{"id":3739,"date":"2013-04-19T20:35:21","date_gmt":"2013-04-19T20:35:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=558"},"modified":"2013-04-19T20:35:21","modified_gmt":"2013-04-19T20:35:21","slug":"mudanca-de-fase-na-russia-aumentam-os-mal-entendidos-no-ocidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/mudanca-de-fase-na-russia-aumentam-os-mal-entendidos-no-ocidente\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7a de fase na R\u00fassia: aumentam os &quot;mal entendidos&quot; no Ocidente"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo dos \u00faltimos meses, as rela\u00e7\u00f5es entre a R\u00fassia e o Ocidente t\u00eam sido caracterizadas pelo aumento dos \u00abmal entendidos\u00bb e por uma crescente brecha ideol\u00f3gica. A raz\u00e3o para isto s\u00e3o as diferen\u00e7as de percep\u00e7\u00e3o de interesses estrat\u00e9gicos entre os dois lados, a\u00ed inclu\u00eddos o conflito na S\u00edria, as controv\u00e9rsias na Europa Oriental, envolvendo os planos dos EUA de estacionar sistemas de defesa antim\u00edsseis na regi\u00e3o, a estagna\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es entre Barack Obama e Vladimir Putin e, n\u00e3o menos, a crise econ\u00f4mico-financeira que se arrasta desde 2008.<\/p>\n<p>Vinculada a tais problemas, est\u00e1 a atitude de reflexos condicionados dos pa\u00edses ocidentais frente \u00e0 crise da eurozona (sendo o exemplo mais recente o caso do Chipre). Ao mesmo tempo em que a R\u00fassia se d\u00e1 conta de que as coisas n\u00e3o v\u00e3o bem no bloco europeu, tais desdobramentos t\u00eam cobrado um alto pre\u00e7o \u00e0 na\u00e7\u00e3o eurasi\u00e1tica. No seu mais recente relat\u00f3rio, de mar\u00e7o deste ano, o Banco Mundial reduziu as perspectivas de crescimento econ\u00f4mico do PIB russo em 0,3%, estabelecendo uma proje\u00e7\u00e3o de 3,3% para 2013. De acordo com o documento, a situa\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios russos no estrangeiro \u00e9 pior do que se esperava. Entre os fatores que contribuem para isto est\u00e3o os pre\u00e7os do petr\u00f3leo, a infla\u00e7\u00e3o em curso e a redu\u00e7\u00e3o no consumo. Afirmativas similares foram feitas pelo ministro da Fazenda russo, Alexei Kudrin, que, em recente confer\u00eancia, disse que o PIB russo deve declinar. \u00abUm crescimento abaixo de 3% significar\u00e1 estagna\u00e7\u00e3o, um atraso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia mundial\u00bb, afirmou ele, afirmando que que o pa\u00eds \u00abest\u00e1 chegando perto desse ponto\u00bb.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio de fundo, vale refletir sobre algumas observa\u00e7\u00f5es feitas a esta autora por um bem informado especialista que conhece de perto a psicologia e o humor da popula\u00e7\u00e3o russa. Um ano ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o que deu a Putin o seu terceiro mandato presidencial, a elite russa e a lideran\u00e7a do pa\u00eds est\u00e3o \u00abinseguras\u00bb, incapazes de oferecer uma perspectiva \u00abnova e refrescante\u00bb para a sociedade e de despertar um novo estado de \u00e2nimo. Este especialista identifica uma certa \u00abrea\u00e7\u00e3o formada\u00bb diante do Ocidente, a qual, de um lado, \u00e9 determinada pelo crescimento da frustra\u00e7\u00e3o com a lideran\u00e7a, relativa \u00e0s cr\u00edticas permanentes dos ocidentais contra a R\u00fassia &#8211; em especial sobre os supostos \u00abd\u00e9ficits democr\u00e1ticos russos\u00bb -, bem como a aus\u00eancia de aplica\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es ocidentais de direitos humanos. Por outro lado, tal rea\u00e7\u00e3o tem bases profundas e, entre outros motivos, tem a ver com o fato de que a esperada cat\u00e1strofe \u00abque ocorreria em um curto prazo na eurozona\u00bb n\u00e3o se concretizou at\u00e9 o momento. Neste momento, segundo ele, a R\u00fassia se v\u00ea no lado \u00abperdedor\u00bb.<\/p>\n<p>Enquanto a elite carece de um motor criativo, a oposi\u00e7\u00e3o, por sua vez, tem falhado em produzir qualquer figura de lideran\u00e7a e n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de oferecer qualquer alternativa pol\u00edtica razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>O dilema russo, diz o especialista, se reflete em dois s\u00e9rios problemas que confrontam o pa\u00eds: um grande decl\u00ednio demogr\u00e1fico e o crescimento do islamismo na sua fronteira sul. A cada ano, a popula\u00e7\u00e3o russa est\u00e1 declinando em cerca de um milh\u00e3o de habitantes &#8211; equivalente a uma cidade m\u00e9dia. Tal fen\u00f4meno se agrava ainda mais com o crescimento da migra\u00e7\u00e3o, em especial, com a sa\u00edda de russos do norte do C\u00e1ucaso. Quanto ao avan\u00e7o isl\u00e2mico, o que dificilmente \u00e9 noticiado no Ocidente s\u00e3o as atividades financiadas por organiza\u00e7\u00f5es wahabitas, principalmente da Ar\u00e1bia Saudita, para promover o radicalismo isl\u00e2mico na regi\u00e3o. Tais a\u00e7\u00f5es incluem ataques di\u00e1rios de militantes contra islamistas moderados, muitos dos quais trabalham em cidades como S\u00e3o Petersburgo e Moscou. Regi\u00f5es mais pobres, como a Inguch\u00e9tia e o Daguest\u00e3o, s\u00e3o alvos preferenciais dessas a\u00e7\u00f5es de desestabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem Putin, nem qualquer outro membro da elite pol\u00edtica russa parecem inclinados a preencher o v\u00e1cuo intelectual presente na sociedade russa com um discurso vivo. Al\u00e9m disto, as elites russas est\u00e3o cada vez mais se afastando do Ocidente e reorientando a sua aten\u00e7\u00e3o para a \u00c1sia, de modo a aprofundar as suas rela\u00e7\u00f5es com os pa\u00edses orientais. Um indicativo disto foi a recente visita de Estado do novo presidente chin\u00eas Xi Jiping a Moscou, no final de mar\u00e7o, que resultou na assinatura de projetos de coopera\u00e7\u00e3o militar, econ\u00f4mica e energ\u00e9tica de amplo alcance. A R\u00fassia precisa da China, em especial para o desenvolvimento da Sib\u00e9ria &#8211; que tem sido caracterizada como uma \u00abregi\u00e3o implosiva\u00bb (em termos de densidade populacional) &#8211; e do seu Extremo Oriente. Todavia, as rela\u00e7\u00f5es bilaterais t\u00eam sido menos determinadas pela amizade do que por interesses pragm\u00e1ticos. A forma como os dois pa\u00edses trabalham juntos foi demonstrada na \u00faltima c\u00fapula dos BRICS, realizada na \u00c1frica do Sul, onde se decidiram v\u00e1rios acordos de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e monet\u00e1ria intrabloco.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alemanha, o parceiro mais importante da R\u00fassia<\/strong><\/p>\n<p>A despeito de tudo isso, estima-se que a coopera\u00e7\u00e3o entre a R\u00fassia e a Alemanha continue sendo um elemento chave na atual configura\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica da Europa. Por\u00e9m, nos \u00faltimos tempos, t\u00eam aumentado o coro dos alem\u00e3es \u00abdetratores da R\u00fassia\u00bb. De fato, tem ocorrido uma s\u00e9rie de ataques contra especialistas e funcion\u00e1rios do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores alem\u00e3o, criticados por serem muito \u00abamig\u00e1veis\u00bb para com Moscou. Um exemplo s\u00e3o os ataques perpetrados pelo jornal\u00a0<em>Die Zeit<\/em>, que, no final de mar\u00e7o, fez duras cr\u00edticas ao especialista em rela\u00e7\u00f5es germano-russas Alexander Rahr, diretor de pesquisas do Centro Berthold Beitz da Sociedade Alem\u00e3 de Pol\u00edtica Exterior (DGAP, na sigla alem\u00e3) e consultor da companhia energ\u00e9tica alem\u00e3 Wintershall. Em coment\u00e1rios ostensivamente preconceituosos, o colunista J\u00f6rg Lau atacou Rahr por ser muito \u00abbenevolente\u00bb com Putin e muito \u00abcr\u00edtico\u00bb e \u00abarrogante\u00bb com rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses ocidentais, ao acus\u00e1-los de querer impor o seu \u00abmodelo de democracia\u00bb \u00e0 sociedade russa. Igualmente, cr\u00edticas pesadas t\u00eam sido feitas contra o ex-ministro da Fazenda Peer Steinbr\u00fcck, candidato do Partido Social Democrata (PSD) \u00e0 chancelaria nas elei\u00e7\u00f5es de setembro pr\u00f3ximo, que identifica a R\u00fassia como uma \u00abparceira\u00bb importante, afirmando que o crit\u00e9rio ocidental de \u00abdemocracia plural\u00edstica\u00bb n\u00e3o pode ser imposto \u00e0 R\u00fassia de forma direta.<\/p>\n<p>Tais ataques ideologicamente motivados por parte da m\u00eddia alem\u00e3 t\u00eam tido lugar em concomit\u00e2ncia com o desmantelamento sistem\u00e1tico da expertise acad\u00eamica alem\u00e3 sobre a Europa Oriental. Em um artigo publicado no in\u00edcio de mar\u00e7o, no\u00a0<em>Frankfurter Allgemeine Zeitung<\/em>, intitulado \u00abNeglig\u00eancia &#8211; como a Alemanha est\u00e1 perdendo a sua compet\u00eancia cient\u00edfica na Europa Oriental\u00bb, o jornalista Reinhard Veser descreveu o perigo de que, no futuro, n\u00e3o haja mais nenhuma excel\u00eancia alem\u00e3 e clareza anal\u00edtica com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia e \u00e0 Europa Oriental em geral. Sobre a base de uma tradi\u00e7\u00e3o de mais de um s\u00e9culo, os especialistas em Europa Oriental, necess\u00e1rios para julgamentos pol\u00edticos equilibrados sobre a diplomacia, t\u00eam visto as verbas destinadas \u00e0s suas pesquisas serem sistematicamente reduzidas. No artigo, Veser cita ainda um diplomata que chefia o Departamento para a R\u00fassia, Ucr\u00e2nia e Bielo-R\u00fassia do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, que concordou com que o n\u00edvel da percep\u00e7\u00e3o anal\u00edtica sobre a Eur\u00e1sia, na Alemanha, tem sofrido um significativo decl\u00ednio nos \u00faltimos anos e que a quest\u00e3o \u00e9 o que o pa\u00eds pode fazer para evitar a perda de todo o conhecimento acumulado sobre a regi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo dos \u00faltimos meses, as rela\u00e7\u00f5es entre a R\u00fassia e o Ocidente t\u00eam sido caracterizadas pelo aumento dos \u00abmal entendidos\u00bb e por uma crescente brecha ideol\u00f3gica. 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