{"id":1487,"date":"2014-08-19T18:44:33","date_gmt":"2014-08-19T18:44:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=1487"},"modified":"2014-08-19T18:44:33","modified_gmt":"2014-08-19T18:44:33","slug":"os-filhos-das-bombas-e-o-choque-de-civilizacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/os-filhos-das-bombas-e-o-choque-de-civilizacoes\/","title":{"rendered":"Os &quot;filhos das bombas&quot; e o &quot;choque de civiliza\u00e7\u00f5es&quot;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.msia.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/MTE4MDAzNDEwMjYzNjM5NTY2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-1488\" title=\"MTE4MDAzNDEwMjYzNjM5NTY2\" src=\"http:\/\/www.msia.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/MTE4MDAzNDEwMjYzNjM5NTY2-1024x576.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/MTE4MDAzNDEwMjYzNjM5NTY2-1024x576.png 1024w, https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/MTE4MDAzNDEwMjYzNjM5NTY2-300x169.png 300w, https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/MTE4MDAzNDEwMjYzNjM5NTY2.png 1120w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, na d\u00e9cada de 1990, o professor Samuel Huntington lan\u00e7ou a sua tese do \u00abchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u00bb, era apenas uma elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de uma estrat\u00e9gia para substituir a confronta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da Guerra Fria por um conflito de longo prazo e car\u00e1ter religioso, \u00e9tnico e sect\u00e1rio. Ao longo de duas d\u00e9cadas e, especialmente, ap\u00f3s os ataques de 11 de setembro de 2001, o\u00a0<em>Establishment<\/em>\u00a0anglo-<wbr>americano garantiu as condi\u00e7\u00f5es para o surgimento de tais tipos de conflito, como se pode contemplar com a irrup\u00e7\u00e3o do tenebroso Estado Isl\u00e2mico do Iraque e do Levante, renomeado Estado Isl\u00e2mico (EI, ex-ISIL). Em um sentido literal, pode-se afirmar que o EI-ISIL \u00e9 constitu\u00eddo pelos \u00abfilhos das bombas\u00bb lan\u00e7adas sobre um n\u00famero crescente de popula\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas pelas For\u00e7as Armadas dos EUA, em sua cruzada \u00abcontra o terror\u00bb. As invas\u00f5es do Afeganist\u00e3o e do Iraque tiveram o efeito de destruir quaisquer vest\u00edgios de Estados seculares e abriram as portas ao radicalismo sect\u00e1rio, que, em paralelo, colocou em risco as comunidades das minorias religiosas, principalmente, as crist\u00e3s, que se alinhavam entre as mais antigas do mundo.<\/wbr><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, a\u00e7\u00f5es militares limitadas contra o EI n\u00e3o contribuir\u00e3o em nada para reverter o \u00f3dio entre a popula\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica perturbada pela viol\u00eancia, que a leva a confundir o agressivo militarismo anglo-americano (e, eventualmente, franc\u00eas) com um marco distintivo da civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia na grande regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio n\u00e3o poder\u00e1 ser superada por meios militares &#8211; muito ao contr\u00e1rio, empregados isoladamente, estes apenas a agravam. Tais medidas tendem, apenas, a aprofundar as condi\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas que est\u00e3o ensejando uma redefini\u00e7\u00e3o do mapa pol\u00edtico da regi\u00e3o e, possivelmente, a escalar o conflito a propor\u00e7\u00f5es apocal\u00edpticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a decis\u00e3o de desfechar ataques a\u00e9reos contra for\u00e7as do EI, sob o pretexto de romper o cerco dos terroristas islamistas aos fugitivos da minoria religiosa yazidi, demonstra a presteza com que os c\u00edrculos mais belicistas de Washington aproveitam as oportunidades criadas pelos desdobramentos da sua agenda hegem\u00f4nica, ainda que n\u00e3o tenham planejado cada aspecto dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O an\u00fancio dos ataques, apressadamente feito pelo presidente Barack Obama, na noite de 7 de agosto, dispensou qualquer consulta ao Congresso, que, em tese, necessita autorizar o emprego da for\u00e7a militar &#8211; como se viu em agosto de 2013, quando Obama recuou da inten\u00e7\u00e3o de ordenar um ataque \u00e0 S\u00edria sem o aval do Capit\u00f3lio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante, na v\u00e9spera, em uma demonstra\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>modus operandi<\/em>\u00a0das for\u00e7as relevantes na capital estadunidense, o Centro de Estudos Estrat\u00e9gicos e Internacionais (CSIS), um dos mais prestigiosos\u00a0<em>think-tanks<\/em>\u00a0do\u00a0<em>Es<wbr>tablishment<\/wbr><\/em>, publicou em seu s\u00edtio um longo artigo de Anthony H. Cordesman, com o sugestivo t\u00edtulo \u00abIraque: hora de agir\u00bb, oferecendo uma detalhada pauta de a\u00e7\u00f5es para lidar com o EI, inclusive, a\u00e7\u00f5es militares \u00ablimitadas\u00bb. \u00abExistem momentos &#8211; embora o presidente Obama pare\u00e7a ter problemas em entender este ponto &#8211; que n\u00e3o favorecem aos que ficam esperando parados\u00bb, fustigou ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ainda mais influente Conselho de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (CFR) de Nova York, o presidente Richard Haass n\u00e3o apenas apoia os ataques, como diz que eles deveriam prosseguir: \u00abOs EUA deveriam efetuar ataques sustentados contra o ISIL, tanto no Iraque como na S\u00edria. A fronteira \u00e9 irrelevante (sic); o que \u00e9 essencial \u00e9 que o ISIL seja retardado e enfraquecido (CFR, 12\/08\/2014).\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seletividade da interven\u00e7\u00e3o estadunidense foi criticada pelo patriarca caldeu de Babil\u00f4nia, Louis Raphael I Sako, que considerou \u00abdesconcertante\u00bb a decis\u00e3o de defender apenas o territ\u00f3rio curdo do ataque do EI, deixando de lado Mosul e outras \u00e1reas conquistadas pelo grupo. Da mesma forma, ele lamentou as disputas pol\u00edticas no governo iraquiano: \u00abEnquanto o pa\u00eds est\u00e1 sob ataque, os pol\u00edticos continuam lutando para conquistar o poder (Zenit.org, 12\/08\/2014).\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O EI \u00e9 mais um rebento bastardo da agenda hegem\u00f4nica de Washington e Londres, cujo objetivo mais amplo parece ser o de manter toda a grande regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio em um estado de convuls\u00f5es permanentes, no contexto da estrat\u00e9gia do \u00abchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cria\u00e7\u00e3o do EI, o eixo anglo-americano contou com a colabora\u00e7\u00e3o direta dos seus aliados na regi\u00e3o, como a Turquia, Ar\u00e1bia Saudita e Catar, mas, agora, at\u00e9 mesmo estes \u00faltimos come\u00e7am a perceber que ajudaram a parir um monstro incontrol\u00e1vel. Por isso, em algum momento, uma dose de realismo ter\u00e1 que se impor para um esfor\u00e7o voltado para a sua neutraliza\u00e7\u00e3o, empenho que exigir\u00e1, entre outros itens, o abandono de qualquer pretens\u00e3o hegem\u00f4nica externa \u00e0 regi\u00e3o e um entendimento pol\u00edtico inusitado entre governos e organiza\u00e7\u00f5es com agendas diversas e, com frequ\u00eancia, conflitantes. Para tanto, ser\u00e1 imprescind\u00edvel a garantia da estabilidade dos governos da S\u00edria e do Ir\u00e3, cujas for\u00e7as militares s\u00e3o as \u00fanicas em condi\u00e7\u00f5es de oferecer uma oposi\u00e7\u00e3o armada efetiva \u00e0s hordas do EI, em coopera\u00e7\u00e3o com o grupo liban\u00eas Hisbol\u00e1 e a mil\u00edcia curda Peshmerga. E o governo da Turquia teria que prover um requisito b\u00e1sico, fechando as fronteiras do pa\u00eds \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de militantes dos grupos opositores do regime de Damasco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, a sa\u00edda n\u00e3o vir\u00e1 com a persist\u00eancia da vis\u00e3o do mundo \u00abexcepcionalista\u00bb favorecida pelas elites hegem\u00f4nicas anglo-americanas, baseada num fundamentalismo religioso calvinista de predetermina\u00e7\u00e3o divina &#8211; cujos v\u00ednculos com o cristianismo s\u00e3o apenas nominais -, e que somente pode ser neutralizada com um aut\u00eantico di\u00e1logo de civiliza\u00e7\u00f5es baseado na conc\u00f3rdia e no perd\u00e3o &#8211; princ\u00edpio consolidado no hist\u00f3rico Tratado de Westfalia de 1648, que encerrou a sangrenta Guerra dos 30 Anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, tal cen\u00e1rio se assemelha a um\u00a0<em>wishful thinking<\/em>, mas \u00e9 poss\u00edvel que, nas pr\u00f3ximas semanas e meses, as atrocidades cometidas pelos fan\u00e1ticos do EI se acumulem ao ponto de sensibilizar as opini\u00f5es p\u00fablicas e os governos das capitais relevantes, para um entendimento que, eventualmente, o viabilize.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando, na d\u00e9cada de 1990, o professor Samuel Huntington lan\u00e7ou a sua tese do \u00abchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u00bb, era apenas uma elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de uma estrat\u00e9gia para substituir a confronta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da Guerra Fria por um conflito de longo prazo e car\u00e1ter religioso, \u00e9tnico e sect\u00e1rio. 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