{"id":3732,"date":"2013-02-01T14:58:27","date_gmt":"2013-02-01T14:58:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=470"},"modified":"2013-02-01T14:58:27","modified_gmt":"2013-02-01T14:58:27","slug":"o-debate-oculto-em-davos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/o-debate-oculto-em-davos\/","title":{"rendered":"O debate oculto em Davos"},"content":{"rendered":"<p>A melhor s\u00edntese sobre a 43\u00aa. edi\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial (WEF, na sigla em ingl\u00eas), realizada entre 23 e 27 de janeiro, no tradicional resort de Davos, nos Alpes su\u00ed\u00e7os, talvez, tenha sido antecipada pelo jornalista Matthew Allen, do portal informativo Swissinfo. Escrevendo na v\u00e9spera da abertura do evento, ele deu \u00e0 sua nota o oportuno t\u00edtulo: \u00abIn\u00e9rcia reina na volta da elite a Davos\u00bb (Swissinfo.ch, 22\/01\/2013).<\/p>\n<p>Referindo-se \u00e0 falta de progresso no enfrentamento dos grandes temas mundiais, o jornalista cita um lamento do pr\u00f3prio fundador e presidente do F\u00f3rum, Klaus Schwab, em uma entrevista coletiva anterior ao evento: \u00abO fato \u00e9 que ainda estamos, de alguma forma, impedidos de fazer progressos. Minha esperan\u00e7a \u00e9 que possamos abordar os nossos assuntos globais com mais otimismo. Eu espero que os participantes saiam&#8230; sentindo uma responsabilidade maior para com a sociedade como um todo.\u00bb<\/p>\n<p>De fato, o tema central das grandes discuss\u00f5es que se travam entre as elites dirigentes do Hemisf\u00e9rio Norte &#8211; em grande medida, nos bastidores -, a necessidade de reforma do sistema financeiro internacional e a sua recoloca\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o da economia f\u00edsica, mal foi tocado no F\u00f3rum, onde assuntos como a prolifera\u00e7\u00e3o da obesidade e o pseudoproblema do aquecimento global receberam um destaque bem maior. Assim, praticamente, o debate sobre esta quest\u00e3o crucial ficou restrito a um painel de banqueiros e investidores, onde, previsivelmente, a regulamenta\u00e7\u00e3o do sistema foi duramente criticada, al\u00e9m do \u00abrecado\u00bb indireto dado pelo premier brit\u00e2nico David Cameron, com a amea\u00e7a de o Reino Unido deixar a Uni\u00e3o Europeia (UE), para que a eventual regulamenta\u00e7\u00e3o estabelecida para o bloco n\u00e3o venha a afetar os interesses da <em>City<\/em> de Londres. De forma sintom\u00e1tica, \u00e0 v\u00e9spera da viagem a Davos, Cameron proferiu um bomb\u00e1stico discurso sobre as rela\u00e7\u00f5es entre o Reino Unido e a Europa, aguardado h\u00e1 semanas, no qual anunciou a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o de um plebiscito sobre a continuidade da ades\u00e3o brit\u00e2nica \u00e0 UE.<\/p>\n<p>No painel banc\u00e1rio, os esfor\u00e7os de re-regulamenta\u00e7\u00e3o foram ferozmente recha\u00e7ados por um dos senhores do olimpo financeiro, o CEO do JP Morgan Chase, James Dimon, que tamb\u00e9m rebateu as cr\u00edticas sobre a falta de transpar\u00eancia dos bancos: \u00abOs neg\u00f3cios podem ser opacos. Eles s\u00e3o complexos. N\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o sabemos como funcionam os motores de avi\u00e3o.\u00bb Para ele, as tentativas de imposi\u00e7\u00e3o de r\u00e9deas ao sistema financeiro s\u00e3o contraproducentes: \u00abOk, s\u00e3o cinco anos depois da crise e n\u00f3s ainda n\u00e3o consertamos um monte de coisas de que voc\u00eas est\u00e3o falando. Parte do motivo \u00e9 que estamos tentando fazer muita coisa muito r\u00e1pido. N\u00f3s temos tantas coisas a caminho. [N\u00e3o queremos] ficar mais cinco anos apontando o dedo, buscando bodes expiat\u00f3rios e usando desinforma\u00e7\u00e3o&#8230; e pensando que estamos fazendo um sistema melhor (WEF, 23\/01\/2013).\u00bb<\/p>\n<p>Em outro painel, o igualmente todo-poderoso executivo-chefe (CEO) do Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, disse que o pior da crise j\u00e1 ficou para tr\u00e1s. \u00abEu acho que o momento de crise j\u00e1 passou. Os problemas mais preocupantes de que todo mundo falava no ano passado parecem estar fora da mesa de discuss\u00f5es\u00bb, afirmou. Como seria de se esperar, Blankfein tamb\u00e9m defendeu um dos aspectos de sua atividade mais caros a ele e seus colegas, os multimilion\u00e1rios b\u00f4nus pagos aos altos executivos financeiros, que tem sido alvo de acirradas cr\u00edticas em todo o mundo, desde o in\u00edcio da crise financeira (BBC News, 25\/01\/2013).<\/p>\n<p>Vale recordar que Blankfein \u00e9 o mesmo executivo que, em 2009, em meio \u00e0 avalanche de cr\u00edticas contra as pr\u00e1ticas dos megabancos, afirmou que eles desempenham uma fun\u00e7\u00e3o vital na economia e, modestamente, que se considerava apenas um banqueiro \u00abfazendo o trabalho de Deus\u00bb.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o de que o pior j\u00e1 passou foi transmitida, igualmente, pelo influente editor do <em>Financial Times<\/em>, Martin Wolf, para quem o evento ficaria marcado como o \u00absinal de al\u00edvio Davos\u00bb, principalmente, porque um colapso do euro, uma \u00abaterrissagem for\u00e7ada\u00bb da China e a crise da d\u00edvida dos EUA pareciam possibilidades distantes.<\/p>\n<p>Entre os chefes de Estado presentes, al\u00e9m de Cameron, o destaque foi para a poderosa chanceler alem\u00e3 Angela Merkel, que refor\u00e7ou o mantra da continuidade dos esfor\u00e7os de austeridade financeira na Europa. \u00abN\u00f3s ainda n\u00e3o estamos onde queremos estar. Ainda n\u00e3o sa\u00edmos da zona de perigo, mas estamos na dire\u00e7\u00e3o certa. A consolida\u00e7\u00e3o e o crescimento s\u00e3o basicamente os dois lados da mesma moeda. N\u00f3s n\u00e3o queremos dinamismo a qualquer pre\u00e7o, mas um dinamismo possa suportar choques.\u00bb<\/p>\n<p>Uma demonstra\u00e7\u00e3o da desorienta\u00e7\u00e3o de parte das lideran\u00e7as pol\u00edticas frente \u00e0 complexidade da crise global foi proporcionada pelo presidente israelense Shimon Peres, para quem as grandes companhias globais tendem a substituir cada vez mais o papel dos governos nacionais. \u00abOs governos est\u00e3o ficando desempregados, porque a economia se tornou global e os governos permanecem nacionais&#8230; Quarenta companhias globais t\u00eam uma fortuna maior que todos os governos do mundo\u00bb, afirmou.<\/p>\n<p>Segundo ele, as corpora\u00e7\u00f5es globais est\u00e3o respondendo \u00e0s expectativas de individualidade que definem as novas gera\u00e7\u00f5es: \u00abOs jovens n\u00e3o se satisfazem com a tentativa de ser iguais. Eles se satisfazem pela tentativa de ser diferentes.\u00bb Por isso, no futuro, os governos tendem a ser relegados \u00e0 mera fun\u00e7\u00e3o de \u00abmanejo\u00bb do Estado, com as corpora\u00e7\u00f5es globais assumindo, de forma crescente, a responsabilidade pelos investimentos e inova\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Convenientemente, o vetusto pol\u00edtico israelense se esqueceu de mencionar as m\u00faltiplas interven\u00e7\u00f5es dos estados nacionais para confrontar a crise global, sem as quais a economia mundial e o pr\u00f3prio sistema financeiro, resgatado com recursos p\u00fablicos, teriam sido devastados. Por\u00e9m, os seus antolhos seletivos comp\u00f5em o equipamento favorito de muita gente deslumbrada com a \u00abglobaliza\u00e7\u00e3o\u00bb, que n\u00e3o consegue enxergar que, em mil\u00eanios de hist\u00f3ria civilizada, a humanidade n\u00e3o criou institui\u00e7\u00e3o melhor que o surrado mas consagrado Estado nacional soberano, para se organizar politicamente &#8211; o qual, apesar da popularidade de semelhantes del\u00edrios, ainda n\u00e3o tem substituto \u00e0 vista.<\/p>\n<p>Uma rara voz de lucidez a se manifestar no evento foi a do presidente da Isl\u00e2ndia, Olafur Ragnar Grimmson, que demonstrou \u00e0 sua plat\u00e9ia que o principal motivo de seu pa\u00eds estar deixando para tr\u00e1s os efeitos da crise financeira se deve ao fato de n\u00e3o ter seguido o receitu\u00e1rio ortodoxo adotado no restante da Europa.<\/p>\n<p>Mas Grimmson foi um pregador no deserto, falando para uma multid\u00e3o de not\u00e1veis cujos GPS est\u00e3o descalibrados e se recusam a admiti-lo. Esta inc\u00f4moda sensa\u00e7\u00e3o se refor\u00e7a com a listagem dos principais riscos mundiais, estabelecida por um painel de especialistas consultados pelo WEF para compor o <em>\u00abRelat\u00f3rio dos Riscos Globais 2013\u00bb<\/em>. Na pesquisa de percep\u00e7\u00e3o dos riscos globais, efetuada para o relat\u00f3rio, os dois riscos de maior import\u00e2ncia sist\u00eamica ao longo da pr\u00f3xima d\u00e9cada foram: 1) uma grande quebra financeira sist\u00eamica; e 2) o fracasso da adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas diante do aumento das emiss\u00f5es dos gases de efeito estufa.<\/p>\n<p>A ris\u00edvel equipara\u00e7\u00e3o do pseudoproblema clim\u00e1tico com a grav\u00edssima perspectiva &#8211; real &#8211; de uma implos\u00e3o do sistema financeiro internacional \u00e9 suficiente para demonstrar que ser\u00e1 preciso muito mais que convescotes nos Alpes, para enfiar um pouco mais de realidade nas considera\u00e7\u00f5es desse \u00absenhores do universo\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A melhor s\u00edntese sobre a 43\u00aa. edi\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial (WEF, na sigla em ingl\u00eas), realizada entre 23 e 27 de janeiro, no tradicional resort de Davos, nos Alpes su\u00ed\u00e7os, talvez, tenha sido antecipada pelo jornalista Matthew Allen, do portal informativo Swissinfo. 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