{"id":346,"date":"2012-09-21T14:57:39","date_gmt":"2012-09-21T14:57:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=346"},"modified":"2012-09-21T14:57:39","modified_gmt":"2012-09-21T14:57:39","slug":"primavera-arabe-se-transforma-em-verao-quente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/primavera-arabe-se-transforma-em-verao-quente\/","title":{"rendered":"&quot;Primavera \u00c1rabe&quot; se transforma em &quot;ver\u00e3o quente&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Por uma tr\u00e1gica ironia, o assassinato do embaixador dos EUA na L\u00edbia, John Christopher Stevens, nas m\u00e3os de radicais mu\u00e7ulmanos salafitas ligados \u00e0 rede terrorista Al-Qaida, foi uma consequ\u00eancia direta da presen\u00e7a em grande estilo destes grupos terroristas no pa\u00eds, proporcionada pela interven\u00e7\u00e3o do bloco anglo-americano contra o regime de Muamar Kadhafi, com o apoio dos seus aliados europeus, especialmente a Fran\u00e7a, e dinheiro da Ar\u00e1bia Saudita e do Catar. Na l\u00f3gica desses poderes hegem\u00f4nicos, uma vez terminada formalmente a era da \u00abGuerra ao Terror\u00bb, a beliger\u00e2ncia desses grupos era convenientemente tolerada, sempre e quando se concentrassem contra os inimigos percebidos das democracias ocidentais, como o regime de Kadhafi e, agora, o presidente s\u00edrio Bashar-al-Assad. Por\u00e9m, como na fic\u00e7\u00e3o, a criatura de Frankestein se voltou, novamente, contra o seu criador, j\u00e1 que Stevens foi um dos principais protagonistas da investida contra Kadhafi.<\/p>\n<p>A perplexidade das lideran\u00e7as estadunidenses diante do epis\u00f3dio se mostrou na aut\u00eantica rea\u00e7\u00e3o da secret\u00e1ria de Estado Hillary Clinton: \u00abComo isto pode acontecer? Como isto pode acontecer em um pa\u00eds que ajudamos a libertar, em uma cidade que ajudamos a salvar da destrui\u00e7\u00e3o? Esta pergunta reflete o qu\u00e3o complicado e, \u00e0s vezes, qu\u00e3o complicado o mundo pode ser (Reuters, 12\/09\/2012).\u00bb<\/p>\n<p>Em um artigo publicado no<em> The Independent<\/em> de 16 de setembro, o jornalista Robert Fisk, um dos maiores conhecedores das complexidades do Oriente M\u00e9dio na m\u00eddia mundial, se referiu ao assunto mencionando um velho ad\u00e1gio s\u00edrio: \u00abSe voc\u00e2 alimenta um escorpi\u00e3o, ele vai te picar.\u00bb<\/p>\n<p>Para a explos\u00e3o de f\u00faria contra os EUA, que se espalhou rapidamente pelo mundo isl\u00e2mico, faltava apenas uma fagulha; no caso, o suposto filme antiisl\u00e2mico divulgado na Internet por um pastor estadunidense que, ao ser investigado, apresenta v\u00ednculos mais que suspeitos com uma rede internacional de intelig\u00eancia com uma vasta experi\u00eancia em opera\u00e7\u00f5es desestabilizadoras. O filme, que at\u00e9 agora n\u00e3o mostrou ser mais que um clip de 14 minutos, foi divulgado em seu s\u00edtio pelo controvertido pastor Terry Jones, que ganhou notoriedade mundial ao queimar publicamente exemplares do Alcor\u00e3o, em 2010. Na ocasi\u00e3o, os protestos do mundo isl\u00e2mico foram mais contidos, mas, ainda assim, causaram mortes no Afeganist\u00e3o. \u00c0 parte a pol\u00eamica sobre o produtor do filme, o curr\u00edculo de Jones fornece importantes ind\u00edcios das inten\u00e7\u00f5es dos seus autores.<\/p>\n<p>Em sua coluna de 12 de setembro, o editor do s\u00edtio Veterans Today, Gordon Duff, um veterano do Vietn\u00e3 com numerosos contatos militares e de intelig\u00eancia de alto n\u00edvel, afirmou que Jones atuou na Alemanha, nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, em opera\u00e7\u00f5es conjuntas com a CIA, o Mossad israelense e ex-operativos da Stasi, o servi\u00e7o de intelig\u00eancia da antiga Alemanha Oriental. Em s\u00edntese, as suas performances antiisl\u00e2micas n\u00e3o seriam meras manifesta\u00e7\u00f5es de intoler\u00e2ncia de um fan\u00e1tico religioso qualquer, mas opera\u00e7\u00f5es meticulosamente planejadas a servi\u00e7o de uma agenda pol\u00edtica de grande alcance, cujos objetivos podem ser parcialmente aquilatados pelos resultados obtidos.<\/p>\n<p>Na coluna de 17 de setembro, Duff oferece uma did\u00e1tica descri\u00e7\u00e3o de tais redes e o contexto em que operam:<\/p>\n<blockquote><p>Terry Jones tem trabalhado para a CIA durante grande parte de sua vida, inicialmente, coordenando o recrutamento de grupos terroristas na Alemanha, sob o programa [da Opera\u00e7\u00e3o] Gl\u00e1dio. Anos atr\u00e1s, a OTAN recrutou desajustados sociais e psicopatas, para criar grupos terroristas que deveriam se tornar \u00abc\u00e9lulas subterr\u00e2neas\u00bb, se os sovi\u00e9ticos invadissem a Europa e a Am\u00e9rica Latina. Grupos terroristas organizados pela OTAN foram criados em 36 na\u00e7\u00f5es de tr\u00eas continentes. Quando n\u00e3o ocorreu a invas\u00e3o sovi\u00e9tica, eles come\u00e7aram a operar independentemente &#8211; 20 anos de atentados \u00e0 bomba em toda a Europa, como [a loja ma\u00e7\u00f4nica] P2, guerra em El Salvador, Guatemala, Chile, Argentina, Angola, opera\u00e7\u00f5es com drogas na Col\u00f4mbia, grupos revolucion\u00e1rios na Nicar\u00e1gua e no M\u00e9xico, os \u00absalvadores da OTAN\u00bb se transformaram nas bases de organiza\u00e7\u00f5es terroristas em todo o mundo, organiza\u00e7\u00f5es hoje atribu\u00eddas aos \u00abextremistas\u00bb.<\/p>\n<p>Os verdadeiros extremistas eram da OTAN e a sua hist\u00f3ria \u00e9 simples. Ap\u00f3s a II Guerra Mundial, houve dois influxos de recrutas para a intelig\u00eancia dos EUA. O primeiro foi o grupo [do general Reinhard] Gehlen, da Alemanha nazista, trazido aos EUA pelo [futuro] chefe da CIA, Allen Dulles, na Opera\u00e7\u00e3o Clip de Papel [Operation Paperclip] e, eventualmente, dirigido por George H.W. Bush e o ex-general da SS alem\u00e3 Walter Dornberger. Este grupo articulou os assassinatos de John F. Kennedy e Robert Kennedy, se consorciou com grupos extremistas em Israel e liderou os EUA ladeira abaixo, no rumo do controle olig\u00e1rquico, como se mostra de forma t\u00e3o \u00f3bvia no comportamento dos EUA, mundo afora. A [Opera\u00e7\u00e3o] Gl\u00e1dio foi uma de suas tramas, um plano hitleresco para combater o comunismo, sequestrado por uma cabala de poderosas organiza\u00e7\u00f5es internacionais &#8211; bancos, petroleiras, ind\u00fastrias de armas -, voltadas para a domina\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>O segundo elemento dessa organiza\u00e7\u00e3o se agregou ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim, quando centenas de espi\u00f5es e assassinos altamente treinados da Stasi [servi\u00e7o de intelig\u00eancia da antiga Alemanha Oriental] foram recrutados por grupos extremistas de direita dos EUA. Eles foram trazidos para a CIA e outras ag\u00eancias de intelig\u00eancia, assumiram o comando de ag\u00eancias de seguran\u00e7a chave na Europa e fizeram uso do seu treinamento, habilidades e brutalidade sem iguais, para revigorar os esfor\u00e7os de domina\u00e7\u00e3o mundial dos interesses que nunca vemos, exceto quando observamos Israel ou os bancos de Wall Street, os desajeitados e est\u00fapidos buf\u00f5es da Nova Ordem Mundial.<\/p><\/blockquote>\n<p>A coincid\u00eancia da divulga\u00e7\u00e3o do filme com a semana de 11 de setembro e a humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica do premier israelense Netanyahu, que teve recusado o pedido de uma reuni\u00e3o com o presidente Barack Obama, no final de setembro, durante a Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (a Casa Branca alegou indisponibilidade de agenda), levou alguns observadores a suspeitar de que, al\u00e9m de acirrar os \u00e2nimos no mundo isl\u00e2mico, outro objetivo da opera\u00e7\u00e3o era o de \u00abdar uma li\u00e7\u00e3o\u00bb aos EUA. Apesar das press\u00f5es de Netanyahu e do poderoso lobby pr\u00f3-sionista estadunidense, nos \u00faltimos meses, o governo Obama parece estar se inclinando para uma posi\u00e7\u00e3o menos radical quanto ao programa nuclear iraniano, recusando-se a estabelecer um limite para a capacidade de enriquecimento de ur\u00e2nio do pa\u00eds, que representasse um casus belli, como pretende a fac\u00e7\u00e3o belicista.<\/p>\n<p>Por outro lado, a complexidade da situa\u00e7\u00e3o se mostra com as maiores manobras aeronavais j\u00e1 realizadas no Golfo P\u00e9rsico, envolvendo belonaves de nada menos que 25 pa\u00edses, inclusive os EUA, Reino Unido, Fran\u00e7a, Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabes Unidos e outros. A opera\u00e7\u00e3o de demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, encabe\u00e7ada por tr\u00eas grupos de batalha da U.S. Navy, dever\u00e1 durar 12 dias, com simula\u00e7\u00f5es de opera\u00e7\u00f5es de limpeza de campos minados, ataques e defesa contra aeronaves inimigas. J\u00e1 os iranianos anunciaram a realiza\u00e7\u00e3o dos seus pr\u00f3prios exerc\u00edcios aeronavais, mas apenas no pr\u00f3ximo m\u00eas. Ainda assim, com tantas belonaves e aeronaves operando em um espa\u00e7o f\u00edsico relativamente limitado, como o Golfo, a possibilidade de um incidente s\u00e9rio nunca pode ser descartada.<\/p>\n<p>No tocante \u00e0 S\u00edria, onde o conflito interno prossegue sem qualquer vislumbre de um desfecho, o entusiasmo nos EUA por uma interven\u00e7\u00e3o \u00e0 margem do Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas sofreu um duro golpe, com a eclos\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es motivadas pelo filme de Jones &amp; cia. Em particular, o ataque que vitimou o embaixador Stevens e tr\u00eas funcion\u00e1rios diplom\u00e1ticos est\u00e1 fazendo com que, diante das lealdades altamente duvidosas e da imprevisibilidade dos grupos salafistas, n\u00e3o poucos comentaristas e policymakers estadunidenses estejam come\u00e7ando a rever as suas propostas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por uma tr\u00e1gica ironia, o assassinato do embaixador dos EUA na L\u00edbia, John Christopher Stevens, nas m\u00e3os de radicais mu\u00e7ulmanos salafitas ligados \u00e0 rede terrorista Al-Qaida, foi uma consequ\u00eancia direta da presen\u00e7a em grande estilo destes grupos terroristas no pa\u00eds, proporcionada pela interven\u00e7\u00e3o do bloco anglo-americano contra o regime de Muamar Kadhafi, com o apoio &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-346","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-assuntos-internacionais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/346\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}