{"id":487,"date":"2013-02-08T17:47:29","date_gmt":"2013-02-08T17:47:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=487"},"modified":"2013-02-08T17:47:29","modified_gmt":"2013-02-08T17:47:29","slug":"islandia-5x0-rentistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/islandia-5x0-rentistas\/","title":{"rendered":"Isl\u00e2ndia 5&#215;0 Rentistas"},"content":{"rendered":"<p>A Isl\u00e2ndia \u00e9 um pequeno pa\u00eds insular do Atl\u00e2ntico Norte, com um territ\u00f3rio menor que o Amap\u00e1, popula\u00e7\u00e3o menor que a da Zona Sul do Rio de Janeiro (RJ) e PIB menor que o de Alagoas (embora o PIB per capita seja quase quatro vezes superior ao brasileiro). Por suas caracter\u00edsticas peculiares, foi um dos pa\u00edses mais duramente afetados pela crise financeira de 2007-2008, que provocou a quebra de tr\u00eas grandes bancos envolvidos at\u00e9 a boca dos cofres com a din\u00e2mica de cassino que dominava &#8211; e ainda domina &#8211; o sistema financeiro internacional. Por\u00e9m, ao contr\u00e1rio das economias muito maiores da Europa, os islandeses se recusaram a adotar o receitu\u00e1rio\u00a0ortodoxo adotado por elas, baseado, fundamentalmente, no repasse \u00e0 sociedade dos preju\u00edzos causados pelos excessos dos rentistas privados.<\/p>\n<p>Assim, o governo deixou os bancos quebrarem, convocou a popula\u00e7\u00e3o a se manifestar em dois plebiscitos sobre a exig\u00eancia\u00a0de ressarcir\u00a0os investimentos dos cidad\u00e3os estrangeiros nos bancos quebrados &#8211; duas vezes rejeitada -, recha\u00e7ou a panac\u00e9ia da austeridade or\u00e7ament\u00e1ria e processou os dirigentes dos bancos respons\u00e1veis pelo imbr\u00f3glio. Quatro tentos\u00a0contra o rentismo globalizado, que reagiu, por interm\u00e9dio dos governos da Holanda e do Reino Unido, os quais\u00a0processaram a Isl\u00e2ndia no Tribunal da Autarquia de Fiscaliza\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Livre Com\u00e9rcio (EFTA), no Luxemburgo, cobrando-lhe o ressarcimento que foram obrigados a fazer aos cerca de 300 mil investidores de seus pa\u00edses, que aplicaram dinheiro em bancos islandeses que ofereciam altos juros e quebraram.<\/p>\n<p>Agora, os islandeses acabam de fechar a goleada. Na segunda-feira 28, o tribunal decidiu que o pa\u00eds n\u00e3o violou as leis europeias ao se recusar a indenizar os sequiosos &#8211; e descuidados &#8211; investidores privados holandeses e brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 uma vit\u00f3ria da democracia. Se enviou a mensagem de que os bancos n\u00e3o podem receber os benef\u00edcios e mandar a fatura aos contribuintes quando as coisas v\u00e3o mal\u00bb, celebrou o economista island\u00eas Magnus Sk\u00falasson, em entrevista ao jornal espanhol El Pa\u00eds (<em>Monitor Mercantil,<\/em> 29\/01\/2013).<\/p>\n<p>Com a decis\u00e3o, estabelece-se uma jurisprud\u00eancia para que, em situa\u00e7\u00f5es semelhantes, os Estados nacionais n\u00e3o sejam obrigados a indenizar investidores estrangeiros, al\u00e9m de enviar aos rentistas internacionais um sinal de que a sua hegemonia j\u00e1 n\u00e3o tem a for\u00e7a de antes. Ademais, a senten\u00e7a refor\u00e7a o acerto da linha de a\u00e7\u00e3o islandesa diante da crise sist\u00eamica, diametralmente oposta \u00e0 dos demais pa\u00edses europeus, e que assegurou ao pa\u00eds uma relativamente r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o da crise financeira. A insuspeita ag\u00eancia Bloomberg j\u00e1 definiu assim a estrat\u00e9gia: \u00abEm cada medida tomada, a abordagem da Isl\u00e2ndia para lidar com o derretimento tem colocado as necessidades de sua popula\u00e7\u00e3o acima dos mercados (Bloomberg, 19\/02\/2012).\u00bb<\/p>\n<p>Em paralelo, o presidente island\u00eas Olafur Ragnar Grimmson, que participou do F\u00f3rum de Davos, deu uma outra pequena, mas importante li\u00e7\u00e3o aos que o ouviam, ao ser perguntado sobre os motivos da r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o da economia do pa\u00eds:<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) N\u00f3s fomos suficientemente l\u00facidos para n\u00e3o seguir as ortodoxias tradicionais prevalecentes no mundo financeiro ocidental nos \u00faltimos 30 anos. N\u00f3s introduzimos controles de moeda, deixamos os bancos quebrarem, demos apoio aos pobres e n\u00e3o introduzimos medidas de austeridade, como as que voc\u00eas est\u00e3o vendo aqui na Europa&#8230; E por que os bancos devem ser considerados as igrejas sagradas da economia moderna. Por que os bancos privados n\u00e3o s\u00e3o como as empresas a\u00e9reas e as companhias de telecomunica\u00e7\u00f5es, e sejam deixados para que quebrem, se forem dirigidos de forma irrespons\u00e1vel? A teoria de que se t\u00eam que resgatar os bancos \u00e9 uma teoria que permite a eles desfrutar dos seus lucros quando t\u00eam sucesso, mas deixar a conta do fracasso deles com as pessoas comuns, por meio de impostos e austeridade. Nas democracias esclarecidas, as pessoas n\u00e3o v\u00e3o aceitar isto por muito mais tempo (<em>New York Times<\/em>, 29\/01\/2013).<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 simples assim a grande li\u00e7\u00e3o oferecida pela Isl\u00e2ndia: o Estado assumindo o seu papel prec\u00edpuo de legislar para o bem comum, em lugar de favorecer majoritariamente os interesses restritos que, geralmente, dominam a formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas na maioria dos pa\u00edses. Desta forma, a pequena na\u00e7\u00e3o insular mostra o caminho que precisa ser seguido pela UE e os EUA, se se quiser realmente trilhar um caminho seguro de sa\u00edda da crise global.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Isl\u00e2ndia \u00e9 um pequeno pa\u00eds insular do Atl\u00e2ntico Norte, com um territ\u00f3rio menor que o Amap\u00e1, popula\u00e7\u00e3o menor que a da Zona Sul do Rio de Janeiro (RJ) e PIB menor que o de Alagoas (embora o PIB per capita seja quase quatro vezes superior ao brasileiro). 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