{"id":3725,"date":"2012-11-16T16:08:24","date_gmt":"2012-11-16T16:08:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=418"},"modified":"2012-11-16T16:08:24","modified_gmt":"2012-11-16T16:08:24","slug":"50-anos-da-crise-dos-misseis-de-cuba-licoes-atuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/50-anos-da-crise-dos-misseis-de-cuba-licoes-atuais\/","title":{"rendered":"50 anos da Crise dos M\u00edsseis de Cuba: li\u00e7\u00f5es atuais"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo meio s\u00e9culo, a Crise dos M\u00edsseis de Cuba tem sido tratada como o momento mais perigoso da Guerra Fria, quando o mundo esteve \u00e0s portas de um conflito nuclear entre as superpot\u00eancias, cujas consequ\u00eancias teriam sido verdadeiramente apocal\u00edpticas. Hoje, sabe-se que o perigo foi bem maior que o percebido na \u00e9poca e que o Armagedon foi evitado apenas pelas a\u00e7\u00f5es determinadas de um pequeno punhado de homens que, em Washington, Moscou e no Mar do Caribe, tiveram a coragem de manter a lucidez em momentos cr\u00edticos e de rever conceitos enraizados por quase duas d\u00e9cadas de confronta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e militarista, resistindo \u00e0s fort\u00edssimas press\u00f5es dos belicistas de plant\u00e3o em ambos os lados, que, como alguns de seus sucessores de hoje, apostavam numa grande conflagra\u00e7\u00e3o como meio para a consecu\u00e7\u00e3o dos seus des\u00edgnios hegem\u00f4nicos. Apenas por esses motivos, o cinquenten\u00e1rio dos 13 dias que abalaram o mundo j\u00e1 seria uma oportunidade para uma recorda\u00e7\u00e3o daqueles momentos cruciais, dos quais alguns ensinamentos preciosos precisam ser apreendidos pelos indiv\u00edduos situados nos altos postos e respons\u00e1veis por decis\u00f5es que influenciam todo o planeta.<\/p>\n<p>A crise se desdobrou entre os dias 16 e 28 de outubro de 1962, depois que um avi\u00e3o de reconhecimento estadunidense descobriu que os sovi\u00e9ticos estavam instalando m\u00edsseis nucleares de alcance m\u00e9dio em Cuba, capazes de atingir em poucos minutos uma s\u00e9rie de alvos na Costa Leste e no Sul dos EUA. A medida, com a qual o Kremlin pretendia contrabalan\u00e7ar a grande superioridade num\u00e9rica de que os EUA detinham, ent\u00e3o, em m\u00edsseis bal\u00edsticos de longo alcance, provocou uma imediata rea\u00e7\u00e3o de Washington, com o Estado-Maior Conjunto, recheado de \u00abfalc\u00f5es\u00bb, recomendando ao presidente John F. Kennedy (1961-1963) a realiza\u00e7\u00e3o imediata de ataques a\u00e9reos \u00e0s bases dos m\u00edsseis em Cuba, seguida, em poucos dias, por uma invas\u00e3o da ilha caribenha.<\/p>\n<p>Referindo-se \u00e0 I Guerra Mundial e, em particular, ao c\u00e9lebre\u00a0best-seller\u00a0de Barbara Tuchman,\u00a0Os canh\u00f5es de agosto, Kennedy insistia em ressaltar a inadequa\u00e7\u00e3o das t\u00e1ticas e respostas militares convencionais em uma era de armamentos nucleares, cujo emprego quase inevit\u00e1vel seria devastador. Em vez de a\u00e7\u00f5es diretas, optou por um bloqueio naval, com o qual os navios que se destinavam a Cuba seriam interceptados pela Marinha dos EUA e inspecionados, em busca de armas. Ao final, com a ajuda crucial de uma ativa diplomacia de bastidores entre Kennedy e o premier sovi\u00e9tico Nikita Krushchov, os m\u00edsseis foram retirados, em troca do compromisso do presidente de n\u00e3o invadir Cuba e de retirar em alguns meses os m\u00edsseis intercontinentais estadunidenses baseados na Turquia e na It\u00e1lia, desde que esta parte do acordo n\u00e3o fosse divulgada pelo Kremlin.<\/p>\n<p>No decorrer da crise, houve v\u00e1rios epis\u00f3dios em que a situa\u00e7\u00e3o esteve muito perto de sair do controle: quando os \u00abfalc\u00f5es\u00bb do Pent\u00e1gono determinaram que o n\u00edvel de alerta das for\u00e7as estrat\u00e9gicas estadunidenses fosse elevado ao pen\u00faltimo est\u00e1gio antes da guerra (Defcon 2) e efetuaram um teste de um m\u00edssil nuclear, sem avisar o presidente; quando um avi\u00e3o de reconhecimento U-2 foi abatido sobre Cuba, com a morte do piloto; e, no mesmo dia, quando um submarino sovi\u00e9tico esteve a um passo de disparar um torpedo nuclear contra a for\u00e7a-tarefa estadunidense que o acossava. Durante todo o tempo, tanto Kennedy como Krushchov receberam fortes press\u00f5es dos respectivos \u00ablinhas duras\u00bb em favor de uma op\u00e7\u00e3o militar para o imbr\u00f3glio.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, a hist\u00f3rica afirmativa do secret\u00e1rio de Estado Dean Rusk, um dos belicistas encastelados no gabinete de Kennedy, denota o estado de esp\u00edrito dos seus compatriotas de todas as \u00e9pocas, que veem nos EUA a na\u00e7\u00e3o predestinada \u00e0 hegemonia global incontest\u00e1vel: \u00abN\u00f3s nos vimos olho no olho, e eu acho que o outro cara, simplesmente, piscou.\u00bb<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, o epis\u00f3dio acabou promovendo uma esp\u00e9cie de epifania nos dois l\u00edderes, que mantiveram uma correspond\u00eancia privada sigilosa, durante os meses seguintes, at\u00e9 o assassinato de JFK, em novembro de 1963, na qual chegaram a acenar com o fim da Guerra Fria e a possibilidade de uma coopera\u00e7\u00e3o cient\u00edfico-tecnol\u00f3gica conjunta para a explora\u00e7\u00e3o espacial.<\/p>\n<p>Em um oportuno artigo publicado em 26 de outubro, o comentarista pol\u00edtico da rede russa RT, Sergey Strokan, destaca cinco li\u00e7\u00f5es da crise para os nossos dias.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 que \u00abrespostas assim\u00e9tricas\u00bb, como a que Krushchov tentou impor aos EUA, constituem empreitadas extremamente arriscadas: \u00abElas s\u00e3o a heran\u00e7a da Guerra Fria e n\u00e3o t\u00eam lugar no mundo de hoje. Em vez de respostas assim\u00e9tricas, os l\u00edderes deveriam entender que qualquer tentativa de construir a seguran\u00e7a das suas na\u00e7\u00f5es em detrimento das demais, ao final das contas, resultar\u00e1 apenas em inseguran\u00e7a.\u00bb<\/p>\n<p>A segunda li\u00e7\u00e3o, diz, \u00e9 que \u00aba resolu\u00e7\u00e3o de crises &#8211; tanto globais como regionais &#8211; deveria se basear em restri\u00e7\u00e3o por parte dos l\u00edderes e excluir, de forma inequ\u00edvoca, as guerras como instrumentos de pol\u00edtica mundial. Alguns dizem que, 50 anos ap\u00f3s a crise cubana, \u00e9 extremo idealismo e wishful thinking acreditar que os l\u00edderes de hoje seguiriam este princ\u00edpio, considerando as guerras no Afeganist\u00e3o, Iraque, L\u00edbia e S\u00edria e a ret\u00f3rica belicista contra o Ir\u00e3. Entrentanto, Kennedy e Krushchov demonstraram que um tal c\u00f3digo de conduta n\u00e3o \u00e9, de modo algum, imposs\u00edvel\u00bb.<\/p>\n<p>A terceira \u00ab\u00e9 a no\u00e7\u00e3o de que, em uma crise do g\u00eanero, h\u00e1 sempre circunst\u00e2ncias acidentais que possam, eventualmente, provocar uma escalada fora do controle dos l\u00edderes. Quando o bloqueio estadunidense de Cuba entrou em vigor e submarinos sovi\u00e9ticos se aproximaram, Kennedy ordenou que os navios estadunidenses disparassem pequenas cargas de profundidade contra eles, para for\u00e7\u00e1-los a vir \u00e0 superf\u00edcie. Os historiadores dizem que Kennedy n\u00e3o sabia que os submarinos levavam torpedos nucleares e estiveram perto de us\u00e1-los\u00bb.<\/p>\n<p>A quarta li\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es russo-estadunidenses \u00e9 que, \u00abrotulando o outro como o inimigo n\u00famero um, como o Sr. [Mitt] Romney faz hoje, \u00e9, para dizer o m\u00ednimo, uma pr\u00e1tica surrada e esdr\u00faxula &#8211; esta \u00e9 uma mentalidade ultrapassada e obsoleta. Os l\u00edderes que se aferram a velhos dogmas, provavelmente, foram maus estudantes de Hist\u00f3ria. Hoje, eles se parecem a homens presos no passado. Permita-se que tenham uma vis\u00e3o melhor das poltronas usadas por Kennedy e Krushchov, durante as suas conversas em Viena, ou considere-se como, logo ap\u00f3s a Crise dos M\u00edsseis, Kennedy e Krushchov iniciaram a sua pr\u00f3pria &#8216;religa\u00e7\u00e3o&#8217; [reset, no original &#8211; n.e.], assinando um acordo comercial exclusivo, em 1963. E, menos de um ano ap\u00f3s a crise, falando no plen\u00e1rio da ONU, em 20 de setembro de 1963, JFK prop\u00f4s uma explora\u00e7\u00e3o espacial conjunta estadunidense-sovi\u00e9tica\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abAlguns dizem que, tanto para os EUA como para a R\u00fassia, outubro \u00e9 um m\u00eas assustador &#8211; n\u00e3o apenas por causa da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique e do Halloween, mas por causa da Crise dos M\u00edsseis de Cuba. Entretanto, os desastres podem ser facilmente evitados, quando egos nacionais e paranoias cedem lugar a um novo pragmatismo, comumente, descoberto com enormes dificuldades, ap\u00f3s crises e erros. Esta \u00e9 a quinta e \u00faltima li\u00e7\u00e3o a ser aprendida da crise cubana\u00bb, conclui Strokan.<\/p>\n<p>Acima de tudo, a supera\u00e7\u00e3o da Crise dos M\u00edsseis sinalizou com a possibilidade de uma substitui\u00e7\u00e3o da corrida armamentista da Guerra Fria por uma estrat\u00e9gia cooperativa entre as duas superpot\u00eancias, inclusive, com uma lideran\u00e7a conjunta da explora\u00e7\u00e3o espacial. No contexto geral, tal quadro proporcionaria uma retomada da agenda das \u00abquatro liberdades\u00bb proclamada pelo presidente Franklin D. Roosevelt durante a II Guerra Mundial (de palavra e express\u00e3o, de culto, da mis\u00e9ria e do medo), al\u00e9m de recolocar as rela\u00e7\u00f5es entre os EUA e a URSS no molde cooperativo pretendidos por ele para o p\u00f3s-guerra, sepultado pelo advento do confronto ideol\u00f3gico. Desafortunadamente, o assassinato de Kennedy implicou na anula\u00e7\u00e3o imediata de tal perspectiva, que tinha o potencial para elevar a Humanidade como um todo a um patamar civilizat\u00f3rio superior, e abriu as portas para a consolida\u00e7\u00e3o do conjunto de interesses agrupado em torno do complexo industrial-militar estadunidense e do sistema financeiro internacional controlado pelo eixo Wall Street-<em>City<\/em>\u00a0de Londres, alian\u00e7a hegem\u00f4nica que tem dominado as pol\u00edticas de todos os presidentes estadunidenses, desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, a supera\u00e7\u00e3o da presente crise global somente ser\u00e1 poss\u00edvel se for retomado o enfoque positivo que emergiu da Crise dos M\u00edsseis. A alternativa \u00e9 manter o mundo ref\u00e9m da mesma din\u00e2mica belicista que, em outubro de 1962, o levou bem perto da devasta\u00e7\u00e3o nuclear.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo meio s\u00e9culo, a Crise dos M\u00edsseis de Cuba tem sido tratada como o momento mais perigoso da Guerra Fria, quando o mundo esteve \u00e0s portas de um conflito nuclear entre as superpot\u00eancias, cujas consequ\u00eancias teriam sido verdadeiramente apocal\u00edpticas. 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