{"id":38,"date":"2012-02-17T17:20:46","date_gmt":"2012-02-17T17:20:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=38"},"modified":"2012-02-17T17:20:46","modified_gmt":"2012-02-17T17:20:46","slug":"brasil-protecao-e-projeto-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/brasil-protecao-e-projeto-nacional\/","title":{"rendered":"Brasil: prote\u00e7\u00e3o e projeto nacional"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">A palavra protecionismo e suas variantes ganharam uma conota\u00e7\u00e3o anacr\u00f4nica, como se quem a proferisse estivesse fora de sintonia com os ventos modernizantes da \u00abglobaliza\u00e7\u00e3o\u00bb. No Brasil, \u00e9 comum verem-se editoriais e coment\u00e1rios midi\u00e1ticos empregando-as de forma quase pejorativa, sugerindo que o seu uso j\u00e1 seria suficiente para se rotular algu\u00e9m como um retr\u00f3grado ou saudosista de tempos idos. N\u00e3o obstante, pa\u00edses com governos mais assertivos t\u00eam tomado medidas ostensivamente protetoras de seus setores produtivos, ou pelo menos parte deles, demonstrando que colocam seus interesses acima da ret\u00f3rica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Em dezembro \u00faltimo, o Supertucano da Embraer venceu uma concorr\u00eancia internacional, no valor de 355 milh\u00f5es de d\u00f3lares, para o fornecimento de 20 aeronaves de ataque leve \u00e0 For\u00e7a A\u00e9rea dos EUA. O avi\u00e3o brasileiro, reconhecidamente o melhor do mundo em sua classe, venceu um concorrente da Hawker Beechcraft, um avi\u00e3o de treinamento adaptado, que simplesmente n\u00e3o preenchia os requisitos da concorr\u00eancia. Incoformada, a empresa estadunidense recorreu \u00e0 Justi\u00e7a e conseguiu uma suspens\u00e3o do resultado, enquanto acionava seu lobby no Congresso para reverter o processo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">No in\u00edcio de fevereiro, o governo da China anunciou que n\u00e3o permitir\u00e1 mais a opera\u00e7\u00e3o, em seus portos, de cargueiros com capacidade superior a 300 mil toneladas. A medida tem um \u00fanico alvo, a Vale, que pretendia usar tais embarca\u00e7\u00f5es nas exporta\u00e7\u00f5es de min\u00e9rio de ferro ao pa\u00eds asi\u00e1tico. O Minist\u00e9rio dos Transportes chin\u00eas admitiu, candidamente, que a decis\u00e3o foi tomada para proteger as companhias de navega\u00e7\u00e3o nacionais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Ao mesmo tempo, foram divulgados os n\u00fameros da balan\u00e7a comercial de janeiro, que registrou um d\u00e9ficit de 1,3 bilh\u00e3o de d\u00f3lares, o pior resultado para o m\u00eas desde 1973. Por\u00e9m, mais preocupante que o saldo negativo \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o das quedas setoriais nas exporta\u00e7\u00f5es, que demonstraram, nitidamente, os riscos da crescente depend\u00eancia dos mercados de commodities: min\u00e9rio de ferro (-31,1%); milho em gr\u00e3os (-7,6%); farelo de soja (-7%); caf\u00e9 em gr\u00e3os (-5,1%); e min\u00e9rio de cobre (-3,7%).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Os n\u00fameros da produ\u00e7\u00e3o industrial n\u00e3o ajudam o quadro. Al\u00e9m de registrar um p\u00edfio crescimento geral de apenas 0,3% em 2011, o setor ainda se encontra produzindo 3,2% menos que em setembro de 2008, por ocasi\u00e3o da quebra do Lehman Brothers. E os desempenhos setoriais s\u00e3o bastante desiguais, tendo alguns deles encolhido em propor\u00e7\u00f5es preocupantes no per\u00edodo, como o de equipamentos eletr\u00f4nicos e de comunica\u00e7\u00f5es (36%) e equipamentos e material el\u00e9trico, cal\u00e7ados e artigos de couro e t\u00eaxteis (em torno de 20%). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">O gerente da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, Andr\u00e9 Macedo, explica: \u00abEm geral, est\u00e3o em melhores condi\u00e7\u00f5es os segmentos que s\u00e3o mais protegidos da importa\u00e7\u00e3o e que se beneficiam do aumento da renda e do consumo interno, al\u00e9m dos que investiram mais em inova\u00e7\u00e3o (<em>O Globo<\/em>, 31\/01\/2012).\u00bb<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Outra advert\u00eancia importante veio do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica e Aplicada (Ipea), que acaba de divulgar o estudo Produtividade no Brasil nos anos 2000-2009, cujas conclus\u00f5es deveriam estar sendo ativamente discutidas e, principalmente, tratadas com a devida seriedade pelas lideran\u00e7as de todos os setores, a come\u00e7ar pelo Governo Federal e o Congresso. A principal delas \u00e9 direta: a alta participa\u00e7\u00e3o dos setores ligados aos recursos naturais na economia, principalmente a ind\u00fastria extrativa, os servi\u00e7os financeiros e a agropecu\u00e1ria, colocam em risco o crescimento sustent\u00e1vel do Pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">O estudo observa que a forte instabilidade internacional decorrente da crise global imp\u00f5e s\u00e9rios osbst\u00e1culos a uma estrat\u00e9gia de crescimento sustentado de longo prazo que se baseie nas exporta\u00e7\u00f5es de commodities, cujos pre\u00e7os s\u00e3o determinados no exterior: \u00abPara um pa\u00eds que necessita ampliar suas condi\u00e7\u00f5es de competitividade externa, essas caracter\u00edsticas devem ser vistas como, no m\u00ednimo, preocupantes em uma estrat\u00e9gia consistente de desenvolvimento industrial e econ\u00f4mico (Ag\u00eancia Brasil, 3\/02\/2012).\u00bb<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">E o olhar estrangeiro tamb\u00e9m se mostra preocupado com a passividade brasileira diante da acentuada perda de import\u00e2ncia relativa da ind\u00fastria no Pa\u00eds. Depois do chileno Gabriel Palma, que considerou a desindustrializa\u00e7\u00e3o em curso \u00abum ato de vandalismo econ\u00f4mico sem igual\u00bb, o economista estadunidense Mark Weisbrot, diretor do Centro de Pesquisas Econ\u00f4micas e Pol\u00edticas (CEPR) de Washington, observa, na <em>Folha de S. Paulo <\/em>de 1\u00ba. de fevereiro, que desde 2002 a ind\u00fastria respondeu por apenas 9,7% dos empregos criados na economia brasileira, contra 32% em servi\u00e7os empresariais e finan\u00e7as. Para ele, esta \u00abn\u00e3o \u00e9 uma boa tend\u00eancia para o futuro do Brasil\u00bb.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">A revers\u00e3o dessa tend\u00eancia \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o requer mais que medidas pontuais, como a\u00e7\u00f5es paliativas para proteger este ou aquele setor, mas um compromisso abrangente com uma pol\u00edtica integrada que tenha a produ\u00e7\u00e3o industrial como o \u00abmotor\u00bb do processo de desenvolvimento, de forma a se promover uma efetiva sinergia com o setor prim\u00e1rio e o de servi\u00e7os &#8211; como t\u00eam insistido, entre outros, o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria de M\u00e1quinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">A despeito dos modismos e da ret\u00f3rica ideol\u00f3gica sobre uma suposta era \u00abp\u00f3s-industrial\u00bb, a realidade \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o de bens f\u00edsicos de todos os tipos ainda \u00e9 e continuar\u00e1 sendo por um longo tempo a base econ\u00f4mica imprescind\u00edvel de qualquer sociedade moderna. E um pa\u00eds com os recursos humanos e naturais do Brasil n\u00e3o pode se dar ao luxo de dilapidar um patrim\u00f4nio produtivo constru\u00eddo com sacrif\u00edcios ao longo de oito d\u00e9cadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Por conseguinte, a disposi\u00e7\u00e3o de preservar esse patrim\u00f4nio constitui um fator chave para determinar o rumo e o posicionamento do Pa\u00eds na reconfigura\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio global. Isto implica, sim, na ado\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica industrial abrangente e, acima de tudo, em um projeto nacional de desenvolvimento &#8211; express\u00f5es igualmente consideradas fora de moda, mas que ter\u00e3o que ser recuperadas, se se quiser reverter os efeitos da crise sist\u00eamica global e seus reflexos para o crescimento nacional.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A palavra protecionismo e suas variantes ganharam uma conota\u00e7\u00e3o anacr\u00f4nica, como se quem a proferisse estivesse fora de sintonia com os ventos modernizantes da \u00abglobaliza\u00e7\u00e3o\u00bb. 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