{"id":589,"date":"2012-10-10T21:40:45","date_gmt":"2012-10-10T21:40:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=589"},"modified":"2012-10-10T21:40:45","modified_gmt":"2012-10-10T21:40:45","slug":"primavera-silenciosa-e-o-alarmismo-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/primavera-silenciosa-e-o-alarmismo-ambiental\/","title":{"rendered":"\u00abPrimavera silenciosa\u00bb e o alarmismo ambiental"},"content":{"rendered":"<p align=\"LEFT\">No final de setembro, completou-se meio s\u00e9culo do lan\u00e7amento do livro\u00a0<em>Primavera silenciosa<\/em> (Silent Spring), de Rachel Carson, hoje celebrado como uma das principais influ\u00eancias para a emerg\u00eancia da consci\u00eancia ambientalista. Inicialmente, uma s\u00e9rie de artigos publicados na revista\u00a0<em>The New Yorker<\/em>, o texto foi lan\u00e7ado como livro pela editora Houghton Mifflin, em setembro de 1962, e se tornou rapidamente um\u00a0<em>best-seller<\/em> nacional e internacional, tendo sido traduzido em 17 idiomas, inclusive o portugu\u00eas (h\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o de 1964, da Melhoramentos, e uma da Gaia Editora, de 2010).<\/p>\n<p align=\"LEFT\">O tema central do livro era um ataque aos excessos no uso dos pesticidas, que, devido ao seu ac\u00famulo no meio ambiente e \u00e0 sua toxicidade, estariam provocando fortes impactos nos ecossistemas, causando as mortes de todo tipo de animais, especialmente, aves, e gerando, inclusive, casos de c\u00e2ncer nos seres humanos. Para sustentar sua tese, Carson recorreu a uma s\u00e9rie de dados que demonstrariam, por exemplo, que, nos EUA, a propor\u00e7\u00e3o das mortes por c\u00e2ncer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais doen\u00e7as havia subido de 4%, em 1900, para 15%, em 1958. Outra afirmativa marcante foi a de que as popula\u00e7\u00f5es de v\u00e1rias esp\u00e9cies de aves estariam diminuindo drasticamente, entre elas o tordo americano (robin), uma das mais comuns no pa\u00eds. Tudo isto era atribu\u00eddo ao uso dos pesticidas, principalmente, o DDT.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Escrito em um estilo de grande apelo emocional, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio t\u00edtulo, que sugeria a aus\u00eancia do canto dos p\u00e1ssaros, o livro teve a sua mensagem refor\u00e7ada pelo impacto da morte prematura da autora, abatida por um c\u00e2ncer de mama, em abril de 1964, aos 56 anos.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Em 1992, no pref\u00e1cio de uma nova edi\u00e7\u00e3o do livro, Al Gore, ent\u00e3o vice-presidente dos EUA e j\u00e1 um dos l\u00edderes da milit\u00e2ncia ambientalista internacional, escreveu: \u00ab<em>Primavera silenciosa<\/em>\u00a0teve um profundo impacto&#8230; De fato, Rachel Carson foi uma das raz\u00f5es pelas quais eu me tornei t\u00e3o consciente do meio ambiente e t\u00e3o envolvido nos assuntos ambientais.\u00bb<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Dez anos depois, o historiador Gary Kroll fez uma observa\u00e7\u00e3o bastante pertinente: \u00abA<em>\u00a0Primavera silenciosa\u00a0<\/em>de Rachel Carson teve um grande papel em articular a Ecologia como um &#8216;assunto subversivo&#8217; &#8211; como uma perspectiva que vai contra o materialismo, o cientificismo e o controle tecnologicamente planejado da natureza.\u00bb<\/p>\n<p align=\"LEFT\">De fato, o livro foi o pioneiro da literatura de tom alarmista e catastrofista que apoia o movimento ambientalista, tendo lan\u00e7ado o estilo que se consolidaria como marca registrada dessa variante: um forte apelo emocional e ila\u00e7\u00f5es baseadas em dados estritamente selecionados para demonstrar os argumentos citados, descartando-se os que os contrariassem. A pr\u00f3pria autora era uma consagrada escritora de livros de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, atividade \u00e0 qual passara a se dedicar em tempo integral na d\u00e9cada anterior, depois de anos trabalhando no Escrit\u00f3rio de Recursos Pesqueiros dos EUA (U.S. Bureau of Fisheries). Desafortunadamente, em\u00a0<em>Primavera silenciosa<\/em>, a sua destreza liter\u00e1ria se mostrou ser inversamente proporcional ao seu rigor cient\u00edfico.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Entre as muitas incorre\u00e7\u00f5es apontadas no livro por numerosos especialistas (que pouco prejudicaram a sua influ\u00eancia), destaca-se o fato de que Carson ignorou as contagens de p\u00e1ssaros da National Audubon Society, uma das primeiras ONGs ambientalistas dos EUA, da qual ela pr\u00f3pria era membro, que demonstravam aumentos das popula\u00e7\u00f5es de algumas esp\u00e9cies citadas por ela no livro. O citado enfraquecimento das cascas dos ovos, tamb\u00e9m, n\u00e3o foi constatado em pesquisas rigorosamente controladas. Quanto \u00e0s taxas relativas de ocorr\u00eancia de c\u00e2ncer, exageradas por ela, se deviam, em grande medida, ao fato de que estavam diminuindo as taxas de mortalidade referentes \u00e0s outras doen\u00e7as, na medida em que melhoravam os indicadores de bem-estar da sociedade estadunidense, na esteira do dinamismo do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Em um artigo publicado na edi\u00e7\u00e3o de outubro da revista eletr\u00f4nica\u00a0<em>Reason Online<\/em>, o economista Ronald Bailey, um veterano opositor do catastrofismo ambientalista, sintetizou a influ\u00eancia do livro: \u00abEm\u00a0<em>Primavera silenciosa<\/em>, Carson elaborou uma den\u00fancia apaixonada das tecnologias modernas, que move hoje a ideologia ambientalista. No cerne desta cren\u00e7a, est\u00e1 a sugest\u00e3o de que a natureza \u00e9 ben\u00e9vola, est\u00e1vel e, at\u00e9 mesmo, uma fonte de bem moral; a Humanidade \u00e9 arrogante, negligente e, frequentemente, a fonte do mal moral. Mais que qualquer outra pessoa, Rachel Carson \u00e9 respons\u00e1vel pela ci\u00eancia politizada que, hoje, prejudica os nossos debates pol\u00edticos.\u00bb<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>A \u00abGuerra do DDT\u00bb<\/strong><\/p>\n<p align=\"LEFT\">Na esteira da celeuma provocada pelo livro de Carson, o nascente movimento ambientalista estadunidense transformou a campanha contra o DDT no ve\u00edculo perfeito para o seu crescimento e consolida\u00e7\u00e3o. Em 1967, com financiamento de diversas funda\u00e7\u00f5es ligadas ao\u00a0<em>Establishment<\/em>, foi criada a ONG Environmental Defense Fund (EDF), especificamente para coordenar a campanha anti-DDT, que j\u00e1 contava com a participa\u00e7\u00e3o ativa de ONGs como a National Audubon Society e o Sierra Club. Em 1970, as press\u00f5es levaram o Departamento de Agricultura a limitar o uso agr\u00edcola do DDT a alguns poucos cultivos, como o algod\u00e3o. Nos demais, o DDT foi substitu\u00eddo por pesticidas mais caros e, ironicamente, mais t\u00f3xicos, como o dieldrin e o parathion.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Um dos fundadores do EDF (cuja palavra de ordem era \u00abProcessem os bastardos!\u00bb) foi o bi\u00f3logo George Woodwell, que, mais tarde, utilizaria a experi\u00eancia acumulada na campanha contra o DDT em outras campanhas emblem\u00e1ticas do movimento ambientalista: o banimento dos clorofluorcarbonos (CFCs), que resultou na implementa\u00e7\u00e3o do Protocolo de Montreal, em 1988, a cria\u00e7\u00e3o do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) e o estabelecimento do Protocolo de Kyoto, alegadamente, para enfrentar a inexistente amea\u00e7a do aquecimento global antropog\u00eanico. Em 1985, Woodwell fundou a ONG Woods Hole Research Center, cuja filial brasileira, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia (IPAM), \u00e9 uma das ONGs mais engajadas em campanhas contra o desenvolvimento econ\u00f4mico da Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">N\u00e3o satisfeitas com as restri\u00e7\u00f5es j\u00e1 obtidas, as ONGs continuaram a pregar o banimento total do DDT. Em 1971, as press\u00f5es levaram a Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (EPA) a estabelecer uma comiss\u00e3o para avaliar o assunto. Durante sete meses, a comiss\u00e3o ouviu 150 entre os maiores especialistas em Toxicologia e Entomologia dos EUA, cujos depoimentos levaram o relator da comiss\u00e3o, Edmund Sweeney, \u00e0s seguintes conclus\u00f5es sobre o DDT:<\/p>\n<p align=\"LEFT\">1) apresenta toxicidade extremamente baixa para o homem;<\/p>\n<p align=\"LEFT\">2) se usado adequadamente, n\u00e3o constitui risco para a sa\u00fade humana;<\/p>\n<p align=\"LEFT\">3) n\u00e3o provoca c\u00e2ncer, muta\u00e7\u00f5es ou deforma\u00e7\u00f5es no homem;<\/p>\n<p align=\"LEFT\">4) usado corretamente, n\u00e3o produz efeitos delet\u00e9rios sobre a fauna silvestre;<\/p>\n<p align=\"LEFT\">5) deve continuar sendo usado em usos essenciais, na agricultura e sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Surpreendentemente, o diretor da EPA, William Ruckelshaus, contrariou a comiss\u00e3o e determinou o banimento de todos os usos remanescentes do DDT nos EUA, exceto para alguns casos excepcionais relacionados \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. Mais tarde, Ruckelshaus admitiria que sua decis\u00e3o havia sido eminentemente \u00abpol\u00edtica\u00bb, sem dar mais detalhes.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Vale registrar que, ap\u00f3s deixar o cargo, Ruckelshaus deu continuidade a uma longa trajet\u00f3ria no movimento ambientalista, atuando na interface entre as grandes empresas que o patrocinam, as ONGs ambientalistas e o aparato institucional nacional e internacional. Entre as posi\u00e7\u00f5es ocupadas, atuou na Comiss\u00e3o de Meio Ambiente e Desenvolvimento das Na\u00e7\u00f5es Unidas, no World Resources Institute, nas empresas Weyerhausen, Monsanto e v\u00e1rias outras.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">A decis\u00e3o da EPA fez com que a maioria dos pa\u00edses desenvolvidos e v\u00e1rios pa\u00edses em desenvolvimento levantassem obst\u00e1culos semelhantes ao DDT, radicalizando uma tend\u00eancia que j\u00e1 se manifestava desde a publica\u00e7\u00e3o de\u00a0Primavera silenciosa. Em v\u00e1rios deles, a retirada do DDT provocou aumentos imediatos nas ocorr\u00eancias de doen\u00e7as que j\u00e1 haviam sido colocadas sob controle, como a mal\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Como afirmou o diretor da EPA, a motiva\u00e7\u00e3o para o banimento do DDT foi \u00abpol\u00edtica\u00bb &#8211; a pol\u00edtica malthusiana das oligarquias anglo-americanas. O falecido Dr. J. Gordon Edwards, renomado entomologista da Universidade Estadual de San Jos\u00e9, na Calif\u00f3rnia, sugeria que o DDT fora discriminado pelo seu importante papel na acelera\u00e7\u00e3o do crescimento demogr\u00e1fico, por ter sido um dos maiores fatores isolados respons\u00e1veis pela acentuada redu\u00e7\u00e3o dos \u00edndices de mortalidade nos pa\u00edses em desenvolvimento, a partir de meados do s\u00e9culo XX. Um relat\u00f3rio de 1970 da Academia Nacional de Ci\u00eancias dos EUA enfatiza que, em pouco mais de duas d\u00e9cadas, o DDT ajudou a evitar 500 milh\u00f5es de mortes que, de outra forma, seriam inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Uma admiss\u00e3o expl\u00edcita de tais suspeitas foi feita em 1990 pelo Dr. Alexander King, um dos fundadores do templo do malthusianismo por excel\u00eancia, o Clube de Roma. Em entrevista publicada no livro\u00a0<em>The Discipline of Curiosity: Science in the World<\/em>\u00a0(A disciplina da curiosidade: a ci\u00eancia no mundo), o Dr. King mencionou a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia com o DDT, em opera\u00e7\u00f5es militares na ent\u00e3o Guiana Inglesa, na II Guerra Mundial, fazendo a seguinte ressalva:<\/p>\n<blockquote><p>Minhas d\u00favidas surgiram quando o DDT foi introduzido no uso civil. Na Guiana, em dois anos, ele quase eliminou a mal\u00e1ria, mas, ao mesmo tempo, a taxa de nascimentos tinha duplicado. Assim, em retrospecto,o meu principal questionamento contra o DDT \u00e9 que ele complicou bastante o problema populacional(grifos nossos).<\/p><\/blockquote>\n<p align=\"LEFT\">Em seu livro\u00a0<em>Environmental Overkill\u00a0<\/em>(Excessos ambientais), de 1993, a c\u00e9lebre bi\u00f3loga estadunidense Dixy Lee Ray, que foi uma incans\u00e1vel lutadora contra o irracionalismo ambientalista, bate na mesma tecla:<\/p>\n<blockquote><p>Se dermos cr\u00e9dito \u00e0s declara\u00e7\u00f5es de algumas pessoas, inclusive v\u00e1rios bi\u00f3logos bem conhecidos, esse era exatamente o problema com o DDT: ele salvava vidas humanas. Por exemplo, em resposta \u00e0 pergunta de um rep\u00f3rter sobre o banimento do DDT, o Dr. Charles Wurster, que era ent\u00e3o o cientista-chefe do Environmental Defense Fund, afirmou que, em sua opini\u00e3o, existia muita gente e que \u00abessa era uma maneira t\u00e3o boa de se livrar delas como qualquer outra\u00bb.<\/p><\/blockquote>\n<p align=\"LEFT\">Em uma entrevista coletiva em Washington, EUA, em maio de 1992, um grupo de cientistas veteranos da \u00abguerra do DDT\u00bb lembrou as consequ\u00eancias da a\u00e7\u00e3o \u00abpol\u00edtica\u00bb da EPA. Na ocasi\u00e3o, o Dr. Edward G. Remmers, do Conselho Americano de Ci\u00eancia e Sa\u00fade, afirmou que entre um e dois milh\u00f5es de pessoas morriam anualmente em consequ\u00eancia de doen\u00e7as que seriam facilmente controladas com o DDT.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Duas d\u00e9cadas depois, tais conclus\u00f5es continuam v\u00e1lidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final de setembro, completou-se meio s\u00e9culo do lan\u00e7amento do livro\u00a0Primavera silenciosa (Silent Spring), de Rachel Carson, hoje celebrado como uma das principais influ\u00eancias para a emerg\u00eancia da consci\u00eancia ambientalista. 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