{"id":260,"date":"2012-07-13T17:47:02","date_gmt":"2012-07-13T17:47:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=260"},"modified":"2012-07-13T17:47:02","modified_gmt":"2012-07-13T17:47:02","slug":"liborgate-quando-a-perversao-supera-a-esperteza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/liborgate-quando-a-perversao-supera-a-esperteza\/","title":{"rendered":"&quot;Liborgate&quot;: quando a pervers\u00e3o supera a esperteza"},"content":{"rendered":"<p>\u00abOs bancos, tais como presentemente constitu\u00eddos e administrados, n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis para desempenhar qualquer fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica importante, que seja contr\u00e1ria aos interesses percebidos dos seus quadros. Os bancos atuais representam a encarna\u00e7\u00e3o do comportamento de busca de lucros levado aos seus limites l\u00f3gicos, no qual a \u00fanica pergunta feita pelos escal\u00f5es superiores n\u00e3o \u00e9 saber quais os seus deveres ou suas responsabilidades, mas o que podem sair ganhando.\u00bb<\/p>\n<p>As palavras acima n\u00e3o foram escritas pelos editores deste s\u00edtio, nem, tampouco, por qualquer dos cada vez mais numerosos cr\u00edticos da indisfar\u00e7\u00e1vel disfuncionalidade do sistema financeiro internacional, em sua presente forma. Seu autor \u00e9 ningu\u00e9m menos que o respeitado Martin Wolf, editor s\u00eanior do<em> Financial Times<\/em>, o porta-voz por excel\u00eancia da<em> City<\/em> de Londres, referindo-se ao esc\u00e2ndalo de manipula\u00e7\u00e3o da taxa de juros Libor, que est\u00e1 espalhando ondas de choque por todo o mundo financeiro global.<\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo, que alguns j\u00e1 chamam \u00abLiborgate\u00bb, veio \u00e0 tona em 27 de jnho, quando se anunciou que o megabanco brit\u00e2nico Barclays pagaria multas no valor conjunto de 450 milh\u00f5es de d\u00f3lares, a autoridades reguladoras do Reino Unido e dos EUA, depois de admitir que altos executivos da casa estiveram mancomunados com funcion\u00e1rios encarregados do c\u00e1lculo da Libor, para manipular os \u00edndices em favor das opera\u00e7\u00f5es do banco. Uma investiga\u00e7\u00e3o conduzida pelo Departamento de Justi\u00e7a dos EUA revelou que o esquema vinha operando, pelo menos, desde 2005, e a dimens\u00e3o da tramoia pode ser vislumbrada pela admiss\u00e3o de um dos operadores, de que cada ponto base (0,01%) de manipula\u00e7\u00e3o da taxa assegurava aos envolvidos ganhos de \u00abcerca de um par de milh\u00f5es de d\u00f3lares\u00bb (Baseline Scenario.com, 8\/07\/2012).<\/p>\n<p>A Libor (London Inter-Bank Offered Rate), estabelecida pela Associa\u00e7\u00e3o Banc\u00e1ria Brit\u00e2nica (BBA), \u00e9 a taxa de juros b\u00e1sica que determina os juros das opera\u00e7\u00f5es de overnight e, por extens\u00e3o, de uma vasta variedade de opera\u00e7\u00f5es financeiras em todo o mundo, a\u00ed inclu\u00eddos t\u00edtulos p\u00fablicos e corporativos, hipotecas, empr\u00e9stimos de cart\u00f5es de cr\u00e9dito, cr\u00e9dito escolar, hipotecas etc. &#8211; sem falar nos mercados de derivativos. As estimativas do montante de ativos diretamente relacionados \u00e0 Libor variam entre 360 trilh\u00f5es e 800 trilh\u00f5es de d\u00f3lares (a maior parte, derivativos), o que d\u00e1 uma ideia da dimens\u00e3o do problema.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, al\u00e9m da multa imposta ao Barclays, o esc\u00e2ndalo s\u00f3 resultou nas demiss\u00f5es do presidente e do executivo-chefe do banco, Marcus Agius e Bob Diamond. Em um depoimento perante uma comiss\u00e3o de inqu\u00e9rito do Parlamento brit\u00e2nico, Diamond saiu pela tangente, mas admitiu: \u00abEu n\u00e3o posso sentar-me aqui e dizer que ningu\u00e9m na ind\u00fastria sabia sobre os problemas com a Lior. Havia um problema ali e ele deveria ter sido tratado de uma forma mais abrangente.\u00bb<\/p>\n<p>Em sua defesa, o Barclays divulgou e-mails internos de 2008, os quais sugerem que a manipula\u00e7\u00e3o teria sido incentivada pelo Banco da Inglaterra, interessado em manter a Libor em n\u00edveis baixos, durante a crise de 2007-2008. Em seu depoimento no Parlamento, o vice-governador do Banco da Inglaterra, Robert Tucker, admitiu que teve conversas com Diamond, em 2008, mas que jamais havia feito qualquer sugest\u00e3o que pudesse ser interpretada como um apoio t\u00e1cito \u00e0 fraude.<\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo n\u00e3o se limita ao Barclays. O estatizado Royal Bank of Scotland (RBS) tamb\u00e9m foi apanhado no esquema e tem pendente contra ele uma multa equivalente a 193 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Al\u00e9m destes, o est\u00e3o sendo investigados pelo menos outros 15 megabancos, entre os quais o Citigroup, HSBC, UBS, Lloyd&#8217;s e Deutsche Bank. As investiga\u00e7\u00f5es est\u00e3o sendo realizadas nos EUA, Canad\u00e1, Europa, Jap\u00e3o e Cingapura.<\/p>\n<p>As dimens\u00f5es do esc\u00e2ndalo s\u00e3o de tal monta que, nos dois lados do Atl\u00e2ntico, come\u00e7ou a ganhar corpo um forte movimento no sentido de se reintroduzirem, imediatamente, medidas reguladoras das atividades banc\u00e1rias, inspiradas na Lei Glass-Steagall, que at\u00e9 a d\u00e9cada de 1990 estabeleceu uma separa\u00e7\u00e3o entre os bancos comerciais e de investimento, nos EUA, e cuja aboli\u00e7\u00e3o representou um marco crucial na desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira global.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo o <em>Financial Times<\/em> publicou um inusitado editorial, em 4 de julho, afirmando a necessidade de introdu\u00e7\u00e3o de regras do g\u00eanero: \u00abO<em> ethos<\/em> mais herb\u00edvoro [sic] dos bancos de varejo &#8211; com a sua \u00eanfase na administra\u00e7\u00e3o paciente &#8211; est\u00e1 marginalizado. Isto parece levar, inelutavelmente, \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de atividades de trading socialmente question\u00e1veis e a abusos como o esc\u00e2ndalo da Libor&#8230; Com todos os benef\u00edcios da diversifica\u00e7\u00e3o, as tens\u00f5es culturais entre os bancos de investimento e de varejo s\u00f3 podem ser solucionadas com a separa\u00e7\u00e3o total de ambos, de acordo com linhas formais ao estilo da Glass-Steagall.\u00bb<\/p>\n<p>Em um contundente artigo no <em>Daily Telegraph<\/em> de 7 de julho, o economista-chefe da consultora Prosperity Capital Management, que escreve regularmente no jornal, afirmou que \u00abn\u00e3o h\u00e1 outra alternativa\u00bb. Em um par\u00e1grafo magistral, ele sintetizou:<\/p>\n<blockquote><p>A reimposi\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o evitaria que os bancos de investimento apostassem com os dep\u00f3sitos comuns e os exporia \u00e0 plena for\u00e7a do mercado. De um golpe, o nosso sistema banc\u00e1rio seria muito mais seguro e o problema dos \u00abmuito grandes para quebrar\u00bb ficaria, em grande medida, resolvido. \u00c9 claro que isto seria um an\u00e1tema para os \u00abtit\u00e3s banc\u00e1rios\u00bb que contam com o dinheiro do governo para sobreviver e de quem, por sua vez, os pol\u00edticos recebem doa\u00e7\u00f5es de campanha e confort\u00e1veis empregos ap\u00f3s o t\u00e9rmino de suas carreiras pol\u00edticas. Mas, agora, depois de muitos anos de torpor econ\u00f4mico induzido pelos bancos, e ap\u00f3s esse chocante esc\u00e2ndalo da Libor, o nosso profundamente corrosivo status quo banc\u00e1rio se encontra, finalmente, sob s\u00e9ria amea\u00e7a&#8230; O p\u00fablico brit\u00e2nico est\u00e1 desesperado para ver medidas que domem os nossos bancos e tornem mais seguro o nosso sistema financeiro. Chegamos a uma encruzilhada hist\u00f3rica.<\/p><\/blockquote>\n<p>Na It\u00e1lia, o n\u00e3o menos respeitado colunista econ\u00f4mico do <em>Corriere della Sera<\/em>, Massimo Muchetti, afirmou que a manipula\u00e7\u00e3o da Libor representa uma associa\u00e7\u00e3o para o \u00abcrime organizado\u00bb, que deveria ser investigada e julgada em \u00e2mbito internacional. Em sua coluna de 6 de julho, ele afirmou:<\/p>\n<blockquote><p>O assunto, por\u00e9m, envolve uma reforma pol\u00edtica. N\u00f3s, europeus, abandonamos a s\u00e1bia cautela dos anos 30 &#8211; a Lei Glass-Steagall nos EUA, a Lei Banc\u00e1ria de 1936 na It\u00e1lia -, para retornar \u00e0 atividade banc\u00e1ria como sendo uma empresa para maximiza\u00e7\u00e3o de lucros, segundo o modelo da d\u00e9cada de 1920. Talvez, seja hora de estourar a bolha, voltar aos bancos comerciais como infraestrutura econ\u00f4mica, como entidades de utilidade p\u00fablica estritamente reguladas e com lucros moderados. A especula\u00e7\u00e3o financeira deve ser deixada a outras entidades, com acionistas diferentes e sem prote\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Talvez, seja chegada a hora de se entender que o maior monop\u00f3lio se chama <em>City<\/em> de Londres, e o segundo maior, Wall Street, onde quatro ou cinco bancos controlam todo o edif\u00edcio dos derivativos financeiros. A\u00ed est\u00e1 a fonte de cont\u00e1gio, e n\u00e3o na Gr\u00e9cia. N\u00f3s devemos defender-nos desta fonte.<\/p><\/blockquote>\n<p>Nos EUA, em um artigo publicado em numerosos jornais, em 10 de julho, o ex-secret\u00e1rio do Trabalho Robert Reich (governo Clinton) disse que as ondas de choque do esc\u00e2ndalo chegar\u00e3o, fatalmente, a Wall Street:<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) Quase certamente, Wall Street est\u00e1 envolvida na mesma pr\u00e1tica, inclusive os suspeitos de sempre &#8211; JP Morgan Chase, Citigroup e Bank of America -, porque cada grande banco participa na determina\u00e7\u00e3o da taxa Libor e o Barclays n\u00e3o poderia t\u00ea-la manipulado sem o envolvimento volunt\u00e1rio deles. De fato, a defesa do Barclays tem sido a de que todos os grandes bancos estavam manipulando a Libor da mesma maneira, e pelas mesmas raz\u00f5es. (&#8230;)<\/p>\n<p>No que diz respeito a Wall Street e ao setor financeiro, em geral, a maioria de n\u00f3s padece da fadiga da indigna\u00e7\u00e3o, combinada com um cinismo esmagador de que nada jamais ser\u00e1 feito para deter esses abusos, porque Wall Street \u00e9 muito poderosa. Mas a fadiga e o cinismo s\u00e3o atitudes que cumprem a si mesmas; nada ser\u00e1 feito se sucumbirmos a elas. A alternativa \u00e9 sermos incans\u00e1veis e inflex\u00edveis, em nossa exig\u00eancia de que a [Lei] Glass-Steagall seja reinstitu\u00edda e os maiores bancos sejam divididos. A quest\u00e3o \u00e9 se o desdobramento do esc\u00e2ndalo da Libor proporcionar\u00e1 muni\u00e7\u00e3o e energia suficientes para que, finalmente, o trabalho seja feito.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>Independentemente do seu desfecho, o \u00abLiborgate\u00bb demonstra de forma categ\u00f3rica que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 intr\u00ednseca ao sistema financeiro existente. Ou seja, n\u00e3o haver\u00e1 forma de supera\u00e7\u00e3o da presente crise global se o sistema n\u00e3o for profundamente reformado e as finan\u00e7as, reconduzidas &#8211; com a for\u00e7a necess\u00e1ria &#8211; \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o original, h\u00e1 muito abandonada, de apoiar as atividades produtivas da economia real.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abOs bancos, tais como presentemente constitu\u00eddos e administrados, n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis para desempenhar qualquer fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica importante, que seja contr\u00e1ria aos interesses percebidos dos seus quadros. Os bancos atuais representam a encarna\u00e7\u00e3o do comportamento de busca de lucros levado aos seus limites l\u00f3gicos, no qual a \u00fanica pergunta feita pelos escal\u00f5es superiores n\u00e3o \u00e9 saber &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"class_list":["post-260","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=260"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}