{"id":3699,"date":"2012-04-13T15:55:29","date_gmt":"2012-04-13T15:55:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=155"},"modified":"2012-04-13T15:55:29","modified_gmt":"2012-04-13T15:55:29","slug":"brasil-diante-de-um-boi-de-piranha-nuclear","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/brasil-diante-de-um-boi-de-piranha-nuclear\/","title":{"rendered":"Brasil diante de um &quot;boi de piranha&quot; nuclear"},"content":{"rendered":"<p>Em 3 de abril, o jornal <em>The New York Times<\/em> publicou um artigo de Bernard Aronson, com o sugestivo t\u00edtulo \u00abPode o Brasil deter o Ir\u00e3?\u00bb. O texto quase surreal sugere que o Brasil interrompa o seu programa de enriquecimento de ur\u00e2nio, como uma maneira de convencer o Ir\u00e3 a fazer o mesmo. Uma motiva\u00e7\u00e3o evidente \u00e9 a campanha de press\u00f5es contra Teer\u00e3, dias antes da nova reuni\u00e3o de negocia\u00e7\u00f5es do grupo P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU e a Alemanha) com o Ir\u00e3, em Istambul, em 13-14 de abril.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, no que tange ao Brasil, al\u00e9m de denotar a bizarra configura\u00e7\u00e3o mental dos altos escal\u00f5es do <em>Establishment<\/em> anglo-americano, a absoluta falta de sintonia do texto com a realidade nacional deixa a impress\u00e3o de que o autor e seus mentores t\u00eam outros objetivos, pois nem o mais irredut\u00edvel american\u00f3filo pode, realisticamente, esperar que Bras\u00edlia sequer considere a sugest\u00e3o. Assim, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que o Pa\u00eds esteja diante de um aut\u00eantico \u00abboi de piranha\u00bb nuclear &#8211; um elemento de barganha para outro prop\u00f3sito da agenda bilateral de Washington.<\/p>\n<p>Depois de uma bajula\u00e7\u00e3o inicial, afirmando que \u00abo Brasil \u00e9 um l\u00edder global emergente\u00bb, Aronson faz uma proposta direta:<\/p>\n<blockquote><p>Mas h\u00e1 uma \u00e1rea onde tem a oportunidade de liderar e n\u00e3o conseguiu: evitar a prolifera\u00e7\u00e3o de armas nucleares. O Brasil deve dar o passo corajoso de acabar, voluntariamente, com o seu programa de enriquecimento de ur\u00e2nio e instar outras na\u00e7\u00f5es, inclusive o Ir\u00e3, a seguir o seu exemplo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Capciosa e convenientemente, ele faz apenas uma men\u00e7\u00e3o passageira e falaciosa \u00e0 tentativa brasileira de 2010, quanto, juntamente com a Turquia, o Brasil intermediou um acordo aceit\u00e1vel pelo Ir\u00e3 e plenamente capaz de reduzir os temores internacionais sobre o programa nuclear iraniano &#8211; o qual foi prontamente sabotado pelo governo estadunidense, empenhado em eliminar a capacidade de enriquecimento de ur\u00e2nio em quaisquer pa\u00edses que n\u00e3o estejam sob a sua influ\u00eancia direta. N\u00e3o obstante, ele prossegue com a arenga:<\/p>\n<blockquote><p>O Brasil det\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o \u00fanica entre as na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento, para lidar com esse perigo de prolifera\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 sua defesa e ao hist\u00f3rico nacionalista de enriquecimento. Se ele renunciar ao seu direito de enriquecer ur\u00e2nio, em nome da paz internacional, fechar as suas unidades de enriquecimento, abra\u00e7ar uma antiga proposta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, para aceitar ur\u00e2nio enriquecido fornecido pela AIEA [Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica], que reprocessaria o combust\u00edvel irradiado &#8211; essencialmente, o acordo oferecido ao Ir\u00e3 [sic] &#8211; e instar outros pa\u00edses que tamb\u00e9m assinaram o tratado [refer\u00eancia ao Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear-TNP] a fazer o mesmo, isto mudaria o debate nuclear.<\/p>\n<p>A nova postura brasileira retiraria o principal argumento do Ir\u00e3, de que os estados avan\u00e7ados detentores de armas nucleares est\u00e3o buscando uma forma de \u00abapartheid nuclear\u00bb, trazendo para si pr\u00f3prios o enriquecimento, \u00abponte\u00bb que as na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento t\u00eam a oportunidade de cruzar&#8230; Finalmente, se o Brasil e outras na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento desistirem do enriquecimento nuclear, seria poss\u00edvel se fazer um novo esfor\u00e7o internacional concentrado, para fechar de forma permanente a brecha do enriquecimento, por meio de uma altera\u00e7\u00e3o do Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 verdade que, nas rela\u00e7\u00f5es bilaterais, \u00e9 constante o inconformismo estadunidense com as ambi\u00e7\u00f5es nucleares brasileiras, em especial, a capacidade tecnol\u00f3gica de enriquecimento de ur\u00e2nio, considerada pelo <em>Establishment<\/em> de Washington como um p\u00e9ssimo exemplo para a pol\u00edtica de \u00abapartheid tecnol\u00f3gico\u00bb que pratica h\u00e1 d\u00e9cadas. De qualquer maneira, a diatribe de Aronson \u00e9 divulgada \u00e0s v\u00e9speras da visita de Estado da presidente Dilma Rousseff ao pa\u00eds, o que, obviamente, n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>O curr\u00edculo de Aronson n\u00e3o \u00e9 o de um diletante. Ele foi secret\u00e1rio de Estado Assistente para Assuntos Interamericanos durante o governo de George Bush pai, de 1989 a 1993, e assessor internacional do banco Goldman Sachs para assuntos latino-americanos. \u00c9 membro do ultra-seleto Conselho de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (CFR) e do Instituto Nacional Democrata para Assuntos Internacionais, ambos, important\u00edssimos \u00f3rg\u00e3os de planejamento e interven\u00e7\u00e3o externa do <em>Establishment<\/em> estadunidense. Portanto, uma pista para as inten\u00e7\u00f5es reais da \u00abproposta indecente\u00bb apresentada no artigo pode ser proporcionada pela agenda sugerida pelo CFR para orientar as rela\u00e7\u00f5es bilaterais.<\/p>\n<p>Tal agenda est\u00e1 contida no relat\u00f3rio <em>Global Brazil and U.S.-Brazil Relations<\/em> (Brasil Global e rela\u00e7\u00f5es EUA-Brasil), divulgado pelo CFR em julho de 2011 e objeto de an\u00e1lise na edi\u00e7\u00e3o de 10 de agosto da <em>Resenha Estrat\u00e9gica<\/em>:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">(&#8230;) O relat\u00f3rio deixa claro que a oligarquia anglo-americana gostaria de enquadrar o Brasil no molde de um grande exportador de mat\u00e9rias-primas e uma \u00abpot\u00eancia ambiental\u00bb, que abra m\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o plena dos seus recursos naturais para o desenvolvimento interno soberano do Pa\u00eds e da Am\u00e9rica do Sul, pelo processo de integra\u00e7\u00e3o regional. Neste particular, \u00e9 relevante que, enquanto ignora a necessidade de um aprofundamento qualitativo e quantitativo da industrializa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, o documento destaque o potencial de exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios &#8211; energia e alimentos &#8211; e a autoimposi\u00e7\u00e3o de uma draconiana legisla\u00e7\u00e3o ambiental, que nenhum pa\u00eds industrializado adotou, a come\u00e7ar pelos pr\u00f3prios EUA. Tal tend\u00eancia \u00e9 explicitada no trecho a seguir: \u00abA floresta amaz\u00f4nica \u00e9, em si pr\u00f3pria, um valioso recurso, que recicla di\u00f3xido de carbono para produzir mais de 20% do oxig\u00eanio do mundo.\u00bb<\/p>\n<p>O texto do relat\u00f3rio ressalta tais sugest\u00f5es, ao afirmar que:<\/p>\n<blockquote><p>Os perfis energ\u00e9tico e ambiental do Brasil estabeleceram o pa\u00eds como um importante ator internacional em dois dos desafios globais mais centrais e estreitamente interligados: a seguran\u00e7a energ\u00e9tica e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Com pelo menos 50 bilh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo sob as \u00e1guas brasileiras, 167 milh\u00f5es de barris anuais de produ\u00e7\u00e3o de etanol (e planos para aumentar a produ\u00e7\u00e3o para mais de 400 milh\u00f5es de barris at\u00e9 2019), usinas hidrel\u00e9tricas que fornecem 75% da eletricidade brasileira e a sexta maior reserva comprovada de ur\u00e2nio do mundo, o Brasil est\u00e1 destinado a tornar-se um significativo exportador de diversos produtos energ\u00e9ticos&#8230; O monitoramento e a aplica\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e florestal permanecem dif\u00edceis e imperfeitos. Mas, ainda assim, os temas energ\u00e9ticos e ambientais proporcionam ao Brasil a sua plataforma mais s\u00f3lida para a influ\u00eancia internacional. (&#8230;)<\/p><\/blockquote>\n<p>Observe-se que os autores do documento consideram que \u00abos temas energ\u00e9ticos e ambientais proporcionam ao Brasil a sua plataforma mais s\u00f3lida para a influ\u00eancia internacional\u00bb. Ou seja, que o Pa\u00eds deveria investir no papel de um emp\u00f3rio energ\u00e9tico-ambiental, atuando como <em>junior partner<\/em> da agenda estabelecida pelas pot\u00eancias \u00abadultas\u00bb do planeta &#8211; e, de prefer\u00eancia, n\u00e3o crie problemas para estas.<\/p>\n<p>Voltando a Aronson, ele encerra o artigo com uma ultrajante proposta e uma \u00abrecomenda\u00e7\u00e3o\u00bb:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">A ren\u00fancia aos direitos ao enriquecimento catapultaria o Brasil, da noite para o dia, a uma posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a global quanto ao desafio de seguran\u00e7a mais urgente da comunidade internacional. E a lideran\u00e7a do Brasil, inevitavelmente, modelaria o contexto para as discuss\u00f5es futuras sobre a aceita\u00e7\u00e3o como membro permanente em um Conselho de Seguran\u00e7a expandido &#8211; uma das suas antigas ambi\u00e7\u00f5es. No momento em que o mundo enfrenta a perspectiva de uma guerra com o Ir\u00e3, Dilma tem a oportunidade de fazer uma abertura corajosa para ajudar a solucionar a crise &#8211; ela deve aproveit\u00e1-la.<\/p>\n<p>Embora o texto n\u00e3o mere\u00e7a um destino diferente da cesta de lixo mais pr\u00f3xima, no Pal\u00e1cio do Planalto ou no Itamaraty, ele serve como advert\u00eancia para que o Pa\u00eds se empenhe em assegurar a sua capacidade pr\u00f3pria de construir pontes seguras, para n\u00e3o correr o risco de cair num rio infestado de piranhas hegem\u00f4nicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 3 de abril, o jornal The New York Times publicou um artigo de Bernard Aronson, com o sugestivo t\u00edtulo \u00abPode o Brasil deter o Ir\u00e3?\u00bb. O texto quase surreal sugere que o Brasil interrompa o seu programa de enriquecimento de ur\u00e2nio, como uma maneira de convencer o Ir\u00e3 a fazer o mesmo. Uma motiva\u00e7\u00e3o &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-3699","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-iberoamerica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3699","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3699"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3699\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3699"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3699"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3699"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}