{"id":3757,"date":"2013-09-30T17:35:45","date_gmt":"2013-09-30T17:35:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=699"},"modified":"2013-09-30T17:35:45","modified_gmt":"2013-09-30T17:35:45","slug":"espionagem-fazendo-o-dever-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/espionagem-fazendo-o-dever-de-casa\/","title":{"rendered":"Espionagem: hora de fazer o dever de casa"},"content":{"rendered":"<p>A carraspana dada pela presidente Dilma Rousseff no governo dos EUA, na abertura da Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, foi oportuna e simb\u00f3lica, pois n\u00e3o \u00e9 todo dia que os EUA se veem confrontados ali por um pa\u00eds considerado amigo. Em meio aos desdobramentos do esc\u00e2ndalo de espionagem deflagrado pelo ex-analista de intelig\u00eancia Edward Snowden &#8211; que ainda est\u00e3o distantes de um fim -, a dura cobran\u00e7a da presidente brasileira est\u00e1 recebendo no exterior, em geral, uma relev\u00e2ncia bem mais significativa que muitas avalia\u00e7\u00f5es &#8211; algumas quase depreciativas &#8211; de comentaristas nacionais, principalmente, daqueles vinculados aos setores econ\u00f4micos com interesses internacionais. Um exemplo \u00e9 o coment\u00e1rio do s\u00edtio franco-belga De Defensa, publicado em 25 de setembro e intitulado \u00abRoussef: l\u00edder anti-Sistema na ONU\u00bb.<\/p>\n<p>Evidentemente, o uso da palavra \u00abl\u00edder\u00bb \u00e9 ret\u00f3rico e os analistas do s\u00edtio n\u00e3o est\u00e3o rotulando Dilma como uma vers\u00e3o de saias do falecido incendi\u00e1rio venezuelano Hugo Ch\u00e1vez (que, no mesmo lugar, equiparou George W. Bush a Satan\u00e1s), entregando-lhe a lideran\u00e7a da rea\u00e7\u00e3o mundial contra o que chamam o \u00abSistema BAO\u00bb &#8211; brit\u00e2nico-americano-ocidental. N\u00e3o obstante, habituados a inserir suas an\u00e1lises no contexto da crise civilizat\u00f3ria global, eles atribuem ao discurso um car\u00e1ter \u00abexcepcional\u00bb:<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) O caso da NSA, tal como nos \u00e9 revelado, \u00e9 de outra t\u00eampera, \u00e9 um caso \u00e0 parte, \u00fanico em sua dimens\u00e3o ontol\u00f3gica; ele \u00e9 \u00abexcepcional\u00bb, como pretende ser a na\u00e7\u00e3o que o instrumenta, e \u00e9 isto o que assinala a interven\u00e7\u00e3o de Rousseff. E, como estamos neste campo, \u00e9 assim que esta interven\u00e7\u00e3o deve ser igualmente apreciada, como \u00abexcepcional\u00bb.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o obstante, como temos enfatizado neste espa\u00e7o, desde o in\u00edcio da extens\u00e3o do \u00ab<em>Affair<\/em>\u00a0Snowden\u00bb no Brasil, para ser coerente com a ret\u00f3rica, Dilma ter\u00e1 que iniciar imediatamente o dever de casa, deixando para tr\u00e1s o descaso at\u00e1vico com que as quest\u00f5es de seguran\u00e7a nacional, intelig\u00eancia inclusive, costumam ser tratadas pelas autoridades e lideran\u00e7as brasileiras. Por exemplo, a tramita\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Intelig\u00eancia, que deve orientar e regulamentar a atua\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia do governo, encontra-se aguardando a chancela presidencial desde o final de 2010.<\/p>\n<p>Em abril deste ano, a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Oficiais de Intelig\u00eancia (AOFI) divulgou uma nota cobrando a aprova\u00e7\u00e3o do texto legal, reiterando a urg\u00eancia de uma defini\u00e7\u00e3o mais clara das atribui\u00e7\u00f5es da intelig\u00eancia de Estado. Da mesma forma, os recursos previstos para a rubrica \u00abImplanta\u00e7\u00e3o do Sistema de Defesa Cibern\u00e9tica\u00bb no Projeto de Lei Or\u00e7ament\u00e1ria Anual para 2014 foram reduzidos em rela\u00e7\u00e3o aos j\u00e1 parcos n\u00fameros de 2013, caindo de R$ 90 milh\u00f5es para R$ 70 milh\u00f5es (<em>Monitor Mercantil<\/em>, 25\/09\/2013). Aparentemente, nada consegue demover as autoridades brasilienses da sua ades\u00e3o p\u00e9trea \u00e0 agenda de prioridade m\u00e1xima para a forma\u00e7\u00e3o do super\u00e1vit prim\u00e1rio e o servi\u00e7o da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Ainda assim, as autoridades e empresas estatais brasileiras podem recorrer a algumas medidas de custo relativamente baixo para se proteger da bisbilhotice dos ciberespi\u00f5es da Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional (NSA), desde que se disponham a dar um pequeno recuo tecnol\u00f3gico em suas comunica\u00e7\u00f5es. Uma delas \u00e9 isolar da internet as redes intranet dos \u00f3rg\u00e3os de governo e das estatais. No caso dos minist\u00e9rios, n\u00e3o seria dif\u00edcil estabelecer uma intranet coletiva com redes de fibra \u00f3tica, na qual operassem apenas equipamentos fisicamente isolados da internet; para os trabalhos que requeressem o acesso \u00e0 rede mundial, usar-se-iam outros equipamentos. Outro recurso \u00e9 evitar ao m\u00e1ximo as liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas para assuntos sens\u00edveis &#8211; li\u00e7\u00e3o que, de resto, j\u00e1 era ensinada h\u00e1 d\u00e9cadas por importantes pol\u00edticos brasileiros, como Tancredo Neves e outros. Como as reparti\u00e7\u00f5es ficam a pouca dist\u00e2ncia entre si, na Esplanada dos Minist\u00e9rios, o uso de malotes e mensageiros pode resolver boa parte das necessidades. O mesmo recurso pode ser empregado pelas estatais, com os devidos cuidados com as empresas respons\u00e1veis pela circula\u00e7\u00e3o dos malotes. At\u00e9 mesmo uma empresa como a Petrobras poderia usar este recurso para a transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es como os dados de produ\u00e7\u00e3o de suas plataformas, em vez de utilizar a internet, pelo menos, enquanto um servi\u00e7o de correio eletr\u00f4nico nacional mais seguro n\u00e3o estiver dispon\u00edvel. D\u00e1 mais trabalho, mas pode ser mais seguro, no caso de informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se deseje que cheguem a olhos e ouvidos indiscretos.<\/p>\n<p>Antes que se pense que tais sugest\u00f5es s\u00e3o pueris, vale lembrar que o governo da R\u00fassia est\u00e1 comprando m\u00e1quinas de escrever na Alemanha, para a reda\u00e7\u00e3o de documentos sigilosos. Igualmente relevante \u00e9 a li\u00e7\u00e3o da mil\u00edcia libanesa Hisbol\u00e1 durante a guerra de 2006 contra Israel, que driblou as sofisticadas capacidades de intelig\u00eancia eletr\u00f4nica israelenses utilizando mensageiros em motocicletas, ao mesmo tempo em que utilizava com grande efici\u00eancia os seus n\u00e3o menos capazes recursos eletr\u00f4nicos obtidos junto ao Ir\u00e3, cujas sofistica\u00e7\u00e3o e efici\u00eancia nada ficam a dever \u00e0s das pot\u00eancias ocidentais (e tamb\u00e9m seria conveniente tomar nota deste fato, agora que o Ir\u00e3 est\u00e1 se reaproximando do Ocidente).<\/p>\n<p>Nada disso, evidentemente, pode dispensar provid\u00eancias de maior alcance, como a disponibilidade, no prazo mais curto poss\u00edvel, de sat\u00e9lites de comunica\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas, de redes de fibra \u00f3tica interligando os pa\u00edses sul-americanos e, possivelmente, os parceiros do grupo BRICS, o sistema de e-mail gerenciado pelos Correios e outras. Algumas delas j\u00e1 est\u00e3o sendo implementadas, mas \u00e9 preciso que todas, efetivamente, saiam do papel e n\u00e3o sejam apenas manifesta\u00e7\u00f5es de boas inten\u00e7\u00f5es, seguindo a velha tradi\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Seja como for, o fato \u00e9 que o Pa\u00eds n\u00e3o pode mais esquivar-se de investimentos s\u00e9rios em seguran\u00e7a nacional, escudando-se na velha ilus\u00e3o de que \u00abn\u00e3o tem inimigos externos\u00bb. Nunca \u00e9 demais repetir o velho &#8211; e mais que nunca atual &#8211; refr\u00e3o de que n\u00e3o se pode improvisar um sistema de defesa e intelig\u00eancia eficiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A carraspana dada pela presidente Dilma Rousseff no governo dos EUA, na abertura da Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, foi oportuna e simb\u00f3lica, pois n\u00e3o \u00e9 todo dia que os EUA se veem confrontados ali por um pa\u00eds considerado amigo. 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