{"id":3738,"date":"2013-04-19T20:32:07","date_gmt":"2013-04-19T20:32:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=554"},"modified":"2013-04-19T20:32:07","modified_gmt":"2013-04-19T20:32:07","slug":"brasil-concessao-ou-rendicao-ao-rentismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/brasil-concessao-ou-rendicao-ao-rentismo\/","title":{"rendered":"Brasil: concess\u00e3o (ou rendi\u00e7\u00e3o?) ao rentismo"},"content":{"rendered":"<p>Era quase inevit\u00e1vel. Incapaz de resistir \u00e0s press\u00f5es avassaladoras do lobby do sistema financeiro, o Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria do Banco Central (Copom) interrompeu um ciclo de quase dois anos de redu\u00e7\u00f5es e elevou a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) em 0,25%, passando-a para 7,5%. Com a medida, o governo da presidente Dilma Rousseff, que vinha atuando em estreita sintonia com o BC para reduzir os juros, sinalizou uma perigosa concess\u00e3o ao rentismo prevalecente, que, se repetida, poder\u00e1 arruinar quaisquer perspectivas de uma melhora da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Pa\u00eds, no futuro imediato.<\/p>\n<p>Na verdade, a medida j\u00e1 havia sido antecipada pelas autoridades diretamente envolvidas na formula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica e monet\u00e1ria. Na ter\u00e7a-feira 16, v\u00e9spera da reuni\u00e3o do Copom, a pr\u00f3pria Dilma j\u00e1 havia deixado claro que havia cedido \u00e0s press\u00f5es, ao afirmar, em Belo Horizonte (MG), que, se houvesse a necessidade de se elevarem os juros para combater a alta inflacion\u00e1ria, isto seria feito em um \u00abpatamar bem menor\u00bb, j\u00e1 que, segundo ela, o Brasil tem hoje \u00abuma taxa de juros real bem baixa\u00bb (G1, 16\/04\/2013).<\/p>\n<p>Antes dela, na sexta-feira 8, o presidente do BC, Alexandre Tombini, j\u00e1 havia declarado que \u00abn\u00e3o h\u00e1 nem haver\u00e1 toler\u00e2ncia com a infla\u00e7\u00e3o\u00bb, sendo ecoado pelo ministro da Fazenda Guido Mantega, que, no mesmo dia, enfatizou que medidas impopulares, como a eleva\u00e7\u00e3o dos juros, seriam tomadas para combater o flagelo (Ag\u00eancia Brasil, 8\/04\/2013).<\/p>\n<p>O comunicado oficial do Copom justifica, afirmando que<\/p>\n<blockquote><p>o n\u00edvel elevado da infla\u00e7\u00e3o e a dispers\u00e3o de aumentos de pre\u00e7os, entre outros fatores, contribuem para que a infla\u00e7\u00e3o mostre resist\u00eancia e ensejam uma resposta da pol\u00edtica monet\u00e1ria. Por outro lado, o Copom pondera que incertezas internas e, principalmente, externas cercam o cen\u00e1rio prospectivo para a infla\u00e7\u00e3o e recomendam que a pol\u00edtica monet\u00e1ria seja administrada com cautela (Banco Central, 17\/04\/2013).<\/p><\/blockquote>\n<p>Para sabermos a extens\u00e3o da \u00abcautela\u00bb com que os juros ser\u00e3o administrados, ser\u00e1 preciso aguardar a pr\u00f3xima reuni\u00e3o do Copom, em maio.<\/p>\n<p>A despeito de terem logrado o objetivo psicol\u00f3gico de demonstrar a sua for\u00e7a midi\u00e1tica e pol\u00edtica, os rentistas n\u00e3o ficaram satisfeitos, como se pode observar nas declara\u00e7\u00f5es de alguns dos porta-vozes dos mercados financeiros. Em entrevista ao jornal <em>O Globo<\/em> (18\/04\/2013), o economista Armando Castelar, da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, lamentou que o aumento tenha sido t\u00e3o pequeno e indicou o tamanho das expectativas dos seus pares:<\/p>\n<blockquote><p>O Banco Central est\u00e1 reagindo \u00e0 piora das expectativas de infla\u00e7\u00e3o e \u00e0 vis\u00e3o da sociedade de que n\u00e3o vinha se esfor\u00e7ando para manter a infla\u00e7\u00e3o no centro da meta, o que compromete sua credibilidade. Nessa dire\u00e7\u00e3o, teria feito mais sentido um aumento de 0,5 ponto. Uma alta de 0,25 d\u00e1 ainda uma sensa\u00e7\u00e3o de que o BC fez alguma coisa para satisfazer a opini\u00e3o p\u00fablica e n\u00e3o um passo de fato um compromisso de colocar um freio na infla\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia brasileira indica que aumentar juros contem a demanda e foi assim em todas as vezes. A quest\u00e3o \u00e9 o tamanho do ciclo. Acho que para trazer a infla\u00e7\u00e3o para perto da meta, o ciclo deveria ser de 3 pontos e 3,5 pontos, talvez ao longo de mais de um ano. Meio ponto em cada reuni\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Quase em tom de deboche, com ele, fez coro seu colega de FGV, Fernando de Holanda Barbosa Filho:<\/p>\n<blockquote><p>Achei a decis\u00e3o bastante t\u00edmida. Acho que parece claro que a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 em n\u00edvel alto e n\u00e3o \u00e9 meia d\u00fazia de pre\u00e7os, o que \u00e9 um mau sinal. Tamb\u00e9m acho que esse 0,25 n\u00e3o vai recuperar a credibilidade do BC, que o mercado v\u00ea como abalada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 falta de independ\u00eancia e de disposi\u00e7\u00e3o de combater a alta da infla\u00e7\u00e3o. A alta n\u00e3o faz c\u00f3cegas na infla\u00e7\u00e3o e aumenta ainda mais as d\u00favidas sobre a real disponibilidade de combater a infla\u00e7\u00e3o (G1, 18\/04\/2013).<\/p><\/blockquote>\n<p>Para os que se alarmam com a alta inflacion\u00e1ria, pretexto para a retomada das altas dos juros, vale atentar para uma oportuna s\u00edntese feita pelo ex-ministro Delfim Netto em sua coluna semanal na revista <em>Carta Capital<\/em> (17\/04\/2013):<\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 praticamente tr\u00eas d\u00e9cadas (sic) o Brasil iniciou um engenhoso e bem-sucedido programa de estabiliza\u00e7\u00e3o, concebido por competentes economistas, o Plano Real, ap\u00f3s quatro ou cinco tentativas frustradas. Desde o come\u00e7o, no entanto, a partir de 1994, nunca tivemos sucesso na conquista de uma infla\u00e7\u00e3o realmente civilizada, algo como 2% ou 3% anuais. E n\u00e3o reconquistamos o dinamismo do desenvolvimento, um crescimento em torno de 5% do PIB anual.<\/p>\n<p>No primeiro mandato de FHC, a taxa m\u00e9dia anual de infla\u00e7\u00e3o foi 9,7% (o crescimento do PIB de 2,5%). No segundo mandato, foi de 8,8%, e o PIB cresceu 2,1%, na m\u00e9dia anual. No primeiro mandato de Lula, ela esteve acima de 6% (PIB superior a 3,5%). No segundo mandato, a m\u00e9dia foi 5,1% de infla\u00e7\u00e3o e crescimento de 4,6%. Neste per\u00edodo do mandato de Dilma Rousseff, a m\u00e9dia \u00e9 6,2%, com crescimento de 1,8%. Nos anos de 1995 a 2012, o Brasil sobreviveu com taxa m\u00e9dia de infla\u00e7\u00e3o de 7,4% ao ano. Simultaneamente, houve um crescimento muito baixo da economia brasileira, e PIB per capita de 1,8%.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, melhoramos a inser\u00e7\u00e3o social e aumentamos a igualdade de oportunidades, fatores civilizat\u00f3rios, mas isso poderia ter sido melhor com um crescimento do PIB per capita mais robusto e uma infla\u00e7\u00e3o menor.<\/p>\n<p>\u00c9 for\u00e7oso reconhecer: n\u00e3o soubemos atacar com a energia necess\u00e1ria os gargalos institucionais e, principalmente, o estrangulamento estrutural pelo abandono dos investimentos na infraestrutura, capazes de desacelerar o desenvolvimento e gerar os atritos dissipados em maior taxa de infla\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Como o \u00edndice inflacion\u00e1rio oficial encontra-se em 6,59% para os \u00faltimos 12 meses, ligeiramente acima do teto da meta de 6,5% (em novembro de 2011, foi de 6,64%), qualquer an\u00e1lise minimamente sensata e baseada em fatos objetivos permite concluir que o risco de uma disparada inflacion\u00e1ria n\u00e3o justifica o alarido que tem sido feito em torno do assunto.<\/p>\n<p>O grande perigo \u00e9 que, como tubar\u00f5es que entram em frenesi diante do sangue de suas v\u00edtimas, os rentistas podem ter tido a sua voracidade ati\u00e7ada pela concess\u00e3o \u00e0 sua for\u00e7a midi\u00e1tica e pol\u00edtica (nesta ordem) e aumentem as press\u00f5es para que os aumentos da Selic n\u00e3o apenas continuem, mas tamb\u00e9m em taxas mais elevadas. Se a presidente Dilma n\u00e3o resistir, corre o risco de repetir a submiss\u00e3o do governo de seu antecessor e mentor, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, frente ao BC de Henrique Meirelles (que qualific\u00e1vamos como a \u00abRep\u00fablica de Meirelles\u00bb).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era quase inevit\u00e1vel. Incapaz de resistir \u00e0s press\u00f5es avassaladoras do lobby do sistema financeiro, o Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria do Banco Central (Copom) interrompeu um ciclo de quase dois anos de redu\u00e7\u00f5es e elevou a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) em 0,25%, passando-a para 7,5%. 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