{"id":285,"date":"2012-08-03T22:43:56","date_gmt":"2012-08-03T22:43:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=285"},"modified":"2012-08-03T22:43:56","modified_gmt":"2012-08-03T22:43:56","slug":"siria-as-favas-com-o-soft-power","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/siria-as-favas-com-o-soft-power\/","title":{"rendered":"S\u00edria: \u00e0s favas com o &quot;soft power&quot;"},"content":{"rendered":"<p>As rea\u00e7\u00f5es dos grupos mais belicosos do\u00a0<em>Establishment\u00a0<\/em>anglo-americano ao agravamento da crise sist\u00eamica e \u00e0 vis\u00edvel deteriora\u00e7\u00e3o da autoridade do poderio da alian\u00e7a transatl\u00e2ntica nos assuntos mundiais est\u00e3o colocando o mundo \u00e0 beira de um potencial cataclisma, como se percebe com a perigosamente vol\u00e1til situa\u00e7\u00e3o do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Na S\u00edria, os acontecimentos das \u00faltimas semanas sugerem que aqueles grupos, que, em conluio com seus aliados da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) e as petromonarquias do Golfo P\u00e9rsico, t\u00eam fomentado a insurg\u00eancia contra o regime de Bashar al-Assad, deixaram de lado qualquer veleidade de preserva\u00e7\u00e3o de apar\u00eancias e est\u00e3o investindo fortemente em insuflar o que j\u00e1 se configura como uma sangrenta guerra civil. O desfecho poder\u00e1 ser uma catastr\u00f3fica fragmenta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, de consequ\u00eancias imprevis\u00edveis para as suas diversas minorias \u00e9tnico-religiosas e, n\u00e3o menos, para o j\u00e1 perigosamente inst\u00e1vel cen\u00e1rio regional.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da determinada oposi\u00e7\u00e3o da R\u00fassia e da China, no \u00e2mbito do Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas (CS), recha\u00e7ando qualquer tentativa de aprova\u00e7\u00e3o de uma resolu\u00e7\u00e3o que possa abrir caminho para uma interven\u00e7\u00e3o militar aberta contra o regime de Assad, o que tem impedido uma opera\u00e7\u00e3o militar ao estilo da montada contra a L\u00edbia, mesmo como uma iniciativa isolada dos EUA, como t\u00eam sugerido muitos dos \u00abfalc\u00f5es\u00bb do pa\u00eds, \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Estado-Maior Conjunto das For\u00e7as Armadas. N\u00e3o obstante, a grande complexidade e multiplicidade dos interesses representados no interior do\u00a0Establishment\u00a0olig\u00e1rquico transatl\u00e2ntico n\u00e3o permite que se tenha qualquer seguran\u00e7a quanto ao risco de uma eventual escalada militar, seja contra a S\u00edria ou, mesmo, o Ir\u00e3, em \u00faltima an\u00e1lise, o alvo principal dos belicistas olig\u00e1rquicos.<\/p>\n<p>Um exemplo dessa imprevisibilidade se mostrou na guinada do presidente do Conselho de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (CFR), Richard Haass, que deixou de lado a posi\u00e7\u00e3o moderada demonstrada at\u00e9 agora, quanto a uma interven\u00e7\u00e3o externa na S\u00edria. Em uma entrevista \u00e0 BBC, em 19 de julho, ele afirmou que pensar em uma solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica para o conflito, nas atuais condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 um \u00abfracasso antecipado\u00bb.<\/p>\n<p>A\u00ed se mostra com clareza a demagogia impl\u00edcita no discurso de favorecimento do chamado<em>\u00a0\u00absoft power\u00bb\u00a0<\/em>(poder suave), em detrimento do\u00a0<em>\u00abhard power\u00bb<\/em>\u00a0(poder duro), inclusive, na c\u00fapula do governo de Barack Obama, demonstrando, uma vez mais, a inexist\u00eancia de diferen\u00e7as significativas entre governos republicanos e democratas, quanto \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da for\u00e7a militar para a consecu\u00e7\u00e3o dos seus objetivos.<\/p>\n<p>A interfer\u00eancia externa no conflito s\u00edrio ficou igualmente impl\u00edcita nos violentos atentados contra os pr\u00f3prios centros do poder em Damasco, que resultaram nas mortes de alguns dos principais assessores de Assad, inclusive o ministro da Defesa. Embora a origem dos sofisticados ataques ainda n\u00e3o tenha sido esclarecida, \u00e9 quase impens\u00e1vel que eles possam ter sido perpetrados sem o apoio direto de ag\u00eancias de intelig\u00eancia estrangeiras.<\/p>\n<p>Em paralelo com a investida contra Assad, manifesta-se uma escalada de provoca\u00e7\u00f5es contra o seu aliado Ir\u00e3, no \u00e2mbito da entrada em vigor das san\u00e7\u00f5es da Uni\u00e3o Europeia (UE) contra as importa\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo e g\u00e1s iranianos e das delicadas negocia\u00e7\u00f5es entre Teer\u00e3 e o grupo P5+1 (os cinco membros permanentes do CS e a Alemanha), sobre o controvertido programa de enriquecimento de ur\u00e2nio do pa\u00eds. De um lado, a c\u00fapula militar estadunidense se mostra contr\u00e1ria a uma nova aventura militar, mas j\u00e1 tem dois grupos de batalha da US Navy operando no Golfo P\u00e9rsico e um terceiro a caminho, com quatro meses de anteced\u00eancia sobre a rota\u00e7\u00e3o normal destas for\u00e7as. Do outro, o governo do premier israelense Benjamin Netanyahu, \u00e0s voltas com uma s\u00e9rie de protestos sociais internos, arde de vontade de criar uma situa\u00e7\u00e3o que justifique o seu ansiado ataque militar contra instala\u00e7\u00f5es nucleares iranianas, apesar da oposi\u00e7\u00e3o ostensiva dos seus pr\u00f3prios chefes militares e de intelig\u00eancia, que, como seus pares estadunidenses, t\u00eam demonstrado uma inusitada restri\u00e7\u00e3o ao belicismo dos seus l\u00edderes pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Nessa atmosfera carregada, eventos inesperados adquirem um forte potencial incendi\u00e1rio, podendo funcionar como uma fagulha para deflagrar uma escalada que resulte num conflito armado. Um exemplo foi o metralhamento de um barco pesqueiro indiano por um navio de abastecimento da Marinha dos EUA, no Golfo P\u00e9rsico, ao largo de Dubai, que provocou a morte de um pescador e ferimentos em dois outros &#8211; uma manifesta\u00e7\u00e3o do elevado n\u00edvel de tens\u00f5es dos militares estadunidenses na \u00e1rea. Outro \u00e9 o ainda n\u00e3o esclarecido atentado suicida contra um \u00f4nibus de turistas israelenses na Bulg\u00e1ria, que vitimou sete pessoas, inclusive o motorista b\u00falgaro e o terrorista &#8211; imediatamente atribu\u00eddo por Netanyahu ao Ir\u00e3, diretamente ou por interm\u00e9dio do seu aliado liban\u00eas, o grupo xiita Hisbol\u00e1. Embora ambos tenham negado enfaticamente a autoria do ataque e o governo b\u00falgaro tenha afirmado que \u00e9 prematuro tirar qualquer conclus\u00e3o, o acontecimento deixa transparecer a possibilidade de que opera\u00e7\u00f5es clandestinas do tipo conhecido no jarg\u00e3o de intelig\u00eancia como \u00abbandeira falsa\u00bb (false flag, em ingl\u00eas), quando uma a\u00e7\u00e3o \u00e9 atribu\u00edda ao oponente ao qual se quer golpear, sejam montadas para justificar uma escalada militar.<\/p>\n<p>Nesse contexto explosivo, paira sobre a S\u00edria a s\u00e9ria amea\u00e7a de uma violenta persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s minorias \u00e9tnico-religiosas que compoem a popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Com todos os seus problemas, o regime da fam\u00edlia Assad tem sido capaz de manter um Estado nacional constitu\u00eddo por um am\u00e1lgama de uma maioria de mu\u00e7ulmanos sunitas (74% da popula\u00e7\u00e3o, entre \u00e1rabes, turcos e curdos), minorias mu\u00e7ulmanas de alau\u00edtas (que controla o regime), xiitas e drusos (16% da popula\u00e7\u00e3o) e 10% de crist\u00e3os. Por todas as raz\u00f5es, essas minorias, principalmente a crist\u00e3, temem que uma eventual queda do regime de Assad resulte na ascens\u00e3o de um governo de maioria sunita, agrupado ao redor da Irmandade Mu\u00e7ulmana, que intensifique as persegui\u00e7\u00f5es sect\u00e1rias que j\u00e1 se manifestam em meio \u00e0 insurg\u00eancia contra o governo.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 ag\u00eancia noticiosa cat\u00f3lica Zenit, em 23 de julho, o bispo caldeu de Aleppo, Antoine Audo, resumiu tais temores: \u00abO que podemos fazer para proteger as pessoas? N\u00e3o temos nenhuma possibilidade de fazer isso. N\u00e3o s\u00f3 os crist\u00e3os est\u00e3o nesta situa\u00e7\u00e3o muito perigosa, mas tamb\u00e9m alguns mu\u00e7ulmanos, aqueles que t\u00eam sido vistos como simpatizantes do governo.\u00bb<\/p>\n<p>Tal cen\u00e1rio amea\u00e7a somar-se ao ocorrido no Iraque, onde a minoria crist\u00e3 foi praticamente expulsa do pa\u00eds, configurando um ir\u00f4nico quadro em que as pot\u00eancias do Ocidente crist\u00e3o seriam respons\u00e1veis pela desestabiliza\u00e7\u00e3o de uma das comunidades crist\u00e3s mais antigas do planeta, sacrificada, juntamente com outras minorias s\u00edrias, no altar de uma agenda hegem\u00f4nica para a qual os pretextos \u00e9ticos e humanit\u00e1rios n\u00e3o passam de fachada para pretens\u00f5es injustific\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As rea\u00e7\u00f5es dos grupos mais belicosos do\u00a0Establishment\u00a0anglo-americano ao agravamento da crise sist\u00eamica e \u00e0 vis\u00edvel deteriora\u00e7\u00e3o da autoridade do poderio da alian\u00e7a transatl\u00e2ntica nos assuntos mundiais est\u00e3o colocando o mundo \u00e0 beira de um potencial cataclisma, como se percebe com a perigosamente vol\u00e1til situa\u00e7\u00e3o do Oriente M\u00e9dio. 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