{"id":529,"date":"2012-08-10T17:57:17","date_gmt":"2012-08-10T17:57:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=529"},"modified":"2012-08-10T17:57:17","modified_gmt":"2012-08-10T17:57:17","slug":"martin-fleischmann-e-a-deterioracao-da-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/martin-fleischmann-e-a-deterioracao-da-ciencia\/","title":{"rendered":"Martin Fleischmann e a deteriora\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p align=\"LEFT\">Com a morte do eletroqu\u00edmico brit\u00e2nico Martin Fleischmann, aos 85 anos, em 3 de agosto, o mundo perde n\u00e3o apenas um raro cientista capaz de atuar com desassombro nos limites do conhecimento e aportar importantes contribui\u00e7\u00f5es a ele, como tamb\u00e9m um s\u00edmbolo do deplor\u00e1vel estado em que a pr\u00e1tica cient\u00edfica mergulhou, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, com a sua submiss\u00e3o cada vez maior a agendas pol\u00edticas e de interesses restritos.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Em uma entrevista coletiva, em mar\u00e7o de 1989, Fleischmann e seu colega estadunidense Stanley Pons, ambos pesquisadores da Universidade de Utah, anunciaram que haviam obtido rea\u00e7\u00f5es de fus\u00e3o nuclear \u00e0 temperatura ambiente, em um dispositivo integrado por um c\u00e1todo de pal\u00e1dio imerso em \u00e1gua enriquecida com deut\u00e9rio (hidrog\u00eanio-2), alimentado por uma bateria comum &#8211; ou seja, um processo de eletr\u00f3lise. Na ocasi\u00e3o, Fleischmann afirmou que o fen\u00f4meno \u00ababria as portas para uma nova \u00e1rea de pesquisa\u00bb sobre uma \u00abtecnologia que pode ser utilizada para a gera\u00e7\u00e3o de calor e energia\u00bb.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Embora n\u00e3o tenha seguido as normas de comunica\u00e7\u00e3o de pesquisas cient\u00edficas, divulgando os resultados \u00e0 m\u00eddia antes de public\u00e1-los em uma revista revisada por pares, o an\u00fancio deflagrou um imediato entusiasmo quanto \u00e0 perspectiva de obten\u00e7\u00e3o de uma fonte energ\u00e9tica \u00ablimpa\u00bb e virtualmente inesgot\u00e1vel, que afastaria os temores que j\u00e1 se manifestavam em rela\u00e7\u00e3o aos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Imediatamente, cientistas de todo o mundo se empenharam em tentar reproduzir os resultados anunciados, especificamente, a gera\u00e7\u00e3o de calor em excesso sobre a energia introduzida no sistema e a emiss\u00e3o de n\u00eautrons e tr\u00edtio (hidrog\u00eanio-3) &#8211; o que denotaria tratar-se de uma rea\u00e7\u00e3o nuclear. Em poucos dias, o fen\u00f4meno ficou conhecido como \u00abfus\u00e3o a frio\u00bb, embora Fleischmann e Pons n\u00e3o se referissem a ele desta forma.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Desafortunadamente, o fen\u00f4meno n\u00e3o se mostrou t\u00e3o simples de ser reproduzido e, devido ao grande n\u00famero de experi\u00eancias frustradas, Fleischmann e Pons come\u00e7aram a ser acusados de fraude e incapacidade cient\u00edfica, tanto por alguns de seus pares como pela m\u00eddia. Meses depois, um painel de cientistas organizado pelo Departamento de Energia dos EUA concluiu que n\u00e3o havia evid\u00eancias de que o fen\u00f4meno se devia a processos nucleares e n\u00e3o recomendou grandes investimentos em um programa de pesquisas especial para estud\u00e1-lo. A decis\u00e3o contribuiu, n\u00e3o apenas, para esvaziar o interesse geral no assunto, como, tamb\u00e9m, para que a express\u00e3o \u00abfus\u00e3o a frio\u00bb se convertesse em objeto de rid\u00edculo.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Entretanto, aparentemente, tais rea\u00e7\u00f5es envolviam algo mais que uma mera exig\u00eancia de rigor cient\u00edfico. Entre os principais cr\u00edticos da dupla de eletroqu\u00edmicos e do fen\u00f4meno, estavam os f\u00edsicos que trabalhavam com pesquisas de fus\u00e3o \u00aba quente\u00bb, em car\u00edssimos equipamentos como os reatores Tokamak e or\u00e7amentos da ordem de dezenas a centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares. Evidentemente, muitos deles n\u00e3o viam muito favoravelmente a perspectiva de que o objeto de suas pesquisas poderia ser atingido por um caminho bem mais simples e com or\u00e7amentos uma ou duas ordens de grandeza menores. No Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), um dos l\u00edderes das pesquisas de fus\u00e3o nuclear tradicional, a rejei\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno chegou ao ponto de alguns cientistas ocultarem os resultados positivos de obten\u00e7\u00e3o de excesso de energia, em uma experi\u00eancia crucial, tendo anunciado que os resultados haviam sido negativos. A farsa foi, oportunamente, denunciada pelo Dr. Eugene Mallove, ent\u00e3o redator-chefe do departamento de imprensa do MIT, que renunciou ao posto, em protesto e, posteriormente, descreveu a razia contra o fen\u00f4meno e seus estudiosos, no livro\u00a0<em>Fire from Ice: Searching for the Truth Behind the Cold Fusion Furor<\/em>\u00a0(Fogo do gelo: em busca da verdade por tr\u00e1s do furor sobre a fus\u00e3o a frio), lan\u00e7ado em 1991.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Igualmente reveladoras foram as rea\u00e7\u00f5es de alguns dos gurus do flamante movimento ambientalista internacional, que, na \u00e9poca, ganhava for\u00e7a com a agenda do aquecimento global antropog\u00eanico, contemplada com a cria\u00e7\u00e3o do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), no final de 1988.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Em uma entrevista ao jornal\u00a0<em>Los Angeles Times<\/em>, em abril de 1989, algumas semanas ap\u00f3s a entrevista de Fleischmann e Pons, o economista Jeremy Rifkin foi categ\u00f3rico: \u00ab\u00c9 a pior coisa que poderia acontecer ao nosso planeta.\u00bb Seu correligion\u00e1rio, o bi\u00f3logo Paul Ehrlich, um arquimalthusiano que vem pregando uma cat\u00e1strofe demogr\u00e1fica h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas, disparou: \u00abSeria como colocar uma metralhadora nas m\u00e3os de uma crian\u00e7a retardada.\u00bb<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Se houvesse, tanto da parte de tais cr\u00edticos, qualquer laivo de honestidade em seus pleitos pela obedi\u00eancia aos rigores da pr\u00e1tica cient\u00edfica consagrada e pelos cuidados com o meio ambiente, seria de se esperar que um fen\u00f4meno novo como o anunciado por Fleischmann e Pons atra\u00edsse esfor\u00e7os s\u00e9rios no sentido do seu entendimento. Quanto mais n\u00e3o fosse, pela perspectiva de abertura de uma nova \u00e1rea de conhecimento dos fen\u00f4menos universais e, n\u00e3o menos, de a Humanidade se encontrar, efetivamente, diante de uma revolucion\u00e1ria fonte energ\u00e9tica. O que se viu, por\u00e9m, foi uma feroz barragem de cr\u00edticas e detrata\u00e7\u00f5es, poucas vezes vista. E o mais ir\u00f4nico &#8211; e emblem\u00e1tico &#8211; \u00e9 que muitos desses cr\u00edticos e detratores, cientistas inclusive, se mostrariam ser ardentes defensores de fraudes cient\u00edficas not\u00f3rias, como a suposta influ\u00eancia humana no clima global.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Nos anos seguintes, apesar das repercuss\u00f5es negativas, as pesquisas sobre o fen\u00f4meno continuaram sendo feitas, em v\u00e1rios pa\u00edses, por grupos de pesquisadores que adotaram um perfil baixo, atuando quase como membros de uma confraria secreta, criando meios pr\u00f3prios de divulga\u00e7\u00e3o e troca de informa\u00e7\u00f5es, inclusive, em congressos internacionais. Entre 12-17 de agosto, realiza-se em Daejeon, Coreia do Sul, a 17\u00aa. Confer\u00eancia Internacional sobre Fus\u00e3o a Frio (a denomina\u00e7\u00e3o \u00abfus\u00e3o a frio\u00bb foi mantida por motivos hist\u00f3ricos, embora o fen\u00f4meno seja atualmente conhecido como \u00abrea\u00e7\u00f5es nucleares de baixa energia\u00bb, ou LENR, na sigla em ingl\u00eas). Entre os pa\u00edses que t\u00eam grupos dedicados ao assunto, destacam-se os EUA, R\u00fassia, It\u00e1lia, Jap\u00e3o, Coreia do Sul, China e \u00cdndia. Literalmente, dezenas de milhares de experi\u00eancias j\u00e1 foram realizadas, com altos n\u00edveis de repetibilidade das observa\u00e7\u00f5es relatadas por Fleischmann e Pons, o que denota a realidade do fen\u00f4meno.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Em novembro de 2009, a Ag\u00eancia de Intelig\u00eancia de Defesa (DIA) dos EUA divulgou um relat\u00f3rio com uma rigorosa avalia\u00e7\u00e3o do estado da arte das pesquisas sobre o fen\u00f4meno. Intitulado\u00a0<a href=\"http:\/\/newenergytimes.com\/v2\/news\/2009\/2009DIA-08-0911-003.pdf\">\u00abProgn\u00f3stico tecnol\u00f3gico: pesquisas sobre rea\u00e7\u00f5es nucleares de baixa energia aumentando e ganhando aceita\u00e7\u00e3o em todo o mundo\u00bb<\/a>, o documento faz uma avalia\u00e7\u00e3o bastante otimista, como sintetizado na introdu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>Nos \u00faltimos 20 anos, cientistas de todo o mundo t\u00eam investigado as rea\u00e7\u00f5es nucleares de baixa energia (LENR). Os pesquisadores desta \u00e1rea controvertida est\u00e3o, atualmente, anunciando resultados capazes de mudar os paradigmas [cient\u00edficos] existentes, inclusive, a gera\u00e7\u00e3o de grandes quantidades de calor em excesso, atividades nucleares e transmuta\u00e7\u00e3o de elementos. Embora n\u00e3o exista uma teoria vigente, que explique todos os fen\u00f4menos descritos, alguns cientistas acreditam que podem estar ocorrendo rea\u00e7\u00f5es nucleares ao n\u00edvel qu\u00e2ntico. A DIA avalia, com alto n\u00edvel de confian\u00e7a, que, se as LENR puderem produzir energia de origem nuclear \u00e0s temperaturas ambientes, esta tecnologia impactante poder\u00e1 revolucionar a produ\u00e7\u00e3o e o armazenamento de energia, uma vez que as rea\u00e7\u00f5es nucleares liberam milh\u00f5es de vezes mais energia por unidade de massa do que qualquer outro combust\u00edvel qu\u00edmico conhecido.<\/p><\/blockquote>\n<p align=\"LEFT\">Sabendo-se que a DIA \u00e9 uma das mais rigorosas e profissionais das 16 ag\u00eancias do colossal aparato de intelig\u00eancia estadunidense, a sua avalia\u00e7\u00e3o merece ser devidamente considerada pelos formuladores de pol\u00edticas de todos os pa\u00edses.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Como a quase totalidade dos pesquisadores do fen\u00f4meno, Fleischmann e Pons foram for\u00e7ados a \u00absubmergir\u00bb. Em 1992, eles se mudaram para a Fran\u00e7a, para continuar as pesquisas em um laborat\u00f3rio financiado por uma subsidi\u00e1ria da empresa japonesa Toyota. Por\u00e9m, por diverg\u00eancias com a dire\u00e7\u00e3o do laborat\u00f3rio, Fleischmann se retirou do projeto em 1995 e voltou para a Inglaterra, onde se aposentou. Igualmente, Pons se retiraria, no ano seguinte, e o projeto foi encerrado em 1998.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Entretanto, Fleischmann continuou colaborando com outros pesquisadores, nos EUA e na It\u00e1lia, at\u00e9 ser obrigado a retirar-se de vez, por problemas de sa\u00fade, que inclu\u00edam a doen\u00e7a de Parkinson, problemas card\u00edacos e diabetes. Ele morreu em sua resid\u00eancia, em Tisdale (\u00e9 significativo das distor\u00e7\u00f5es que envolvem a atividade cient\u00edfica e sua percep\u00e7\u00e3o pela sociedade, o fato de que a sua morte tenha sido ignorada pela m\u00eddia brasileira).<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Fleischmann, que teve a inspira\u00e7\u00e3o original para as pesquisas iniciais com Pons, foi um daqueles raros gigantes da Ci\u00eancia capazes de influenciar com seu trabalho os rumos do conhecimento e, por extens\u00e3o, da pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o da Humanidade. Por isso, recorremos \u00e0 sint\u00e9tica avalia\u00e7\u00e3o do editor do s\u00edtio\u00a0<a href=\"http:\/\/www.e-catworld.com\/2012\/08\/martin-fleschmann-dead-at-85\/\">E-cat World<\/a>, um dos muitos dedicados \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o das pesquisas sobre o tema:<\/p>\n<p align=\"LEFT\">\u00abProvavelmente, o legado p\u00f3stumo de Martin Fleischmann ser\u00e1 muito maior do que o que foi em sua vida. O seu trabalho deflagrou uma revolu\u00e7\u00e3o em fogo lento, que parece estar pronta para entrar em igni\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a morte do eletroqu\u00edmico brit\u00e2nico Martin Fleischmann, aos 85 anos, em 3 de agosto, o mundo perde n\u00e3o apenas um raro cientista capaz de atuar com desassombro nos limites do conhecimento e aportar importantes contribui\u00e7\u00f5es a ele, como tamb\u00e9m um s\u00edmbolo do deplor\u00e1vel estado em que a pr\u00e1tica cient\u00edfica mergulhou, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, com &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-529","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia-e-tecnologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/529","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=529"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/529\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=529"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=529"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=529"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}