{"id":401,"date":"2012-11-16T15:48:56","date_gmt":"2012-11-16T15:48:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=401"},"modified":"2012-11-16T15:48:56","modified_gmt":"2012-11-16T15:48:56","slug":"o-oraculo-do-fmi-e-a-escrita-na-parede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/o-oraculo-do-fmi-e-a-escrita-na-parede\/","title":{"rendered":"O or\u00e1culo do FMI e a escrita na parede"},"content":{"rendered":"<p>Quase na surdina, em agosto \u00faltimo, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) divulgou um estudo com uma proposta que, se implementada, pode constituir um dos pilares fundamentais de uma nova e revolucion\u00e1ria ordem econ\u00f4mica mundial. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 elementar: devolver aos Estados nacionais soberanos a capacidade de emiss\u00e3o de moeda, acabando com o privil\u00e9gio concedido, nos \u00faltimos tr\u00eas s\u00e9culos, ao sistema de bancos centrais sob controle ou influ\u00eancia privada.<\/p>\n<p>Intitulado<em> \u00abO Plano de Chicago revisitado\u00bb<\/em>, o estudo, elaborado pelos economistas Jaromir Benes e Michael Kumhof, est\u00e1 sendo equiparado a \u00abuma varinha m\u00e1gica\u00bb pelo insuspeito editor de Neg\u00f3cios Internacionais do\u00a0<em>Daily Telegraph<\/em>\u00a0londrino, Ambrose Evans-Pritchard, que, nos \u00faltimos tempos, tem demonstrado que certos setores do\u00a0Establishment\u00a0brit\u00e2nico come\u00e7am a considerar que as liberdades da alta finan\u00e7a global foram longe demais e necessitam ser enquadradas. Em sua coluna de 21 de outubro, ele afirmou que o plano \u00abpoderia eliminar a d\u00edvida p\u00fablica l\u00edquida dos EUA em um piscar de olhos e, por implica\u00e7\u00e3o, fazer o mesmo para a Gr\u00e3-Bretanha, Alemanha, It\u00e1lia ou Jap\u00e3o\u00bb. Ademais, afirma,<\/p>\n<blockquote><p>poder-se-ia abater a d\u00edvida privada em 100% do PIB, fomentar o crescimento, estabilizar os pre\u00e7os e destronar os banqueiros, tudo ao mesmo tempo. Isto poderia ser feito de forma limpa e indolor, por decis\u00e3o legislativa, muito mais rapidamente do que qualquer um possa imaginar.<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora tenha sido apresentado como um\u00a0Working Paper, que n\u00e3o necessariamente representa a posi\u00e7\u00e3o oficial do FMI, o mero fato de que funcion\u00e1rios do Fundo estejam trabalhando numa proposta contr\u00e1ria \u00e0 pr\u00f3pria ess\u00eancia da hegemonia privada sobre o sistema financeiro mundial demonstra que, com o vis\u00edvel agravamento da crise global, o impens\u00e1vel come\u00e7a a se tornar pens\u00e1vel.<\/p>\n<p>O nome do estudo se refere ao plano originalmente elaborado pelos economistas estadunidenses Henry Simons e Irving Fischer, em 1936, para podar os excessos da banca privada, separando as fun\u00e7\u00f5es de emiss\u00e3o de moeda e cr\u00e9dito, com a exig\u00eancia de que os bancos retivessem como reserva 100% dos seus dep\u00f3sitos. Na ocasi\u00e3o, a acirrada oposi\u00e7\u00e3o de Wall Street impediu a ado\u00e7\u00e3o do plano, que, juntamente com outras iniciativas do governo do presidente Franklin D. Roosevelt, como a Lei Glass-Steagall, que separava os bancos comerciais dos de investimento, poderia ter colocado um ponto final na hegemonia privada sobre as finan\u00e7as e sinalizado um rumo bem mais promissor para a evolu\u00e7\u00e3o da Humanidade.<\/p>\n<p>O documento pode ser encontrado\u00a0<a href=\"http:\/\/www.imf.org\/external\/pubs\/ft\/wp\/2012\/wp12202.pdf\">no s\u00edtio do FMI<\/a>, mas \u00e9 bastante t\u00e9cnico e de dif\u00edcil compreens\u00e3o para os leigos, pelo que nos limitaremos a reproduzir-lhe o resumo e os coment\u00e1rios de Evans-Pritchard.<\/p>\n<p>No resumo, os autores justificam o trabalho:<\/p>\n<blockquote><p>No auge da Grande Depress\u00e3o, v\u00e1rios economistas importantes dos EUA apresentaram uma proposta de reforma monet\u00e1ria que se tornou conhecida como o Plano de Chicago. Ela propunha uma separa\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias e de cr\u00e9dito do sistema banc\u00e1rio, pela exig\u00eancia de uma reserva de 100% dos seus dep\u00f3sitos. Irving Fischer (1936) alegava as seguintes vantagens para este plano: 1) muito melhor controle de uma importante fonte de flutua\u00e7\u00f5es de ciclos de neg\u00f3cios, s\u00fabitos aumentos e contra\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito banc\u00e1rio e da oferta de dinheiro criado pelos bancos; 2) elimina\u00e7\u00e3o completa de corridas aos bancos; 3) dram\u00e1tica redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica (l\u00edquida); 4) dram\u00e1tica redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida privada, na medida em que a cria\u00e7\u00e3o de dinheiro n\u00e3o requeira uma simult\u00e2nea cria\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas. N\u00f3s estudamos estas proposi\u00e7\u00f5es, pela inser\u00e7\u00e3o de um modelo abrangente e cuidadosamente calibrado do sistema banc\u00e1rio em um modelo DSGE [Equil\u00edbrio Geral Estoc\u00e1stico Din\u00e2mico &#8211; n.e.] da economia dos EUA. Encontramos apoio para todas as quatro proposi\u00e7\u00f5es de Fisher. Ademais, os ganhos de produ\u00e7\u00e3o se aproximam de 10% e a infla\u00e7\u00e3o estacion\u00e1ria pode cair a zero, sem criar problemas para a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria.<\/p><\/blockquote>\n<p>Se os autores parecerem exagerados, vejamos as considera\u00e7\u00f5es de Evans-Pritchard, que soam como as de alguns dos mais l\u00facidos e enf\u00e1ticos cr\u00edticos da financeiriza\u00e7\u00e3o da economia mundial:<\/p>\n<blockquote><p>Especificamente, isso significa um ataque ao \u00absistema banc\u00e1rio de reserva fracional\u00bb. Se os emprestadores forem for\u00e7ados a manter uma reserva de 100% dos dep\u00f3sitos, eles perder\u00e3o o exorbitante privil\u00e9gio de criar dinheiro a partir do nada. A na\u00e7\u00e3o retoma o controle soberano sobre a oferta de dinheiro. N\u00e3o h\u00e1 mais corridas aos bancos e menos ciclos de expans\u00e3o-contra\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito. A prestidigita\u00e7\u00e3o financeira far\u00e1 o resto. (&#8230;)<\/p>\n<p>Bernes e Kumhof argumentam que o trauma dos ciclos de cr\u00e9dito &#8211; causados pela cria\u00e7\u00e3o privada de dinheiro &#8211; remonta \u00e0s profundezas da Hist\u00f3ria e est\u00e1 na origem dos jubileus de d\u00edvidas promovidos pelas antigas religi\u00f5es da Mesopot\u00e2mia e do Oriente M\u00e9dio. H\u00e1 milhares de anos, os fracassos das colheitas j\u00e1 provocavam inadimpl\u00eancias sistem\u00e1ticas, levando \u00e0 cobran\u00e7a das garantias e \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de riqueza nas m\u00e3os dos emprestadores. Estes epis\u00f3dios n\u00e3o eram causados apenas pelo tempo, como se pensava. Eles eram amplificados pelos efeitos do cr\u00e9dito. O l\u00edder ateniense S\u00f3lon implementou o primeiro Plano de Chicago\/<em>New Deal<\/em> conhecido, em 599 a.C., para aliviar os agricultores endividados com oligarcas que desfrutavam do privil\u00e9gio da cunhagem privada de dinheiro. Ele cancelou d\u00edvidas, restituiu terras tomadas por credores, estabeleceu pre\u00e7os b\u00e1sicos para as mercadorias (em grande medida, como fez Franklin Roosevelt) e inundou conscientemente a oferta de dinheiro com emiss\u00f5es estatais \u00ablivres de d\u00edvidas\u00bb.<\/p>\n<p>Os romanos enviaram uma delega\u00e7\u00e3o para estudar as reformas de S\u00f3lon, 150 anos depois, e copiaram as id\u00e9ias, estabelecendo o seu pr\u00f3prio sistema de dinheiro\u00a0fiat, nos termos da Lex Aternia, em 454 a.C. (&#8230;) Alguns autores afirmam que Roma come\u00e7ou a perder o seu esp\u00edrito de solidariedade quando permitiu que uma oligarquia desenvolvesse um sistema de cunhagem privado de moedas de prata, durante as Guerras P\u00fanicas. O Senado perdeu o controle sobre o dinheiro. Poder\u00edamos cham\u00e1-lo o sistema banc\u00e1rio sombra de Roma. As evid\u00eancias sugerem que ele se tornou uma m\u00e1quina para a acumula\u00e7\u00e3o de riqueza pela elite.<\/p>\n<p>O controle soberano ou papal sobre as moedas persistiu durante a Idade M\u00e9dia, at\u00e9 que a Inglaterra quebrou o molde, em 1666. Benes e Kumhof dizem que este foi o in\u00edcio da era de expans\u00f5es e quebras.<\/p><\/blockquote>\n<p>Demonstrando que certos v\u00edcios s\u00e3o dif\u00edceis de se abandonar, Evans-Pritchard tem uma reca\u00edda:<\/p>\n<blockquote><p>Da mesma forma, poder-se-ia dizer que isso [o controle privado da moeda] abriu o caminho para a revolu\u00e7\u00e3o agr\u00edcola da Inglaterra, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, e a revolu\u00e7\u00e3o industrial que a seguiu logo depois, e o maior salto econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico jamais visto. Mas n\u00e3o sofismemos.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em seguida, retoma a argumenta\u00e7\u00e3o racional, afirmando:<\/p>\n<blockquote><p>O efeito benigno da proposta seria uma mudan\u00e7a do endividamento nacional para o super\u00e1vit nacional, como num passe de m\u00e1gica. \u00abComo, nos termos do Plano de Chicago, os bancos teriam que tomar emprestado do Tesouro, para manter reservas capazes de bancar plenamente os passivos, os governos adquirem ativos bastante grandes frente aos bancos. A nossa an\u00e1lise mostra que o governo fica com uma carga de d\u00edvida l\u00edquida muito mais baixa, de fato, negativa.\u00bb O estudo do FMI mostra que os passivos totais do sistema financeiro dos EUA &#8211; incluindo o sistema banc\u00e1rio sombra &#8211; est\u00e3o na ordem de 200% do PIB. A nova regra de reservas criaria uma bonan\u00e7a. Isto seria usado para uma \u00abrecompra de d\u00edvida privada, potencialmente muito grande\u00bb, talvez, de 100% do PIB. (&#8230;)<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao mesmo tempo em que afirma n\u00e3o ter posi\u00e7\u00e3o firmada sobre a proposta, o colunista do\u00a0Telegraph\u00a0admite, com franqueza, que a sua ado\u00e7\u00e3o \u00abseria mudar a natureza do capitalismo ocidental\u00bb. E conclui, de forma absolutamente certeira: \u00abUma coisa \u00e9 certa. A\u00a0<em>City<\/em>\u00a0de Londres ter\u00e1 um enorme problema para manter os seus ganhos, se qualquer variante do Plano de Chicago chegar a obter um amplo apoio.\u00bb<\/p>\n<p>Para os adeptos dos significados subjetivos, o texto dos economistas do FMI n\u00e3o deixa de ter uma ir\u00f4nica conota\u00e7\u00e3o b\u00edblica, como uma representa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da proverbial escrita na parede descrita no Livro de Daniel, ap\u00f3s o festim de Baltazar: \u00abMen\u00ea, Men\u00ea, Tequel, Parsin &#8211; Deus mediu o teu reino e deu-lhe fim; tu foste pesado na balan\u00e7a e julgado deficiente; teu reino foi dividido e entregue aos medos e aos persas.\u00bb<\/p>\n<p>Qui\u00e7\u00e1, a \u00abescrita na parede\u00bb signifique que o reinado da\u00a0<em>City<\/em> e Wall Street sobre as finan\u00e7as globais pode estar chegando ao fim. Se assim for, a Humanidade penhorada agradecer\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase na surdina, em agosto \u00faltimo, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) divulgou um estudo com uma proposta que, se implementada, pode constituir um dos pilares fundamentais de uma nova e revolucion\u00e1ria ordem econ\u00f4mica mundial. 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