{"id":294,"date":"2011-12-05T13:17:48","date_gmt":"2011-12-05T13:17:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=294"},"modified":"2011-12-05T13:17:48","modified_gmt":"2011-12-05T13:17:48","slug":"gota-dagua-na-turbina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/gota-dagua-na-turbina\/","title":{"rendered":"Gota D\u2019\u00c1gua na turbina"},"content":{"rendered":"<p><em>Decio Michellis Jr. *<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cRes, non verba.\u201d <\/em><\/p>\n<p>(Realidade, e n\u00e3o palavras.)<\/p>\n<p>No s\u00e9culo passado, era pr\u00e1tica comum nos conte\u00fados televisivos o aviso: \u201cesta \u00e9 uma obra de fic\u00e7\u00e3o: qualquer semelhan\u00e7a com fatos ou pessoas ter\u00e1 sido mera coincid\u00eancia\u201d. O motivo: as \u201cfic\u00e7\u00f5es realistas\u201d at\u00e9 podem ocorrer no contexto da realidade sem violar a normalidade do mundo e, serem confundidas com eventos reais.<\/p>\n<p>Depois veio os reality shows, transmitido ao vivo, 24 horas por dia, que trouxeram consigo a id\u00e9ia de serem \u201ca novela da vida real\u201d, hist\u00f3rias aparentemente sem roteiro, mas com muita trama. E j\u00e1 temos telenovelas que transmitem, por exemplo, uma cirurgia pl\u00e1stica de verdade em uma das atrizes, provando que a dramaturgia n\u00e3o tem fronteiras.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da televis\u00e3o nos domic\u00edlios do Brasil \u00e9 de 95,7% (s\u00e3o 75 milh\u00f5es de aparelhos), com posse m\u00e9dia de equipamentos 1,37\/domic\u00edlio. O aparelho s\u00f3 perde para o fog\u00e3o, existente em 98,4% das resid\u00eancias. Os dados s\u00e3o da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domic\u00edlios (IBGE\/ PNAD) de 2009 e do PDE 2011-2020 do MME.<\/p>\n<p>Em 1950 eram 1.000 receptores de TV no pa\u00eds, em 1960 &#8211; 621.919, em 1970 4,2 milh\u00f5es, em 1980 14,1 milh\u00f5es, em 1991 27,7 milh\u00f5es e em 2000 39 milh\u00f5es de televisores.<\/p>\n<p>Estas TVs representam aproximadamente consumo m\u00e9dio 149 kWh\/ano, ou aproximadamente 10% do consumo de energia nas resid\u00eancias. E equivalem a uma usina hidrel\u00e9trica 3.300 MW (1.276 MWh\/h) ou 30% de uma usina similar \u00e0 Belo Monte.<\/p>\n<p>Apesar da responsabilidade em mat\u00e9ria ambiental ser objetiva (a repara\u00e7\u00e3o do dano ambiental independe de culpa), n\u00e3o \u00e9 conhecido nenhuma iniciativa que procure ofertar junto com a compra de um novo televisor a correspondente oferta de gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica para mant\u00ea-lo funcionando com op\u00e7\u00f5es ambientalmente mais amig\u00e1veis ou de menores impactos socioambientais. Se assim fosse, ao comprar uma TV LCD de 42, R$ 1.500,00 em m\u00e9dia, sonho de consumo de boa parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira, seria necess\u00e1rio um investimento adicional de R$ 2.953,26 (para abastecimento da TV por e\u00f3lica) ou R$ 4.650,00 (para solar fotovoltaica) acrescidos dos custos de manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2010 as TVs bateram recorde em faturamento: R$ 18,3 bilh\u00f5es no mercado publicit\u00e1rio. A internet mais R$ 1,3 bilh\u00f5es (juntas arrecadaram somente no mercado publicit\u00e1rio, o equivalente a 66% do que todas as geradoras de eletricidade em opera\u00e7\u00e3o faturam por ano no Brasil).<\/p>\n<p>Parece que estamos assistindo a comercializa\u00e7\u00e3o do consenso. Noam Chomsky, em seu livro\u00a0<em>Manufacturing Consent<\/em>, afirma que a m\u00eddia de massa tem seus discursos pautados segundo interesses espec\u00edficos privados e de governo no intuito de buscar apoio mais amplo da sociedade nos vendendo id\u00e9ias e modos de vida. Igualmente Walter Lippmann, prospecta a \u201cfabrica\u00e7\u00e3o do consenso\u201d, na forma de praticar a democracia: aqueles que se consideram capazes de tomar as melhores decis\u00f5es em nome do bem comum da sociedade, desenvolveram mecanismos de controle social, maneiras de direcionar a opini\u00e3o p\u00fablica, j\u00e1 que o cidad\u00e3o m\u00e9dio n\u00e3o seria capaz de fazer as escolhas corretas.<\/p>\n<p>Fazem uso de instrumentos comprovadamente eficazes: entre outros a presen\u00e7a de atores famosos. Com isto se diferenciam no mercado do marketing pol\u00edtico ao criar um pseudo-debate p\u00fablico, utilizando argumentos question\u00e1veis e meias-verdades, sem oportunidade ao teste do contra-argumento.<\/p>\n<p>Este produto pol\u00edtico (o consenso da sociedade sobre um determinado tema) promete se tornar a nova marca no setor de terceiriza\u00e7\u00e3o do embate midi\u00e1tico, um neg\u00f3cio muito bem-sucedido e potencialmente lucrativo.<\/p>\n<p>Com a liberdade de express\u00e3o art\u00edstica, assegurada pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, parece n\u00e3o haver mais limites entre fic\u00e7\u00e3o e realidade. Assistimos principalmente nas telenovelas, personagens reais e fict\u00edcios numa trama e enredos complexos onde no merchandising social (motivo de orgulho para as grandes emissoras locais) a arte procura imitar a vida.<\/p>\n<p>Como tudo est\u00e1 sujeito a interpreta\u00e7\u00e3o, nunca se pode garantir uma completa fidelidade. Ao contr\u00e1rio das obras de fic\u00e7\u00e3o (mesmo as que praticam o merchandising social), onde os cen\u00e1rios s\u00e3o virtuais ou digitais, a necessidade de constru\u00e7\u00e3o da usina de Belo Monte \u00e9 100% real. Raramente s\u00e3o filmadas na floresta cenas com atores. Em Belo Monte as partes interessadas e os diretamente impactados pelo empreendimento (os atores reais) convivem com o desafio de atender as necessidades futuras de energia el\u00e9trica sustent\u00e1vel e de baixas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa com as medidas de mitiga\u00e7\u00e3o, compensa\u00e7\u00e3o e indeniza\u00e7\u00e3o apropriadas ao porte e localiza\u00e7\u00e3o do mesmo.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que j\u00e1 faz a diferen\u00e7a, aliando crescimento \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de recursos naturais e das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Somos hoje em mat\u00e9ria de conserva\u00e7\u00e3o e na matriz el\u00e9trica o que a maior parte dos pa\u00edses desenvolvidos gostariam de ser amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Em nossa realidade, diferente das pe\u00e7as de fic\u00e7\u00e3o, os respons\u00e1veis por quase tr\u00eas d\u00e9cadas de desenvolvimento do projeto de Belo Monte consideraram todas as possibilidades t\u00e9cnicas e economicamente vi\u00e1veis de reduzir os impactos da obra, o que na pr\u00e1tica significou a redu\u00e7\u00e3o de 48% da energia que poderia ser gerada pelo projeto original de nome \u201cKarara\u00f4\u201d. \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o inteligente, respons\u00e1vel, consciente e motivada pelo bem comum.<\/p>\n<p>O setor el\u00e9trico brasileiro construiu aproximadamente 1.000 barragens, algumas com mais de 120 anos em opera\u00e7\u00e3o (a legisla\u00e7\u00e3o ambiental brasileira tem apenas 28 anos). O Brasil consolidou progressivamente em seus projetos as melhores pr\u00e1ticas de gest\u00e3o socioambiental de efic\u00e1cia comprovadas internacionalmente.<\/p>\n<p>Partindo da cren\u00e7a midi\u00e1tica de que tudo pode ser feito, o limite \u00e9 nossa imagina\u00e7\u00e3o, o fornecimento de energia el\u00e9trica, bem indispens\u00e1vel \u00e0 sadia qualidade de vida, exige um comprometimento cada vez maior com a inova\u00e7\u00e3o e a competitividade n\u00e3o s\u00f3 econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m socioambiental. Exige cada vez mais tecnologia, novos modos de gera\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de conhecimento, diversidade tecnol\u00f3gica e aumento da capacidade de observa\u00e7\u00e3o e aprendizado sobre impactos socioambientais das novas tecnologias.<\/p>\n<p>Isto sim, \u00e9 estar verdadeiramente empenhado em achar solu\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento sustent\u00e1vel do Brasil.<\/p>\n<p>Enquanto em pe\u00e7as publicit\u00e1rias como as do \u201cMovimento Gota D\u2019\u00c1gua\u201d n\u00e3o se preocupam com coisas como a viabilidade t\u00e9cnica e econ\u00f4mica das propostas, o setor el\u00e9trico brasileiro est\u00e1 no caminho oposto para valorar os efeitos e perdas de cunho social, cultural e psicol\u00f3gico que usinas hidrel\u00e9tricas geram \u00e0s popula\u00e7\u00f5es sob sua influ\u00eancia para, a partir desse conhecimento, propor o conjunto de a\u00e7\u00f5es mais eficaz para minorar e\/ou compensar as interfer\u00eancias geradas.<\/p>\n<p>Como consumidores precisamos considerar nas nossas escolhas (consumo consciente, a redu\u00e7\u00e3o, o reuso e a reciclagem) a demanda indireta ou oculta de recursos naturais, com destaque sobre os n\u00e3o renov\u00e1veis. Ou seja, considerar a energia (incluindo a el\u00e9trica), a \u00e1gua, os recursos minerais, os transportes e os processos produtivos e seus impactos no meio ambiente para orientar as nossas decis\u00f5es de consumo em todos os produtos, bens e servi\u00e7os que adquirimos.<\/p>\n<p>Para um mundo melhor, mais consciente e solid\u00e1rio, mais do que aparecer com solu\u00e7\u00f5es emocionalmente defens\u00e1veis, \u00e9 importante ser sustent\u00e1vel e socioambientalmente respons\u00e1vel, tendo por objeto iniciativas cuja efetividade seja inquestion\u00e1vel. \u00c9 preocupante a facilidade com que a maior parte das pessoas adere de forma acr\u00edtica, aceitando o papel menos nobre de uma democracia, a de se comportar como massa de manobra. Com o progresso da Ci\u00eancia, a mente humana est\u00e1 livre para investigar, questionar, e se necess\u00e1rio invalidar aquilo que n\u00e3o puder ser comprovado, ou que n\u00e3o apresente um m\u00ednimo de coer\u00eancia. Realidade, e n\u00e3o palavras.<\/p>\n<p>Refs.: <a href=\"http:\/\/blog.nei.com.br\/index.php\/2011\/11\/23\/gota-dagua-na-turbina\/\" target=\"_blank\">http:\/\/blog.nei.com.br\/index.php\/2011\/11\/23\/gota-dagua-na-turbina\/<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.cerpch.unifei.edu.br\/noticias\/gota-dagua-na-turbina.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cerpch.unifei.edu.br\/noticias\/gota-dagua-na-turbina.html<\/a> (22\/11\/11) .<\/p>\n<p>(*) <em>Diretor de energia do Departamento de Infraestrutura da FIESP &#8211; Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo e assessor especial de meio ambiente da Rede Energia.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decio Michellis Jr. * \u201cRes, non verba.\u201d (Realidade, e n\u00e3o palavras.) 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