{"id":196,"date":"2011-10-14T20:18:24","date_gmt":"2011-10-14T20:18:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=196"},"modified":"2011-10-14T20:18:24","modified_gmt":"2011-10-14T20:18:24","slug":"ciencia-reprova-telhados-brancos-em-sp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/ciencia-reprova-telhados-brancos-em-sp\/","title":{"rendered":"Ci\u00eancia reprova \u00abtelhados brancos\u00bb em SP"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">Por uma merit\u00f3ria iniciativa do vereador Antonio Goulart (PSD-SP), a C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo promoveu um debate sobre o tema \u00abTelhados brancos: problema ou solu\u00e7\u00e3o?\u00bb, para discutir o projeto de lei de sua autoria, que prop\u00f5e a pintura de branco de tetos e telhados na cidade, para ajudar a combater os efeitos do aquecimento global. Embora o projeto tenha sido aprovado em primeira vota\u00e7\u00e3o, em novembro de 2010, as manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias de cientistas e pesquisadores, que apontavam a falta de base cient\u00edfica para a iniciativa, levaram Goulart a promover o debate.<\/p>\n<p>No evento, realizado na segunda-feira 10 de outubro, no audit\u00f3rio da C\u00e2mara, a mensagem da ci\u00eancia foi inequ\u00edvoca: a medida proposta pelo projeto n\u00e3o ter\u00e1 qualquer influ\u00eancia sobre o clima, nem na escala urbana e, muito menos, na global. Mesmo os apoiadores da iniciativa, como o engenheiro iraniano-estadunidense Hashem Akbari, que a vem propondo em \u00e2mbito internacional, n\u00e3o conseguiram apresentar dados reais que comprovassem a sua utilidade, sendo Akbari contestado pela maioria dos debatedores.<\/p>\n<p>A mesma reprova\u00e7\u00e3o ao projeto foi feita por representantes do Instituto de Engenharia e do Sindicato das Empresas de Compra, Venda e Administra\u00e7\u00e3o de Im\u00f3veis de S\u00e3o Paulo (Secovi), que participaram da sess\u00e3o de abertura do evento.<\/p>\n<p>O debate demonstrou, uma vez mais, a falta de argumentos s\u00f3lidos para justificar as propostas e pol\u00edticas baseadas na suposta influ\u00eancia humana sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, tema que provocou algumas interven\u00e7\u00f5es mais acaloradas.<\/p>\n<p>Diante das cr\u00edticas que recebeu, Akbari, tamb\u00e9m apresentado como Pr\u00eamio Nobel da Paz de 2007, por ser integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), viu-se obrigado a mudar o discurso. \u00abN\u00e3o uso a palavra pintar. Sempre promovo a ideia, encorajo as pessoas a buscar cores leves. Isso n\u00e3o vai ter aumento de custo e podemos economizar 1 d\u00f3lar por metro quadrado em ar condicionado. N\u00e3o quero que isso aconte\u00e7a em 15 dias. Isso n\u00e3o vai acontecer da noite para o dia. E n\u00e3o estou fazendo uma proposta a partir do nada\u00bb, disse ele (G1 SP, 10\/10\/2011).<\/p>\n<p>Para justificar a proposta, ele afirmou que, segundo seus c\u00e1lculos, a pintura de uma superf\u00edcie de 10 metros quadrados com cores claras permitiria a \u00abneutraliza\u00e7\u00e3o\u00bb dos efeitos da emiss\u00e3o de at\u00e9 10 toneladas de di\u00f3xido de carbono por ano.<\/p>\n<p>Akbari, que coordena a iniciativa denominada \u00ab100 Cool Cities\u00bb, com a qual pretende reduzir as temperaturas de grandes cidades e reduzir o aquecimento global, disse tamb\u00e9m que gostaria que S\u00e3o Paulo se juntasse ao projeto.<\/p>\n<p>Por sua vez, dois professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S\u00e3o Paulo (FAU-USP) criticaram enfaticamente o projeto de lei.<\/p>\n<p>\u00abA cidade de S\u00e3o Paulo j\u00e1 \u00e9 em grande parte branca. Sugiro que o projeto n\u00e3o v\u00e1 adiante porque n\u00e3o \u00e9 interessante para a cidade\u00bb, afirmou o professor Silvio Soares de Macedo.<\/p>\n<p>Para F\u00e1bio Mariz Gon\u00e7alves, a proposta \u00e9 \u00abelitista\u00bb e um de seus primeiros efeitos ser\u00e1 promover um aumento do n\u00famero de acidentes por quedas de lajes. \u00abEssa proposta de lei \u00e9 absolutamente pat\u00e9tica se colocada diante da cidade que eu conhe\u00e7o. Mais de 70% de S\u00e3o Paulo \u00e9 feita sem lei, \u00e9 feita sem dinheiro, por autoconstru\u00e7\u00e3o. Uma parte da nossa popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem janela no quarto. O teto pinga e a casa \u00e9 mal constru\u00edda. Se aprovarmos uma lei como essa, demandaria cuidado e rigor t\u00e9cnico enorme em troca de uma pequena contribui\u00e7\u00e3o. Estamos falando de um custo que nossa sociedade n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de bancar. Se pedir para a popula\u00e7\u00e3o gastar R$ 40 para pintar de forma ordin\u00e1ria um barraco mal feito, ela n\u00e3o tem os R$ 40. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o absolutamente elitista\u00bb, disparou.<\/p>\n<p>O Dr. Antonio Jaschke Machado, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), demonstrou, com dados observados em anos de pesquisas, que a capacidade de reflex\u00e3o da radia\u00e7\u00e3o solar das cidades, que, supostamente, seria ampliada com o seu \u00abembranquecimento\u00bb, depende muito mais da geometria urbana do que da colora\u00e7\u00e3o das suas superf\u00edcies. Ademais, afirmou, um levantamento de dez anos da nebulosidade de S\u00e3o Paulo demonstrou que em menos de 10% do tempo a cidade tem um c\u00e9u sem nuvens, e a maior parte deste per\u00edodo ocorre durante o inverno, quando a insola\u00e7\u00e3o se faz mais necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas pesquisadores pediram a suspens\u00e3o do projeto de lei.<\/p>\n<p>Em sua exposi\u00e7\u00e3o, o Dr. Ricardo Augusto Fel\u00edcio, professor de Climatologia do Departamento de Geografia da USP, demonstrou de forma categ\u00f3rica a incapacidade f\u00edsica de as a\u00e7\u00f5es humanas influenciarem o clima em escala global, apontando a influ\u00eancia de interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas sobre as quest\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O coment\u00e1rio provocou uma irritada rea\u00e7\u00e3o de Akbari, que interpelou o professor da USP, dizendo-se pessoalmente ofendido pela insinua\u00e7\u00e3o de que ele teria interesses financeiros escusos nas propostas que tem feito &#8211; o que, em momento algum, foi sugerido por Fel\u00edcio.<\/p>\n<p>Outro debatedor que se mostrou incomodado foi o Dr. Vanderlei Moacyr John, professor da Escola Polit\u00e9cnica da USP, que iniciou sua exposi\u00e7\u00e3o com uma prele\u00e7\u00e3o sobre a exist\u00eancia de uma \u00abhierarquia na ci\u00eancia\u00bb, segundo a qual as opini\u00f5es de certos cientistas, como os \u00abc\u00e9ticos que afirmam que o aquecimento global n\u00e3o existe\u00bb, n\u00e3o teriam o mesmo peso que as dos \u00abmilhares de cientistas que afirmam o contr\u00e1rio\u00bb. Quanto aos telhados, o engenheiro, que tem um p\u00f3s-doutorado pelo Instituto Real de Tecnologia da Su\u00e9cia e \u00e9 s\u00f3cio fundador do Conselho Brasileiro de Constru\u00e7\u00e3o Sustent\u00e1vel (CBCS), n\u00e3o apresentou qualquer argumento em favor da medida, admitindo que a mera pintura n\u00e3o resolveria o problema. Sua proposta foi a de que se deveria promover os m\u00e9todos de constru\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel com incentivos fiscais e legisla\u00e7\u00e3o seletiva.<\/p>\n<p>Falando em seguida, o ge\u00f3logo Geraldo Lu\u00eds Lino, membro do conselho diretor deste s\u00edtio, cumprimentou a iniciativa do vereador Goulart, afirmando que se tratava de uma rara oportunidade de que os cr\u00edticos dos cen\u00e1rios clim\u00e1ticos catastrofistas fossem ouvidos. Segundo ele, toda vez que isto acontece, fica evidente que as teses alarmistas n\u00e3o se sustentam em evid\u00eancias cient\u00edficas concretas, apenas em proje\u00e7\u00f5es de modelos matem\u00e1ticos rodados em supercomputadores.<\/p>\n<p>Respondendo diretamente \u00e0s diatribes de Moacyr John, Lino afirmou que o conceito de \u00abconsenso num\u00e9rico\u00bb \u00e9 alheio \u00e0 ci\u00eancia, que se baseia em \u00abuma converg\u00eancia permanente de hip\u00f3teses e fatos observados no mundo real\u00bb. Ademais, enfatizou, a palavra \u00abc\u00e9tico\u00bb teve o seu significado distorcido pelos defensores das teses alarmistas, pois \u00abtodo cientista que se preza e honra os seus compromissos com a ci\u00eancia e a sociedade deve ser um c\u00e9tico permanente\u00bb, uma vez que a ci\u00eancia tem avan\u00e7ado com o questionamento permanente do conhecimento existente em um dado momento.<\/p>\n<p>Usando observa\u00e7\u00f5es que comprovam as dram\u00e1ticas e r\u00e1pidas varia\u00e7\u00f5es de temperaturas e n\u00edveis do mar ocorridas durante o per\u00edodo Quatern\u00e1rio, nos \u00faltimos 800 mil anos, Lino demonstrou que a natureza n\u00e3o precisa das emiss\u00f5es de carbono da Humanidade para provoc\u00e1-las e, por conseguinte, a hip\u00f3tese do \u00abaquecimento global antropog\u00eanico\u00bb n\u00e3o passa no teste do m\u00e9todo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Ao final, Goulart afirmou que pretende usar os resultados do debate para repensar o texto do projeto de lei: \u00abN\u00f3s vamos, com o conte\u00fado desse debate, procurar melhorar o projeto.\u00bb<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, ser\u00e1 dif\u00edcil lev\u00e1-lo adiante, mesmo modificado, em fun\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o maci\u00e7a e fundamentada dos representantes da academia e das entidades de engenharia e constru\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o do debate paulistano poder\u00e1 influenciar propostas semelhantes, que est\u00e3o sendo consideradas em outras cidades brasileiras. Se a ci\u00eancia tiver a mesma oportunidade de se manifestar, os \u00abtelhados brancos\u00bb j\u00e1 foram reprovados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por uma merit\u00f3ria iniciativa do vereador Antonio Goulart (PSD-SP), a C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo promoveu um debate sobre o tema \u00abTelhados brancos: problema ou solu\u00e7\u00e3o?\u00bb, para discutir o projeto de lei de sua autoria, que prop\u00f5e a pintura de branco de tetos e telhados na cidade, para ajudar a combater os efeitos do aquecimento &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":197,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[],"class_list":["post-196","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ambientalismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=196"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}