{"id":467,"date":"2013-02-01T14:55:50","date_gmt":"2013-02-01T14:55:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=467"},"modified":"2013-02-01T14:55:50","modified_gmt":"2013-02-01T14:55:50","slug":"norte-da-africa-no-pantano-da-guerra-por-recursos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/norte-da-africa-no-pantano-da-guerra-por-recursos\/","title":{"rendered":"Norte da \u00c1frica no p\u00e2ntano da &quot;guerra por recursos&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Em meio \u00e0 multiplicidade de protagonistas e agendas envolvidos nos conflitos no Norte da \u00c1frica, a regi\u00e3o entrou, definitivamente, no mapa global das \u00abguerras por recursos\u00bb dos estrategistas das pot\u00eancias hegem\u00f4nicas. Nas agendas destas \u00faltimas, EUA \u00e0 frente, o controle dos fluxos de recursos naturais, inclusive por meios militares, constitui um fator primordial do seu empenho em preservar o status quo da ordem mundial, em uma recusa a admitir as c\u00e9leres transforma\u00e7\u00f5es globais em curso, caracterizadas pela emerg\u00eancia de interesses de novos protagonistas no cen\u00e1rio mundial, tanto na\u00e7\u00f5es como setores inteiros das sociedades nacionais. Neste contexto, que, entre outros fatores, inclui uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 crescente presen\u00e7a da China no continente, a interven\u00e7\u00e3o militar no Mali constitui um desdobramento da investida contra a L\u00edbia, conclu\u00edda com a deposi\u00e7\u00e3o violenta do regime de Muamar Kadafi.<\/p>\n<p>Desafortunadamente, essa disputa se d\u00e1 em um marco que sequer consegue disfar\u00e7ar um ran\u00e7o neocolonial, diferindo apenas nos m\u00e9todos, pelo qual o continente africano vem sendo repartido entre orientais e ocidentais, como um vasto reposit\u00f3rio de recursos naturais &#8211; min\u00e9rios, combust\u00edveis e alimentos -, com escassa considera\u00e7\u00e3o para com as aspira\u00e7\u00f5es e necessidades da esmagadora maioria de suas popula\u00e7\u00f5es. Enquanto os chineses &#8211; e, em menor escala, indianos e coreanos &#8211; preferem o <em>\u00absoft power\u00bb<\/em> dos investimentos em projetos de infraestrutura e da aquisi\u00e7\u00e3o de grandes \u00e1reas agricult\u00e1veis, as pot\u00eancias ocidentais ainda se aferram ao <em>\u00abhard power\u00bb<\/em> e a procedimentos que n\u00e3o mudaram muito desde a Confer\u00eancia de Berlim (1884-1885), sendo a principal novidade a presen\u00e7a dos EUA entre elas.<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o na L\u00edbia foi um marco nessa agenda, a qual deixa claro que o combate ao terrorismo isl\u00e2mico e os pretextos humanit\u00e1rios n\u00e3o passam de fr\u00e1geis justificativas para a\u00e7\u00f5es militares, a mudan\u00e7a de regimes pol\u00edticos e, evidentemente, a pletora de concess\u00f5es \u00e0s empresas \u00abporta-bandeiras\u00bb das pot\u00eancias ocidentais que costuma seguir-se \u00e0s mudan\u00e7as. Ao suprimir a figura de Kadafi, que, com todos os seus problemas, representava o elemento aglutinador do Estado l\u00edbio, a campanha militar da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) ensejou a fragmenta\u00e7\u00e3o e a entrega do pa\u00eds a um conglomerado de fac\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas e tribais e grupos fundamentalistas, muitos com claras inclina\u00e7\u00f5es terroristas e, n\u00e3o raro, vinculados \u00e0 rede de franquias conhecida como Al-Qaida. Muitos destes grupos t\u00eam as suas pr\u00f3prias agendas antiocidentais, como se viu no ataque ao consulado dos EUA em Benghazi, em setembro \u00faltimo, que resultou na morte do embaixador e tr\u00eas outros funcion\u00e1rios diplom\u00e1ticos estadunidenses.<\/p>\n<p>Outra consequ\u00eancia da a\u00e7\u00e3o l\u00edbia foi a disponibiliza\u00e7\u00e3o de uma grande quantidade de armamentos para todos esses grupos, tanto dos fornecimentos proporcionados pela OTAN como dos saques nos arsenais l\u00edbios, parte dos quais foi parar nas m\u00e3os dos insurgentes que se levantaram contra o governo interino do Mali, cuja capacidade constituiu uma desagrad\u00e1vel surpresa para as for\u00e7as francesas que encabe\u00e7am a interven\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como sintetizou, com propriedade, o influente jornalista e blogueiro ingl\u00eas Neil Clark:<\/p>\n<blockquote><p>(\u2026) As raz\u00f5es econ\u00f4micas est\u00e3o por tr\u00e1s de cada uma das interven\u00e7\u00f5es ocidentais dos \u00faltimos 30 anos. Se olharmos os ataques \u00e0 Iugosl\u00e1via, os ataques \u00e0 S\u00edria, a guerra na L\u00edbia &#8211; todos eles foram vestidos como interven\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias. Mas n\u00e3o foram. S\u00e3o interven\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. O Ocidente quer recursos, o Ocidente quer controlar os recursos nessa regi\u00e3o. E eu acho que a OTAN vai se realocar na \u00c1frica do Norte. Eu acho que este \u00e9 o motivo claro de tudo isso. A amea\u00e7a da Al-Qaida est\u00e1 sendo ampliada para que, quando a OTAN deixe o Afeganist\u00e3o, ela se realoque na \u00c1frica do Norte (RT, 21\/01\/2013).<\/p><\/blockquote>\n<p>No Mali, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 menos complexa que na L\u00edbia. O pa\u00eds, com um territ\u00f3rio equivalente ao do Par\u00e1 (e mais de duas vezes maior que a Fran\u00e7a), \u00e9 basicamente dividido entre o Norte des\u00e9rtico e o Sul subtropical, que concentra 90% da popula\u00e7\u00e3o. Cerca de 90% da popula\u00e7\u00e3o pratica um islamismo moderado de maioria sunita, mas o Estado \u00e9 laico e a conviv\u00eancia entre as v\u00e1rias denomina\u00e7\u00f5es religiosas \u00e9 geralmente pac\u00edfica. Por\u00e9m, desde a d\u00e9cada de 1990, a minoria tuaregue (menos de 10% da popula\u00e7\u00e3o), em grande parte constitu\u00edda por tribos n\u00f4mades que habitam o Saara e a franja do Sahel, tem buscado a sua autonomia pol\u00edtica, constituindo a base do movimento secessionista que se insurgiu contra o governo central, a partir de 2007. N\u00e3o obstante, ap\u00f3s o golpe de Estado de mar\u00e7o de 2012, que derrubou o presidente Amadou Tour\u00e9 a pouco mais de um m\u00eas das novas elei\u00e7\u00f5es, o movimento foi rapidamente infiltrado e dominado por islamistas radicais, que dominaram todo o Norte e amea\u00e7aram marchar contra a capital Bamako, pretexto utilizado pelo presidente Fran\u00e7ois Hollande para justificar a a\u00e7\u00e3o militar francesa. Vale registrar que o golpe militar foi liderado por oficiais do Ex\u00e9rcito treinados nos EUA e ainda n\u00e3o h\u00e1 uma data para novas elei\u00e7\u00f5es. E que o pa\u00eds, apesar de ser um dos 25 mais pobres do mundo, disp\u00f5e de consider\u00e1veis recursos naturais, como ouro, ur\u00e2nio, fosfato, caulim, sal, calc\u00e1rio e algod\u00e3o, sendo os min\u00e9rios, basicamente, explorados por empresas estrangeiras.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, e contribuindo para torn\u00e1-lo ainda mais complicado, atua a franquia terrorista conhecida como Al-Qaida no Magreb Isl\u00e2mico (AQMI), cuja amea\u00e7a est\u00e1 sendo ressaltada por l\u00edderes ocidentais, como o pr\u00f3prio Hollande, seu colega brit\u00e2nico David Cameron, que j\u00e1 fala em uma guerra \u00abde d\u00e9cadas\u00bb contra o terror, e o general Carter Ham, chefe do Comando \u00c1frica dos EUA (Africom), para quem, se n\u00e3o for combatido, o grupo poder\u00e1 vir a representar uma \u00abamea\u00e7a global\u00bb (sic). Alguns dos l\u00edderes da AQMI e grupos correlatos remontam aos mujahidin organizados pela CIA na Guerra do Afeganist\u00e3o de 1979-1989, como \u00e9 o caso de Mokhtar Belmokhtar, l\u00edder da Brigada Mascarada e candidato \u00e0 nova <em>b\u00eate noire<\/em> terrorista internacional, que assumiu a autoria da sangrenta captura do complexo gas\u00edfero de In Amenas, na Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p>Como sabe qualquer observador minimamente atento dos acontecimentos posteriores a 11 de setembro de 2001, com frequ\u00eancia, grupos de extremistas isl\u00e2micos de diversos matizes t\u00eam sido infiltrados e manipulados &#8211; quando n\u00e3o criados &#8211; por servi\u00e7os de intelig\u00eancia de v\u00e1rios pa\u00edses, para apoiar as mais diversas agendas.<\/p>\n<p>Em entrevista ao jornal <em>Le Soir d&#8217;Algerie<\/em> (14\/01\/2013), o professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade de Argel e coronel da reserva do Ex\u00e9rcito argelino, Ahmed Adimi, disparou:<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) As pot\u00eancias ocidentais t\u00eam usado esses pretextos para intervir e adotar resolu\u00e7\u00f5es [nas Na\u00e7\u00f5es Unidas] para justificar as suas opera\u00e7\u00f5es militares&#8230; De fato, a opera\u00e7\u00e3o francesa pode parecer legal, j\u00e1 que resultou de um pedido do presidente interino do Mali. Por\u00e9m, \u00e9 importante lembrar que o atual governo subiu ao poder num golpe. Quanto \u00e0 interven\u00e7\u00e3o, ela era, certamente, previs\u00edvel, mas os franceses precipitaram os acontecimentos&#8230; Esses grupos terroristas t\u00eam sido manipulados por pot\u00eancias estrangeiras&#8230; Os franceses sabiam que a interven\u00e7\u00e3o deles na L\u00edbia provocaria um retorno dos militares tuaregues pr\u00f3-Kadafi ao Mali. Eles tamb\u00e9m tinham previsto o derramamento dos estoques de armamentos l\u00edbios entre os bandos da franja do Sahel. (&#8230;)<\/p><\/blockquote>\n<p>Como em outras partes da \u00c1frica, o drama do Mali, colocado entre o Cila do subdesenvolvimento e o Car\u00edbdis das interven\u00e7\u00f5es externas, n\u00e3o poder\u00e1 ser enfrentado com uma nova onda de colonialismo, sejam quais forem as suas nuances. Para o continente, as variantes oriental e ocidental que lhe est\u00e3o sendo oferecidas n\u00e3o ser\u00e3o capazes de proporcionar respostas adequadas \u00e0s suas necessidades de incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0s modernas economias do s\u00e9culo XXI, de uma forma digna e que respeite os direitos fundamentais dos seus povos. Pelo menos uma comentarista, a diretora-executiva da ONG National Security Network de Washington, Heather Hurlburt, captou a ess\u00eancia do fato. Escrevendo no jornal <em>The Guardian<\/em> de 15 de janeiro, sobre a ajuda estadunidense ao pa\u00eds, disse ela:<\/p>\n<blockquote><p>Teremos semanas, se n\u00e3o meses, para falar sobre o que deu errado militarmente, no \u00faltimo ano, por que os planejadores estadunidenses falharam em antecipar e se preparar, seja para o derramamento islamista a partir da L\u00edbia, ou para o golpe. Talvez, alguns se perguntem se os resultados n\u00e3o teriam sido melhores, caso os EUA n\u00e3o tivessem contratado toda a sua assist\u00eancia militar junto a assessores externos [privados &#8211; N.dos E.], enquanto os seus assessores no servi\u00e7o ativo estavam espalhados pelo Iraque e o Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas esses argumentos n\u00e3o est\u00e3o enfocados. O governo civil do Mali e seus apoiadores ocidentais tiveram uma d\u00e9cada para construir institui\u00e7\u00f5es, civis e militares, que pudessem se contrapor, tanto ao apelo como ao poder militar dos extremistas. A tarefa era dif\u00edcil, talvez imposs\u00edvel. Mas poderia ter sido tentada com muito mais \u00eanfase, sem perdas de vidas e sem desestabilizar uma regi\u00e3o inteira. Ela deveria ter sido tentada com mais \u00eanfase, pela dignidade dos seres humanos envolvidos; ela tamb\u00e9m poderia ter sido tentada com mais \u00eanfase, como uma medida contra o terrorismo [grifos no original].<\/p><\/blockquote>\n<p>A \u00c1frica tem um papel crucial a desempenhar na reconfigura\u00e7\u00e3o da ordem mundial em curso, mas n\u00e3o como mero reposit\u00f3rio de recursos naturais e campo de novas aventuras coloniais. Al\u00e9m de um imperativo civilizat\u00f3rio, a eleva\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de vida da vasta maioria da sua popula\u00e7\u00e3o a padr\u00f5es civilizados pode proporcionar a cria\u00e7\u00e3o de um poderoso vetor de apoio para a reconstru\u00e7\u00e3o da combalida economia mundial, com a abertura de um enorme mercado para os bens e servi\u00e7os oferecidos pelos demais continentes. Como detentor de mais da metade das terras agricult\u00e1veis dispon\u00edveis no planeta, o continente ser\u00e1, tamb\u00e9m, fundamental para assegurar a seguran\u00e7a aliment\u00edcia da popula\u00e7\u00e3o do planeta, nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Por\u00e9m, nada disso ocorrer\u00e1 dentro da geometria pol\u00edtica e econ\u00f4mica vigente e, principalmente, sem uma reforma do sistema financeiro internacional &#8211; algo em que a Europa n\u00e3o se disp\u00f4s a enfrentar com a devida seriedade e representaria um apoio incomparavelmente superior mais digno do que a sua presente reca\u00edda neocolonialista.<\/p>\n<p>Por isso, em vez de rearranjos internos do processo da \u00abglobaliza\u00e7\u00e3o\u00bb, como s\u00e3o grande parte dos investimentos que lhe est\u00e3o sendo oferecidos, para a implementa\u00e7\u00e3o de atualiza\u00e7\u00f5es do modelo colonial das \u00abplantations\u00bb, a \u00c1frica necessita de verdadeiros parceiros para o desenvolvimento dos seus potenciais humanos e naturais, que lhe ofere\u00e7am valores justos por suas mat\u00e9rias-primas e apoio para uma moderniza\u00e7\u00e3o baseada na industrializa\u00e7\u00e3o e agrega\u00e7\u00e3o de valor aos seus recursos.<\/p>\n<p>A gravidade da crise global exige nada menos que a coragem de se retomar e implementar as li\u00e7\u00f5es de iniciativas como a Carta dos Direitos e Deveres Econ\u00f4micos dos Estados, aprovada em 1972 pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, e a enc\u00edclica <em>Populorum Progressio<\/em>, do papa Paulo VI, de 1968, com sua poderosa mensagem de que o desenvolvimento \u00e9 o novo nome da paz.<\/p>\n<p>Com base nessa reorienta\u00e7\u00e3o para o estabelecimento de uma nova ordena\u00e7\u00e3o mundial, baseada em princ\u00edpios condizentes com o bem comum, a justi\u00e7a e a soberania das na\u00e7\u00f5es, o Brasil (e, por extens\u00e3o, a Am\u00e9rica do Sul) deveria se inspirar para uma a\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica em favor da moderniza\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es africanas, enfatizando a sua eletrifica\u00e7\u00e3o e industrializa\u00e7\u00e3o. Apenas com uma tal orienta\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 poss\u00edvel se estabelecer um divisor de \u00e1guas entre o fim de uma era colonial e o in\u00edcio de uma nova fase do processo civilizat\u00f3rio global.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio \u00e0 multiplicidade de protagonistas e agendas envolvidos nos conflitos no Norte da \u00c1frica, a regi\u00e3o entrou, definitivamente, no mapa global das \u00abguerras por recursos\u00bb dos estrategistas das pot\u00eancias hegem\u00f4nicas. 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