{"id":3743,"date":"2013-05-17T16:48:31","date_gmt":"2013-05-17T16:48:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=587"},"modified":"2013-05-17T16:48:31","modified_gmt":"2013-05-17T16:48:31","slug":"a-siria-e-a-guerra-dos-boers","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/a-siria-e-a-guerra-dos-boers\/","title":{"rendered":"A S\u00edria e a Guerra dos Boers"},"content":{"rendered":"<p>O conflito na S\u00edria atinge um perigoso est\u00e1gio de grande complexidade e alt\u00edssima volatilidade, em que qualquer a\u00e7\u00e3o dos m\u00faltiplos atores envolvidos tem potencial para se desdobrar em consequ\u00eancias de evolu\u00e7\u00e3o e abrang\u00eancia imprevis\u00edveis. Neste momento, h\u00e1 dois fatores basilares a serem considerados. O primeiro \u00e9 que o presidente Bashar al-Assad n\u00e3o parece mais pr\u00f3ximo de deixar o posto do que no in\u00edcio da insurrei\u00e7\u00e3o contra o seu regime, h\u00e1 mais de dois anos. O segundo \u00e9 que as for\u00e7as combatentes da chamada \u00aboposi\u00e7\u00e3o\u00bb j\u00e1 s\u00e3o predominantemente integradas por grupos islamitas sect\u00e1rios, muitos ligados \u00e0 rede terrorista Al-Qaida, cuja eventual conquista de Damasco transformaria o pa\u00eds em um p\u00f3lo de instabilidade para toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma demonstra\u00e7\u00e3o de que esta pode ser, efetivamente, a inten\u00e7\u00e3o de certos grupos de poder em Washington, foi o ataque a\u00e9reo de Israel a instala\u00e7\u00f5es militares em Damasco, sob o pretexto de que o alvo teria sido um comboio que transportava armamentos s\u00edrios ao grupo liban\u00eas Hisbol\u00e1, prontamente negado pelo governo s\u00edrio. Evidentemente, nenhum observador com conhecimento m\u00ednimo dos fatos acredita que o premier Benjamin Netanyahu, com toda a sua belicosidade, ordenaria o ataque sem a anu\u00eancia pr\u00e9via do governo de Barack Obama, em cujo interior ocorre um intenso debate sobre a conveni\u00eancia de uma interven\u00e7\u00e3o militar direta no imbr\u00f3glio.<\/p>\n<p>Entretanto, se o objetivo era, como parece, lan\u00e7ar uma provoca\u00e7\u00e3o que motivasse uma resposta militar de Assad e proporcionasse um pretexto para a op\u00e7\u00e3o militar, a a\u00e7\u00e3o falhou, j\u00e1 que o l\u00edder s\u00edrio n\u00e3o mordeu a isca. Em entrevista ao jornal liban\u00eas\u00a0<em>Al-Akhbar<\/em>, reproduzida pela rede de televis\u00e3o Al-Manar (controlada pelo Hisbol\u00e1), em 9 de maio, Assad disse que suas For\u00e7as Armadas teriam condi\u00e7\u00f5es de \u00absatisfazer o desejo dos s\u00edrios, e disparar meia d\u00fazia de m\u00edsseis contra Israel, em reposta ao ataque israelense contra Damasco. Mas todos sabemos o quanto Israel deseja uma guerra, e que, se os s\u00edrios retaliassem, estar\u00edamos aceitando a provoca\u00e7\u00e3o e cometer\u00edamos um ato de guerra, equivalente ao que fizeram os israelenses\u00bb.<\/p>\n<p>Consciente de que uma rea\u00e7\u00e3o s\u00edria seria o estopim de uma escalada no conflito, ele afirmou que \u00aba situa\u00e7\u00e3o internacional n\u00e3o admite mais uma guerra, que nem Israel nem os EUA podem suportar. Se respond\u00eassemos, ter\u00edamos no m\u00e1ximo uma vingan\u00e7a t\u00e1tica. E o que queremos \u00e9 vingan\u00e7a estrat\u00e9gica: abrir as portas \u00e0 Resist\u00eancia e converter a S\u00edria em pa\u00eds da Resist\u00eancia\u00bb.<\/p>\n<p>O ataque israelense ocorreu \u00e0s v\u00e9speras da visita de trabalho do secret\u00e1rio de Estado John Kerry a Moscou, para reuni\u00f5es com o presidente Vladimir Putin e com seu colega russo Sergei Lavrov. Para refor\u00e7ar a m\u00e3o de Kerry nas conversas, na segunda-feira 6 de maio, a Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Senado estadunidense encaminhou um projeto de lei que autoriza a ajuda militar aos insurgentes s\u00edrios.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as press\u00f5es contra Moscou acabaram saindo pela culatra, motivando uma rea\u00e7\u00e3o imediata do Kremlin. Pouco depois do ataque israelense, Putin ligou para Netanyahu, que estava em visita a Xangai, e transmitiu-lhe o recado direto de que uma repeti\u00e7\u00e3o de tais a\u00e7\u00f5es teria graves consequ\u00eancias. E, ao mesmo tempo em que Kerry chegava em Moscou, onde se reuniria tamb\u00e9m com representantes da oposi\u00e7\u00e3o a Putin, na embaixada dos EUA, autoridades russas invadiram os escrit\u00f3rios de tr\u00eas ONGs estrangeiras, por receber ilegalmente dinheiro estadunidense. Entre elas, estavam a Funda\u00e7\u00e3o Nacional para a Democracia (NED) e a Funda\u00e7\u00e3o George Soros, duas organiza\u00e7\u00f5es de ponta da ofensiva anti-Putin (<em>Asia Times Online<\/em>, 9\/05\/2013).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a reuni\u00e3o com Lavrov, Kerry disse \u00e0 imprensa que os dois lados haviam chegado a um entendimento para organizar uma confer\u00eancia internacional, at\u00e9 o final de maio, com vistas a encontrar uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para a crise s\u00edria, com base no plano de transi\u00e7\u00e3o negociado em Genebra, no ano passado. De forma sintom\u00e1tica, ele n\u00e3o fez qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 exig\u00eancia da sa\u00edda de Assad, que Washington considera condi\u00e7\u00e3o sine qua non para o desfecho da crise.<\/p>\n<p>Nos EUA, onde se trava uma virulenta disputa no interior do<em>\u00a0Establishment<\/em>, em torno da interven\u00e7\u00e3o militar, at\u00e9 mesmo veteranos da Guerra Fria, como o ex-conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional de Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, advertem para os altos riscos de uma escalada militar. Em um artigo publicado na revista <em>Time<\/em> de 8 de maio, ele afirmou sem rodeios que uma interven\u00e7\u00e3o na S\u00edria apenas tornaria pior a situa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) Um envolvimento estadunidense, simplesmente, mobilizaria os elementos mais extremos daquelas fac\u00e7\u00f5es beligerantes contra os EUA e colocaria o perigo de que o conflito se espalhasse pela vizinhan\u00e7a, ateando fogo na Jord\u00e2nia, Iraque e L\u00edbano&#8230; Um confronto regional mais amplo poderia colocar os EUA e o Ir\u00e3 em conflito direto, uma empreitada militar potencialmente grande para os EUA. Uma confronta\u00e7\u00e3o EUA-Ir\u00e3 ligada \u00e0 crise s\u00edria poderia expandir a \u00e1rea de conflito at\u00e9 mesmo ao Afeganist\u00e3o. A R\u00fassia se beneficiaria do fato de os EUA se atolarem, novamente, no Oriente M\u00e9dio. A China se ressentiria da desestabiliza\u00e7\u00e3o estadunidense na regi\u00e3o, porque Pequim necessita de acesso est\u00e1vel \u00e0 energia do Oriente M\u00e9dio.<\/p><\/blockquote>\n<p>As cautelosas palavras de Brzezinski parecem sugerir que as consequ\u00eancias de uma nova aventura militar poderiam ser fatais para a postura hegem\u00f4nica de Washington.<\/p>\n<p>De fato, se conhecessem melhor a Hist\u00f3ria, os pregoeiros do belicismo que pululam na caipital estadunidense poderiam aprender algo com o ponto de inflex\u00e3o que a Guerra dos Boers (1899-1902) representou para a capacidade de sustenta\u00e7\u00e3o militar do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, a despeito da vit\u00f3ria brit\u00e2nica no campo de batalha. Um s\u00e9culo depois, uma interven\u00e7\u00e3o militar direta dos EUA e seus aliados no conflito na S\u00edria poder\u00e1 representar um marco an\u00e1logo para as pretens\u00f5es hegem\u00f4nicas do bloco encabe\u00e7ado por Washington.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conflito na S\u00edria atinge um perigoso est\u00e1gio de grande complexidade e alt\u00edssima volatilidade, em que qualquer a\u00e7\u00e3o dos m\u00faltiplos atores envolvidos tem potencial para se desdobrar em consequ\u00eancias de evolu\u00e7\u00e3o e abrang\u00eancia imprevis\u00edveis. Neste momento, h\u00e1 dois fatores basilares a serem considerados. 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