \u00e9 um movimento pol\u00edtico, nem uma estrutura bem organizada: n\u00e3o \u00e9 isto. N\u00f3s n\u00e3o somos uma ONG, e quando a Igreja se torna uma ONG, ela perde o sal, n\u00e3o tem sabor e, portanto, se torna uma organiza\u00e7\u00e3o vazia.\u00bb<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>\u00c9 preciso uma reforma financeira<\/strong><\/p>\n<p>A seguir, reproduzimos os principais trechos do discurso do papa Francisco perante os embaixadores acreditados na Santa S\u00e9, em 16 de maio, segundo o texto distribu\u00eddo pela ag\u00eancia Zenit.<\/p>\n<p>\u00abSenhores embaixadores, considerados os progressos que se verificam em v\u00e1rios \u00e2mbitos, a humanidade est\u00e1 neste momento a viver uma esp\u00e9cie de viragem na sua hist\u00f3ria. N\u00e3o podemos deixar de nos alegrar com os resultados positivos, que concorrem para o bem-estar aut\u00eantico da humanidade, por exemplo, nos campos da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 que reconhecer tamb\u00e9m que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo continua a viver dia a dia numa precariedade de consequ\u00eancias funestas. Aumentam algumas patologias, com as suas consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas; o medo e o desespero apoderam-se do cora\u00e7\u00e3o de numerosas pessoas, mesmo nos pa\u00edses considerados ricos; a alegria de viver vai diminuindo; a imoralidade e a viol\u00eancia est\u00e3o a aumentar; torna-se mais evidente a pobreza. Tem-se de brigar para viver, cingindo-se muitas vezes a uma vida pouco dignificante. A meu ver, uma das causas desta situa\u00e7\u00e3o reside na rela\u00e7\u00e3o que temos com o dinheiro, aceitando o seu predom\u00ednio sobre n\u00f3s e as nossas sociedades. Assim a crise financeira, que estamos a atravessar, faz-nos esquecer a sua origem primordial, que se encontra numa profunda crise antropol\u00f3gica, ou seja, na nega\u00e7\u00e3o da primazia do homem. Criamos novos \u00eddolos. A adora\u00e7\u00e3o do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32,1-8) encontrou uma nova e cruel vers\u00e3o na idolatria do dinheiro e na ditadura de uma economia realmente sem fisionomia nem finalidade humanas.<\/p>\n<p>\u00abA crise mundial, que envolve as finan\u00e7as e a economia, parece evidenciar as suas deforma\u00e7\u00f5es e, sobretudo, a sua grave car\u00eancia de perspectiva antropol\u00f3gica, que reduz o homem a uma \u00fanica das suas exig\u00eancias: o consumo. Pior ainda, hoje o pr\u00f3prio ser humano \u00e9 visto como um bem de consumo, que se pode usar e deitar fora. Come\u00e7amos esta cultura do desperd\u00edcio. Esta pervers\u00e3o verifica-se tanto a n\u00edvel individual como social; e goza do seu favor! Em tal contexto, a solidariedade, que \u00e9 o tesouro dos pobres, acaba muitas vezes por ser considerada contraproducente, contr\u00e1ria \u00e0 racionalidade financeira e econ\u00f4mica. Enquanto os rendimentos de uma minoria crescem de maneira exponencial, os da maioria v\u00e3o-se exaurindo. Este desequil\u00edbrio deriva de ideologias que promovem a autonomia absoluta dos mercados e a especula\u00e7\u00e3o financeira, negando assim o direito de controle aos Estados, que t\u00eam precisamente a responsabilidade de prover ao bem comum. Instaura-se uma nova tirania, invis\u00edvel e \u00e0s vezes virtual, que imp\u00f5e, unilateralmente e sem recurso poss\u00edvel, as suas leis e regras. Al\u00e9m disso, a d\u00edvida e o cr\u00e9dito afastam os pa\u00edses da sua economia real, e os cidad\u00e3os do seu poder real de compra. Depois vem juntar-se a isto uma corrup\u00e7\u00e3o tentacular e uma evas\u00e3o fiscal ego\u00edsta, que assumiram dimens\u00f5es mundiais. A avidez de poder e riqueza n\u00e3o conhece limites.<\/p>\n<p>\u00abPor detr\u00e1s desta atitude, esconde-se a recusa da \u00e9tica, a recusa de Deus. Como a solidariedade, tamb\u00e9m a \u00e9tica incomoda! \u00c9 considerada contraproducente, vista como demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o poder, e como uma amea\u00e7a, porque recusa a manipula\u00e7\u00e3o e sujei\u00e7\u00e3o da pessoa; porque a \u00e9tica conduz a Deus, que escapa \u00e0s categorias do mercado. Deus \u00e9 considerado por estes financeiros, economistas e pol\u00edticos como n\u00e3o regul\u00e1vel, Deus n\u00e3o regul\u00e1vel, ou at\u00e9 perigoso, porque chama o homem \u00e0 sua plena realiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 independ\u00eancia de qualquer tipo de escravid\u00e3o. A meu ver, a \u00e9tica &#8211; naturalmente n\u00e3o ideol\u00f3gica &#8211; permite criar um equil\u00edbrio e uma ordem social mais humanos. Neste sentido, encorajo os peritos financeiros e os governantes dos vossos pa\u00edses a terem em conta estas palavras de S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo: &#8216;N\u00e3o partilhar com os pobres os pr\u00f3prios bens \u00e9 roub\u00e1-los e tirar-lhes a vida. Os bens que possu\u00edmos n\u00e3o s\u00e3o nossos, mas deles&#8217; (<em>Homilia sobre L\u00e1zaro<\/em>, 1, 6: PG 48, 992D).<\/p>\n<p>\u00abPrezados embaixadores, seria desej\u00e1vel a realiza\u00e7\u00e3o de uma reforma financeira que fosse \u00e9tica e produzisse, por sua vez, uma reforma econ\u00f4mica salutar para todos. Isso, por\u00e9m, requereria por parte dos dirigentes pol\u00edticos uma corajosa mudan\u00e7a de atitude. Exorto-os a enfrentarem este desafio com determina\u00e7\u00e3o e clarivid\u00eancia, naturalmente tendo em conta a peculiaridade dos respectivos contextos. O dinheiro deve servir, e n\u00e3o governar! Eu amo a todos, ricos e pobres; mas tenho o dever de recordar ao rico, em nome de Cristo, que deve ajudar o pobre, respeit\u00e1-lo, promov\u00ea-lo. Por isso, o Papa exorta \u00e0 solidariedade desinteressada e a um retorno \u00e0 \u00e9tica que favore\u00e7a o homem na realidade financeira e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>\u00abA Igreja, por sua parte, n\u00e3o cessar\u00e1 de trabalhar pelo desenvolvimento integral de toda a pessoa. Neste sentido, recorda que o bem comum n\u00e3o deveria ser simplesmente um acr\u00e9scimo, um esquema conceitual de reduzido valor, inserido nos programas pol\u00edticos. A Igreja encoraja os governantes a permanecerem verdadeiramente ao servi\u00e7o do bem comum das suas popula\u00e7\u00f5es. Exorta os dirigentes das realidades financeiras a tomarem em considera\u00e7\u00e3o a \u00e9tica e a solidariedade. E porque n\u00e3o dirigirem-se a Deus para que lhes inspire os seus des\u00edgnios. Formar-se-\u00e1 ent\u00e3o uma nova mentalidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica, que contribuir\u00e1 para transformar a profunda dicotomia entre as esferas econ\u00f4mica e social numa s\u00e3 conviv\u00eancia.\u00bb<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>\u00abQuem est\u00e1 em crise \u00e9 o homem!\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>Durante a vig\u00edlia de Pentecostes, Francisco respondeu a perguntas dos participantes, entre as quais destacamos a seguinte passagem:<\/p>\n<p>P: \u00abDeixe-me perguntar-lhe, Santo Padre, como eu e todos n\u00f3s podemos viver uma Igreja pobre e para os pobres? De que maneira o homem sofredor \u00e9 uma pergunta para a nossa f\u00e9? Todos n\u00f3s, como movimento, associa\u00e7\u00f5es laicas, que contribui\u00e7\u00e3o concreta e eficaz podemos dar \u00e0 Igreja e \u00e0 sociedade, para confrontar essa grave crise que afeta a \u00e9tica p\u00fablica &#8211; isto \u00e9 um importante -, o modelo de desenvolvimento, a pol\u00edtica, em suma, um novo modo de sermos homens e mulheres?\u00bb<\/p>\n<p>R: \u00abRecuperar a partir do testemunho. Primeiro de tudo, viver o Evangelho \u00e9 a principal contribui\u00e7\u00e3o que podemos dar. A Igreja n\u00e3o \u00e9 um movimento pol\u00edtico, nem uma estrutura bem organizada: n\u00e3o \u00e9 isto. N\u00f3s n\u00e3o somos uma ONG, e quando a Igreja se torna uma ONG, ela perde o sal, n\u00e3o tem sabor e, portanto, se torna uma organiza\u00e7\u00e3o vazia. E, nisto, sejam espertos, porque o diabo nos engana, porque existe o perigo do eficientismo. Uma coisa \u00e9 predicar Jesus, outra \u00e9 a efic\u00e1cia, ser eficiente. N\u00e3o, aquilo \u00e9 outro valor. O valor da Igreja, fundamentalmente, \u00e9 viver o Evangelho e dar testemunho da nossa f\u00e9. A Igreja \u00e9 o sal da terra, \u00e9 a luz do mundo, \u00e9 chamada a render presente na nossa sociedade o legado do Reino de Deus e o faz, acima de tudo, com o seu testemunho, o testemunho do amor fraterno, da solidariedade, do compartilhamento. Quando se ouvem alguns dizendo que a solidariedade n\u00e3o \u00e9 um valor, mas uma &#8216;atitude prim\u00e1ria&#8217; que deve desaparecer&#8230; n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed! Se est\u00e1 pensando numa efic\u00e1cia meramente mundana. Os momentos de crise, como este que estamos vivendo &#8211; e voc\u00ea disse que &#8216;estamos num mundo de mentiras&#8217; -, este momento de crise, fiquemos atentos, n\u00e3o consiste numa crise meramente econ\u00f4mica, n\u00e3o \u00e9 uma crise cultural. \u00c9 uma crise do homem: quem est\u00e1 em crise \u00e9 o homem! E quem pode ser destru\u00eddo \u00e9 o homem! Mas o homem \u00e9 imagem de Deus! Por isto \u00e9 uma crise profunda! Neste momento de crise, n\u00e3o podemos preocupar-nos somente com n\u00f3s mesmos, fechar-nos na solid\u00e3o, no des\u00e2nimo, no sentido de import\u00eancia diante dos problemas. N\u00e3o se fechem por favor! Isto \u00e9 um perigo: se nos fechamos na par\u00f3quia, com os amigos, no movimento, com aqueles com quem pensamos as mesmas coisas&#8230; sabem o que acontece? Quando a Igreja se fecha, ela adoece. Pensem numa sala fechada por um ano; quando entramos nela, sentimos o cheiro de umidade, de tantas coisas que n\u00e3o est\u00e3o como deveriam estar. Uma Igreja fechada \u00e9 a mesma coisa: \u00e9 uma Igreja doente. A Igreja deve sair de si mesma. Onde? Para a periferia existencial, qualquer que seja ela, mas sair. Jesus disse: &#8216;Andem por todo o mundo! Andem! Preguem! Deem testemunho do Evangelho!&#8217; (Mc 16,15).<\/p>\n<p>\u00abMas o que acontece se sa\u00edmos de n\u00f3s mesmos? Pode acontecer o que acontece com todos os que saem de casa e v\u00e3o para a rua, um acidente. Mas eu lhes digo: prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, envolvida num acidente, a uma Igreja enferma pelo fechamento! Saiam para fora, saiam! Pensem naquilo que diz o Apocalipse. Ele diz uma coisa muito bonita: que Jesus est\u00e1 \u00e0 porta e est\u00e1 chamando, chamando para entrar nos nossos cora\u00e7\u00f5es (Ap 3,20). Este \u00e9 o sentido do Apocalipse. Mas fa\u00e7am a si pr\u00f3prios esta pergunta: quantas vezes Jesus est\u00e1 dentro e bate \u00e0 porta para sair para fora, e n\u00f3s n\u00e3o nos deixamos sair, para a nossa seguran\u00e7a, porque tantas vezes estamos fechados em estruturas caducas, que servem apenas para nos manter como escravos, em vez de como livres filhos de Deus? Na nossa \u00absa\u00edda\u00bb, \u00e9 importante caminhar ao encontro &#8211; esta palavra \u00e9 muito importante -, ao encontro dos outros. Por que? Porque a f\u00e9 \u00e9 um encontro com Jesus, e n\u00f3s devemos fazer a mesma coisa que faz Jesus: encontrar os outros. N\u00f3s vivemos uma cultura de choque, uma cultura de fragmenta\u00e7\u00e3o, uma cultura em que aquilo que n\u00e3o me serve, jogo fora, a cultura do desperd\u00edcio. Mas sobre este ponto, os convido a pensar &#8211; e \u00e9 parte da crise -, os anci\u00e3os, que s\u00e3o a sabedoria de um povo, as crian\u00e7as&#8230; a cultura do desperd\u00edcio!<\/p>\n<p>\u00abMas n\u00f3s devemos ir ao encontro e devemos criar, com a nossa f\u00e9, uma &#8216;cultura do encontro&#8217;, uma cultura da amizade, uma cultura onde nos tornemos irm\u00e3os, onde possamos falar at\u00e9 com aqueles que n\u00e3o pensam como n\u00f3s, com aqueles que t\u00eam uma outra f\u00e9, que n\u00e3o s\u00e3o da mesma f\u00e9. Todos t\u00eam alguma coisa em comum conosco: somo imagens de Deus, somos filhos de Deus. Andemos ao encontro com todos, sem negociar o nosso pertencimento. E um outro ponto \u00e9 importante: com os pobres. Se sa\u00edmos de n\u00f3s mesmos, encontramos a pobreza. Hoje &#8211; e dizer isto faz mal ao cora\u00e7\u00e3o -, encontrar um mendigo morto de frio n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia. Hoje \u00e9 not\u00edcia, talvez, um esc\u00e2ndalo. Um esc\u00e2ndalo: ah, isto \u00e9 not\u00edcia! Hoje, pensar que tantas crian\u00e7as n\u00e3o t\u00eam o que comer n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia. Isto \u00e9 grave, isto \u00e9 grave! N\u00e3o podemos descansar tranq\u00fcilos! Bem, as coisas s\u00e3o assim. N\u00e3o podemos tornar-nos crist\u00e3os engomados, aqueles crist\u00e3os muito educados, que falam de coisas teol\u00f3gicas enquanto tomam ch\u00e1, tranquilos. N\u00e3o! Devemos tornar-nos crist\u00e3os corajosos e buscar aqueles que s\u00e3o a carne de Cristo! Quando eu ia confessar-me na diocese anterior, vinham alguns e sempre perguntavam: &#8216;Mas o senhor d\u00e1 esmolas? (&#8230;) E quando d\u00e1 esmolas, toca nas m\u00e3os daqueles a quem d\u00e1 esmolas, ou lhe atira a moeda?&#8217; Este \u00e9 o problema: a carne de Cristo, tocar a carne de Cristo, tomar como nossas as dores dos pobres. Para n\u00f3s, crist\u00e3os, a pobreza n\u00e3o \u00e9 uma categoria sociol\u00f3gica, filos\u00f3fica ou cultural: n\u00e3o, \u00e9 uma categoria teologal. Eu diria, talvez, a primeira categoria, porque Deus, o Filho de Deus, se humilhou e se fez pobre para caminhar conosco na estrada. E esta \u00e9 a nossa pobreza: a pobreza da carne de Cristo, a pobreza que foi levada pelo Filho de Deus com a sua Encarna\u00e7\u00e3o. Uma Igreja pobre para os pobres come\u00e7a caminhando para a carne de Cristo. Se caminhamos para a carne de Cristo, come\u00e7amos a entender as coisas, a entender o que \u00e9 essa pobreza, a pobreza do Senhor. E isto n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>\u00abMas h\u00e1 um problema que n\u00e3o \u00e9 bom para os crist\u00e3os: o esp\u00edrito do mundo, o esp\u00edrito mundano, a mundanidade espiritual. Isto leva a uma sufici\u00eancia, a viver o esp\u00edrito do mundo, e n\u00e3o o de Jesus. A pergunta que voc\u00ea fez: como se deve viver para se confrontar essa crise que atinge a \u00e9tica p\u00fablica, o modelo de desenvolvimento, a pol\u00edtica. Como esta \u00e9 uma crise do homem, uma crise que destr\u00f3i o homem, \u00e9 uma crise que afasta o homem da \u00e9tica. Na vida p\u00fablica, na pol\u00edtica, se n\u00e3o existe \u00e9tica, uma \u00e9tica de refer\u00eancia, tudo \u00e9 poss\u00edvel e tudo se pode fazer. E n\u00f3s vemos, quando lemos os jornais, como a falta de \u00e9tica na vida p\u00fablica faz tanto mal \u00e0 humanidade inteira.<\/p>\n<p>\u00abDeixem-me contar-lhes uma hist\u00f3ria. J\u00e1 fiz isto duas vezes esta semana, mas vou faz\u00ea-lo uma terceira vez, aqui com voc\u00eas. \u00c9 a hist\u00f3ria de um midrash b\u00edblico de um rabino do s\u00e9culo XII. Ele conta a hist\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o da Torre de Babel e diz que, para se construir a Torre de Babel, era necess\u00e1rio fazer primeiro os tijolos. O que significa isto? Andar, misturar lama, carregar palha, fazer tudo o mais &#8211; e, depois, levar ao forno. E quando os tijolos estavam feitos, era preciso carreg\u00e1-los at\u00e9 o local da constru\u00e7\u00e3o da Torre de Babel. Um tijolo era um tesouro, por todo o trabalho que custava faz\u00ea-lo. Quando um tijolo ca\u00eda, era uma trag\u00e9dia nacional, e o trabalhador culpado era punido; um tijolo era t\u00e3o precioso que, se ca\u00eda, era um drama. Mas, se um trabalhador ca\u00eda, n\u00e3o acontecia nada, era outra coisa. Isto acontece hoje: se os investimentos nos bancos caem um pouco &#8211; trag\u00e9dia &#8211; o que se faz? Mas se as pessoas morrem de fome, se n\u00e3o t\u00eam o que comer, se n\u00e3o t\u00eam sa\u00fade, n\u00e3o se faz nada! Esta \u00e9 a nossa crise de hoje! E o testemunho de uma Igreja pobre para os pobres vai contra essa mentalidade.\u00bb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma sucess\u00e3o de pronunciamentos recentes, o papa Francisco desfechou duros ataques ao que chamou o \u00abculto do dinheiro\u00bb e instou os governantes mundiais a promover uma imediata reforma do sistema financeiro internacional. Por sua relev\u00e2ncia e devido \u00e0 escassa divulga\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, instamos os nossos leitores a observar com certo detalhe as interven\u00e7\u00f5es papais. A &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-604","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-assuntos-internacionais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/604","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=604"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/604\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}