{"id":3731,"date":"2013-01-18T14:25:30","date_gmt":"2013-01-18T14:25:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=458"},"modified":"2013-01-18T14:25:30","modified_gmt":"2013-01-18T14:25:30","slug":"2013-realidade-direciona-definicoes-cruciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/2013-realidade-direciona-definicoes-cruciais\/","title":{"rendered":"2013: realidade direciona defini\u00e7\u00f5es cruciais"},"content":{"rendered":"<p>Apesar de a volatilidade do cen\u00e1rio global dificultar qualquer progn\u00f3stico, 2013 se apresenta como um ano potencialmente decisivo para as defini\u00e7\u00f5es de certas tend\u00eancias que est\u00e3o reconfigurando a ordena\u00e7\u00e3o dos assuntos humanos em escala mundial. Como uma regra mais ou menos generalizada, o peso da realidade est\u00e1 se impondo sobre a disfuncionalidade de constru\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas desenvolvidas para favorecer os interesses restritos de grupos hegem\u00f4nicos, burocracias autoperpetuantes e setores sociais favorecidos por algumas dessas tend\u00eancias.<\/p>\n<p>Na esfera pol\u00edtico-estrat\u00e9gica, 2013 poder\u00e1 ser o ano em que mergulhe no abismo (bem mais greve que o fiscal) a pretendida \u00abPax Americana\u00bb, a tentativa de imposi\u00e7\u00e3o dos EUA como uma hiperpot\u00eancia imperial baseada no seu inigual\u00e1vel &#8211; e economicamente insustent\u00e1vel &#8211; aparato militar e no papel exclusivo do d\u00f3lar como moeda de refer\u00eancia mundial. Em paralelo com a ascens\u00e3o de novos atores regionais, pouco dispostos a aceitar o exclusivismo e os interesses estadunidenses como linhas mestras da ordem mundial, Washington se v\u00ea \u00e0s voltas com uma impag\u00e1vel hipertrofia do seu bra\u00e7o militar &#8211; respons\u00e1vel por cerca de 50% do d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio do governo federal &#8211; e, ao mesmo tempo, com os ruinosos efeitos da hiperfinanceiriza\u00e7\u00e3o da economia, que se mostram na desindustrializa\u00e7\u00e3o, nos altos n\u00edveis de desemprego e na compress\u00e3o da classe m\u00e9dia. N\u00e3o por acaso, o estrategista George Friedman, diretor do Stratfor, <em>think-tank<\/em> estritamente alinhado com os interesses do <em>Establishment<\/em>, aponta o persistente decl\u00ednio dos n\u00edveis de vida da classe m\u00e9dia como uma das principais amea\u00e7as geopol\u00edticas ao poderio estadunidense, a m\u00e9dio e longo prazos.<\/p>\n<p>O ano \u00e9 tamb\u00e9m emblem\u00e1tico, por marcar o centen\u00e1rio do Sistema da Reserva Federal, o banco central privado que ocupa o v\u00e9rtice do sistema de finan\u00e7as prevalecente, baseado no financiamento p\u00fablico e na emiss\u00e3o de cr\u00e9dito por endividamento junto a bancos privados. Por isso, \u00e9 relevante que esteja crescendo no pa\u00eds, lenta mas firmemente, um movimento em favor da cria\u00e7\u00e3o de bancos p\u00fablicos, como o Banco de Dakota do Norte &#8211; n\u00e3o por coincid\u00eancia, o \u00fanico estado a ostentar super\u00e1vit fiscal e com um dos menores \u00edndices de desemprego dos EUA.<\/p>\n<p>No campo militar, com a nomea\u00e7\u00e3o do ex-senador republicano Chuck Hagel como o novo secret\u00e1rio de Defesa, o presidente Barack Obama sinaliza uma aparente inten\u00e7\u00e3o de reduzir a presen\u00e7a militar no exterior, compatibilizando-a com a realidade or\u00e7ament\u00e1ria. Cr\u00edtico da invas\u00e3o do Iraque e not\u00f3rio por sua independ\u00eancia frente ao poderoso lobby pr\u00f3-Israel que atua no Congresso, Hagel (que ainda precisa ser confirmado pelo Congresso) poder\u00e1 ser uma importante barreira contra novas aventuras militares, como um ataque ao Ir\u00e3, sonhado pelos \u00abneoconservadores\u00bb e a caterva belicista que pulula nos gabinetes de Washington. N\u00e3o obstante, tal medida poder\u00e1 incitar tais grupos a a\u00e7\u00f5es provocativas, inclusive opera\u00e7\u00f5es clandestinas de intelig\u00eancia ou uma nova investida militar de Israel.<\/p>\n<p>Na economia, o panorama continua sombrio. O relat\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as perspectivas econ\u00f4micas para 2013 (World Economic Situation and Prospects 2013), divulgado em meados de dezembro, prev\u00ea que a recess\u00e3o global dever\u00e1 prolongar-se, pelo menos, pelos pr\u00f3ximos dois anos. Antecipando um crescimento global de 2,4% para o ano, o relat\u00f3rio afirma que esta taxa \u00abficar\u00e1 longe de ser suficiente para superar a continuada crise de empregos que muitos pa\u00edses ainda est\u00e3o enfrentando\u00bb. Ademais, ressalta, \u00abcom as pol\u00edticas e tend\u00eancias de crescimento existentes, poder\u00e1 levar pelo menos cinco anos para que a Europa e os EUA compensem as perdas de empregos causadas pela grande recess\u00e3o de 2008-2009\u00bb.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 emblem\u00e1tico que os ventos da realidade estejam come\u00e7ando a bafejar os gabinetes de \u00f3rg\u00e3os multilaterais comprometidos com o status quo, como o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), que iniciou o ano com um aut\u00eantico auto-de-f\u00e9 sobre os desastrosos resultados das pol\u00edticas de austeridade que t\u00eam imposto aos pa\u00edses \u00e0s voltas com problemas de endividamento. Cuidadosamente publicado como um <em>Working Paper<\/em> &#8211; que n\u00e3o representa, necessariamente, a posi\u00e7\u00e3o oficial do FMI -, o documento, escrito pelo economista-chefe Olivier Blanchard e seu colega Daniel Leigh (<a href=\"http:\/\/www.imf.org\/external\/pubs\/ft\/wp\/2013\/wp1301.pdf\">Growth Forecast Errors and Fiscal Multipliers<\/a>), admite, candidamente, que \u00abos progn\u00f3sticos subestimaram significativamente o aumento do desemprego e o decl\u00ednio da demanda dom\u00e9stica associada com a consolida\u00e7\u00e3o fiscal\u00bb. Sem dar detalhes sobre as causas de tais \u00abequ\u00edvocos\u00bb, os autores admitem que, como regra geral, cada 1% do PIB em cortes or\u00e7ament\u00e1rios impostos a pa\u00edses como a Espanha, Irlanda, Gr\u00e9cia, Portugal e It\u00e1lia, implicou em uma contra\u00e7\u00e3o de 1,5% do PIB, agravando a \u00abespiral de d\u00edvidas\u00bb que tem avassalado o continente europeu.<\/p>\n<p>Evidentemente, para n\u00e3o darem os bra\u00e7os a torcer, os funcion\u00e1rios do Fundo concluem afirmando que<\/p>\n<blockquote><p>os resultados n\u00e3o implicam em que a consolida\u00e7\u00e3o fiscal seja indesej\u00e1vel. Virtualmente todas as economias avan\u00e7adas enfrentam o desafio dos ajustes fiscais, em resposta aos elevados n\u00edveis de endividamento dos governos e \u00e0s futuras press\u00f5es das mudan\u00e7as demogr\u00e1ficas sobre as finan\u00e7as p\u00fablicas. Os efeitos de curto prazo (sic) das pol\u00edticas fiscais sobre as atividades econ\u00f4micas s\u00e3o apenas um de v\u00e1rios fatores que precisam ser considerados na determina\u00e7\u00e3o do ritmo adequado de consolida\u00e7\u00e3o fiscal em cada pa\u00eds.<\/p><\/blockquote>\n<p>Tamb\u00e9m, aqui, n\u00e3o parece casual que, em agosto \u00faltimo, o FMI tenha divulgado um estudo sobre a eventual devolu\u00e7\u00e3o da capacidade de emiss\u00e3o de moeda aos Estados nacionais soberanos, separando as fun\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias e credit\u00edcias dos bancos (\u00abO Plano de Chicago revisitado\u00bb, <em>Resenha Estrat\u00e9gica<\/em>, 31\/10\/2012). Cedo ou tarde, a reforma financeira, que se mostra cada vez mais premente, ter\u00e1 que contemplar o fato de que as economias do s\u00e9culo XXI, cada vez mais complexas, sofisticadas e interdependentes, se mostram incompat\u00edveis com os privil\u00e9gios concedidos \u00e0 alta finan\u00e7a globalizada e seus m\u00e9todos herdados do Banco da Inglaterra, desde o final do s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p>No Brasil, o \u00abreality show\u00bb mais relevante n\u00e3o estar\u00e1 nas telas dos televisores. Apesar das medidas antic\u00edclicas adotadas at\u00e9 agora, cuja efic\u00e1cia, visivelmente, se esgota, a crise amea\u00e7a outro ano de baixo desempenho da economia, agravada pela perspectiva de uma emerg\u00eancia energ\u00e9tica anunciada, causada pelos baixos n\u00edveis dos reservat\u00f3rios das usinas hidrel\u00e9tricas, que poder\u00e1 colocar o Pa\u00eds diante de um racionamento de energia, como ocorreu em 2000-2001. Grande parte do problema se deve aos desastrosos impactos das press\u00f5es ambientalistas e indigenistas sobre a expans\u00e3o da infraestrutura energ\u00e9tica, \u00e0s quais sucessivos governos t\u00eam se submetido. Hidrel\u00e9tricas sem reservat\u00f3rios e a lentid\u00e3o do avan\u00e7o do programa nuclear est\u00e3o entre as principais consequ\u00eancias dessa submiss\u00e3o, pela qual o Pa\u00eds tem pago um alt\u00edssimo pre\u00e7o &#8211; e continuar\u00e1 pagando, se ela n\u00e3o cessar.<\/p>\n<p>Bem-vindos a 2013!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de a volatilidade do cen\u00e1rio global dificultar qualquer progn\u00f3stico, 2013 se apresenta como um ano potencialmente decisivo para as defini\u00e7\u00f5es de certas tend\u00eancias que est\u00e3o reconfigurando a ordena\u00e7\u00e3o dos assuntos humanos em escala mundial. 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