{"id":554,"date":"2012-09-08T01:55:07","date_gmt":"2012-09-08T01:55:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=554"},"modified":"2012-09-08T01:55:07","modified_gmt":"2012-09-08T01:55:07","slug":"massacre-de-ianomamis-e-negado-pela-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/massacre-de-ianomamis-e-negado-pela-venezuela\/","title":{"rendered":"\u00abMassacre\u00bb de ianom\u00e2mis \u00e9 negado pela Venezuela"},"content":{"rendered":"<p>Em meio \u00e0 onda de den\u00fancias sobre um suposto \u00abmassacre\u00bb de ind\u00edgenas ianom\u00e2mis cometido por garimpeiros brasileiros, em uma regi\u00e3o da Venezuela pr\u00f3xima \u00e0 fronteira com o Brasil, o governo venezuelano afirmou que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que a trag\u00e9dia tenha ocorrido. As den\u00fancias foram veiculadas, com o estardalha\u00e7o habitual em tais casos, por organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais (ONGs) vinculadas ao aparato indigenista internacional, como parte de sua ensandecida campanha contra a Portaria 303 da Advocacia Geral da Uni\u00e3o (AGU), ao mesmo tempo em que tenta criar constrangimentos para a Venezuela.<\/p>\n<p>Sem surpresa, a den\u00fancia foi trombeteada pela porta-estandarte do aparato indigenista, a ONG brit\u00e2nica Survival International. Em 29 de agosto, a ONG postou <a href=\"http:\/\/www.survivalinternational.org\" target=\"_blank\">em seu s\u00edtio<\/a>, com letras garrafais, a manchete: \u00abATROCIDADE: chegam not\u00edcias de &#8216;massacre&#8217; em remota comunidade ianom\u00e2mi.\u00bb O texto da nota informava:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Garimpeiros na Venezuela promoveram um \u00abmassacre\u00bb de \u00edndios ianom\u00e2mis isolados, de acordo com relatos recebidos pela Survival International. Testemunhas do desfecho relataram ter encontrado \u00abcorpos e ossos queimados\u00bb, quando visitaram a comunidade de Irotatheri, na regi\u00e3o de Momoi, pr\u00f3xima \u00e0 fronteira com o Brasil. Os relatos iniciais sugerem que at\u00e9 80 pessoas foram mortas, mas estes n\u00fameros s\u00e3o imposs\u00edveis de se confirmar. Apenas tr\u00eas sobreviventes foram encontrados. Acredita-se que o ataque tenha ocorrido em julho, mas as not\u00edcias apenas est\u00e3o come\u00e7ando a emergir. Devido \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o remota da comunidade, os \u00edndios que descobriram os corpos levaram dias caminhando at\u00e9 o aldeamento mais pr\u00f3ximo, para relatar a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Ainda segundo a nota, Luis Shatiwe Yanomami, um l\u00edder da organiza\u00e7\u00e3o ianom\u00e2mi Horonami, esteve na regi\u00e3o e conversou com \u00edndios locais sobre o que teriam presenciado. De acordo com ele, as testemunhas ouvidas viviam na mesma moradia onde teria ocorrido o massacre, tendo sobrevivido por estarem ca\u00e7ando por ocasi\u00e3o da chacina.<\/p>\n<p>Comentando o caso, o diretor ONG, Stephen Corry, disparou:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Esta \u00e9 mais uma trag\u00e9dia terr\u00edvel para os ianom\u00e2mi &#8211; crime que se soma a outros crimes. Todos os governos amaz\u00f4nicos devem parar com a minera\u00e7\u00e3o, que \u00e9 crescente e ilegal, e o estabelecimento de col\u00f4nias de garimpeiros em territ\u00f3rios ind\u00edgenas. Tais atividades, inevitavelmente, levam ao massacre de ind\u00edgenas, incluindo mulheres e crian\u00e7as. As autoridades venezuelanas devem levar os assassinos a julgamento e enviar um sinal a toda a regi\u00e3o, de que os \u00edndios n\u00e3o poder\u00e3o ser mortos impunemente. A minera\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o de jazidas deve ser suspensa.<\/p>\n<p>Enquanto a not\u00edcia do \u00abmassacre\u00bb se espalhava pelo planeta, o aparato indigenista se mobilizava para apontar o dedo para o governo brasileiro, j\u00e1 que os supostos assassinos seriam garimpeiros brasileiros. Em 31 de agosto, o Instituto Socioambiental (ISA) divulgou uma <a href=\"http:\/\/www2.socioambiental.org\/pt-br\/pela-apuracao-das-denuncias-de-genocidio-yanomami-na-fronteira-brasil-venezuela\" target=\"_blank\">\u00abDen\u00fancia de novo ato genocida cometido por garimpeiros brasileiros ao povo Yanomami na Venezuela, na fronteira com o Brasil\u00bb<\/a>, encaminhada pela Hutukara Associa\u00e7\u00e3o Yanomami (HAY) aos presidentes Hugo Ch\u00e1vez e Dilma Rousseff, ao ministro da Justi\u00e7a, Jos\u00e9 Eduardo Cardozo, e ao procurador-geral da Rep\u00fablica, Roberto Gurgel. A HAY \u00e9 dirigida por Davi Kopenawa Yanomami, um dos principais l\u00edderes da etnia no Brasil. O texto oferece mais detalhes sobre o caso:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Os fatos amplamente divulgados pela imprensa mencionam que garimpeiros brasileiros teriam atacado de helic\u00f3ptero, atirando bombas na comunidade, matando as pessoas que se encontravam no local e incendiado o shapono (casa coletiva onde moram).<\/p>\n<p>Curiosamente, o texto n\u00e3o explica como, sem qualquer testemunha, se chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que os ind\u00edgenas haviam sido alvos de um ataque a\u00e9reo, pois os alegados sobreviventes da chacina estariam ca\u00e7ando na mata, raz\u00e3o pela qual teriam escapado.<\/p>\n<p>Diante das den\u00fancias, o governo venezuelano se mobilizou prontamente e enviou \u00e0 regi\u00e3o um grupo constitu\u00eddo por membros do Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas, Comiss\u00e3o das For\u00e7as Armadas Nacionais Bolivarianas, Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica, Defensoria P\u00fablica, , Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e Corpo de Investiga\u00e7\u00f5es Cient\u00edficas, Penais e Criminais. Em paralelo, o embaixador brasileiro em Caracas, Jos\u00e9 Antonio Marcondes de Carvalho, tamb\u00e9m encaminhou \u00e0s autoridades venezuelanas um pedido para a apura\u00e7\u00e3o dos fatos.<\/p>\n<p>Em 3 de agosto, a ministra dos Povos Ind\u00edgenas, Nicia Maldonado, deu uma entrevista \u00e0 emissora estatal de televis\u00e3o VTV, na qual afirmou que a comiss\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia encontrado qualquer vest\u00edgio do suposto massacre. \u00abN\u00f3s podemos dizer ao pa\u00eds que n\u00e3o havia ind\u00edcio algum de qualquer morte ou de queima de casas, nem de massacre de ianom\u00e2mis no Alto Orinoco&#8230; Felizmente, tudo acabou se confirmando como falso\u00bb, disse ela (Ag\u00eancia Brasil, 3\/09\/2012).<\/p>\n<p>O ministro do Interior, Tareck El Aissami, refor\u00e7ou: \u00abVisitamos todas as comunidades ianom\u00e2mis e, por sorte, n\u00e3o encontramos qualquer tipo de fato lament\u00e1vel ou situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia\u00bb. O ministro rotulou a den\u00fancia como uma \u00abfalsa not\u00edcia\u00bb.<\/p>\n<p>Todavia, apesar do desmentido, o aparato indigenista tem insistido na vers\u00e3o do massacre. A Coordena\u00e7\u00e3o de Organiza\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas do Amazonas (Coiam), que fez a den\u00fancia inicial, afirmou que a comiss\u00e3o enviada pelo governo \u00e0 regi\u00e3o n\u00e3o teria visitado a comunidade Irothateri, \u00abraz\u00e3o pela qual n\u00e3o pode afirmar que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias\u00bb. No mesmo tom, o vice-presidente da Horonami Organiza\u00e7\u00e3o Yanomami (HOY), Itirio Hoariwe, insiste em que \u00aba comiss\u00e3o n\u00e3o chegou ao local do massacre\u00bb e solicitou \u00abo prosseguimento da investiga\u00e7\u00e3o sobre os fatos denunciados, at\u00e9 que se chegue \u00e0 comunidade Irotatheri.. o que permitir\u00e1 determinar exatamente o que ocorreu\u00bb (AFP, 4\/09\/2012).<\/p>\n<p>A Survival refor\u00e7ou o pedido por \u00abuma investiga\u00e7\u00e3o mais detalhada\u00bb. \u00abNossos informantes afirmam que a equipe do governo n\u00e3o foi at\u00e9 o local do massacre\u00bb, disse \u00e0 AFP a diretora de investiga\u00e7\u00e3o Fiona Watson.<\/p>\n<p>Ao coro das ONGs, se juntou a indefect\u00edvel Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (CIDH), que, mesmo ap\u00f3s o pronunciamento oficial do governo de Caracas, insistiu em instar as autoridades venezuelanas a \u00abconduzir uma investiga\u00e7\u00e3o aprofundada, para determinar conclusivamente o que aconteceu\u00bb (CIDH, 5\/09\/2012).<\/p>\n<p>No par\u00e1grafo seguinte, a nota da CIDH recorda o famigerado \u00abmassacre de Haximu\u00bb, observando que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">De acordo com as leis internacionais de direitos humanos, os Estados t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de realizar investiga\u00e7\u00f5es judiciais sobre atos de viol\u00eancia s\u00e9rios relatados, de punir os respons\u00e1veis e reparar as conseq\u00fc\u00eancias. A este respeito, a Comiss\u00e3o valoriza o cumprimento das recomenda\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 decis\u00e3o contida no Relat\u00f3rio de M\u00e9ritos do Caso 11.745, \u00ab16 ind\u00edgenas ianom\u00e2mis vs. Brasil\u00bb, sobre um massacre de 16 indiv\u00edduos ind\u00edgenas ianom\u00e2mis perpetrado em 1993, por garimpeiros ilegais de origem brasileira, na regi\u00e3o de Haximu, Venezuela.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>O \u00abmassacre de Haximu\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>A CIDH n\u00e3o foi a primeira a recordar o chamado \u00abmassacre de Haximu\u00bb. Dias antes, a Survival International j\u00e1 havia relacionado o suposto massacre de Irothateri ao ocorrido na comunidade de Haximu, tamb\u00e9m na Venezuela, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira com o Brasil, em 1993. Na ocasi\u00e3o, determinou-se que 16 \u00edndios foram assassinados por 22 garimpeiros que trabalhavam ilegalmente dentro da reserva ianom\u00e2mi. Destes, somente quatro foram, posteriormente, considerados culpados, num julgamento que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).<\/p>\n<p>A tentativa de reviver o epis\u00f3dio sugere uma investida nos moldes da promovida em 1993, que manteve o Brasil nas manchetes da m\u00eddia mundial durante v\u00e1rias semanas, apontando o Pa\u00eds como conivente com o \u00abgenoc\u00eddio\u00bb de seus povos ind\u00edgenas. Lamentavelmente, o pr\u00f3prio Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro acabaria acolhendo tal qualifica\u00e7\u00e3o, ao julgar os acusados.<\/p>\n<p>O \u00fanico sen\u00e3o \u00e9 que os cad\u00e1veres das v\u00edtimas do \u00abmassacre\u00bb jamais foram encontrados, pois, segundo antrop\u00f3logos ligados aos ind\u00edgenas, os ianom\u00e2mis t\u00eam o h\u00e1bito de cremar os seus mortos e, por conseguinte, as \u00fanicas evid\u00eancias oferecidas foram urnas com cinzas misturadas com folhas de banana, segundo as tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Apesar da inexist\u00eancia de corpos, os ind\u00edcios sugeriam que algumas mortes tenham, efetivamente, ocorrido, em fun\u00e7\u00e3o dos embates entre ind\u00edgenas e garimpeiros, que eram constantes, ap\u00f3s a demarca\u00e7\u00e3o da reserva ianom\u00e2mi em territ\u00f3rio cont\u00ednuo, em 1992, no governo Collor, no que foi a primeira capitula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0s press\u00f5es do aparato indigenista internacional capitaneado pela Survival International.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, o que mais chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a avalanche midi\u00e1tica desfechada contra o Pa\u00eds. Antes de que se tivesse qualquer evid\u00eancia concreta, a palavra \u00abgenoc\u00eddio\u00bb passou a frequentar as manchetes e declara\u00e7\u00f5es das pr\u00f3prias autoridades brasileiras, com o n\u00famero de v\u00edtimas subido, rapidamente, de 19 para 40, 73, 89 e 120, para, finalmente, cair para 16. Depois de algumas semanas de investiga\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Federal, mesmo n\u00e3o tendo sido encontrado qualquer cad\u00e1ver, 20 garimpeiros foram indiciados e acusados do crime de genoc\u00eddio, tendo sido quatro deles, posteriormente, condenados a 20 anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Um ano depois, em maio de 1994, o jornalista Janer Cristaldo, da Folha de S. Paulo, escreveu um contundente artigo intitulado \u00abOs bastidores do ianoblefe\u00bb, no qual considerou o caso como \u00abo maior blefe j\u00e1 registrado na imprensa nacional e internacional\u00bb.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>O que \u00e9 a Survival International<\/strong><\/p>\n<p>A Survival International (SI) \u00e9 a se\u00e7\u00e3o de \u00abassuntos humanos\u00bb do Fundo Mundial para a Natureza (WWF). Foi fundada em 1969, com o patroc\u00ednio de sir Peter Scott, ent\u00e3o presidente da WWF, para oferecer financiamento para \u00abajudar os povos ind\u00edgenas a proteger suas terras, seu meio ambiente e seu modo de vida\u00bb, eufemismo para a cria\u00e7\u00e3o de enclaves onde habitam os ind\u00edgenas com autonomia sobre o solo e subsolo de seus \u00abterrit\u00f3rios\u00bb sobre os quais as na\u00e7\u00f5es onde se localizam exerceriam o que denominam \u00absoberania limitada\u00bb.A SI foi fundada visando \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da gigantesca reserva ianom\u00e2mi, no Brasil e na Venezuela.<\/p>\n<p>Em 1971, o antrop\u00f3logo brit\u00e2nico Robin Hanbury-Tenison, ent\u00e3o presidente da SI, empreendeu viagens explorat\u00f3rias \u00e0 Am\u00e9rica do Sul, cujos roteiros coincidiram com os eixos naturais de integra\u00e7\u00e3o do subcontinente. Em seu livro <em>Worlds Apart<\/em>, o pr\u00f3prio Hanbury-Tenison apresenta um mapa onde demonstra esta preocupa\u00e7\u00e3o e revela que a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica de seus roteiros lhe fora indicada pessoalmente pelo pr\u00edncipe Philip.<\/p>\n<p>Em 1976, a equipe da SI , encabe\u00e7ada por Kenneth Taylor e pelo antrop\u00f3logo Bruce Albert, foi expulsa do Brasil. Em 1980, Marcus Colchester, antrop\u00f3logo brit\u00e2nico e colaborador da SI, publicou uma proposta para criar um parque em territ\u00f3rio venezuelano fronteiri\u00e7o com o Brasil. Em 1985, a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) instou o governo brasileiro a criar um parque Ianom\u00e2mi para preservar seus costumes e sua \u00abcultura\u00bb.<\/p>\n<p>Em 1989, a SI levou o l\u00edder Ianom\u00e2mi Davi Kopenawa em uma turn\u00ea pela Europa, durante a qual recebeu uma enorme cobertura da imprensa internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio \u00e0 onda de den\u00fancias sobre um suposto \u00abmassacre\u00bb de ind\u00edgenas ianom\u00e2mis cometido por garimpeiros brasileiros, em uma regi\u00e3o da Venezuela pr\u00f3xima \u00e0 fronteira com o Brasil, o governo venezuelano afirmou que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que a trag\u00e9dia tenha ocorrido. 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