{"id":403,"date":"2012-03-30T19:37:23","date_gmt":"2012-03-30T19:37:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=403"},"modified":"2012-03-30T19:37:23","modified_gmt":"2012-03-30T19:37:23","slug":"indios-alienam-reservas-a-estrangeiros-que-faturam-com-comercio-de-carbono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/indios-alienam-reservas-a-estrangeiros-que-faturam-com-comercio-de-carbono\/","title":{"rendered":"\u00cdndios alienam reservas a estrangeiros&#8230; que faturam com com\u00e9rcio de carbono"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">Uma iniciativa quase surreal do aparato ambientalista internacional est\u00e1 induzindo ind\u00edgenas brasileiros a, literalmente, alienar suas terras a empresas estrangeiras que operam no mercado de cr\u00e9ditos de carbono. Uma empresa irlandesa com o pitoresco nome Celestial Green Ventures (CGV) est\u00e1 promovendo acordos com lideran\u00e7as ind\u00edgenas, propriet\u00e1rios de terras e munic\u00edpios do Amazonas e do Par\u00e1, em troca do controle exclusivo sobre os usos da terra de vastas \u00e1reas, para a especula\u00e7\u00e3o com cr\u00e9ditos de carbono. Com dura\u00e7\u00e3o de 30-50 anos, tais contratos oferecem remunera\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias aos \u00abparceiros\u00bb, em troca da concess\u00e3o \u00e0 empresa de amplos poderes decis\u00f3rios sobre as formas de utiliza\u00e7\u00e3o das terras abarcadas pelos contratos. Diante da situa\u00e7\u00e3o, nem mesmo a Advocacia Geral da Uni\u00e3o (AGU) sabe como proceder.<\/p>\n<p align=\"left\">O problema veio \u00e0 tona com uma reportagem da Ag\u00eancia P\u00fablica (9\/03\/2012), a qual revela o contrato assinado entre a CGV e a tribo mundurucu, concedendo direitos plenos \u00e0 empresa irlandesa sobre as terras da tribo, situadas no munic\u00edpio de Jacareacanga (PA), por um montante de 120 milh\u00f5es de d\u00f3lares, a serem pagos em 30 parcelas anuais de 4 milh\u00f5es de d\u00f3lares, entre 2012 e 2041. Com isto, a CGV passa a ter direitos sobre os 2.381.795 hectares da reserva ind\u00edgena (\u00e1rea equivalente a uma vez e meia a da cidade de S\u00e3o Paulo), para gerar cr\u00e9ditos de carbono por desmatamento evitado.<\/p>\n<p align=\"left\">O contrato prev\u00ea, como contrapartida, cl\u00e1usulas como: pleno e exclusivo direito sobre os cr\u00e9ditos de carbono e \u00abmais outros benef\u00edcios\u00bb a serem obtidos \u00abcom a biodiversidade\u00bb; a proibi\u00e7\u00e3o de qualquer modifica\u00e7\u00e3o ambiental na reserva ind\u00edgena, \u00abou qualquer outra atividade que venha a alterar a qualidade do carbono captado\u00bb; e a garantia dos \u00abdireitos sobre os cr\u00e9ditos obtidos, com quaisquer metodologias utilizadas\u00bb, al\u00e9m de \u00abtodos os direitos de quaisquer certificados ou benef\u00edcios que se venham a obter atrav\u00e9s da biodiversidade desta \u00e1rea\u00bb.<\/p>\n<p align=\"left\">Todavia, o mais chocante \u00e9 o inciso 3 do terceiro par\u00e1grafo do contrato:<\/p>\n<blockquote><p>Sem a autoriza\u00e7\u00e3o da empresa, o propriet\u00e1rio compromete-se a n\u00e3o efetuar qualquer interven\u00e7\u00e3o na \u00e1rea do projeto, nomeadamente: constru\u00e7\u00f5es fixas ou tempor\u00e1rias corte e ou extra\u00e7\u00e3o de madeira, queimadas, despejo de ind\u00edgenas, constru\u00e7\u00f5es de barragens ou reten\u00e7\u00e3o de cursos de \u00e1gua, minera\u00e7\u00e3o, agricultura, turismo, constru\u00e7\u00e3o de estradas ou qualquer outra atividade que possam ter efeitos negativos sobre a metodologia a ser utilizada pela empresa, para valida\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p><\/blockquote>\n<p align=\"left\">O curioso \u00e9 que, segundo o cacique Osmarino Manhoari, a maioria dos ind\u00edgenas \u00e9 contr\u00e1ria ao acordo, que teria sido assinado por uma minoria que ser\u00e1 a grande benefici\u00e1ria do contrato firmado com os irlandeses. \u00abPrimeiro, ele [o representante da CGV] falou que o projeto \u00e9 para defender os povos ind\u00edgenas. Disse que n\u00e3o podia mais mexer na terra, nem branco nem ind\u00edgena. Quando ouvi essa conversa, era bom&#8230; Depois, ele mandou o papel para a associa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s vimos que, onde esse projeto est\u00e1, n\u00e3o pode fazer ro\u00e7a, nem ca\u00e7ar, nem pescar. Hoje estamos acostumados de plantar mandioca, batata, cana, batata doce, banana. A gente pesca, ca\u00e7a, tira madeira quando precisa. Mas eles dizem que n\u00e3o podia mais, eles mesmos iam dar o dinheiro para comprar os alimentos. E os ind\u00edgenas n\u00e3o pode mais fazer nada, nada, nada. A\u00ed a maioria achou que n\u00e3o \u00e9 certo\u00bb, afirmou.<\/p>\n<p align=\"center\">Quem \u00e9 a CGV<\/p>\n<p align=\"left\">Um fato que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a escassez de informa\u00e7\u00f5es sobre a empresa irlandesa. Segundo o seu <a href=\"facebook.com\/people\/Celestial-Green-Ventures\">perfil no Facebook<\/a>, trata-se de uma institui\u00e7\u00e3o com a\u00e7\u00f5es na Bolsa de Valores de Frankfurt, com um total de 18.192.193 hectares contratados de florestas na Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica para a gera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos carbono, por meio de contratos de 30 anos de dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">Ainda segundo a mesma p\u00e1gina, a CGV possui 16 contratos nos mesmos moldes do assinado com os mundurucus, sendo que oito firmados com munic\u00edpios &#8211; como S\u00e3o Gabriel da Cachoeira e Boca do Acre (ambos, no Amazonas) -, e oito firmados com propriet\u00e1rios privados (nos quais se incluem as reservas ind\u00edgenas).<\/p>\n<p align=\"left\">Em <a href=\"celestialgreenventures.com\">seu s\u00edtio<\/a>, a empresa declara ter escrit\u00f3rios na Europa e na \u00c1sia, al\u00e9m da Am\u00e9rica Latina, e afirma que est\u00e1 negociando novos contratos em pa\u00edses como a Coreia do Sul, China, Mal\u00e1sia, Panam\u00e1 e Vietn\u00e3. No s\u00edtio, n\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre institui\u00e7\u00f5es parceiras, membros ou quaisquer detalhes sobre os acordos firmados no Brasil, exceto a de que os contratos cobrem uma \u00e1rea de 200 mil quil\u00f4metros quadrados do territ\u00f3rio nacional, \u00e1rea superior a nove vezes o estado do Sergipe.<\/p>\n<p align=\"left\">A CGV atua no com\u00e9rcio de cr\u00e9ditos de carbono com base no desmatamento evitado, o chamado mecanismo REDD (da sigla em ingl\u00eas para Redu\u00e7\u00e3o de Emiss\u00f5es por Desmatamento e Degrada\u00e7\u00e3o Florestal), modalidade ainda n\u00e3o regulamentada no Pa\u00eds. Em raz\u00e3o disto, os investidores da modalidade negociam seus cr\u00e9ditos no mercado volunt\u00e1rio, que movimenta valores da ordem de 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares anuais &#8211; bem inferiores aos do mercado de emiss\u00f5es europeu regulamentado pelo Protocolo de Kyoto, que movimenta cerca de 140 bilh\u00f5es de d\u00f3lares anuais. Ainda assim, grandes empresas, no seu af\u00e3 de estabelecer uma \u00abimagem sustent\u00e1vel\u00bb, t\u00eam investido no mercado volunt\u00e1rio &#8211; casos da Google, HSBC, DuPont e outras.<\/p>\n<p align=\"left\">Entretanto, a CGV n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica promotora de tais contratos de aliena\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas para os mercados de carbono. Uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo (11\/03\/2012) mostra que cidad\u00e3os privados tamb\u00e9m t\u00eam feito contratos com os \u00edndios. O agr\u00f4nomo Benedito Mill\u00e9o J\u00fanior afirma ter negociado t\u00edtulos de carbono provenientes de 5,2 milh\u00f5es de hectares em reservas ind\u00edgenas &#8211; mais que o dobro do territ\u00f3rio mundurucu. Segundo ele, as perspectivas dos investidores no setor s\u00e3o otimistas, e a sua previs\u00e3o \u00e9 de que este mercado cres\u00e7a com a regulamenta\u00e7\u00e3o do REDD &#8211; o grande sonho de consumo dos mercadores de carbono dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p align=\"center\">Passividade governamental<\/p>\n<p align=\"left\">Como tem sido habitual nessas quest\u00f5es, o Governo Federal tem se mostrado passivo e titubeante frente a uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o esdr\u00faxula. Ao tomar conhecimento do fato, a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) encaminhou \u00e0 AGU uma c\u00f3pia do contrato assinado pelos mundurucus e a CGV, pedindo um parecer jur\u00eddico sobre a mat\u00e9ria. A resposta, contudo, foi extremamente amb\u00edgua e, sem questionar o fato de ind\u00edgenas estarem negociando os direitos sobre as suas terras, o parecer refor\u00e7a o discurso da necessidade de regulariza\u00e7\u00e3o do esquema REDD, de modo a regulamentar esta modalidade do mercado de carbono &#8211; ou seja, admite que possam ser encontrados meios para regularizar futuras negocia\u00e7\u00f5es com os ind\u00edgenas. Todavia, o parecer tamb\u00e9m sugere que a presidente da Rep\u00fablica, Dilma Rousseff, interfira diretamente na quest\u00e3o, sem a media\u00e7\u00e3o da Funai.<\/p>\n<p align=\"left\">O presidente da Funai, M\u00e1rcio Meira, considera que os acordos assinados pela CGV com os \u00edndios \u00abn\u00e3o t\u00eam validade\u00bb (Ag\u00eancia P\u00fablica, 14\/03\/2012). Ele frisou que os acordos foram assinados sem a presen\u00e7a de representantes do \u00f3rg\u00e3o e citou o parecer da AGU para qualificar tais acertos como \u00abilegais\u00bb. Ele ainda informou que a Funai est\u00e1 distribuindo cartilhas aos ind\u00edgenas, orientado-os a n\u00e3o assinar tais contratos.<\/p>\n<p align=\"left\">Meira enfatiza que as terras ind\u00edgenas s\u00e3o propriedade da Uni\u00e3o e que, portanto, os contratos &#8211; que tratam os \u00edndios como \u00abpropriet\u00e1rios\u00bb &#8211; s\u00e3o inv\u00e1lidos. Todavia, defende a regulamenta\u00e7\u00e3o do REDD e afirma que a consolida\u00e7\u00e3o de um mecanismo de especula\u00e7\u00e3o com as terras ind\u00edgenas, com base em cr\u00e9ditos de carbono, constitui uma proposta interessante para gerar renda para os \u00edndios isolados:<\/p>\n<blockquote><p>O servi\u00e7o que os ind\u00edgenas prestam \u00e0 humanidade na preserva\u00e7\u00e3o de floresta tropical tem que ser reconhecido. A Funai fez isso quando regulamentou um aux\u00edlio aos ind\u00edgenas no trabalho de monitoramento territorial. Mas temos \u00e9 que olhar para frente e buscar um mecanismo de cr\u00e9dito de carbono. \u00c9 uma boa ideia, mas n\u00e3o pode ser utilizada para os interesses econ\u00f4micos apenas de terceiros. Sendo regulamentado, esse \u00e9 o principal fator que pode contribuir para beneficiar os ind\u00edgenas.<\/p><\/blockquote>\n<p align=\"left\">O epis\u00f3dio denota, uma vez mais, evidentes desdobramentos lesivos \u00e0 soberania nacional proporcionados pela nefasta pol\u00edtica indigenista vigente. E, ainda mais preocupante que o fato de investidores estrangeiros estarem atuando com tanta desenvoltura no Pa\u00eds, \u00e9 a passividade das institui\u00e7\u00f5es representativas do poder p\u00fablico, prejudicadas por uma vis\u00e3o ideol\u00f3gica das quest\u00f5es ind\u00edgenas e ambientais e incapazes de enxergar as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e estrat\u00e9gicas de tais esquemas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma iniciativa quase surreal do aparato ambientalista internacional est\u00e1 induzindo ind\u00edgenas brasileiros a, literalmente, alienar suas terras a empresas estrangeiras que operam no mercado de cr\u00e9ditos de carbono. 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