{"id":3745,"date":"2013-06-21T18:24:17","date_gmt":"2013-06-21T18:24:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=608"},"modified":"2013-06-21T18:24:17","modified_gmt":"2013-06-21T18:24:17","slug":"brasil-sentimento-nacional-sai-as-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/brasil-sentimento-nacional-sai-as-ruas\/","title":{"rendered":"Brasil: sentimento nacional sai \u00e0s ruas"},"content":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 por 0,20, \u00e9 por direitos.\u201d Os dizeres do cartaz portado por um cidad\u00e3o paulistano sintetizavam a percep\u00e7\u00e3o que come\u00e7a a se firmar sobre as motiva\u00e7\u00f5es mais profundas das impressionantes manifesta\u00e7\u00f5es que se multiplicam pelo Pa\u00eds, desde a semana passada. De fato, a rea\u00e7\u00e3o aos reajustes das passagens de \u00f4nibus representou apenas a proverbial gota d\u2019\u00e1gua do crescente rep\u00fadio \u00e0 ordem pol\u00edtico-partid\u00e1ria prevalecente, marcada por um distanciamento cada vez maior entre as pol\u00edticas p\u00fablicas e as aspira\u00e7\u00f5es e necessidades da popula\u00e7\u00e3o, quase sempre, colocadas em plano secund\u00e1rio diante das agendas de \u201cneg\u00f3cios como sempre\u201d praticadas pelos aparelhos pol\u00edticos e seus associados e patrocinadores privados. E, como sugerem as rea\u00e7\u00f5es de perplexidade e dos reflexos condicionados das lideran\u00e7as pol\u00edticas frente aos acontecimentos, estamos diante de um fen\u00f4meno novo. Trata-se da emerg\u00eancia de um sentimento nacional, que poder\u00e1 preparar o terreno para uma nova fase da hist\u00f3ria brasileira, na qual o distanciamento hist\u00f3rico entre as classes dirigentes e a maioria da sociedade possa dar lugar a uma converg\u00eancia e harmoniza\u00e7\u00e3o de interesses entre os dois grupos.<\/p>\n<p>Acima de tudo, os manifestantes demonstram uma indigna\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito contida contra as distor\u00e7\u00f5es intr\u00ednsecas da estrutura do Estado brasileiro, que, no cotidiano da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o, se traduz em mazelas que dificultam sobremaneira o direito inalien\u00e1vel de cada cidad\u00e3o ao pleno desenvolvimento dos seus potenciais individuais. A lista \u00e9 sobejamente conhecida: defici\u00eancias de infraestrutura f\u00edsica de toda ordem, de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e servi\u00e7os p\u00fablicos dignos, burocracia paralisante, tributa\u00e7\u00e3o escorchante, impunidade para a corrup\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia e, acima de tudo, um sufocante favorecimento do rentismo sobre as atividades produtivas, na formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas econ\u00f4micas. Quanto a este \u00faltimo item, embora poucos indiv\u00edduos se d\u00eaem conta dele, a maioria \u00e9 capaz de intu\u00ed-lo, diante de fatos como a dedica\u00e7\u00e3o da maior fatia do or\u00e7amento federal (45% em 2011) para o servi\u00e7o da d\u00edvida p\u00fablica, enquanto os investimentos em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade p\u00fablica e infraestrutura, entre outros itens que deveriam ser priorit\u00e1rios, t\u00eam que disputar as sobras or\u00e7ament\u00e1rias e enfrentar os contingenciamentos e a in\u00e9rcia burocr\u00e1tica, que retardam consideravelmente at\u00e9 mesmo dota\u00e7\u00f5es devidamente aprovadas.<\/p>\n<p>Muitos dos manifestantes mostraram o vis\u00edvel descr\u00e9dito do tradicional argumento da \u201cescassez de recursos\u201d, comumente utilizado pelos governantes para justificar a ina\u00e7\u00e3o diante do ac\u00famulo de problemas, apontando para a facilidade com que surgiram os recursos p\u00fablicos para a infraestrutura das competi\u00e7\u00f5es esportivas com as quais o Brasil se comprometeu, boa parte da qual j\u00e1 est\u00e1 sendo e ser\u00e1 transferida \u00e0 iniciativa privada, por meio de concess\u00f5es. Nada contra tais eventos, mas, se dezenas de bilh\u00f5es de reais de investimentos p\u00fablicos podem ser colocados neles \u2013 inclusive, em \u201carenas\u201d constru\u00eddas em cidades de escassa tradi\u00e7\u00e3o futebol\u00edstica \u2013, fica dif\u00edcil se justificar por que a mesma disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser colocada, por exemplo, na infraestrutura de transportes e saneamento ou em um amplo esfor\u00e7o de reformula\u00e7\u00e3o do sistema educacional, que possa qualificar melhor a popula\u00e7\u00e3o para enfrentar os desafios das d\u00e9cadas vindouras.<\/p>\n<p>Apesar de a express\u00e3o n\u00e3o ter sido mencionada, est\u00e1 impl\u00edcita a \u00e2nsia por um novo \u201cprojeto nacional\u201d de desenvolvimento, capaz de motivar e catalisar as colossais energias latentes na sociedade \u2013 fartamente demonstradas nas ruas \u2013 para uma pauta de metas coletivas, que transcenda mandatos pol\u00edticos e interesses setoriais e volte a proporcionar aos brasileiros o poderoso sentimento de integrar um coletivo nacional dotado de uma perspectiva positiva de futuro. Um projeto que qualifique efetivamente o Pa\u00eds para atuar como protagonista das grandes transforma\u00e7\u00f5es em curso na ordem de poder mundial, estendendo a sua influ\u00eancia positiva al\u00e9m das fronteiras nacionais, com a devida \u00eanfase no entorno geogr\u00e1fico e cultural do que o papa Francisco denomina a P\u00e1tria Grande Latino-americana, bem como em uma maior coordena\u00e7\u00e3o com os seus parceiros do grupo BRICS.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, em algumas semanas, na Jornada Mundial da Juventude (23-28 de julho), o pr\u00f3prio Pont\u00edfice poder\u00e1 compartilhar com brasileiros e visitantes estrangeiros que estar\u00e3o no Rio de Janeiro a sua precisa vis\u00e3o da crise civilizat\u00f3ria global (\u201cquem est\u00e1 em crise \u00e9 o homem\u201d, como tem afirmado), refor\u00e7ando a mensagem de que a sua supera\u00e7\u00e3o exigir\u00e1, entre outros requisitos, uma reformula\u00e7\u00e3o do sistema financeiro internacional. Embora com as especificidades nacionais, a crise de esgotamento das institui\u00e7\u00f5es brasileiras n\u00e3o est\u00e1 apartada de tal contexto global, pelo que a visita do primeiro papa latino-americano poder\u00e1 representar um poderoso impulso ao momento deflagrado pelas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o da juventude n\u00e3o \u00e9 novidade na hist\u00f3ria brasileira. Na d\u00e9cada de 1920, a inquieta\u00e7\u00e3o dos jovens oficiais do Ex\u00e9rcito e suas contrapartes civis, encarnada no Movimento Tenentista, foi fundamental para o impulso de moderniza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, at\u00e9 ent\u00e3o preso \u00e0s amarras da Rep\u00fablica Velha olig\u00e1rquica. Embora n\u00e3o tenha sido um movimento de massas, o Tenentismo demonstrou a capacidade de influ\u00eancia de um grupo relativamente coeso e motivado por prop\u00f3sitos comuns. Os jovens de todas as idades que t\u00eam ocupado as ruas, nos \u00faltimos dias, est\u00e3o longe de uma coes\u00e3o de motiva\u00e7\u00f5es semelhante, mas demonstram estar sequiosos de poder catalisar as suas energias para a constru\u00e7\u00e3o de um Pa\u00eds mais justo, do qual tamb\u00e9m possam se orgulhar fora das competi\u00e7\u00f5es esportivas. A responsabilidade de atender \u00e0s suas demandas est\u00e1 nas m\u00e3os das lideran\u00e7as da sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 por 0,20, \u00e9 por direitos.\u201d Os dizeres do cartaz portado por um cidad\u00e3o paulistano sintetizavam a percep\u00e7\u00e3o que come\u00e7a a se firmar sobre as motiva\u00e7\u00f5es mais profundas das impressionantes manifesta\u00e7\u00f5es que se multiplicam pelo Pa\u00eds, desde a semana passada. 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