{"id":1611,"date":"2014-10-10T15:20:01","date_gmt":"2014-10-10T15:20:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=1611"},"modified":"2014-10-10T15:20:01","modified_gmt":"2014-10-10T15:20:01","slug":"brasil-o-que-ficou-de-fora-dos-debates","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/brasil-o-que-ficou-de-fora-dos-debates\/","title":{"rendered":"Brasil: o que ficou de fora dos debates"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.msia.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Debate-CNBB-foto-Folhapress-e1413317372814.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1612\" title=\"Debate CNBB foto Folhapress\" src=\"http:\/\/www.msia.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Debate-CNBB-foto-Folhapress-e1413317372814.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"541\" srcset=\"https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Debate-CNBB-foto-Folhapress-e1413317372814.jpg 960w, https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Debate-CNBB-foto-Folhapress-e1413317372814-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a defini\u00e7\u00e3o do segundo turno da elei\u00e7\u00e3o para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, marcado pela inesperada ultrapassagem da ex-ministra Marina Silva pelo senador A\u00e9cio Neves, constata-se, uma vez mais, que os debates entre os candidatos deixaram de lado quaisquer discuss\u00f5es s\u00e9rias sobre os grandes problemas nacionais. Mesmo que o formato dos programas n\u00e3o permitisse qualquer aprofundamento nos temas discutidos, os candidatos preferiram disputar duelos de pugilato verbal a sinalizar propostas s\u00e9rias para problemas que, simplesmente, n\u00e3o podem confiados \u00e0 in\u00e9rcia das pr\u00e1ticas \u00abneg\u00f3cios como sempre\u00bb e est\u00e3o a exigir uma pauta concreta para o seu enfrentamento efetivo, com metas e prazos determinados. Em s\u00edntese, a grande aus\u00eancia foi a de qualquer ideia de um projeto nacional, capaz de sinalizar aos brasileiros uma agenda realista de desenvolvimento e inser\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds no turbulento cen\u00e1rio de mudan\u00e7as globais em curso, que lhe permita um papel de protagonista, em vez de caudat\u00e1rio, como tem ocorrido ao longo de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de a lista das aus\u00eancias ser grande, vejamos algumas das mais relevantes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Educa\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das omiss\u00f5es mais sentidas, tocada apenas de passagem e em coment\u00e1rios gen\u00e9ricos, que desponta como o mais grave de uma lista de problemas inadi\u00e1veis, devido ao grande atraso do Pa\u00eds na \u00e1rea e, principalmente, \u00e0s crescentes exig\u00eancias de prepara\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e da cidadania em geral para os impactos das revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas que se vislumbram no futuro imediato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta \u00e1rea, o atraso brasileiro fica evidenciado em todas as compara\u00e7\u00f5es internacionais em que o Pa\u00eds \u00e9 avaliado, como o Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Alunos (PISA, na sigla em ingl\u00eas), realizado pela Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), o qual compara os n\u00edveis de conhecimento de estudantes de 15 anos. Na \u00faltima avalia\u00e7\u00e3o, feita em 2012, entre os 65 pa\u00edses cobertos, o Brasil ficou em 55\u00ba. lugar em leitura, 58\u00ba. em matem\u00e1tica e 59\u00ba. em ci\u00eancias &#8211; 58\u00ba. no c\u00f4mputo geral, atr\u00e1s de pa\u00edses como o Vietn\u00e3, Turquia, Rom\u00eania, Chipre, Bulg\u00e1ria, Cazaquist\u00e3o, Chile, M\u00e9xico, Alb\u00e2nia e outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o IBGE, em 2011, o n\u00edvel de escolaridade m\u00e9dio entre os maiores de 25 anos era de apenas 7,4 anos, o que significa que a maioria dos brasileiros adultos n\u00e3o tem o Ensino Fundamental completo. Embora o \u00edndice de analfabetismo formal tenha ca\u00eddo para cerca de 8% da popula\u00e7\u00e3o, o problema se agrava consideravelmente quando se considera o conceito de analfabetismo funcional, que envolve o dom\u00ednio pleno da leitura, escrita e opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas mais complexas que as opera\u00e7\u00f5es fundamentais. A despeito da varia\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o, considera-se que apenas um em quatro adultos preenche tais requisitos. Pior: segundo uma pesquisa com estudantes universit\u00e1rios, feita em 2012 pelo Instituto Paulo Montenegro e a ONG A\u00e7\u00e3o Educativa, 38% dos pesquisados foram enquadrados no conceito de analfabetos funcionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (IDEB) tem mostrado avan\u00e7os lentos. Na avalia\u00e7\u00e3o de 2013, o \u00edndice de 4,2 ficou abaixo da meta pretendida, de 4,4. No Ensino M\u00e9dio, repetiu-se a avalia\u00e7\u00e3o de 2011, que foi de p\u00edfios 3,7, abaixo da meta igualmente modesta de 3,9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para complicar, 65% das escolas, p\u00fablicas e privadas, n\u00e3o t\u00eam bibliotecas ou espa\u00e7os dedicados \u00e0 leitura e 89% n\u00e3o t\u00eam laborat\u00f3rios de ci\u00eancias, o que dificulta tremendamente a tarefa de familiarizar os estudantes com os conhecimentos necess\u00e1rios para atividades profissionais cada vez mais exigentes em conte\u00fado cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, trata-se de um problema que n\u00e3o poder\u00e1 ser solucionado apenas com mais dinheiro, mas exigir\u00e1, entre outros requisitos, uma consider\u00e1vel revis\u00e3o nos curr\u00edculos escolares, para adapt\u00e1-los \u00e0s exig\u00eancias das c\u00e9leres mudan\u00e7as socioecon\u00f4micas induzidas pelas revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edfico-tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Desindustrializa\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o fen\u00f4meno seja universal, o encolhimento da participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria no PIB nacional tem sido dram\u00e1tico, aproximando-se rapidamente dos \u00edndices da d\u00e9cada de 1940. Um estudo da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (Fiesp), divulgado em mar\u00e7o \u00faltimo, revelou que entre 2004 e 2012, a contribui\u00e7\u00e3o industrial caiu de 19,2% para 13,3%, o mesmo n\u00edvel de 1955, quando o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) iniciou o seu programa de acelera\u00e7\u00e3o da industrializa\u00e7\u00e3o baseado na substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es de bens de consumo. O \u00edndice j\u00e1 est\u00e1 pr\u00f3ximo dos 11,3% de 1947, o primeiro ano com dados dispon\u00edveis, e, segundo o estudo, se a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o for revertida, poder\u00e1 chegar ao final da d\u00e9cada de 2020 na casa dos 9%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para destacar a import\u00e2ncia da ind\u00fastria, o estudo observa que, em todas as na\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas que conseguiram dobrar o seu PIB per capita em menos de uma gera\u00e7\u00e3o, da faixa de 10 mil d\u00f3lares para 20 mil d\u00f3lares, a ind\u00fastria representava pelo menos 25% do PIB, com taxas de investimento pelo menos de 30% &#8211; n\u00famero que por aqui se encontra abaixo de 20%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As causas do fen\u00f4meno s\u00e3o sobejamente conhecidas: carga tribut\u00e1ria escorchante, da ordem de 36% do PIB; burocracia sufocante; enormes defici\u00eancias de infraestrutura, principalmente, vi\u00e1ria; escassez de m\u00e3o-de-obra qualificada, em especial, para fun\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas de n\u00edvel m\u00e9dio; e valoriza\u00e7\u00e3o cambial. Infelizmente, os \u00edndices de crescimento da d\u00e9cada passada, proporcionados por um surto internacional de valoriza\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os das commodities, ajudaram a desviar as aten\u00e7\u00f5es do problema, cuja revers\u00e3o exigir\u00e1 uma grande dose de conscientiza\u00e7\u00e3o da sociedade em geral e determina\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as pol\u00edticas &#8211; que n\u00e3o parecem estar \u00e0 vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como um pa\u00eds com 200 milh\u00f5es de habitantes n\u00e3o pode se dar ao luxo de dispensar uma base industrial das mais diversificadas, o futuro governo, seja qual for o partido que o comande, ter\u00e1 a responsabilidade de liderar uma grande discuss\u00e3o nacional sobre a maneira de reverter essa desindustrializa\u00e7\u00e3o precoce, que ainda est\u00e1 longe de esgotar os potenciais nacionais para o setor. Ou correr o risco de entrar para a Hist\u00f3ria como culpado por omiss\u00e3o pela desintegra\u00e7\u00e3o de uma base industrial constru\u00edda a duras penas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Saneamento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste quesito, a situa\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 simplesmente vergonhosa. Um recente estudo feito pelo Instituto Trata Brasil (ITB) e o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (CEBDS) colocou o Brasil na 112\u00aa posi\u00e7\u00e3o mundial em um ranking de saneamento com 200 pa\u00edses. Pior: houve uma desacelera\u00e7\u00e3o no ritmo de amplia\u00e7\u00e3o da infraestrutura de saneamento, que caiu de 4,6%, na d\u00e9cada passada, para os atuais 4,1%. A este ritmo, o Pa\u00eds n\u00e3o conseguir\u00e1 estender a cobertura de saneamento a toda a sua popula\u00e7\u00e3o antes da segunda metade do s\u00e9culo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima Pesquisa Nacional de Saneamento B\u00e1sico (PNSB), realizada pelo IBGE em 2008, mostra que 44,8% dos munic\u00edpios n\u00e3o tinham redes de coleta de esgoto e 33% n\u00e3o tinham redes de abastecimento de \u00e1gua. Estados como o Par\u00e1, Piau\u00ed e Maranh\u00e3o n\u00e3o tinham avan\u00e7ado desde a PNSB de 1989. E, segundo o Minist\u00e9rio das Cidades, em 2011, 36 milh\u00f5es de brasileiros n\u00e3o tinham \u00e1gua tratada e somente 48,1% da popula\u00e7\u00e3o contavam com coleta de esgoto. Segundo o ITB, o d\u00e9ficit de moradias sem acesso a esgoto era de 26,9 milh\u00f5es, em 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse enorme d\u00e9ficit no saneamento b\u00e1sico, ao lado do lento ritmo dos investimentos na \u00e1rea, tem impactos em \u00e1reas como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, turismo e trabalho. Segundo o estudo do ITB-CEBDS, a taxa de mortalidade brasileira em 2011 era de 12,9 mortes para 1000 nascidos vivos, enquanto pa\u00edses com melhor cobertura sanit\u00e1ria, como Cuba e Chile, registraram taxas de 4,3% e 7,8%, respectivamente. O documento estima que, se o Pa\u00eds j\u00e1 tivesse universalizado o saneamento, o n\u00famero de interna\u00e7\u00f5es por infec\u00e7\u00f5es gastrointestinais teria uma redu\u00e7\u00e3o de 74,6 mil casos &#8211; 60 mil dos quais apenas nas regi\u00f5es Norte e Nordeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ITB estima, tamb\u00e9m, que o Pa\u00eds teve um custo de mais de R$ 1 bilh\u00e3o com horas n\u00e3o trabalhadas em 2012, devido ao afastamento de trabalhadores por problemas ligados \u00e1 \u00e1gua, como diarreias e v\u00f4mitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente do ITB, \u00c9dison Carlos, costuma lembrar que, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), cada R$ 1,00 investido em saneamento implica em uma economia de R$ 4,00. Segundo ele, em alguns estados brasileiros, esta economia sobe para impressionantes R$ 40,00, o que d\u00e1 uma ideia da precariedade das condi\u00e7\u00f5es em que ainda vive uma enorme parcela das fam\u00edlias brasileiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Brasil no mundo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desinteresse pelas rela\u00e7\u00f5es internacionais nas campanhas eleitorais \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o nacional e a atual n\u00e3o tem sido exce\u00e7\u00e3o. N\u00e3o obstante, o Brasil de 2014 desfruta de uma estatura internacional bem diferente da de d\u00e9cadas anteriores, antes de o Pa\u00eds assumir a lideran\u00e7a do processo de integra\u00e7\u00e3o f\u00edsica e econ\u00f4mica da Am\u00e9rica do Sul (ainda que sem uma agenda bem definida e com muitos altos e baixos) e, em especial, passar a integrar o bloco dos BRICS, com os pesos pesados R\u00fassia, \u00cdndia e China, acrescidos da \u00c1frica do Sul. Fatores que, al\u00e9m do pr\u00f3prio peso espec\u00edfico de ser o quinto maior pa\u00eds do mundo em popula\u00e7\u00e3o e territ\u00f3rio, uma das dez maiores economias e um dos principais produtores e exportadores de alimentos, conferem ao Brasil um grau de protagonismo internacional inusitado em sua hist\u00f3ria, principalmente, em um momento de grandes transforma\u00e7\u00f5es na ordena\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na atual campanha presidencial, praticamente, as \u00fanicas men\u00e7\u00f5es \u00e0 agenda internacional foram feitas por assessores dos principais candidatos, mas o tema foi ignorado nos debates, como se o Brasil estivesse fora do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independentemente das inclina\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas do futuro governo, espera-se que tanto o prosseguimento da integra\u00e7\u00e3o sul-americana como o aprofundamento da sinergia com os BRICS sejam mantidos com a relev\u00e2ncia estrat\u00e9gica que merecem. Quanto \u00e0s cruciais rela\u00e7\u00f5es com os EUA, que elas sejam implementadas sem concess\u00f5es lesivas aos interesses nacionais, ao estilo de algumas das que caracterizaram a d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a defini\u00e7\u00e3o do segundo turno da elei\u00e7\u00e3o para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, marcado pela inesperada ultrapassagem da ex-ministra Marina Silva pelo senador A\u00e9cio Neves, constata-se, uma vez mais, que os debates entre os candidatos deixaram de lado quaisquer discuss\u00f5es s\u00e9rias sobre os grandes problemas nacionais. 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