{"id":368,"date":"2012-09-21T15:14:27","date_gmt":"2012-09-21T15:14:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=368"},"modified":"2012-09-21T15:14:27","modified_gmt":"2012-09-21T15:14:27","slug":"atmosfera-de-crise-no-mid-atlantic-club","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/atmosfera-de-crise-no-mid-atlantic-club\/","title":{"rendered":"Atmosfera de crise no Mid-Atlantic Club"},"content":{"rendered":"<p>Em meados de agosto, o Mid-Atlantic Club realizou o seu almo\u00e7o de ver\u00e3o anual, em Bonn, Alemanha. Como nas ocasi\u00f5es anteriores, personalidades da pol\u00edtica e empresariais, militares retirados e diplomatas, al\u00e9m de numerosos convidados, alem\u00e3es e estrangeiros, ali compareceram para uma troca informal de ideias sobre a situa\u00e7\u00e3o europeia e mundial e a posi\u00e7\u00e3o da Alemanha. Desta vez, o orador convidado foi Alex Voss, eurodeputado pela Uni\u00e3o Democrata Crist\u00e3 (CDU) desde 2009, que apresentou um olhar interno sobre o trabalho do Parlamento Europeu. As suas observa\u00e7\u00f5es se concentraram na crise do euro, na redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida da Gr\u00e9cia e nos esfor\u00e7os europeus de reforma econ\u00f4mica e financeira.<\/p>\n<p>No discurso de abertura, Friedhelm Ost, consultor de neg\u00f3cios e ex-secret\u00e1rio de Estado do Escrit\u00f3rio Federal de Imprensa do governo do chanceler Helmut Kohl (CDU, 1982-1998), refletiu muito da tens\u00e3o atual que envolve as lideran\u00e7as pol\u00edticas do bloco europeu. Tens\u00e3o esta que pode ser percebida em uma s\u00e9rie de propostas contradit\u00f3rias para uma solu\u00e7\u00e3o da crise da d\u00edvida e do euro (segundo Ost, \u00abde repente, parece que temos 80 milh\u00f5es de especialistas em divisas na Alemanha\u00bb), nas cifras preocupantes relativas \u00e0 d\u00edvida alem\u00e3 (\u00abos montantes reais da d\u00edvida de estado est\u00e3o acima de 2 trilh\u00f5es de euros, al\u00e9m de um d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio de 5 trilh\u00f5es\u00bb), pagamentos de juros anuais de mais de 60 bilh\u00f5es e somente 40 bilh\u00f5es para projetos de investimentos p\u00fablicos (\u00ab\u00c9 esse o nosso futuro?\u00bb, indagou, ressaltando que \u00abo crescimento econ\u00f4mico deste ano na Alemanha n\u00e3o ser\u00e1 superior a 0,3%.\u00bb).<\/p>\n<p>Os aspectos realmente preocupantes da exposi\u00e7\u00e3o foram suavizados por Ost, com ironia e bom humor, e n\u00e3o foi por acaso que ele se referiu \u00e0 s\u00e1tira \u00abFotos de viagem\u00bb, do escritor do s\u00e9culo XIX Heinrich Heine, uma c\u00e1ustica descri\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter provinciano dos alem\u00e3es. Por fim, Ost ironizou a chamada \u00abtransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u00bb na Alemanha, que j\u00e1 absorveu um total de 300 bilh\u00f5es de euros em investimentos, observando que \u00abos \u00fanicos que est\u00e3o realmente engordando com as usinas e\u00f3licas s\u00e3o as raposas, que comem os p\u00e1ssaros mortos pelas p\u00e1s dos aerogeradores\u00bb.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o ir\u00f4nico discurso de Ost, Voss teve problemas para discorrer sobre o caminho a ser seguido pela Europa, o destino da Gr\u00e9cia e o funcionamento dos \u00abguarda-chuvas de seguran\u00e7a financeira\u00bb. Para come\u00e7ar, ele reclamou do grande n\u00famero de atividades que envolvem o trabalho dos eurodeputados: \u00abQuanto tempo sobra, para um eurodeputado envolvido em uma infinidade de obriga\u00e7\u00f5es, entre Bruxelas, Estrasburgo e Bonn, pensar sobre poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es, bem como sobre a crise do euro? Isto nos traz \u00e0 mente o conhecido ditado, &#8216;n\u00e3o perca de vista a floresta por causa das \u00e1rvores&#8217;.\u00bb<\/p>\n<p>Voss defendeu a preserva\u00e7\u00e3o do euro e ressaltou as diferen\u00e7as entre as diversas economias nacionais e as respectivas produtividades, quando da cria\u00e7\u00e3o da moeda comum &#8211; desequil\u00edbrios que se refletiram nas distor\u00e7\u00f5es que emergiram com a inaugura\u00e7\u00e3o da zona do euro. O parlamentar exortou os gregos a se engajarem em profundas reformas e discorreu sobre as tens\u00f5es ideol\u00f3gicas entre deputados de diferentes partidos, dizendo que \u00abn\u00e3o h\u00e1 lugar para di\u00e1logos transpartid\u00e1rios fora do Parlamento Europeu\u00bb. Indiretamente, ele confirmou que h\u00e1 um crescente ressentimento entre v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es europeias, instigado pela propaganda midi\u00e1tica. Um exemplo foi uma recente edi\u00e7\u00e3o do jornal italiano Il Giornale, de propriedade do ex-premier Silvio Berlusconi, que colocou no cabe\u00e7alho da mat\u00e9ria principal a express\u00e3o \u00abQuarto Reich\u00bb, para designar a decis\u00e3o da chanceler alem\u00e3 Angela Merkel de n\u00e3o adquirir t\u00edtulos de d\u00edvida de Estados europeus ofertados pelo Banco Central Europeu (BCE).<\/p>\n<p>O eurodeputado se mostrou muito cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha e \u00e0 Fran\u00e7a, por terem \u00abfor\u00e7ado\u00bb a anula\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o do bloco europeu, em benef\u00edcio pr\u00f3prio, em especial, para garantir que nenhuma san\u00e7\u00e3o fosse aplicada \u00e0 \u00abpecadora\u00bb Alemanha ap\u00f3s 2005, quando o pa\u00eds violou o limite de d\u00edvida do bloco por tr\u00eas anos seguidos. Igualmente, ele tamb\u00e9m ressaltou a sua preocupa\u00e7\u00e3o com as poss\u00edveis consequ\u00eancias do alto desemprego entre os jovens na Espanha e na Gr\u00e9cia, e com a crescente radicaliza\u00e7\u00e3o dos protestos em rea\u00e7\u00e3o aos \u00abrem\u00e9dios radicais\u00bb impostos a tais pa\u00edses.<\/p>\n<p>Ost observou que a crise do euro lembra uma situa\u00e7\u00e3o em que se precisa optar entre a \u00abpeste e a c\u00f3lera\u00bb. A pergunta \u00e9: quais s\u00e3o os custos de um \u00abfracasso\u00bb e quanto vale um \u00abn\u00e3o-fracasso\u00bb do projeto do euro? Para ele, as lideran\u00e7as pol\u00edticas dos v\u00e1rios pa\u00edses europeus deveriam usar os seus poderes para defender o \u00abBem Comum\u00bb na luta contra a \u00abimprud\u00eancia do mercado financeiro\u00bb &#8211; coment\u00e1rio feito pelo economista Paul Kirchhoff, em um artigo publicado no jornal <em>Frankfurter Allgemeine Zeitung<\/em> de 12 de julho \u00faltimo.<\/p>\n<p>Tal estrat\u00e9gia deveria incluir um pacote de medidas que compreenda: o isolamento dos \u00abprodutos financeiros t\u00f3xicos\u00bb no mercado financeiro internacional; a supervis\u00e3o dos bancos; uma solu\u00e7\u00e3o efetiva para a crise das d\u00edvidas; o fortalecimento da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica na economia real; e a cria\u00e7\u00e3o de empregos para os jovens, fazendo-se uso da experi\u00eancia alem\u00e3 (o \u00absistema educacional dual\u00bb). Sem estas medidas, ressaltou, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel superar, definitivamente, a crise na Europa. Isto s\u00f3 ser\u00e1 bem sucedido se as pessoas forem \u00abinclu\u00eddas\u00bb na busca da solu\u00e7\u00e3o e se elas sentirem que restri\u00e7\u00f5es efetivas s\u00e3o impostas \u00e0 \u00abpresun\u00e7\u00e3o dos mercados\u00bb, al\u00e9m de entenderem que n\u00e3o h\u00e1 qualquer tabu a respeito da efetiva reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro global.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, o que pode ser sentido, neste ver\u00e3o especialmente quente de 2012, \u00e9 um estado de \u00e2nimo estranhamente contradit\u00f3rio, tenso e um tanto perplexo entre as elites europeias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meados de agosto, o Mid-Atlantic Club realizou o seu almo\u00e7o de ver\u00e3o anual, em Bonn, Alemanha. 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