{"id":338,"date":"2012-02-06T11:55:06","date_gmt":"2012-02-06T11:55:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=338"},"modified":"2012-02-06T11:55:06","modified_gmt":"2012-02-06T11:55:06","slug":"rio20-agenda-reenfocada-preocupa-ambientalistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/rio20-agenda-reenfocada-preocupa-ambientalistas\/","title":{"rendered":"Rio+20: agenda \u00abreenfocada\u00bb preocupa ambientalistas"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">Um sopro de ar fresco parece estar sendo lan\u00e7ado sobre a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Desenvolvimento Sustentado, a Rio+20, que ser\u00e1 realizada em junho pr\u00f3ximo, no Rio de Janeiro. A julgar pela listagem dos \u00abassuntos cr\u00edticos\u00bb contidos no chamado <em>Draft Zero<\/em>, o documento elaborado pelas autoridades brasileiras para estabelecer a agenda do evento e, n\u00e3o menos, pelas rea\u00e7\u00f5es negativas do aparato ambientalista a ele, \u00e9 poss\u00edvel que o bom senso e o realismo estejam come\u00e7ando a se manifestar de uma forma mais incisiva nessa \u00e1rea crucial para a determina\u00e7\u00e3o do futuro pr\u00f3ximo de toda a Humanidade.<\/p>\n<p>Igualmente, \u00e9 poss\u00edvel que a tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica brasileira em rela\u00e7\u00e3o aos temas ambientais, que se manifestava no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, por interm\u00e9dio de luminares como o embaixador Ara\u00fajo Castro e intelectuais do porte de Josu\u00e9 de Castro, que alertavam sobre as inten\u00e7\u00f5es subrept\u00edcias do <em>Establishment<\/em> anglo-americano, esteja renascendo em resposta \u00e0s pretens\u00f5es de \u00abcongelar\u00bb o desenvolvimento sob pretextos ambientais.<\/p>\n<p>Agregue-se a isto o fato de o secret\u00e1rio-geral da confer\u00eancia, Sha Zukang, ser um veterano diplomata chin\u00eas sem qualquer v\u00ednculo expl\u00edcito com o movimento ambientalista e habituado aos embates estrat\u00e9gicos internacionais. As duas edi\u00e7\u00f5es anteriores do conclave, em Estocolmo (1972) e no Rio (1992), foram encabe\u00e7adas pelo magnata canadense Maurice Strong, o \u00abexecutivo-chefe\u00bb do aparato ambientalista internacional em suas primeiras d\u00e9cadas de exist\u00eancia e, ainda hoje, um dos seus principais dirigentes.<\/p>\n<p>No <a href=\"http:\/\/www.uncsd2012.org\/rio20\/index.html\">s\u00edtio da confer\u00eancia<\/a>, os dois temas gerais do evento s\u00e3o descritos como sendo: a) uma economia verde no contexto do desenvolvimento sustentado e da erradica\u00e7\u00e3o da pobreza; e b) o arcabou\u00e7o institucional para o desenvolvimento sustentado. Sobre o \u00abdesenvolvimento sustentado\u00bb, a seguinte defini\u00e7\u00e3o \u00e9 oferecida:<\/p>\n<blockquote><p>O desenvolvimento sustent\u00e1vel enfatiza um enfoque hol\u00edstico, equitativo e com vis\u00e3o de longo alcance, para o processo de tomada de decis\u00f5es em todos os n\u00edveis. Ele enfatiza n\u00e3o apenas um forte desempenho econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m a equidade intrageracional e intergeracional. Ele se baseia na integra\u00e7\u00e3o e numa considera\u00e7\u00e3o equilibrada de objetivos e metas sociais, econ\u00f4micas e ambientais, tanto nos processos decis\u00f3rios p\u00fablicos como nos privados.<\/p><\/blockquote>\n<p>A mera inclus\u00e3o da erradica\u00e7\u00e3o da pobreza entre os objetivos gerais para o evento, como tem sido ressaltado pela presidente Dilma Rousseff, em suas manifesta\u00e7\u00f5es a respeito, sugere uma inflex\u00e3o nas diretrizes que geralmente norteiam tais eventos.<\/p>\n<p>J\u00e1 o<em> Draft Zero<\/em> lista sete \u00abassuntos cr\u00edticos\u00bb: empregos, energia, cidades, alimentos, \u00e1gua, oceanos e desastres. Vale registrar a aus\u00eancia de um maior destaque para temas onipresentes na agenda ambientalista, como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o desmatamento e outros. Vejamos algumas refer\u00eancias aos assuntos selecionados.<\/p>\n<p><em>&#8211; Empregos:<\/em> \u00abA recess\u00e3o econ\u00f4mica tem cobrado um pre\u00e7o, tanto na quantidade como na qualidade dos empregos. Para os 190 milh\u00f5es de desempregados e os mais de 500 milh\u00f5es em busca de emprego nos \u00faltimos dez anos, os mercados de trabalho s\u00e3o vitais, n\u00e3o apenas para a produ\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de riquezas, mas igualmente para a sua distribui\u00e7\u00e3o. As a\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e as pol\u00edticas sociais para criar empregos que proporcionem ganhos s\u00e3o cr\u00edticas para a coes\u00e3o social e a estabilidade. \u00c9 tamb\u00e9m crucial que o trabalho seja orientado para as necessidades do ambiente natural. (&#8230;)\u00bb<\/p>\n<p><em>&#8211; Energia:<\/em> \u00abA energia \u00e9 central para quase todos os grandes desafios e oportunidades com que o mundo se confronta atualmente. Seja para os empregos, seguran\u00e7a, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, produ\u00e7\u00e3o de alimentos ou aumento de rendimentos, o acesso \u00e0 energia para todos \u00e9 essencial. (&#8230;)\u00bb<\/p>\n<p><em>&#8211; Cidades:<\/em> \u00ab(&#8230;) Os desafios comuns para as cidades incluem os congestionamentos, falta de fundos para prover servi\u00e7os b\u00e1sicos, escassez de moradia adequada e infraestrutura declinante. Os desafios enfrentados pelas cidades podem ser superados de maneiras que permitam a elas continuar a prosperar e crescer, ao mesmo tempo em que melhoram o uso dos recursos e reduzem a polui\u00e7\u00e3o e a pobreza.\u00bb<\/p>\n<p><em>&#8211; Alimentos<\/em>: \u00ab\u00c9 hora de repensar como cultivamos, compartilhamos e consumimos os nossos alimentos. Se praticadas corretamente, a agricultura, a silvicultura e a pesca podem proporcionar alimentos nutritivos para todos e gerar receitas decentes, ao mesmo tempo em que ap\u00f3iam o desenvolvimento rural centrado nas pessoas e protegem o meio ambiente&#8230; Uma mudan\u00e7a profunda do sistema aliment\u00edcio e agr\u00edcola mundial \u00e9 necess\u00e1ria, se quisermos alimentar os 925 milh\u00f5es de famintos de hoje e as 2 bilh\u00f5es de pessoas adicionais esperadas para 2050. O setor de alimentos e agricultura oferece solu\u00e7\u00f5es chave para o desenvolvimento e \u00e9 central para a erradica\u00e7\u00e3o da fome e da pobreza.\u00bb<\/p>\n<p><em>&#8211; \u00c1gua:<\/em> \u00ab\u00c1gua limpa e acess\u00edvel a todos \u00e9 uma parte essencial do mundo em que queremos viver. Existe \u00e1gua pot\u00e1vel suficiente no planeta para se atingir este sonho. Mas, devido a processos econ\u00f4micos ruins ou \u00e0s defici\u00eancias de infraestrutura, a cada ano, milh\u00f5es de pessoas, a maioria delas crian\u00e7as, morrem de doen\u00e7as associadas \u00e0 disponibilidade inadequada de \u00e1gua, saneamento e higiene . A escassez e a m\u00e1 qualidade da \u00e1gua e o saneamento inadequado t\u00eam impactos negativos na seguran\u00e7a alimentar, nas op\u00e7\u00f5es de vida e nas oportunidades educacionais das fam\u00edlias pobres em todo o mundo. (&#8230;)\u00bb<\/p>\n<p><em>&#8211; Oceanos:<\/em> \u00abOs oceanos do mundo &#8211; a sua temperatura, composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, correntes e vida &#8211; movimentam os sistemas globais que tornam a Terra habit\u00e1vel para a Humanidade&#8230; Uma administra\u00e7\u00e3o cuidadosa deste recurso global essencial \u00e9 um aspecto chave de um futuro sustent\u00e1vel.\u00bb<\/p>\n<p><em>&#8211; Desastres:<\/em> \u00abOs desastres causados por terremotos, inunda\u00e7\u00f5es, secas, furac\u00f5es, tsunamis e outros fen\u00f4menos podem ter impactos devastadores nas popula\u00e7\u00f5es, ambientes e economias. Mas a resili\u00eancia &#8211; a capacidade de os povos e lugares suportarem esses impactos e se recuperar rapidamente &#8211; permanece sendo poss\u00edvel. Escolhas inteligentes nos ajudam a recuperar de desastres, ao passo que escolhas ruins nos tornam mais vulner\u00e1veis. Estas escolhas se relacionam \u00e0 maneira como cultivamos os nossos alimentos, onde e como constru\u00edmos as nossas casas, como funciona o nosso sistema financeiro, o que ensinamos em nossas escolas e outras quest\u00f5es. (&#8230;)\u00bb<\/p>\n<p>De fato, at\u00e9 h\u00e1 pouco, tais \u00eanfases no saneamento, nos problemas da urbaniza\u00e7\u00e3o, na resili\u00eancia e, sobretudo, na erradica\u00e7\u00e3o da pobreza e no impacto da organiza\u00e7\u00e3o financeira global nos problemas que se configuram como impactos ambientais, n\u00e3o eram comuns em documentos com temas ambientais. Nem, tampouco &#8211; e sobretudo -, na estreita vincula\u00e7\u00e3o dos temas ambientais aos problemas socioecon\u00f4micos que afetam diretamente o bem-estar e os n\u00edveis de vida das popula\u00e7\u00f5es. Como explica o embaixador Andr\u00e9 Correa do Lago, diretor do Departamento de Meio Ambiente do Itamaraty: \u00abO Brasil n\u00e3o quer que a nova governan\u00e7a seja de meio ambiente, e sim que ela seja voltada para o desenvolvimento sustent\u00e1vel, ou seja, que acentue que o meio ambiente deve estar no contexto social e econ\u00f4mico (<em>O Estado de S. Paulo<\/em>, 1\u00ba.\/02\/2012).\u00bb<\/p>\n<p>Segundo ele, o governo brasileiro pretende fazer da confer\u00eancia um G-20 voltado para discuss\u00f5es sobre o futuro, na qual caberiam, inclusive, debates sobre a melhor maneira de se enfrentar a crise financeira global.<\/p>\n<p>Evidentemente, essa guinada n\u00e3o est\u00e1 agradando aos ambientalistas, habituados a d\u00e9cadas de concess\u00f5es aos discursos alarmistas sobre cat\u00e1strofes planet\u00e1rias iminentes, a necessitar de a\u00e7\u00f5es emergenciais e da submiss\u00e3o das agendas socioecon\u00f4micas e de desenvolvimento tecnol\u00f3gico aos seus ditames ideol\u00f3gicos e, geralmente, cientificamente infundados. Com a divulga\u00e7\u00e3o do <em>Draft Zero<\/em>, come\u00e7aram os protestos sobre uma alegada \u00abfalta de foco\u00bb das propostas brasileiras, oriundas, principalmente, da Europa.<\/p>\n<p>Na confer\u00eancia \u00abEm dire\u00e7\u00e3o a uma nova governan\u00e7a mundial de meio ambiente\u00bb, realizada em Paris, em 31 de janeiro, l\u00edderes pol\u00edticos e ambientalistas criticaram as ambi\u00e7\u00f5es nacionais. Segundo o correspondente do \u00abEstad\u00e3o\u00bb, Andrei Netto, os europeus querem mesmo acentuar as discuss\u00f5es dos temas ambientais. A Fran\u00e7a, por exemplo, prefere que a Rio+20 se concentre em negocia\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas para a cria\u00e7\u00e3o de uma Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Meio Ambiente.<\/p>\n<p>\u00abQuanto mais falamos sobre crescimento verde e menos sobre governan\u00e7a, mais estamos perdendo o foco\u00bb, protestou a ministra do Meio Ambiente Nathalie Morizet.<\/p>\n<p>Com ela, fez coro o presidente da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Internacional (ICC), Gerard Worms: \u00abLutar contra a pobreza \u00e9 importante, mas n\u00e3o \u00e9 o mesmo que lutar pelo meio ambiente. A causa j\u00e1 \u00e9 muito vasta e avan\u00e7a pouco. Ou se mant\u00e9m o foco ou n\u00e3o se avan\u00e7ar\u00e1.\u00bb<\/p>\n<p>Em suma, tratam-se de sinais promissores de que uma mudan\u00e7a de rumo potencialmente decisiva pode estar em curso, quanto \u00e0 percep\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o ambiental por altos escal\u00f5es do governo brasileiro, a\u00ed inclu\u00eddas as prioridades que devem ser conferidas aos requisitos socioecon\u00f4micos e infraestruturais do desenvolvimento. Cabe, pois, aos demais setores da sociedade, interagir com ela e trabalhar para que se consolide.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um sopro de ar fresco parece estar sendo lan\u00e7ado sobre a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Desenvolvimento Sustentado, a Rio+20, que ser\u00e1 realizada em junho pr\u00f3ximo, no Rio de Janeiro. 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