{"id":3734,"date":"2013-03-08T15:29:54","date_gmt":"2013-03-08T15:29:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=507"},"modified":"2013-03-08T15:29:54","modified_gmt":"2013-03-08T15:29:54","slug":"munique-2013-muita-discussao-e-confusao-sobre-o-futuro-do-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/munique-2013-muita-discussao-e-confusao-sobre-o-futuro-do-planeta\/","title":{"rendered":"Munique 2013: muita discuss\u00e3o &#8211; e confus\u00e3o &#8211; sobre o futuro do planeta"},"content":{"rendered":"<p>A 49\u00aa. Confer\u00eancia sobre Seguran\u00e7a de Munique, realizada em 1-3 de fevereiro, foi a maior edi\u00e7\u00e3o do encontro em toda a sua hist\u00f3ria. De fato, o evento contou com a presen\u00e7a de mais de 400 pol\u00edticos e especialistas provenientes de todas as partes do globo, al\u00e9m de cerca de 700 jornalistas. Mas o que costumava ser uma reuni\u00e3o de especialistas em defesa e seguran\u00e7a que gravitavam em torno da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN), com a finalidade de definir as principais quest\u00f5es e potenciais solu\u00e7\u00f5es por vias \u00abn\u00e3o-diplom\u00e1ticas\u00bb, viu a sua din\u00e2mica mudar totalmente este ano: desta vez, a \u00abcena p\u00fablica\u00bb parece ser muito mais importante que outrora. Com efeito, pode-se dizer que isso se refletiu na falta de debates profundos &#8211; com a poss\u00edvel exce\u00e7\u00e3o de alguns encontros privados nos bastidores.<\/p>\n<p>Dentre os assuntos que n\u00e3o foram debatidos em Munique, destacou-se a quest\u00e3o israelense-palestina, como bem observou o chanceler brasileiro Antonio Aguiar Patriota, no painel sobre \u00abAs pot\u00eancias emergentes e a governan\u00e7a global\u00bb. Naturalmente, o destaque foi para o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, que proferiu um belicoso discurso, qualificando o Ir\u00e3 como um \u00abEstado terrorista\u00bb. Al\u00e9m disto, amea\u00e7ou a S\u00edria, lembrando que qualquer um poderia ler na m\u00eddia internacional o que Israel havia feito neste pa\u00eds vizinho, duas semanas antes (em refer\u00eancia ao ataque a\u00e9reo contra instala\u00e7\u00f5es governamentais s\u00edrias), mas afirmando que nada tinha a acrescentar sobre tal epis\u00f3dio. Barak ainda comparou, pateticamente, a situa\u00e7\u00e3o atual do Oriente M\u00e9dio com a do \u00abfim do Imp\u00e9rio Otomano\u00bb (!) &#8211; o que, em linguagem simples, significa que as fronteiras \u00e1rabes estariam em disputa -, e declarou que o Estado de Israel est\u00e1 determinado a desempenhar o papel de \u00abestraga-festas\u00bb no grande jogo que definir\u00e1 o destino da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em uma coletiva de imprensa dada por um especialista alem\u00e3o na \u00e1rea de defesa, \u00e0 qual esta autora compareceu ap\u00f3s a confer\u00eancia, muitas preocupa\u00e7\u00f5es foram expressadas, em termos do que realmente est\u00e1 ocorrendo, em contraste com a pauta da grande m\u00eddia internacional. Este especialista falou sobre uma \u00abnova qualidade de desafios e uma quantidade de focos de crises emergentes ao redor do globo, em uma escala jamais vista antes\u00bb. Em particular, afirmou que a Primavera \u00c1rabe n\u00e3o se transformou em uma \u00abprimavera\u00bb, mas deixou o mundo mu\u00e7ulmano em alvoro\u00e7o.<\/p>\n<p>Estranhamente, a guerra no Afeganist\u00e3o n\u00e3o foi sequer abordada nos debates realizados em Munique, a despeito do fato de o pa\u00eds ser o palco da retirada das tropas da For\u00e7a Internacional de Assist\u00eancia para a Seguran\u00e7a (ISAF), que dever\u00e1 ser conclu\u00edda at\u00e9 o final de 2014. Enquanto a Fran\u00e7a j\u00e1 se retirou prematuramente, ainda n\u00e3o est\u00e1 claro como ser\u00e1 a remo\u00e7\u00e3o do restante das tropas da for\u00e7a da OTAN. A R\u00fassia ofereceu ajuda para a retirada dos efetivos da ISAF, mas ainda n\u00e3o foi decidido quantos militares permanecer\u00e3o no pa\u00eds. Al\u00e9m disso, permanece aberta a quest\u00e3o do que poder\u00e1 acontecer quando as tropas sa\u00edrem: Haver\u00e1 um v\u00e1cuo de poder? O que far\u00e3o os talib\u00e3s? E o que poder\u00e1 acontecer no Paquist\u00e3o, uma pot\u00eancia nuclear onde uma nova gera\u00e7\u00e3o de oficiais ostensivamente antiocidentais est\u00e1 chegando ao poder?<\/p>\n<p>A m\u00eddia destacou o di\u00e1logo EUA-R\u00fassia, na confer\u00eancia, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 S\u00edria e ao Ir\u00e3. Todavia, a realidade, como destacou o especialista alem\u00e3o, \u00e9 a que foi claramente colocada pelo negociador oficial s\u00edrio, Lakhdar Brahimi: enquanto o Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas permanecer dividido como est\u00e1, com a R\u00fassia e a China se opondo ao intervencionismo dos pa\u00edses ocidentais, qualquer solu\u00e7\u00e3o militar contra a S\u00edria ser\u00e1 \u00abcategoricamente exclu\u00edda\u00bb. Na mesma ocasi\u00e3o, foi relatado que o ministro russo das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Sergei Lavrov, definiu que a linha vermelha para a R\u00fassia, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra civil s\u00edria, \u00e9 se armas qu\u00edmicas ca\u00edrem nas m\u00e3os de terroristas. O representante russo destacou, ainda, que os grupos de oposi\u00e7\u00e3o s\u00edrios s\u00e3o muito \u00abheterog\u00eaneos\u00bb.<\/p>\n<p>A verdadeira estrela midi\u00e1tica em Munique, contudo, foi o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que fez um discurso bastante otimista. A sua mensagem principal foi: a Europa \u00e9 um \u00abparceiro indispens\u00e1vel\u00bb dos EUA. Com rela\u00e7\u00e3o ao Ir\u00e3, declarou que ainda h\u00e1 um espa\u00e7o para a diplomacia, que deve ser auxiliada com press\u00f5es, de modo a ser bem sucedida. Ele afirmou, ainda, que a bola est\u00e1 com o governo iraniano e que Teer\u00e3 deve adotar uma abordagem de verdadeira boa-f\u00e9 para as negocia\u00e7\u00f5es com o grupo P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a e a Alemanha).<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia, Biden afirmou que \u00abcontinuamos a enxergar oportunidades para parcerias entre os EUA e a R\u00fassia, de modo a fazer avan\u00e7ar os nossos interesses m\u00fatuos em garantir a seguran\u00e7a da comunidade internacional\u00bb. Igualmene, ele destacou que, ao mesmo tempo, pa\u00edses como o Brasil, a \u00cdndia, a China, a \u00c1frica do Sul e a Indon\u00e9sia continuar\u00e3o desempenhando um papel cada vez maior em termos de seguran\u00e7a global e em quest\u00f5es econ\u00f4micas mundiais, enquanto a \u00c1sia tende a crescer em import\u00e2ncia para a pol\u00edtica externa dos EUA.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que, durante um painel sobre energia, na confer\u00eancia, destacou-se com euforia que os EUA, com a sua nova tecnologia de extra\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e petr\u00f3leo conhecida como fracking, est\u00e3o prontos para viver uma nova renascen\u00e7a industrial, baseada em recursos energ\u00e9ticos baratos, os quais dever\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, alterar o equil\u00edbrio geoestrat\u00e9gico do mundo.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Uma pol\u00edtica externa pragm\u00e1tica\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Na mesma sess\u00e3o na qual esta autora esteve presente, percebeu-se que, embora os pronunciamentos do ministro da Defesa alem\u00e3o, Thomas de Maizi\u00e8re, e de seu colega das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Guido Westerwelle, n\u00e3o tenham soado de forma espetacular, ambos esclareceram que a Alemanha deseja ter \u00abuma abordagem pragm\u00e1tica e realista em suas rela\u00e7\u00f5es exteriores, de modo a serem baseadas em meios pol\u00edtico-civis e militares\u00bb. Westerwelle, por exemplo, enfatizou um contundente apoio ao estabelecimento de uma \u00abzona de seguran\u00e7a euroatl\u00e2ntica, estendendo-se de Vancouver a Vladivostok\u00bb.<\/p>\n<p>Segundo ele, a Alemanha deseja \u00abfortalecer a coopera\u00e7\u00e3o com a R\u00fassia na \u00e1rea de seguran\u00e7a, por meio da coopera\u00e7\u00e3o em sistemas de defesa antim\u00edsseis. Desejamos trabalhar com a R\u00fassia em um mundo livre de armas nucleares, com base em negocia\u00e7\u00f5es de controle e de maior transpar\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o aos arsenais t\u00e1ticos e estrat\u00e9gicos de armas nucleares\u00bb. A Alemanha, disse, deseja ampliar o bem-estar com a R\u00fassia, por meio de um espa\u00e7o econ\u00f4mico comum, e n\u00e3o por meio da competi\u00e7\u00e3o. \u00abQueremos a R\u00fassia como uma parceira\u00bb, afirmou.<\/p>\n<p>Um interessante reflexo de tais afirma\u00e7\u00f5es foi dado tanto Lavrov quanto pelo vice-ministro da Defesa russo, Anatoly Antonov, que destacou o interesse de seu pa\u00eds em cooperar com a Europa. Antonov tamb\u00e9m recordou que a R\u00fassia n\u00e3o s\u00f3 sediar\u00e1 a c\u00fapula do G-20 este ano, como tamb\u00e9m organizar\u00e1, em maio, um f\u00f3rum para debater aspectos da defesa europeia e da coopera\u00e7\u00e3o neste campo com a R\u00fassia, com a participa\u00e7\u00e3o dos ministros da Defesa e de representantes da comunidade cient\u00edfica do bloco europeu.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>\u00abCapitalismo do Reno\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>Vale destacar que este foi o primeiro ano em que foi organizado um painel econ\u00f4mico na Confer\u00eancia de Munique, agendado para servir de introdu\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio evento, sob o t\u00edtulo \u00abA crise do euro e o futuro da Uni\u00e3o Europeia\u00bb. O painel foi moderado por Robert B. Zoellick, ex-presidente do Banco Mundial e um conhecido \u00abeuroc\u00e9tico\u00bb. Todavia, o mais not\u00e1vel no painel foi a \u00abunidade\u00bb de esp\u00edrito observada entre o l\u00edder do Partido Social-Democrata alem\u00e3o (SPDl), Frank-Walter Steinmeier, e o representante da Uni\u00e3o Democrata-Crist\u00e3 (CDU) e ministro da Fazenda, Wolfgang Sch\u00e4uble (seria uma antecipa\u00e7\u00e3o de uma poss\u00edvel grande coaliz\u00e3o para as elei\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo outono?).<\/p>\n<p>Ambos participaram no painel, com o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores espanhol, Jos\u00e9 Manuel Garc\u00eda-Margallo y Marfil, o presidente da Litu\u00e2nia, Dalia Grybauskaite, e Anshu Jain, copresidente do Deutsche Bank. Com exce\u00e7\u00e3o de Jain, os representantes europeus fizeram um chamado pela unidade europeia, qualificando o bloco como a \u00abregi\u00e3o de maior crescimento no mundo, cujo modelo \u00e9 baseado em repassar o maior montante em rela\u00e7\u00e3o ao PIB para a aplica\u00e7\u00e3o em gastos sociais\u00bb.<\/p>\n<p>Tanto Sch\u00e4uble quanto Steinmeier recha\u00e7aram contundentemente o discurso de Jain, que expressou um profundo \u00abeuroceticismo\u00bb em sua exposi\u00e7\u00e3o, na qual exaltou os EUA e a \u00c1sia, ao mesmo tempo em que recomendava \u00e0 Europa que se engaje nas reformas do mercado de trabalho, al\u00e9m de criar mais empregos no setor de servi\u00e7os. Sch\u00e4uble, por sua vez, disse que, na Alemanha, \u00abtemos uma economia baseada na parceria social e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para abandonarmos o modelo chamado &#8216;capitalismo do Reno'\u00bb. H\u00e1 dez anos, afirmou, certas pessoas do mundo anglo-sax\u00e3o lhe disseram que a Alemanha deveria transferir a produ\u00e7\u00e3o para o Leste Europeu e se concentrar no setor de servi\u00e7os da economia. Todos os que afirmavam tais ideias se mostraram errados, ressaltou: mesmo em termos absolutos, a produ\u00e7\u00e3o industrial alem\u00e3 caiu de 32% para 24% do PIB, o que ainda \u00e9 maior que os 10% registrados tanto na Gr\u00e3-Bretanha quanto na Fran\u00e7a. A mensagem de ambos: em vez de migrar para o setor de servi\u00e7os, devemos ampliar a produ\u00e7\u00e3o da Europa, bem como a inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Steinmeier, assim como seu colega espanhol, mostrou-se bastante cr\u00edtico com rela\u00e7\u00e3o ao desemprego entre os jovens na Europa, o qual atinge mais de 50% em pa\u00edses como a Espanha e a Gr\u00e9cia. Para ele, o que \u00e9 necess\u00e1rio para solucionar tal quest\u00e3o \u00e9 um maior tempo para a implementa\u00e7\u00e3o de reformas. Este per\u00edodo ter\u00e1 que ser o necess\u00e1rio para superar o \u00abeuroceticismo\u00bb e desenvolver uma vis\u00e3o econ\u00f4mica comum. Cerca de 60% das exporta\u00e7\u00f5es alem\u00e3s t\u00eam como destino pa\u00edses da UE e apenas 6% s\u00e3o destinados \u00e0 China. A Europa n\u00e3o pode ser um \u00abmodelo de elite\u00bb, mas precisa estar aberta, em termos de mercado social, para criar empregos realmente produtivos, de modo a resolver a crise das d\u00edvidas dos seus Estados membros de maneira razo\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>O futuro papel dos BRICS<\/strong><\/p>\n<p>Outro fato not\u00e1vel em Munique foi o de que, pela primeira vez, foi organizado um painel sobre os BRICS, o qual contou com a presen\u00e7a de Song Tao, vice-ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da China, Shivshankar Menon, assessor de Seguran\u00e7a Nacional da \u00cdndia, Antonio de Aguiar Patriota, ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil, e Ng Eng Hen, ministro da Defesa de Cingapura (pa\u00eds que n\u00e3o integra o grupo). Al\u00e9m disto, foi a primeira vez que o evento contou a presen\u00e7a de um representante oficial da Am\u00e9rica Latina. Nos debates, ficou claro que as pot\u00eancias emergentes representar\u00e3o 50% do PIB mundial nos pr\u00f3ximos 50 anos e que, enquanto o Ocidente est\u00e1 em decl\u00ednio, uma \u00abnova ordem pol\u00edtica mundial\u00bb est\u00e1 se desenvolvendo. Tanto o ministro chin\u00eas como o brasileiro deixaram claro que estas pot\u00eancias emergentes ter\u00e3o um papel decisivo em quest\u00f5es mundiais importantes, tais como os mercados financeiros globais, a economia mundial, a crise estrat\u00e9gica, a seguran\u00e7a alimentar e o debate clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>Patriota fez um contundente chamado pela \u00abcolabora\u00e7\u00e3o multilateral em prol de meios pac\u00edficos, de modo a estabelecer uma nova ordem mundial\u00bb. Ele observou ainda que, enquanto os EUA continuar\u00e3o a exercer um papel de destaque e a Europa ainda est\u00e1 na defensiva, a chave para a configura\u00e7\u00e3o futura da pol\u00edtica mundial \u00e9 \u00aba coopera\u00e7\u00e3o multilateral\u00bb, com os BRICS se tornando uma \u00abplataforma importante\u00bb. \u00abSe cooperarmos na comunidade internacional com a paz e a seguran\u00e7a, precisamos construir pontes e superar obst\u00e1culos. Al\u00e9m disso, desejamos que o Brasil, que \u00e9 pac\u00edfico e n\u00e3o possui armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, se torne um membro do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Esse seria um sinal significativo para avan\u00e7ar rumo a uma nova &#8216;ordem pol\u00edtica mundial'\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A 49\u00aa. Confer\u00eancia sobre Seguran\u00e7a de Munique, realizada em 1-3 de fevereiro, foi a maior edi\u00e7\u00e3o do encontro em toda a sua hist\u00f3ria. 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