{"id":3716,"date":"2012-08-17T18:06:06","date_gmt":"2012-08-17T18:06:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=302"},"modified":"2012-08-17T18:06:06","modified_gmt":"2012-08-17T18:06:06","slug":"o-poder-inteligente-e-os-canhoes-de-agosto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/o-poder-inteligente-e-os-canhoes-de-agosto\/","title":{"rendered":"O &quot;poder inteligente&quot; e os &quot;canh\u00f5es de agosto&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Apesar das sucessivas demonstra\u00e7\u00f5es dos limites do poderio militar como instrumento de pol\u00edtica externa com as quais t\u00eam se deparado, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, os c\u00edrculos supremacistas do <em>Establishment<\/em> anglo-americano continuam apostando nele para a estrat\u00e9gia de preserva\u00e7\u00e3o da sua crescentemente questionada hegemonia global. O pressuposto b\u00e1sico que continua fundamentando a sua agenda estrat\u00e9gica \u00e9 o de que n\u00e3o existe alternativa \u00e0 hegemonia do poder e do \u00abexcepcionalismo\u00bb estadunidense, o qual est\u00e1 na raiz de concep\u00e7\u00f5es como a do \u00abpoder inteligente\u00bb (<em>smart power<\/em>), que tem sido propagandeado pela secret\u00e1ria de Estado Hillary Clinton, como a nova diretriz estrat\u00e9gica da atua\u00e7\u00e3o dos EUA no cen\u00e1rio global. Em um artigo publicado em 18 de julho na revista inglesa <em>The New Statesman<\/em> e reproduzido em jornais de todo o mundo (inclusive no <em>\u00abEstad\u00e3o\u00bb<\/em> de 29 de julho), Hillary dissertou sobre \u00abA arte do poder inteligente\u00bb. O texto conclui com uma categ\u00f3rica e arrogante advert\u00eancia ao mundo:<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o existe na Hist\u00f3ria um precedente real do papel que desempenhamos ou das responsabilidades que assumimos, e n\u00e3o h\u00e1 alternativa. Isto \u00e9 o que torna t\u00e3o excepcional a lideran\u00e7a estadunidense, e \u00e9 por isso que estou confiante em que continuaremos a servir e defender uma ordem global pac\u00edfica e pr\u00f3spera, por muitos anos ainda.<\/p><\/blockquote>\n<p>Seguramente, existem poucos precedentes hist\u00f3ricos de uma tamanha manifesta\u00e7\u00e3o de arrog\u00e2ncia imperial por parte de um representante do governo de qualquer pa\u00eds, desde que o Homo sapiens sapiens come\u00e7ou a se organizar em estados e na\u00e7\u00f5es e passou a dedicar-se a conquistar e submeter outros povos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os interesses institucionais intr\u00ednsecos do \u00abcomplexo de seguran\u00e7a nacional\u00bb e suas interconex\u00f5es com o sistema financeiro internacional, tamb\u00e9m, impoem a sua din\u00e2mica peculiar na agenda pol\u00edtica, contribuindo para criar um cen\u00e1rio de alto potencial explosivo e com situa\u00e7\u00f5es em que qualquer incidente pode deflagrar um conflito de grandes propor\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Em uma recente reuni\u00e3o com um alto oficial militar europeu, o comandante militar da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN), almirante James Stavridis, sintetizou a sua percep\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio estrat\u00e9gico-pol\u00edtico internacional com uma frase curta e agourenta: \u00abN\u00f3s estamos em 1914 (De Defensa, 3\/08\/2012).\u00bb<\/p>\n<p>Para os conhecedores da Hist\u00f3ria, a avalia\u00e7\u00e3o do l\u00edder militar da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica remete \u00e0 tr\u00e1gica combina\u00e7\u00e3o de erros de c\u00e1lculo, imprud\u00eancias e a\u00e7\u00f5es deliberadas, que, em agosto de 1914, se traduziu nos sucessivos ultimatos e declara\u00e7\u00f5es de guerra que conflu\u00edram na I Guerra Mundial. Em especial, o almirante se referia \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de \u00abautomatismo\u00bb assumido pelos fatos, depois que certas decis\u00f5es fatais foram tomadas pelos l\u00edderes europeus da \u00e9poca, que deixou em numerosos historiadores do conflito a impress\u00e3o de que, a partir de um certo ponto, a din\u00e2mica de guerra se imp\u00f4s \u00e0s tentativas feitas \u00e0 \u00faltima hora para impedi-la. Embora se desconhe\u00e7am os detalhes da conversa de Stavridis com seu colega europeu, ele pode ter pensado, por exemplo, no desespero do imperador alem\u00e3o Guilherme II, pedindo a seu primo, o czar Nicolau II, para n\u00e3o ordenar a mobiliza\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito imperial russo, devido ao ultimato do Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro \u00e0 S\u00e9rvia (onde um terrorista havia assassinado o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono de Viena), situa\u00e7\u00e3o considerada casus belii para o Estado-Maior germ\u00e2nico. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se sabe se ele pensou no af\u00e3 do primeiro lorde do Almirantado, o jovem e belicoso Winston Churchill, que ardia de desejo por um conflito armado e foi um dos principais art\u00edfices da declara\u00e7\u00e3o de guerra do governo brit\u00e2nico \u00e0 Alemanha, que o premier Henry Asquith queria evitar a todo custo (n\u00e3o por acaso, Churchill \u00e9 o grande \u00edcone dos c\u00edrculos ultrabelicistas do Establishment anglo-americano).<\/p>\n<p>Tais fatos foram magistralmente descritos pela historiadora estadunidense Barbara W. Tuchman, em seu livro <em>Canh\u00f5es de agosto<\/em> (Objetiva, 1994), que lhe valeu um Pr\u00eamio Pulitzer e era um dos favoritos do presidente John F. Kennedy. Como se sabe, Kennedy mandou distribuir exemplares do livro entre altos funcion\u00e1rios do governo e oficiais militares e extraiu dele preciosos ensinamentos, que muito ajudaram a orientar a sua atitude durante a Crise dos M\u00edsseis de Cuba, em outubro de 1962, quando foi decisivo para evitar o confronto nuclear desejado pelos \u00abfalc\u00f5es\u00bb militares e civis de seu governo.<\/p>\n<p>Quase um s\u00e9culo depois, uma vis\u00e3o dos acontecimentos em curso no Oriente M\u00e9dio deixa em qualquer observador minimamente atento a impress\u00e3o de que, efetivamente, este agosto guarda sombrias semelhan\u00e7as com o daquele ano fat\u00eddico em que o mundo mergulharia na mais sangrenta das guerras travadas at\u00e9 ent\u00e3o. Na atmosfera carregada de vapores explosivos, resultante da combina\u00e7\u00e3o do conflito na S\u00edria, a campanha de press\u00f5es contra o Ir\u00e3 (incluindo um bloqueio econ\u00f4mico e opera\u00e7\u00f5es clandestinas equivalentes a atos de guerra, sem falar nas ostensivas amea\u00e7as de Israel) e a onipresente quest\u00e3o palestina, qualquer evento singular tem o potencial de deflagrar uma escalada de a\u00e7\u00f5es militares que, em \u00faltima an\u00e1lise, pode resultar num conflito regional de alta intensidade.<\/p>\n<p>Na S\u00edria, a interfer\u00eancia externa na rebeli\u00e3o contra o governo do presidente Bashar al-Assad \u00e9 cada vez mais ativa e vis\u00edvel, sendo admitida abertamente pelo presidente estadunidense Barack Obama, que determinou que o Departamento de Estado encontre formas \u00abencobertas\u00bb de apoiar os insurgentes do chamado Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria (FSA, em ingl\u00eas). Por ironia, a decis\u00e3o ocorre no momento em que as atrocidades do FSA contra simpatizantes do regime de Assad come\u00e7am a se tornar inocult\u00e1veis para a m\u00eddia ocidental, que at\u00e9 agora vinha tratando o grupo como uma coliga\u00e7\u00e3o de paladinos em luta por \u00abdemocracia\u00bb no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A sem cerim\u00f4nia dos belicistas olig\u00e1rquicos chega ao ponto de justificarem a mobiliza\u00e7\u00e3o de combatentes da rede terrorista Al-Qaida (que, de resto, j\u00e1 operam na S\u00edria) para injetar disposi\u00e7\u00e3o no FSA. Em um coment\u00e1rio publicado em 6 de agosto, no s\u00edtio do Conselho de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (CFR), o <em>senior fellow<\/em> para Assuntos do Oriente M\u00e9dio, Ed Husain, afirmou, sem qualquer pudor:<\/p>\n<blockquote><p>Os rebeldes s\u00edrios seriam incomensuravelmente mais fracos hoje, se n\u00e3o contassem com a Al-Qaida em suas fileiras. De um modo geral, os batalh\u00f5es do FSA est\u00e3o cansados, divididos, ca\u00f3ticos e inefetivos. Sentindo-se abandonadas pelo Ocidente, as for\u00e7as rebeldes est\u00e3o se desmoralizando, crescentemente, na medida em que se defrontam com o armamento superior e o Ex\u00e9rcito profissional do regime de Assad. Por\u00e9m, os combatentes da Al-Qaida podem ajudar a levantar o moral. O influxo de jihadistas traz disciplina, fervor religioso, experi\u00eancia de batalha do Iraque, financiamento de simpatizantes sunitas no Golfo e, o mais importante, resultados letais. Em suma, o FSA necessita da Al-Qaida j\u00e1.<\/p><\/blockquote>\n<p>Poucas vezes, a enfermidade mental dos supremacistas da oligarquia anglo-americana ficou t\u00e3o expl\u00edcita em um texto t\u00e3o conciso. Em um \u00fanico par\u00e1grafo, o autor deixou de lado qualquer prurido de pendor \u00abdemocr\u00e1tico\u00bb &#8211; justificativa oficial para o apoio aos rebeldes s\u00edrios -, al\u00e9m de admitir que a Al-Qaida \u00e9 um ativo de intelig\u00eancia de tais c\u00edrculos de poder. Para completar, ele afirma: \u00abO c\u00e1lculo pol\u00edtico n\u00e3o declarado entre os formuladores de pol\u00edticas \u00e9, primeiro, livrar-se de Assad &#8211; enfraquecendo a posi\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3 na regi\u00e3o &#8211; e, depois, lidar com a Al-Qaida.\u00bb<\/p>\n<p>Ou seja, para o prop\u00f3sito da \u00abmudan\u00e7a de regime\u00bb em Damasco, qualquer recurso \u00e9 v\u00e1lido, mesmo recorrer aos terroristas contra os quais, oficialmene, o governo dos EUA declarou a \u00abguerra ao terror\u00bb, em 2001.<\/p>\n<p>Enquanto isso, outros fatores contribuem para aumentar a concentra\u00e7\u00e3o de vapores explosivos na atmosfera da regi\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; a interfer\u00eancia crescente da Irmandade Mu\u00e7ulmana nos combates, mobilizando grupos armados sunitas para o conflito &#8211; o que, por sua vez, est\u00e1 levando as minorias alau\u00edtas, xiitas, drusas e crist\u00e3s, que formam o tecido social s\u00edrio, a tamb\u00e9m se armarem, aumentando as perspectivas de conflitos sect\u00e1rios;<\/p>\n<p>&#8211; a \u00abguerra de intelig\u00eancia\u00bb entre a S\u00edria e a Ar\u00e1bia Saudita, que, entre outras a\u00e7\u00f5es ofensivas, resultou no atentado \u00e0 bomba ao QG dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a s\u00edrios em Damasco, em 18 de julho, no qual morreram tr\u00eas altos funcion\u00e1rios do regime, inclusive o ministro da Defesa; em uma poss\u00edvel retalia\u00e7\u00e3o, quatro dias depois, uma explos\u00e3o teria ocorrido na sede do servi\u00e7o de intelig\u00eancia saudita, em Riad, na qual teria sido morto o pr\u00edncipe Bandar bin Sultan Al-Saud, ex-embaixador em Washington e rec\u00e9m-nomeado para o cargo &#8211; rumores refor\u00e7ados pelo fato de Bandar n\u00e3o ter aparecido em p\u00fablico desde a sua nomea\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; a presen\u00e7a de tr\u00eas grupos de batalha da Marinha dos EUA na regi\u00e3o, sendo dois no Golfo P\u00e9rsico e um terceiro a caminho, ao mesmo tempo em que uma for\u00e7a naval russa encontra-se ancorada no porto s\u00edrio de Tartus e dois destr\u00f3ieres chineses est\u00e3o no Mediterr\u00e2neo, para visitas a portos \u00abamigos\u00bb, pela primeira vez desde 2002;<\/p>\n<p>&#8211; o ataque de um grupo terrorista a um posto policial eg\u00edpcio no deserto do Sinai, na fronteira com Israel, que deixou 16 policiais mortos; embora os atacantes n\u00e3o tenham sido identificados, o objetivo claro do ataque \u00e9 criar mais atritos nas j\u00e1 conturbadas rela\u00e7\u00f5es eg\u00edpcio-israelenses;<\/p>\n<p>&#8211; a nova rodada de san\u00e7\u00f5es contra o Ir\u00e3, aprovadas pelo Congresso dos EUA em 1\u00ba. de agosto, punindo quaisquer empresas ou indiv\u00edduos que tenham rela\u00e7\u00f5es com empresas energ\u00e9ticas iranianas ou vendam petroleiros ao pa\u00eds &#8211; que alguns observadores comparam \u00e0s san\u00e7\u00f5es adotadas pelo governo estadunidense contra o Jap\u00e3o, em 1940-1941, que muito contribu\u00edram para levar o Imp\u00e9rio Nip\u00f4nico a atacar os EUA.<\/p>\n<p>Essa perigosa combina\u00e7\u00e3o de fatores resulta da vis\u00edvel frustra\u00e7\u00e3o dos c\u00edrculos belicistas estadunidenses e europeus com a inesperada resist\u00eancia demonstrada at\u00e9 agora pelo regime de Assad. Frustra\u00e7\u00e3o que se transforma em um virtual desespero, na medida em que a crise sist\u00eamica global se aprofunda e leva um n\u00famero crescente desses supremacistas a considerar a op\u00e7\u00e3o por um novo conflito regional &#8211; que, for\u00e7osamente, teria repercuss\u00f5es planet\u00e1rias &#8211; como uma forma de preserva\u00e7\u00e3o da sua hegemonia estrat\u00e9gica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar das sucessivas demonstra\u00e7\u00f5es dos limites do poderio militar como instrumento de pol\u00edtica externa com as quais t\u00eam se deparado, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, os c\u00edrculos supremacistas do Establishment anglo-americano continuam apostando nele para a estrat\u00e9gia de preserva\u00e7\u00e3o da sua crescentemente questionada hegemonia global. 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