{"id":221,"date":"2011-10-21T14:27:00","date_gmt":"2011-10-21T14:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=221"},"modified":"2011-10-21T14:27:00","modified_gmt":"2011-10-21T14:27:00","slug":"o-impasse-boliviano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/o-impasse-boliviano\/","title":{"rendered":"O impasse boliviano"},"content":{"rendered":"<p>Os dissabores que o presidente Evo Morales est\u00e1 enfrentando na Bol\u00edvia decorrem diretamente de seu erro de privilegiar as etnias em preju\u00edzo da na\u00e7\u00e3o. De origem ind\u00edgena, ou, para usar os termos da moda, oriundo do povo origin\u00e1rio aimar\u00e1, Morales caiu no canto da sereia do multiculturalismo e apoiou a institucionaliza\u00e7\u00e3o, como inscrito na Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, de um \u00abEstado Plurinacional\u00bb, \u00abintercultural\u00bb, repartido em \u00abcomunidades\u00bb descentralizadas e aut\u00f4nomas.<\/p>\n<p>O vice-presidente Garc\u00eda Linera traduziu essa forma\u00e7\u00e3o complexa como \u00abuma na\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00f5es\u00bb.<\/p>\n<p>Na\u00e7\u00f5es diversas incrustadas num Estado tolhido de exercer a soberania nacional plena sobre o seu territ\u00f3rio forjam incidentes como o que a Bol\u00edvia atravessa. O governo da Rep\u00fablica sente a fraqueza do poder central ao ser confrontado por na\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias que impedem a passagem de uma rodovia pelo Territ\u00f3rio Ind\u00edgena e Parque Nacional Isiboro S\u00e9cure (Tipnis). Trata-se de um projeto de desenvolvimento nacional, mas tr\u00eas etnias em particular &#8211; moxe\u00f1os, yurakar\u00e9s e chimanes, que re\u00fanem cerca de 13 mil indiv\u00edduos &#8211; reagem como se as terras que ocupam fossem aut\u00f4nomas, e n\u00e3o parte do territ\u00f3rio nacional boliviano e, portanto, sujeitas ao controle da na\u00e7\u00e3o e \u00e0s diretrizes do Estado.<\/p>\n<p>A institucionaliza\u00e7\u00e3o de um Estado multinacional \u00e9 uma experi\u00eancia contradit\u00f3ria com a no\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de que uma na\u00e7\u00e3o pode conter minorias e diversidade de toda ordem &#8211; \u00e9tnica, cultural, pol\u00edtica, etc. -, mas n\u00e3o pode permitir que elas concorram entre si de modo a impedir a forma\u00e7\u00e3o de uma identidade comum. Ao contr\u00e1rio, o Estado s\u00f3 merecer\u00e1 esse nome se se sustentar na unidade nacional mais ampla, ou seja, como express\u00e3o de um pa\u00eds soberano cuja organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contemple o sentimento de comunidade em que a na\u00e7\u00e3o \u00e9 uma s\u00f3. O conjunto das institui\u00e7\u00f5es (governo, for\u00e7as armadas, administra\u00e7\u00e3o) h\u00e1 de ter o largo alcance da isonomia plena e indistinta, mesmo quando Estados confederados re\u00fanem v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O risco das autonomias nacionais baseadas em minorias instalou-se na Bol\u00edvia a despeito de o partido de Evo Morales, o Movimento para o Socialismo (MAS), ter superado em sua plataforma eleitoral o equ\u00edvoco do indianismo excludente. Grosso modo, a maioria de origem ind\u00edgena &#8211; que constitui dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o boliviana, de aproximadamente 10 milh\u00f5es de pessoas &#8211; n\u00e3o tem a suposta unidade que lhe \u00e9 atribu\u00edda. Descende dos aimar\u00e1s do altiplano e dos qu\u00edchuas dos vales, permeados ou apartados de 36 grupos \u00e9tnicos andinos e amaz\u00f4nicos, os quais &#8211; em graus e com for\u00e7a diferentes &#8211; se identificam como povos distintos e s\u00e3o estimulados a reivindicar o status de na\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a centralidade da quest\u00e3o nacional, e jamais a fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, tem condi\u00e7\u00f5es de unific\u00e1-los em torno da identidade agregadora que forja a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O presidente Evo Morales, j\u00e1 eleito duas vezes, venceu batalhas importantes, como a nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo e do g\u00e1s, e resistiu \u00e0s tentativas de separatismo dos departamentos mais importantes, como Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija. Mas \u00e9 em seu campo ideol\u00f3gico que trava o combate mais dif\u00edcil. Sua popularidade sangra nas ruas e o governo implode e se desestabiliza na propor\u00e7\u00e3o em que a arquitetura das etnias aut\u00f4nomas \u00e9 apropriada e reformatada pela oposi\u00e7\u00e3o, por dissid\u00eancias e por interesses externos.<\/p>\n<p>Na doutrina pol\u00edtica, tais for\u00e7as parecem nost\u00e1lgicas do comunismo primitivo, cuja \u00abeconomia dom\u00e9stica\u00bb, como observou o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Friedrich Engels no estudo cl\u00e1ssico A Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado, teve import\u00e2ncia at\u00e9 \u00aba fase m\u00e9dia da barb\u00e1rie\u00bb. Estradas, energia, m\u00e1quinas, ci\u00eancias, todo o processo civilizat\u00f3rio da humanidade \u00e9 rejeitado como contamina\u00e7\u00e3o do modo de vida ind\u00edgena, raptando-lhe a pureza original.<\/p>\n<p>Querem conservar o saber e a cosmogonia dos povos origin\u00e1rios n\u00e3o a par, respeitados como devem ser, mas em protagonismo hostil ao desenvolvimento das for\u00e7as produtivas. O progresso n\u00e3o \u00e9 aceito como caminho para outras formas avan\u00e7adas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da sociedade. Negam a integra\u00e7\u00e3o nacional, a supera\u00e7\u00e3o da pobreza pelo desenvolvimento, a moderniza\u00e7\u00e3o do campo semifeudal e a industrializa\u00e7\u00e3o das cidades. Tudo o que n\u00e3o \u00e9 aut\u00f3ctone se transfigura em miragem do Ocidente decadente, em confronto com o brilho remoto do Imp\u00e9rio Inca.<\/p>\n<p>O grande vetor contempor\u00e2neo dessa doutrina regressista \u00e9 o ambientalismo deformado, por ironia, origin\u00e1rio de pa\u00edses desenvolvidos onde o Estado nacional jamais \u00e9 posto em xeque, as popula\u00e7\u00f5es abor\u00edgines foram dizimadas e o modo de vida perdul\u00e1rio esgota a natureza. Da\u00ed que o epis\u00f3dio em curso na Bol\u00edvia n\u00e3o \u00e9 inocente nem espont\u00e2neo, mas uma onda que nasce nas \u00e1guas turvas do equ\u00edvoco \u00e9tnico interno para virar um tsunami geopol\u00edtico ao gosto de quem tem interesses contrariados e se alia ao mais fraco por saber que poder\u00e1 submet\u00ea-lo mais tarde, como j\u00e1 o fizeram em inumer\u00e1veis processos de coloniza\u00e7\u00e3o. O bra\u00e7o executivo dessas articula\u00e7\u00f5es s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais (ONGs) que constituem o j\u00e1 chamado imperialismo verde &#8211; da mesma natureza das que atuam no Brasil, conferindo a tribos da Amaz\u00f4nia um suposto car\u00e1ter de minorias oprimidas pelo \u00abcolonialismo interno\u00bb da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal como l\u00e1, aqui o Estado tamb\u00e9m perde a soberania para dispor do territ\u00f3rio. J\u00e1 trope\u00e7amos nos conceitos de povos e na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, garantindo-lhes extensas \u00e1reas para usufruto exclusivo em zonas de fronteira, como as reservas dos ianom\u00e2mis e a de Raposa-Serra do Sol, na Amaz\u00f4nia. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil asfaltar uma estrada ou construir hidrel\u00e9tricas &#8211; obras de valor nacional satanizadas como violadoras da m\u00e3e natureza e da pureza dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p><em>Aldo Rebelo \u00e9 deputado federal (PCdoB-SP); este artigo foi publicado originalmente no jornal <\/em>O Estado de S. Paulo,<em> em 19\/10\/2011.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dissabores que o presidente Evo Morales est\u00e1 enfrentando na Bol\u00edvia decorrem diretamente de seu erro de privilegiar as etnias em preju\u00edzo da na\u00e7\u00e3o. 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