{"id":291,"date":"2012-08-03T22:48:23","date_gmt":"2012-08-03T22:48:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=291"},"modified":"2012-08-03T22:48:23","modified_gmt":"2012-08-03T22:48:23","slug":"eua-centurioes-com-coturnos-furados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/eua-centurioes-com-coturnos-furados\/","title":{"rendered":"EUA: centuri\u00f5es com coturnos furados"},"content":{"rendered":"<p>Em meio ao agravamento do cen\u00e1rio estrat\u00e9gico global, ao qual est\u00e1 estreitamente vinculada, trava-se nos EUA uma aut\u00eantica guerra intestina pelo tamanho do or\u00e7amento de defesa, cujo exame, mesmo superficial, proporciona importantes subs\u00eddios para o entendimento da pol\u00edtica internacional estadunidense. No centro da batalha, est\u00e1 a preserva\u00e7\u00e3o de um or\u00e7amento que, em conjunto, supera amplamente os gastos militares de todos os demais pa\u00edses do planeta e, al\u00e9m de n\u00e3o guardar qualquer propor\u00e7\u00e3o com os interesses maiores da sociedade estadunidense, tem contribu\u00eddo fortemente para a eros\u00e3o da base econ\u00f4mica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na quarta-feira 25 de julho, o Congresso estadunidense come\u00e7ar\u00e1 a discutir o or\u00e7amento de defesa para o ano fiscal de 2013. Apesar de o montante oficialmente submetido pelo Departamento de Defesa ser de 526 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, esta cifra se refere apenas ao or\u00e7amento atribu\u00eddo diretamente ao Pent\u00e1gono. Por\u00e9m, para todos os fins pr\u00e1ticos, a rubrica \u00abdefesa\u00bb deve incluir, tamb\u00e9m, os gastos com os conflitos em curso (alocados separadamente), os veteranos militares, o desenvolvimento de armas nucleares (curiosamente, listado no or\u00e7amento do Departamento de Energia), as ag\u00eancias de intelig\u00eancia e o Departamento de Seguran\u00e7a Interna, criado na esteira dos ataques de 11 de setembro de 2001. Somando tudo, o montante atinge a casa de 1 trilh\u00e3o de d\u00f3lares, quase o dobro dos or\u00e7amentos militares combinados dos demais pa\u00edses.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, assim como ocorreu na fase de derrocada do Imp\u00e9rio Romano, tais gastos ultrapassam em muito a capacidade da economia para sustent\u00e1-los, tornando-se um fator que tem agravado os rapidamente o crescente d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio do pa\u00eds, para o qual contribuem com cerca da metade. Hoje, a rubrica de \u00abdefesa\u00bb j\u00e1 responde por mais de um quarto do or\u00e7amento federal e quase dois ter\u00e7os dos gastos discrecion\u00e1rios do governo federal.<\/p>\n<p>Por isso, a Lei de Controle Or\u00e7ament\u00e1rio aprovada no ano passado prev\u00ea uma redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento de defesa da ordem de 500 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ao longo dos pr\u00f3ximos dez anos, o que j\u00e1 reduziria o or\u00e7amento de 2013 para apenas 469 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Ainda assim, segundo o pr\u00f3prio<a href=\"http:\/\/www.cbo.gov\/publication\/43428\">Escrit\u00f3rio Or\u00e7ament\u00e1rio do Congresso<\/a>, tal valor \u00e9 \u00abmaior do que era em 2006 (em d\u00f3lares de 2013) e maior que o or\u00e7amento b\u00e1sico m\u00e9dio da d\u00e9cada de 1980\u00bb. E, como afirmou o comentarista Robert Greenwald, no s\u00edtio Common Dreams.org (18\/07\/2012), \u00ab2006 n\u00e3o foi, propriamente, um ano ruim para ser uma empresa de defesa\u00bb.<\/p>\n<p>No mesmo contexto, certas lideran\u00e7as do Pent\u00e1gono est\u00e3o tentando entabular um novo enquadramento da estrat\u00e9gia militar estadunidense, no marco das limita\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias. Em sua visita ao Brasil, no final de abril, o secret\u00e1rio de Defesa Leon Panetta sugeriu que os militares estadunidenses devem promover uma redu\u00e7\u00e3o das for\u00e7as no exterior e recorrer mais a opera\u00e7\u00f5es especiais, com for\u00e7as de rea\u00e7\u00e3o r\u00e1pida (<em>Resenha Estrat\u00e9gica<\/em>, 20\/06\/2012).<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, mesmo esses cortes menores, que ainda manteriam os or\u00e7amentos militares estadunidenses em n\u00edveis superlativos, s\u00e3o intoler\u00e1veis para o conjunto de interesses estabelecido em torno do que o presidente Dwight Eisenhower chamou, em seu discurso de despedida, de \u00abcomplexo industrial-militar\u00bb, que hoje pode ser melhor qualificado como \u00abcomplexo de seguran\u00e7a nacional\u00bb e se converteu numa aut\u00eantica institui\u00e7\u00e3o, com vida e din\u00e2mica pr\u00f3prias e cuja finalidade principal \u00e9 a sua autopreserva\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m das For\u00e7as Armadas e as ag\u00eancias de intelig\u00eancia, este complexo \u00e9 integrado pelas ind\u00fastrias de equipamentos militares, a vasta rede de\u00a0<em>think-tanks<\/em>\u00a0e institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas de estudos estrat\u00e9gicos e de defesa, uma constela\u00e7\u00e3o de jornalistas associados, um grande n\u00famero de congressistas e lobistas (com frequ\u00eancia, sendo imposs\u00edvel distinguir entre uns e outros) e, de forma crescente, empresas privadas \u00e0s quais t\u00eam sido \u00abterceirizadas\u00bb numerosas atividades antes exclusivas dos militares, como a not\u00f3ria Blackwater (atual Xe).<\/p>\n<p>Alarmados com o corte de 57 bilh\u00f5es de d\u00f3lares no or\u00e7amento de 2013, o lobby do complexo se mobilizou em grande estilo, recorrendo aos seus porta-vozes de mais alto calibre para trombetear os supostos riscos intoler\u00e1veis que a medida representaria para a \u00abseguran\u00e7a\u00bb do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Entre eles, n\u00e3o poderia deixar de figurar o \u00abfalc\u00e3o\u00bb mais graduado da fauna belicista estadunidense, o ex-vice-presidente Dick Cheney, que, numa reuni\u00e3o privada com senadores republicanos, em 17 de julho, afirmou que os cortes seriam \u00abdevastadores\u00bb para o planejamento e a moderniza\u00e7\u00e3o militares dos EUA (Bloomberg, 18\/07\/2012).<\/p>\n<p>No mesmo dia, a Associa\u00e7\u00e3o de Ind\u00fastrias Aeroespaciais divulgou uma atualiza\u00e7\u00e3o do seu estudo de 2011 sobre os impactos econ\u00f4micos dos cortes, em especial, sobre os empregos. Em uma ostensiva tentativa de chantagem, num momento em que os n\u00edveis de desemprego se mant\u00eam em alta, a entidade afirma que os cortes propostos poder\u00e3o resultar nas demiss\u00f5es de at\u00e9 1,09 milh\u00e3o de funcion\u00e1rios do setor.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Manufatureiros, outro ativo grupo de lobistas do setor, se juntou ao coro, afirmando que os cortes \u00abaumentariam o desemprego em 0,7% e reduziriam o PIB em quase 1%\u00bb.<\/p>\n<p>Em um depoimento ao Comit\u00ea das For\u00e7as Armadas da C\u00e2mara dos Deputados, o executivo-chefe da Lockheed Martin, a maior empresa de defesa do mundo, refor\u00e7ou a chantagem, amea\u00e7ando demitir 10 mil funcion\u00e1rios da empresa, j\u00e1 em outubro (\u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es presidenciais), caso os cortes sejam mantidos.<\/p>\n<p>Com tais evid\u00eancias, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber por que os EUA p\u00f3s-11 de setembro t\u00eam insistido em prolongar conflitos de uma forma que, aparentemente, n\u00e3o faz sentido em termos militares, como a invas\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o do Iraque e do Afeganist\u00e3o, esta \u00faltima, prestes a entrar no d\u00e9cimo-segundo ano. Independentemente de quaisquer objetivos estrat\u00e9gicos contemplados por tais investidas, os conflitos se justificam por si pr\u00f3prios, pelos colossais volumes de recursos financeiros que movimentam. O obst\u00e1culo \u00faltimo de tal esquema \u00e9 colocado pela realidade econ\u00f4mica, que se mostra nos processos de desindustrializa\u00e7\u00e3o e deteriora\u00e7\u00e3o da infraestrutura do pa\u00eds, com os conseq\u00fcentes impactos socioecon\u00f4micos, configurando uma consider\u00e1vel debilita\u00e7\u00e3o da base econ\u00f4mica imprescind\u00edvel para a sustenta\u00e7\u00e3o de qualquer estrutura militar que atenda minimamente \u00e0s necessidades nacionais, e n\u00e3o apenas a uma agenda institucionalizada e determinada por interesses restritos.<\/p>\n<p>Por ironia, a superexpans\u00e3o do poderio militar estadunidense pode acabar produzindo um efeito de desestabiliza\u00e7\u00e3o interna an\u00e1logo ao da militariza\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano &#8211; ao qual se tornam particularmente sujeitos aqueles que se recusam a aprender algo com a Hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio ao agravamento do cen\u00e1rio estrat\u00e9gico global, ao qual est\u00e1 estreitamente vinculada, trava-se nos EUA uma aut\u00eantica guerra intestina pelo tamanho do or\u00e7amento de defesa, cujo exame, mesmo superficial, proporciona importantes subs\u00eddios para o entendimento da pol\u00edtica internacional estadunidense. 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