{"id":518,"date":"2012-08-03T22:11:21","date_gmt":"2012-08-03T22:11:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=518"},"modified":"2012-08-03T22:11:21","modified_gmt":"2012-08-03T22:11:21","slug":"os-biocombustiveis-da-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/os-biocombustiveis-da-fome\/","title":{"rendered":"Os biocombust\u00edveis da fome"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">O mundo est\u00e1 diante de uma iminente crise dos alimentos, com os EUA, os maiores exportadores mundiais, enfrentando a pior seca dos \u00faltimos 50 anos e os pre\u00e7os dos g\u00eaneros aliment\u00edcios quebrando recordes no mercado internacional. Em meio a esse cen\u00e1rio conturbado, um n\u00famero crescente de vozes tem apontado a decis\u00e3o de diversos governos, EUA inclusive, de impulsionar o consumo de biocombust\u00edveis, como um s\u00e9rio fator agravante. At\u00e9 mesmo grandes corpora\u00e7\u00f5es aliment\u00edcias transnacionais t\u00eam se juntado \u00e0s advert\u00eancias de que a persist\u00eancia dessa pol\u00edtica \u00abverde\u00bb de usar gr\u00e3os como combust\u00edvel est\u00e1 contribuindo para configurar uma crise aliment\u00edcia pior que a de 2007-2008.<\/p>\n<p align=\"left\">Em reportagem publicada em 19 de julho, o di\u00e1rio londrino<em>\u00a0Financial Times<\/em>\u00a0destacou que a seca que assola os EUA est\u00e1 \u00abempurrando os pre\u00e7os das\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0agr\u00edcolas para altas recordes. Os pre\u00e7os do milho e da soja subiram para n\u00edveis recordes nesta quinta-feira [19\/07], superando os picos da crise de 2007-2008, quando revoltas estouraram em mais de 30 pa\u00edses. Os pre\u00e7os do trigo ainda n\u00e3o atingiram n\u00edveis recordes, mas tiveram alta de mais de 50% nas \u00faltimas cinco semanas, superando os pre\u00e7os observados quando a R\u00fassia baniu a exporta\u00e7\u00e3o do gr\u00e3o, em 2010&#8243;.<\/p>\n<p align=\"left\">Entretanto, segundo o\u00a0<em>FT<\/em>, a seca nos EUA \u00e9 apenas parte da hist\u00f3ria, pois o pa\u00eds tem incentivado a convers\u00e3o de vastas quantidades de milho em bicombust\u00edvel: \u00abA maior redu\u00e7\u00e3o potencial na demanda por milho vem da ind\u00fastria do etanol, a qual consome 50 bilh\u00f5es de<em> bushels<\/em> [equivalente a 1,2 bilh\u00e3o de toneladas], ou aproximadamente 40% de todo o milho colhido nos EUA a cada ano, para fazer combust\u00edvel para autom\u00f3veis e para alimentar animais\u00bb. O jornal destacou ainda que o governo brit\u00e2nico considera seguir o exemplo, e que o Escrit\u00f3rio Parlamentar de Ci\u00eancia e Tecnologia do Reino Unido se manifestou, recentemente, sobre o uso dos biocombust\u00edveis, ocasi\u00e3o na qual demonstrou pouca preocupa\u00e7\u00e3o com o impacto que tal uso teria.<\/p>\n<p align=\"left\">Cr\u00edticas at\u00e9 certo ponto surpreendentes a tal pr\u00e1tica t\u00eam vindo das multinacionais de alimentos. \u00c9 o caso do presidente da Nestl\u00e9, Peter Brabeck-Letmathe, que afirmou \u00e0 BBC (18\/07\/2012) que, \u00abse os alimentos n\u00e3o fossem usados para produzir combust\u00edvel, os pre\u00e7os cairiam novamente &#8211; isso \u00e9 bastante evidente\u00bb. Segundo o executivo, os biocombust\u00edveis s\u00f3 s\u00e3o economicamente vi\u00e1veis devido aos grandes subs\u00eddios que recebem dos governos, em especial nos EUA: \u00abIsso \u00e9 absolutamente inaceit\u00e1vel e n\u00e3o pode ser justific\u00e1vel&#8230; Eu s\u00f3 pe\u00e7o uma coisa, que n\u00e3o se use comida como combust\u00edvel.\u00bb<\/p>\n<p align=\"left\">Para ele, os pol\u00edticos ainda n\u00e3o compreendem que o mercado de alimentos e o mercado de combust\u00edveis s\u00e3o uma s\u00f3 coisa: \u00abA \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que no mercado de alimentos voc\u00ea precisa de 2.500 calorias por pessoa por dia, enquanto, no mercado de energia, s\u00e3o necess\u00e1rias 50.000 calorias por pessoa.\u00bb<\/p>\n<p align=\"left\">Segundo Brabeck-Letmanthe, portanto, quando pol\u00edticos resolvem substituir 20% dos combust\u00edveis f\u00f3sseis por biocombust\u00edveis, isto significa que a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola ter\u00e1 que triplicar.<\/p>\n<p align=\"left\">Outro aspecto ignorado, apontou ele, \u00e9 o fato de que a agricultura consome 70% da \u00e1gua pot\u00e1vel utilizada no mundo, o que significa que, ao promover o uso dos biocombust\u00edveis, diversos pa\u00edses tamb\u00e9m contribuem para agravar a quest\u00e3o do acesso \u00e0 \u00e1gua. Em suas palavras, \u00abs\u00e3o necess\u00e1rios 4.500 litros de \u00e1gua para produzir um litro de etanol a partir de cana de a\u00e7\u00facar, e 1.900 litros de \u00e1gua por litro de bicombust\u00edvel feito com \u00f3leo de palma\u00bb.<\/p>\n<p align=\"left\">Outro executivo do setor a protestar contra os biocombust\u00edveis \u00e9 o presidente da Cargill, Paul Conway, cuja percep\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que a \u00abexplos\u00e3o no uso de biocombust\u00edveis e a financeiriza\u00e7\u00e3o dos mercados agr\u00edcolas\u00bb t\u00eam contribu\u00eddo para a alta dos pre\u00e7os alimentos. A mesma posi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 defendida por Ken Powell, executivo-chefe da General Mills, para quem os subs\u00eddios do governo estadunidense ao etanol est\u00e3o resultando no encarecimento do milho: \u00abEstamos aumentando o pre\u00e7o dos alimentos sem necessidade (The Guardian, 19\/07\/2012).\u00bb<\/p>\n<p align=\"left\">At\u00e9 mesmo os mercados t\u00eam se mostrado preocupados com os impactos dos biocombust\u00edveis nos pre\u00e7os dos alimentos. Segundo a analista Karen Maley, do boletim\u00a0<em>Business Spectator<\/em>\u00a0(20\/07\/2012), \u00abos mercados est\u00e3o se preparando para uma onda de instabilidade global\u00bb, com os \u00abpre\u00e7os do milho e da soja subindo para n\u00edveis recordes noovernight\u00bb. Maley destacou que muitos analistas est\u00e3o alertando que o mundo pode enfrentar um \u00abper\u00edodo de intensa instabilidade social e pol\u00edtica, similar ao que se observou em 2007-2008, quando rebeli\u00f5es atingiram dezenas de pa\u00edses\u00bb, em especial, os mais pobres, nos quais a maioria da popula\u00e7\u00e3o gasta cerca de 3\/4 de sua renda para comprar comida.<\/p>\n<p align=\"left\">As preocupa\u00e7\u00f5es com o impacto dos biocombust\u00edveis no pre\u00e7o dos alimentos t\u00eam sido compartilhadas pelo G-20, que, em 2 de junho, publicou um relat\u00f3rio intitulado\u00a0Price Volatility in Food and Agricultural Markets: Policy Responses(Volatilidade nos pre\u00e7os dos alimentos e mercados agr\u00edcolas: respostas pol\u00edticas). O estudo, realizado em parceria com organiza\u00e7\u00f5es internacionais como o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Alimentos e a Agricultura (FAO), aponta que os incrementos na produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis t\u00eam reduzido o suprimento de alimentos, o que est\u00e1 provocando o aumento de pre\u00e7os de gr\u00e3os (Nuffiled Council on Bioethics, 13\/06\/2012).<\/p>\n<p align=\"left\">O estudo sugere aos pa\u00edses-membros do G-20 a por fim \u00e0s pol\u00edticas nacionais de subs\u00eddio ou de amplia\u00e7\u00e3o do consumo de biocombust\u00edveis, destacando a meta estabelecida pelo governo brit\u00e2nico, em 2009, de ampliar at\u00e9 2013 a participa\u00e7\u00e3o dos biocombust\u00edveis, no setor de transportes, para 5% de todo o combust\u00edvel consumido no pa\u00eds. O relat\u00f3rio sugere ainda que, caso seja invi\u00e1vel simplesmente abolir tais programas de incentivo aos biocombust\u00edveis, que ao menos estes sejam modificados para se ajustarem temporariamente aos momentos de maior press\u00e3o nos mercados globais de alimentos.<\/p>\n<p align=\"left\">O desvio de grandes propor\u00e7\u00f5es das safras de gr\u00e3os para a produ\u00e7\u00e3o de etanol, que nos EUA chega a 40% do milho colhido (quantidade suficiente para alimentar 300 milh\u00f5es de pessoas), \u00e9 uma consequ\u00eancia de uma esp\u00faria combina\u00e7\u00e3o entre a agenda ambientalista de redu\u00e7\u00e3o do uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis e o sentido de oportunidade dos mercados financeiros, sempre atento e pronto para criar novas fontes de recursos para a preserva\u00e7\u00e3o dos fluxos especulativos que elevaram o sistema financeiro internacional ao paroxismo de instabilidade que exibe, atualmente. Em raros pa\u00edses, como o Brasil, existem condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de etanol e outros biocombust\u00edveis sem acarretar grandes preju\u00edzos \u00e0s colheitas aliment\u00edcias. Na grande maioria dos que t\u00eam aderido a esta agenda, independentemente dos motivos particulares, a produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis \u00e9 sin\u00f4nimo de agravamento da fome no planeta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo est\u00e1 diante de uma iminente crise dos alimentos, com os EUA, os maiores exportadores mundiais, enfrentando a pior seca dos \u00faltimos 50 anos e os pre\u00e7os dos g\u00eaneros aliment\u00edcios quebrando recordes no mercado internacional. 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