{"id":3715,"date":"2012-07-13T17:57:48","date_gmt":"2012-07-13T17:57:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=276"},"modified":"2012-07-13T17:57:48","modified_gmt":"2012-07-13T17:57:48","slug":"as-licoes-da-islandia-para-a-europa-e-os-eua-e-o-resto-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/as-licoes-da-islandia-para-a-europa-e-os-eua-e-o-resto-do-mundo\/","title":{"rendered":"As li\u00e7\u00f5es da Isl\u00e2ndia para a Europa e os EUA (e o resto do mundo)"},"content":{"rendered":"<p>A pequena Isl\u00e2ndia, uma ilha pouco menor que o Amap\u00e1 e com uma popula\u00e7\u00e3o inferior \u00e0 da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, voltou ao notici\u00e1rio internacional nos \u00faltimos dias, com duas not\u00edcias que demonstram a sua r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o da crise banc\u00e1ria de 2008 e, igualmente, alguns dos seus motivos.<\/p>\n<p>Em 22 de junho, o governo island\u00eas efetuou o segundo pagamento antecipado do empr\u00e9stimo de 2,1 bilh\u00f5es de d\u00f3lares contra\u00eddo junto ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) em 2008, no auge da crise que devastou o sistema banc\u00e1rio do pa\u00eds. A parcela paga foi de 483,7 milh\u00f5es de d\u00f3lares, que se seguiu a uma anterior, em mar\u00e7o, de 900 milh\u00f5es de d\u00f3lares (Reuters, 22\/06\/2012).<\/p>\n<p>Dois dias antes, o promotor especial Olafur Thor Hauksson, encarregado da investiga\u00e7\u00e3o oficial sobre os respons\u00e1veis pela crise de 2008, anunciou a realiza\u00e7\u00e3o de buscas judiciais em tr\u00eas bancos, entre eles, o pr\u00f3prio Banco Central da Isl\u00e2ndia, com a pris\u00e3o de quatro pessoas (Icenews, 20\/06\/2012).<\/p>\n<p>Anteriormente, em fevereiro \u00faltimo, Hauksson anunciou que mais de 200 pessoas enfrentam acusa\u00e7\u00f5es criminais por envolvimento nas opera\u00e7\u00f5es financeiras que resultaram na crise, entre elas os executivos-chefes dos tr\u00eas grandes bancos privados que quebraram em 2008. O ex-CEO do Landsbanki, Sigurjon Aranason, j\u00e1 est\u00e1 sendo obrigado a cumprir per\u00edodos de confinamento solit\u00e1rio, enquanto a prossegue a investiga\u00e7\u00e3o criminal. A pr\u00f3pria ag\u00eancia Bloomberg, que noticiou o fato, destacou o contraste com os EUA, onde, com exce\u00e7\u00e3o do megafraudador Bernard Madoff, nenhum executivo financeiro foi sequer indiciado pelos excessos especulativos, grande parte fraudulentos, que resultaram na crise atual (Bloomberg, 19\/02\/2012).<\/p>\n<p>As duas not\u00edcias est\u00e3o estreitamente interrelacionadas. Os pagamentos antecipados ao FMI n\u00e3o foram decorrentes de qualquer press\u00e3o pol\u00edtica, como a que os organismos financeiros multilaterais costumam aplicar aos pa\u00edses devedores, mas de uma recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica efetiva. Depois de cair 6,7% em 2009, o PIB island\u00eas (atualmente, na casa de 13 bilh\u00f5es de d\u00f3lares) voltou a subir 2,9% em 2010 e dever\u00e1 crescer 2,4% este ano, segundo estimativas da Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE). Nada mal, comparado aos 0,2% previstos para a zona do euro e os 1,6% para a OCDE como um todo.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 responsabiliza\u00e7\u00e3o criminal dos executivos banc\u00e1rios e pol\u00edticos que provocaram a crise, ela foi uma decis\u00e3o pol\u00edtica decorrente das furiosas manifesta\u00e7\u00f5es populares, que derrubaram o governo do premier Geir Haarde e levaram \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de dois referendos, nos quais foi rejeitada a proposta de que o governo assumisse os preju\u00edzos causados aos cidad\u00e3os brit\u00e2nicos e holandeses que tinham investimentos nos bancos falidos. Como os governos dos dois pa\u00edses se viram obrigados a ressarcir os prejudicados, o caso foi parar no Tribunal da Autarquia de Fiscaliza\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Livre Com\u00e9rcio, no Luxemburgo, onde est\u00e1 pendente de julgamento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de buscar e processar os respons\u00e1veis pelo desastre, o governo tomou uma s\u00e9rie de medidas bastante efetivas:<\/p>\n<p>&#8211; deixou os bancos privados, simplesmente, quebrarem, sob o peso dos excessos especulativos que resultaram numa d\u00edvida de 85 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (mais de seis vezes o PIB do pa\u00eds);<\/p>\n<p>&#8211; assegurou garantias para os correntistas dos bancos (na pr\u00e1tica, separando-os dos investidores, como se fazia nos EUA, antes da aboli\u00e7\u00e3o da Lei Glass-Steagall);<\/p>\n<p>&#8211; for\u00e7ou uma repactua\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas hipotec\u00e1rias, inclusive, com abatimentos do valor total (outra vez, ao contr\u00e1rio dos EUA e de outros pa\u00edses);<\/p>\n<p>&#8211; determinou um controle de capitais.<\/p>\n<p>A despeito de tais medidas, que em outros pa\u00edses podem ser consideradas como an\u00e1temas, os mercados n\u00e3o parecem ter se melindrado muito, haja vista que, recentemente, as ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o de risco devolveram os t\u00edtulos da d\u00edvida islandesa ao chamado grau de investimento, no mesmo n\u00edvel dos da B\u00e9lgica e de outros pa\u00edses europeus (ainda) menos afetados pela crise.<\/p>\n<p>O \u00absegredo\u00bb da recupera\u00e7\u00e3o islandesa foi assim descrito pela insuspeita ag\u00eancia Bloomberg (19\/02\/2012): \u00abEm cada medida tomada, a abordagem da Isl\u00e2ndia para lidar com o derretimento tem colocado as necessidades de sua popula\u00e7\u00e3o acima dos mercados.\u00bb<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o maior oferecida pela Isl\u00e2ndia parece simples assim: o Estado assumindo o seu papel prec\u00edpuo de legislar para o bem comum, em lugar de favorecer majoritariamente os interesses restritos que, em geral, dominam a formula\u00e7\u00e3o das politicas p\u00fablicas. Desta forma, a pequena na\u00e7\u00e3o insular mostra o caminho que precisa ser seguido pela Uni\u00e3o Europeia e os EUA, se se quiser realmente trilhar um caminho seguro de sa\u00edda da crise global.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pequena Isl\u00e2ndia, uma ilha pouco menor que o Amap\u00e1 e com uma popula\u00e7\u00e3o inferior \u00e0 da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, voltou ao notici\u00e1rio internacional nos \u00faltimos dias, com duas not\u00edcias que demonstram a sua r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o da crise banc\u00e1ria de 2008 e, igualmente, alguns dos seus motivos. 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