{"id":272,"date":"2012-07-13T17:55:20","date_gmt":"2012-07-13T17:55:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=272"},"modified":"2012-07-13T17:55:20","modified_gmt":"2012-07-13T17:55:20","slug":"mercosul-livre-comercio-x-industrializacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/mercosul-livre-comercio-x-industrializacao\/","title":{"rendered":"Mercosul: livre com\u00e9rcio x industrializa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Os pa\u00edses do Mercosul devem aproveitar as oportunidades proporcionadas pela crise global e converter o bloco em um instrumento efetivo de promo\u00e7\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o regional e do desenvolvimento conjunto, de uma forma que proporcione a redu\u00e7\u00e3o das grandes assimetrias existentes entre eles. Se isto n\u00e3o for feito, o bloco regional corre o risco de se tornar irrelevante, em face das transforma\u00e7\u00f5es em curso no cen\u00e1rio global. A sugest\u00e3o, em tom de advert\u00eancia, \u00e9 do embaixador Samuel Pinheiro Guimar\u00e3es, que acaba de demitir-se do cargo de Alto Representante Geral do Mercosul, no auge da crise gerada pelo impedimento do presidente paraguaio Fernando Lugo.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico das condi\u00e7\u00f5es do bloco e a agenda proposta de Guimar\u00e3es est\u00e3o contidas em seu \u00faltimo relat\u00f3rio ao Conselho de Ministros do Mercosul, divulgado ao final de junho, do qual esta Resenha obteve uma c\u00f3pia. A mensagem principal do documento, impl\u00edcita em todos os seus 52 par\u00e1grafos, \u00e9 a de que os Estados constituintes do bloco precisam atuar de forma pr\u00f3-ativa e sin\u00e9rgica, em vez de se limitarem a reagir passivamente diante das transforma\u00e7\u00f5es globais e das iniciativas da Uni\u00e3o Europeia (UE), EUA e China, para estimular as suas economias.<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es recorda que o Mercosul foi criado em 1991, no auge da influ\u00eancia das pol\u00edticas neoliberais, quando os governos da regi\u00e3o estavam convictos de que \u00aba execu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas do Consenso de Washington, isto \u00e9, desregulamenta\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o, abertura ao capital estrangeiro e remo\u00e7\u00e3o das barreiras ao com\u00e9rcio, seria suficiente para promover o desenvolvimento econ\u00f4mico e social\u00bb.<\/p>\n<p>Por conseguinte, afirma, o Mercosul foi concebido \u00abpara ser um esquema de liberaliza\u00e7\u00e3o comercial, como uma etapa de um processo &#8216;virtuoso&#8217; de elimina\u00e7\u00e3o das barreiras ao com\u00e9rcio e de plena inser\u00e7\u00e3o na economia internacinal\u00bb. Portanto, n\u00e3o era sua inten\u00e7\u00e3o \u00abser um organismo de promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento econ\u00f4mico, nem de cada Estado isolado, nem deles em conjunto\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, o cen\u00e1rio mudou drasticamente. Hoje, o r\u00e1pido crescimento econ\u00f4mico da China, com suas vastas exporta\u00e7\u00f5es de produtos industrializados e sua enorme demanda por produtos prim\u00e1rios, agr\u00edcolas e minerais, al\u00e9m das pol\u00edticas antirrecessivas dos EUA e da UE, criam as condi\u00e7\u00f5es para um grande fluxo de capitais para os pa\u00edses do bloco e \u00abcontribuem fortemente para um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o das economias do Mercosul. As ind\u00fastrias j\u00e1 instaladas sofrem a forte concorr\u00eancia das importa\u00e7\u00f5es industriais baratas (n\u00e3o somente provenientes da China). A facilidade de importar produtos industriais e a alta demanda externa por min\u00e9rios e produtos agr\u00edcolas desestimula novos investimentos na ind\u00fastria e atrai maiores investimentos na minera\u00e7\u00e3o e na agropecu\u00e1ria\u00bb.<\/p>\n<p>Este fen\u00f4meno, afirma, \u00abcoloca em risco o desenvolvimento de cada economia nacional e do conjunto do Mercosul\u00bb, al\u00e9m de ter \u00abconsequ\u00eancias sociais profundas\u00bb.<\/p>\n<p>O setor industrial, reitera Guimar\u00e3es, \u00e9 \u00abestrat\u00e9gico para a gera\u00e7\u00e3o de empregos e, portanto, para a redu\u00e7\u00e3o da pobreza, a estabilidade e o progresso social\u00bb.<\/p>\n<p>Por conseguinte, diz, \u00abe necess\u00e1rio estabelecer mecanismos que permitam a socializa\u00e7\u00e3o de receitas extraordin\u00e1rias, decorrentes da valoriza\u00e7\u00e3o dos produtos prim\u00e1rios, atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o de fundos para a aplica\u00e7\u00e3o dos recursos excedentes, acima da valoriza\u00e7\u00e3o &#8216;normal&#8217;, em projetos de industrializa\u00e7\u00e3o das atividades de cada setor e de eventual apoio \u00e0 sua renda em caso de queda dos pre\u00e7os internacionais abaixo de certos n\u00edveis\u00bb.<\/p>\n<p>Para tanto, afirma, \u00e9 imprescind\u00edvel investir fortemente na infraestrutura f\u00edsica: \u00abAs defici\u00eancias das infraestruturas de transporte, de energia, de saneamento e de comunica\u00e7\u00f5es nos pa\u00edses do Mercosul e a reduzida integra\u00e7\u00e3o entre as distintas redes dos quatro pa\u00edses tornam priorit\u00e1rios os investimentos em infraestrutura. A infraestrutura \u00e9 a base indispens\u00e1vel para a expans\u00e3o da atividade produtiva e comercial e para a forma\u00e7\u00e3o de mercados internos nacionais e regionais mais din\u00e2micos, capazes de absorver a m\u00e3o-de-obra, de agregar valor e elevar o n\u00edvel de renda e de desenvolvimento humano.\u00bb<\/p>\n<p>Entre par\u00eanteses, o chamado de Guimar\u00e3es se soma \u00e0 advert\u00eancia do economista Roberto Messenberg, coordenador do Grupo de An\u00e1lises e Previs\u00f5es do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), sobre o esgotamento da capacidade nacional de reativa\u00e7\u00e3o da economia por meio de incentivos ao consumo. Segundo ele, \u00e9 hora de o governo federal investir em infraestrutura para alavancar a economia, a partir da folga gerada pela queda dos juros e de uma redu\u00e7\u00e3o do super\u00e1vit prim\u00e1rio. Ele lamenta que \u00abo governo est\u00e1 cada vez mais voltado para medidas de curto prazo, escolhendo os vencedores nas atividades para poder fornecer os subs\u00eddios e se desepreocupando com a estrat\u00e9gia de crescimento de longo prazo, que envolveria o fortalecimento do investimento p\u00fablico (<em>Monitor Mercanti<\/em>l, 4\/06\/2012)\u00bb.<\/p>\n<p>Por sua vez, Guimar\u00e3es enfatiza que o bloco econ\u00f4mico da Am\u00e9rica do Sul \u00abter\u00e1 que ser formado a partir da expans\u00e3o gradual do Mercosul, com a acess\u00e3o da Venezuela e o ingresso do Equador, da Bol\u00edvia, do Suriname e da Guiana\u00bb. A Unasul (Uni\u00e3o de Na\u00e7\u00f5es Sul-americanas), afirma, n\u00e3o pode ser a pedra fundamental para este processo, porque \u00abo Chile, a Col\u00f4mbia e o Peru adotaram estrat\u00e9gias de inser\u00e7\u00e3o internacional que levaram \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de certas normas comerciais, de investimentos, de capital estrangeiro, de propriedade intelectual etc., que dificultam e at\u00e9 impossibilitam a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas regionais de promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento\u00bb.<\/p>\n<p>O diplomata lembra que, \u00abem um mundo multipolar, em crise, com grande deslocamento de poder, n\u00e3o \u00e9 do interesse de nenhum bloco ou de nenhuma grande pot\u00eancia a constitui\u00e7\u00e3o ou o fortalecimento de um novo bloco de Estados, em especial se estes forem perif\u00e9ricos\u00bb.<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es finaliza com um vigoroso alerta: \u00abEstou convencido de que, se n\u00e3o forem tomadas estas medidas e se n\u00e3o houver um engajamento firme dos presidentes, o Mercosul poder\u00e1 sobreviver, mas sobreviver\u00e1 sempre claudicante e n\u00e3o se transformar\u00e1 em um bloco de pa\u00edses capaz de defender e promover, com \u00eaxito, seus interesses neste novo mundo que surgir\u00e1 das transforma\u00e7\u00f5es e das crises que vivemos.\u00bb<\/p>\n<p>De fato, a crise global coloca o Mercosul diante de uma disjuntiva crucial: a diferen\u00e7a entre o risco de se tornar mais uma sigla hist\u00f3rica, como as finadas ALALC (Alian\u00e7a Latino-Americana de Livre Com\u00e9rcio) e ALADI (Alian\u00e7a Latino-Americana de Integra\u00e7\u00e3o), e a oportunidade de se converter num decisivo motor de desenvolvimento integrado, depender\u00e1 da vis\u00e3o estrat\u00e9gica e da vontade pol\u00edtica das suas lideran\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os pa\u00edses do Mercosul devem aproveitar as oportunidades proporcionadas pela crise global e converter o bloco em um instrumento efetivo de promo\u00e7\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o regional e do desenvolvimento conjunto, de uma forma que proporcione a redu\u00e7\u00e3o das grandes assimetrias existentes entre eles. 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