{"id":3641,"date":"2011-08-26T18:42:56","date_gmt":"2011-08-26T18:42:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=109"},"modified":"2011-08-26T18:42:56","modified_gmt":"2011-08-26T18:42:56","slug":"o-fator-gene-kranz-e-o-desafio-nuclear","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/o-fator-gene-kranz-e-o-desafio-nuclear\/","title":{"rendered":"O \u00abfator Gene Kranz\u00bb e o desafio nuclear"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">Em abril de 1970, no terceiro dia de sua viagem \u00e0 Lua, a espa\u00e7onave Apollo 13 sofreu uma explos\u00e3o que avariou seriamente o seu sistema el\u00e9trico, que n\u00e3o apenas obrigou o controle de miss\u00e3o a abortar o pouso no sat\u00e9lite, como tamb\u00e9m colocava em risco o retorno seguro de seus tr\u00eas tripulantes \u00e0 Terra. Em uma tensa reuni\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o, no centro de controle da miss\u00e3o, em Houston, o diretor de Opera\u00e7\u00f5es da Ag\u00eancia Nacional de Aeron\u00e1utica e Espa\u00e7o (NASA), Christopher Kraft, diante da dimens\u00e3o dos problemas, afirmou que poderia estar se configurando o pior desastre da hist\u00f3ria da ag\u00eancia. Ao seu lado, o chefe de miss\u00e3o Eugene \u00abGene\u00bb Kranz replicou: \u00abCom todo o respeito, senhor, eu acredito que este vai ser o nosso melhor momento.\u00bb<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, acompanhados por um mundo em suspense, os astronautas desceram em seguran\u00e7a no oceano Pac\u00edfico, gra\u00e7as a um extraordin\u00e1rio trabalho de equipe desenvolvido entre eles e os t\u00e9cnicos do controle da miss\u00e3o, que superou os problemas causados pela pane, entre eles a filtragem do di\u00f3xido de carbono produzido pela respira\u00e7\u00e3o dos tripulantes. O sucesso se deveu a uma prepara\u00e7\u00e3o exaustiva, capacidade t\u00e9cnica e de improvisa\u00e7\u00e3o e, sobretudo, uma grande determina\u00e7\u00e3o de superar as dificuldades &#8211; requisitos fundamentais para todas as grandes empreitadas humanas.<\/p>\n<p>A atitude de Kranz e seus colegas diante da adversidade pode servir como inspira\u00e7\u00e3o para o setor nuclear, em um momento em que a energia nuclear volta a atrair as aten\u00e7\u00f5es mundiais com um enfoque negativo, devido ao acidente na usina japonesa de Fukushima Daiichi.<\/p>\n<p>Na Alemanha, pa\u00eds em que as rea\u00e7\u00f5es foram mais acentuadas, beirando a histeria, centenas de milhares de pessoas t\u00eam participado de manifesta\u00e7\u00f5es antinucleares e nem mesmo a concess\u00e3o \u00abpoliticamente correta\u00bb da chanceler Angela Merkel, suspendendo a extens\u00e3o da vida operacional das usinas nucleares alem\u00e3s, impediu a vit\u00f3ria do Partido Verde nas elei\u00e7\u00f5es no estado de Baden-W\u00fcrtemberg, governado h\u00e1 quase seis d\u00e9cadas pela Uni\u00e3o Democrata Crist\u00e3 (CDU) de Merkel. Evidentemente, tal desfecho apenas refor\u00e7a a percep\u00e7\u00e3o dos problemas pol\u00edticos ensejados pela percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica sobre o tema, com reflexos quase inevit\u00e1veis nos pa\u00edses que t\u00eam programas nucleares em est\u00e1gios diversos. Ao mesmo tempo, como seria previs\u00edvel, o movimento ambientalista internacional j\u00e1 se apressa em tirar proveito da situa\u00e7\u00e3o, para promover uma nova investida contra a energia nuclear, visando abortar o \u00abrenascimento\u00bb experimentado pelo setor nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Diante desses fatos, os profissionais da \u00e1rea est\u00e3o sendo instados a repensar e renovar os esfor\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico em geral, sendo imprescind\u00edvel o estabelecimento de uma estrat\u00e9gia de longo alcance para apresentar a energia nuclear como um fator crucial para o progresso humano. No Brasil, ser\u00e1 particularmente \u00fatil a experi\u00eancia obtida pelo setor com o bem sucedido esfor\u00e7o empreendido desde a d\u00e9cada de 1990, que conseguiu neutralizar na pr\u00e1tica a insidiosa campanha antinuclear do aparato ambientalista, capitaneada pelo Greenpeace (que foi for\u00e7ado a fechar o seu escrit\u00f3rio no Rio de Janeiro, dedicado especificamente \u00e0 campanha).<\/p>\n<p>Em especial, ser\u00e1 preciso dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 juventude, em fun\u00e7\u00e3o da maneira intrinsecamente negativa como a energia nuclear \u00e9 apresentada nos livros-texto escolares, ao contr\u00e1rio do que ocorria at\u00e9 as d\u00e9cadas de 1960-70, quando as perspectivas dos seus usos pac\u00edficos recebiam grande destaque. Trabalhos especiais junto a professores de Ci\u00eancias, jornalistas cient\u00edficos, estudantes e formadores de opini\u00e3o em geral, como j\u00e1 tem sido feito, precisar\u00e3o ser reenfocados e refor\u00e7ados. A publica\u00e7\u00e3o de cartilhas espec\u00edficas e livros de divulga\u00e7\u00e3o, a edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos, programas e toda sorte de recursos oferecidos pelos meios eletr\u00f4nicos, ter\u00e3o que integrar esse esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se trata apenas de uma quest\u00e3o de propaganda setorial. A supera\u00e7\u00e3o do pessimismo cultural prevalecente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, em particular, quanto \u00e0s perspectivas de universaliza\u00e7\u00e3o de n\u00edveis de vida permitidos pelo conhecimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico atual (do qual se alimentam o ambientalismo e as ideologias correlatas), n\u00e3o pode prescindir dos efeitos multiplicadores positivos oferecidos pela explora\u00e7\u00e3o da energia nuclear. Como \u00e1rea de fronteira do conhecimento, talvez apenas a explora\u00e7\u00e3o espacial rivalize com a energia nuclear na capacidade de instilar em um grande n\u00famero de pessoas um sentido de futuro positivo e uma vis\u00e3o universal das atividades humanas. Por isso, os pr\u00f3prios profissionais do setor se beneficiar\u00e3o grandemente de uma mobiliza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero.<\/p>\n<p>Acima de tudo, mais importante que os meios ser\u00e1 a atitude. Os desafios do setor nuclear na era p\u00f3s-Fukushima precisar\u00e3o ser encarados sem pessimismo, mas com a necess\u00e1ria determina\u00e7\u00e3o, pr\u00f3pria das lideran\u00e7as que se mostram imprescind\u00edveis em tempos cr\u00edticos. Da hist\u00e9rica Alemanha, vem a \u00fatil advert\u00eancia de um veterano estadista, o ex-chanceler Helmut Kohl (1982-98), mentor de Merkel na CDU, que, em um artigo publicado em 25 de mar\u00e7o no jornal <em>Bild<\/em>, instou seus compatriotas a n\u00e3o \u00abperder a vis\u00e3o da realidade\u00bb, devido ao desastre no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo ele, \u00aba li\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o para n\u00f3s n\u00e3o pode ser a de dar o proverbial passo para tr\u00e1s. At\u00e9 o momento, a li\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o tem que ser a que aceitamos o fato de que o que aconteceu \u00e9 aterrorizante, mas, falando francamente, \u00e9 tamb\u00e9m parte da vida. E, uma vez que os riscos s\u00e3o uma inevit\u00e1vel parte da vida, a prioridade da Alemanha deve ser a de tomar medidas de precau\u00e7\u00e3o e minimizar os riscos\u00bb.<\/p>\n<p>Kohl acrescentou que o recuo no uso da energia nuclear \u00abn\u00e3o ajudaria ningu\u00e9m\u00bb e, ainda, \u00abfaria do mundo um lugar mais perigoso\u00bb, porque a respeitada capacidade t\u00e9cnica alem\u00e3 n\u00e3o seria mais empregada para aprimorar os usos da energia nuclear.<\/p>\n<p>Em 2000, Gene Kranz publicou as suas mem\u00f3rias, \u00e0s quais deu o nome \u00abO fracasso n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o\u00bb. Embora nunca tenha proferido tal frase, que foi colocada em sua boca pelo diretor Ron Howard, no filme de 1995 <em>Apollo<\/em> 13, ela reflete a atitude geral dos integrantes do Projeto Apolo diante dos desafios de sua grande empreitada. \u00c9 com o mesmo esp\u00edrito que se deve encarar o novo desafio nuclear.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em abril de 1970, no terceiro dia de sua viagem \u00e0 Lua, a espa\u00e7onave Apollo 13 sofreu uma explos\u00e3o que avariou seriamente o seu sistema el\u00e9trico, que n\u00e3o apenas obrigou o controle de miss\u00e3o a abortar o pouso no sat\u00e9lite, como tamb\u00e9m colocava em risco o retorno seguro de seus tr\u00eas tripulantes \u00e0 Terra. 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