{"id":288,"date":"2012-08-03T22:46:15","date_gmt":"2012-08-03T22:46:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=288"},"modified":"2012-08-03T22:46:15","modified_gmt":"2012-08-03T22:46:15","slug":"a-geopolitica-do-grande-caribe-ameaca-a-amazonia-e-a-integracao-da-america-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/a-geopolitica-do-grande-caribe-ameaca-a-amazonia-e-a-integracao-da-america-do-sul\/","title":{"rendered":"A geopol\u00edtica do &quot;Grande Caribe&quot;: amea\u00e7a \u00e0 Amaz\u00f4nia e \u00e0 integra\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil ter\u00e1 que mudar, com urg\u00eancia, a sua pol\u00edtica para a Amaz\u00f4nia, se quiser manter a sua soberan\u00eda sobre a regi\u00e3o, a m\u00e9dio prazo. A silenciosa ocupa\u00e7\u00e3o internacional da regi\u00e3o, por interm\u00e9dio da imposi\u00e7\u00e3o de imensas reservas ind\u00edgenas e florestais, como parte de uma pol\u00edtica essencialmente controlada pelo aparato ambientalista-indigenista internacional, especialmente, nas \u00e1reas de frontera com a Col\u00f4mbia, Venezuela e Guianas, pode passar r\u00e1pidamente a a\u00e7\u00f5es de ocupa\u00e7\u00e3o efetiva, com o prop\u00f3sito de controlar os recursos naturais da regi\u00e3o &#8211; diretamente ou impedindo a sua explora\u00e7\u00e3o soberana pelos brasileiros.<\/p>\n<p>Um motivo de preocupa\u00e7\u00e3o deve ser o decl\u00ednio estrat\u00e9gico anglo-americano, na \u00c1sia e no Oriente M\u00e9dio. Independentemente do desfecho da investida contra o regime de Bashar al-Assad na S\u00edria, as virulentas press\u00f5es diplom\u00e1ticas e a maldisfar\u00e7ada participa\u00e7\u00e3o de for\u00e7as especiais e recursos militares anglo-americanos no conflito demonstra, em grande medida, uma perda de controle na regi\u00e3o e uma insanidade crescente dos c\u00edrculos mais belicistas do\u00a0<em>Establishment<\/em>.<br \/>\nUma consequ\u00eancia desse decl\u00ednio estrat\u00e9gico \u00e9 uma reorienta\u00e7\u00e3o do poder anglo-americano para o Hemisf\u00e9rio Ocidental, como temos assinalado em artigos recentes nesta\u00a0Resenha. Evid\u00eancias desta tend\u00eancia s\u00e3o as articula\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas de Washington na Am\u00e9rica do Sul, vis\u00edveis na crise presidencial no Paraguai e no patroc\u00ednio \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a do Pac\u00edfico, o novo bloco continental pactuado entre o Chile, Peru, Col\u00f4mbia e M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Essa guinada estrat\u00e9gica foi o tema central de um recente artigo dos jornalistas Robert D. Kaplan e Karen Hooper, publicado em 18 de julho no s\u00edtio da ag\u00eancia de intelig\u00eancia privada Stratfor, intitulado \u00abA fonte do poder estadunidense\u00bb. Afirmam os autores:<\/p>\n<blockquote><p>Historicamente, o poderio geopol\u00edtico estadunidense tem a sua origem, n\u00e3o na Europa ou na \u00c1sia, mas no Grande Caribe. O Grande Caribe \u00e9 o mundo que vai de Yorktown \u00e0s Guianas, ou seja, dos estados mesoatl\u00e2nticos \u00e0s selvas do norte da Am\u00e9rica do Sul. O Hemisf\u00e9rio Ocidental, como o estrategista holand\u00eas-americano Nicholas J. Spykman explicou, em 1942, n\u00e3o se divide entre a Am\u00e9rica do Norte e a do Sul. Ele se divide entre as latitudes ao norte da grande barreira da selva Amaz\u00f4nia e as latitudes ao sul dela. Em outras palavras, sob uma \u00f3tica geopol\u00edtica, a Venezuela n\u00e3o \u00e9, absolutamente, um pa\u00eds sul-americano, mas caribenho. A maior parte da sua popula\u00e7\u00e3o de 28,8 milh\u00f5es vive no norte, ao longo do Mar do Caribe, longe das selvas do sul.<\/p>\n<p>Embora os cabe\u00e7alhos midi\u00e1ticos de hoje falem do Oriente M\u00e9dio e da \u00c1sia, para muitos presidentes dos EUA, do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX ao in\u00edcio do XX, as crises de pol\u00edtica externa se centraram no Grande Caribe. Foi um processo de 100 anos para que os jovens EUA, realmente, tomassem das pot\u00eancias europeias o controle do Grande Caribe. O Grande Caribe &#8211; o Golfo do M\u00e9xico e o Caribe, propriamente dito &#8211; \u00e9, de fato, uma extens\u00e3o territorial de \u00e1guas azuis do territ\u00f3rio continental dos EUA. A influ\u00eancia sobre ele se deve \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do Canal do Panam\u00e1, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Uma vez que os EUA puderam assegurar o controle do Grande Caribe, o pa\u00eds se tornou o hegemon do Hemisf\u00e9rio Ocidental, restando apenas o \u00c1rtico Canadense e o cone sul da Am\u00e9rica do Sul (inclusive as zonas de sombra da Bol\u00edvia, Equador e Peru), efetivamente, al\u00e9m do cintur\u00e3o de seguran\u00e7a estabelecido pela Marinha dos EUA nas \u00cdndias Ocidentais. E com o Hemisf\u00e9rio Ocidental sob a sua domina\u00e7\u00e3o, os EUA puderam, a partir da\u00ed, afetar o equil\u00edbrio de poder no Hemisf\u00e9rio Oriental. As vit\u00f3rias estadunidenses nas duas guerras mundiais e na Guerra Fria foram, originalmente, constru\u00eddas sobre a geopol\u00edtica do Grande Caribe.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, como as dist\u00e2ncias entraram em colapso, em um mundo mais densamente povoado e crescentemente unido pela tecnologia, o Grande Caribe volta novamente ao palco. (&#8230;)<\/p><\/blockquote>\n<p>A men\u00e7\u00e3o a uma \u00e1rea \u00abde Yorktown \u00e0s Guianas\u00bb, ou seja, da Virg\u00ednia \u00e0 fronteira com o Brasil, prov\u00e9m de um velho conceito dos Confederados estadunidenses mais radicais, como os Cavaleiros do C\u00edrculo Dourado, uma sociedade semi-secreta que, antes da Guerra Civil Americana (1861-1865) contemplava a cria\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea escravagista olig\u00e1rquica em toda aquela regi\u00e3o. N\u00e3o por acaso, o pr\u00f3prio Kaplan, como muitos dos mais proeminentes pensadores \u00abneoconservadores\u00bb dos EUA, s\u00e3o admiradores abertos das ideias da Confedera\u00e7\u00e3o, derrotadas por Abraham Lincoln, na Guerra Civil.<\/p>\n<p>A isso, \u00e9 preciso agregar a ideia olig\u00e1rquica de \u00abcongelar\u00bb o desenvolvimento do que chamam a \u00abIlha da Guiana\u00bb, \u00e1rea delineada pelo rio Orinoco, o canal de Cassiquiare e o rio Negro, o que inclui toda a Calha Norte do Amazonas. O centro da \u00abilha\u00bb \u00e9, precisamente, o estado brasileiro de Roraima, que tem sido submetido a uma draconiana \u00abesteriliza\u00e7\u00e3o territorial\u00bb, com a maior parte de seu territ\u00f3rio demarcado como \u00e1reas ind\u00edgenas ou reservas naturais, que obstaculizam quaisquer atividades econ\u00f4micas modernas. No caso, a miopia estrat\u00e9gica levou sucessivos governos brasileiros a permitir no estado a forma\u00e7\u00e3o das gigantescas reservas ianom\u00e2mi e Raposa Serra do Sol, ambas fronteiri\u00e7as.<\/p>\n<p>A relev\u00e2ncia de tais considera\u00e7\u00f5es se torna evidente, diante das considera\u00e7\u00f5es de Kaplan e Hooper, que antecipa uma oportunidade ideal para a implementa\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia mencionada, na morte do presidente venezuelano Hugo Ch\u00e1vez, que d\u00e1 como certa, antes ou durante as vindouras elei\u00e7\u00f5es presidenciais no pa\u00eds, em outubro pr\u00f3ximo. Ademais, ele amea\u00e7a a Col\u00f4mbia com um processo de desestabiliza\u00e7\u00e3o, prevendo um retrocesso na guerra do Estado colombiano contra as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (FARC). Fatos que, em sua avalia\u00e7\u00e3o, teriam um grande potencial de desestabiliza\u00e7\u00e3o de toda a regi\u00e3o norte da Amaz\u00f4nia, diante dos quais adverte que os EUA poderiam at\u00e9 intervir militarmente, mas n\u00e3o evitariam o caos. Suas palavras:<\/p>\n<blockquote><p>Assim, Washington n\u00e3o poderia contar com uma estabiliza\u00e7\u00e3o, nem na Col\u00f4mbia nem na Venezuela, sem falar na guerra das drogas no M\u00e9xico, com 50 mil mortes desde 2006 &#8211; com a maior parte da viol\u00eancia ocorrendo no norte do M\u00e9xico, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira com os EUA. Os EUA podem dominar o Grande Caribe, em termos do seu poderio militar convencional. Podem dominar o Grande Caribe, no sentido de que nenhuma pot\u00eancia relevante pode desafiar os EUA ali. Mas tal poderio estadunidense n\u00e3o pode garantir a estabilidade em lugar algum dentro da pr\u00f3pria regi\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Evidentemente, poder-se-ia considerar que o texto de Kaplan e Hooper \u00e9 produto de um surto psic\u00f3tico comum em estrategas desequlibrados sob condi\u00e7\u00f5es de estresse agudo, em tempos de crise, exceto pelo fato de ele ser membro do Conselho de Pol\u00edtica de Defesa (nomeado pelo ent\u00e3o secret\u00e1rio de Defesa Robert Gates, em 2009), consultor do Ex\u00e9rcito, Fuzileiros Navais e For\u00e7a A\u00e9rea dos EUA e ex-professor visitante da Academia Naval de Annapolis, onde ministrou um curso sobre \u00abFuturos desafios de seguran\u00e7a global\u00bb. Semelhante curr\u00edculo leva alguns analistas, como o jornalista mexicano Alfredo Jalife-Rahme, a consider\u00e1-lo como \u00abum arauto do Pent\u00e1gono para sentir o pulso de seus advers\u00e1rios e\/ou amea\u00e7\u00e1-los\u00bb. A revista\u00a0<em>Foreign Policy<\/em>, onde escreve regularmente, o considera entre os 100 maiores pensadores estrat\u00e9gicos globais. Embora com um curr\u00edculo mais modesto, sua colega Hooper \u00e9 diretora de an\u00e1lises para a Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica da Stratfor.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que o aprofundamento da crise econ\u00f4mico-financeira mundial, o decl\u00ednio militar dos EUA e a emerg\u00eancia de um pensamento estrat\u00e9gico temer\u00e1rio em certos c\u00edrculos hegem\u00f4nicos, constituem uma s\u00e9ria amea\u00e7a real \u00e0 soberania dos Estados nacionais ibero-americanos. Isto implica em que a delimita\u00e7\u00e3o de gigantescas \u00e1reas na Amaz\u00f4nia brasileira como aut\u00eanticas \u00abzonas de exclus\u00e3o econ\u00f4mica\u00bb, por motivos ambientais ou ind\u00edgenas &#8211; seja por ingenuidade ou irresponsabilidade &#8211; passa ao largo da possibilidade real de que estas possam transformar-se em alvos de opera\u00e7\u00f5es militares.<\/p>\n<p>Para o Brasil, evidentemente, tal perspectiva torna urgente a necessidade de uma dr\u00e1stica revers\u00e3o da pol\u00edtica de demarca\u00e7\u00e3o de reservas ind\u00edgenas desproporcionais, juntamente com a promo\u00e7\u00e3o de uma ocupa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica racional da Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, com um engajamento efetivo das pr\u00f3prias popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, segundo as suas peculiaridades culturais, no desenvolvimento e na defesa da soberania brasileira. Antes tarde do que nunca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil ter\u00e1 que mudar, com urg\u00eancia, a sua pol\u00edtica para a Amaz\u00f4nia, se quiser manter a sua soberan\u00eda sobre a regi\u00e3o, a m\u00e9dio prazo. A silenciosa ocupa\u00e7\u00e3o internacional da regi\u00e3o, por interm\u00e9dio da imposi\u00e7\u00e3o de imensas reservas ind\u00edgenas e florestais, como parte de uma pol\u00edtica essencialmente controlada pelo aparato ambientalista-indigenista internacional, especialmente, nas \u00e1reas &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-288","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-iberoamerica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=288"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}