{"id":147,"date":"2012-04-13T15:48:16","date_gmt":"2012-04-13T15:48:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=147"},"modified":"2012-04-13T15:48:16","modified_gmt":"2012-04-13T15:48:16","slug":"os-brics-e-uma-ordem-mundial-diferente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/os-brics-e-uma-ordem-mundial-diferente\/","title":{"rendered":"Os BRICS e uma ordem mundial diferente"},"content":{"rendered":"<p>Qualquer an\u00e1lise minimamente realista do presente cen\u00e1rio global aponta para o esgotamento do modelo de organiza\u00e7\u00e3o dos assuntos mundiais consolidado em torno da hegemonia econ\u00f4mico-financeira e pol\u00edtico-militar do eixo Washington-Nova York-Londres e seus ap\u00eandices europeus e israelenses. Definitivamente, as aspira\u00e7\u00f5es e necessidades do mundo crescentemente complexo, interdependente e interligado do s\u00e9culo XXI se mostram incompat\u00edveis com a subordina\u00e7\u00e3o das economias nacionais a um sistema financeiro essencialmente privatizado, desregulamentado e convertido num fim em si pr\u00f3prio, al\u00e9m da submiss\u00e3o da agenda das rela\u00e7\u00f5es internacionais \u00e0s diretrizes emanadas daqueles centros de poder, com frequ\u00eancia, impostas direta ou indiretamente pelo poder militar. Uma consequ\u00eancia dessas transforma\u00e7\u00f5es em curso \u00e9 a emerg\u00eancia dos BRICS, como um vetor com enorme potencial de contribui\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de uma ordem mundial diferente, como se viu na quarta c\u00fapula do grupo, em Nova D\u00e9lhi, na semana passada.<\/p>\n<p>De fato, o mundo atravessa um momento de inflex\u00e3o hist\u00f3rica, an\u00e1logo ao apresentado ao final da II Guerra Mundial, quando as perspectivas para a reconstru\u00e7\u00e3o mundial do p\u00f3s-guerra haviam sido claramente explicitadas pelo presidente estadunidense Franklin D. Roosevelt, sintetizadas em seu c\u00e9lebre conceito das \u00abquatro liberdades\u00bb fundamentais, que deveriam ser desfrutadas pelos povos de todo o mundo: de express\u00e3o, de culto, das vicissitudes da pen\u00faria e do medo. Tal orienta\u00e7\u00e3o esteve no cerne da sua alian\u00e7a estrat\u00e9gica com o premier brit\u00e2nico Winston Churchill, a quem reiterou em v\u00e1rias ocasi\u00f5es que os EUA n\u00e3o entrariam em um novo conflito para preservar os imp\u00e9rios coloniais europeus. Desafortunadamente, a sua morte prematura, em abril de 1945, abriu caminho para os descaminhos da Guerra Fria, a qual, a despeito dos enormes benef\u00edcios proporcionados pela relativa estabilidade da ordem econ\u00f4mica estabelecida em Bretton Woods, assistiu, tamb\u00e9m, \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o do sistema financeiro e do complexo industrial-militar como centros de poder pol\u00edtico, em especial, a partir da d\u00e9cada de 1970, processo que conduziu ao presente impasse civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O surgimento dos BRICS, como um bloco relativamente articulado em torno de certas quest\u00f5es estrat\u00e9gicas, \u00e9 uma importante novidade nesse quadro de deteriora\u00e7\u00e3o do sistema mundial, no qual um fator de grande relev\u00e2ncia \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o cada vez mais disseminada sobre o crescente d\u00e9ficit de justi\u00e7a socioecon\u00f4mica ensejado pelo status quo, que est\u00e1 na raiz da grande maioria das convuls\u00f5es que t\u00eam abalado o planeta. Evidentemente, esta perspectiva se contrap\u00f5e \u00e0 inten\u00e7\u00e3o do <em>Establishment<\/em> dominante de preservar os seus \u00abprivil\u00e9gios percebidos\u00bb e, apesar do car\u00e1ter n\u00e3o-confrontacional do grupo, a sua mera exist\u00eancia representa uma amea\u00e7a \u00e0queles centros de poder, como se percebe pelas rea\u00e7\u00f5es azedas e depreciativas divulgadas pela m\u00eddia anglo-americana.<\/p>\n<p>Rea\u00e7\u00f5es que foram oportunamente registradas pelo vice-presidente de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais da Embraer, Jackson Schneider, em entrevista ao jornal <em>The Times of India<\/em> (1\/04\/2012): \u00abO BRICS n\u00e3o \u00e9 uma ideia. J\u00e1 \u00e9 uma realidade. O equil\u00edbrio da ordem global existente est\u00e1 mudando. Se o BRICS n\u00e3o tivesse for\u00e7a, por que o New York Times estaria gastando tanta tinta e tempo conosco?\u00bb<\/p>\n<p>Nos dias anteriores e seguintes \u00e0 c\u00fapula de Nova D\u00e9lhi, o jornal de Nova York foi um dos muitos \u00f3rg\u00e3os vinculados ao Establishment anglo-americano que publicou uma vasta cole\u00e7\u00e3o de artigos e editoriais sobre o grupo, a grande maioria, depreciativos, embora alguns denotassem uma certa cautela quanto \u00e0s suas perspectivas e potenciais. Uma aprecia\u00e7\u00e3o t\u00edpica foi a do colunista econ\u00f4mico do <em>Daily Telegraph<\/em> londrino, Jeremy Warner, na edi\u00e7\u00e3o de 29 de mar\u00e7o:<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) Eu tenho acompanhado essas reuni\u00f5es das na\u00e7\u00f5es do BRICS em a\u00e7\u00e3o, e o que tenho a dizer \u00e9 que elas n\u00e3o s\u00e3o, de modo algum, impressionantes. H\u00e1 muito pouco sentido de prop\u00f3sito e identidade comum. Na verdade, eles fazem a Uni\u00e3o Europeia parecer um paradigma de calma e harmonia. De dia, eles falam alto sobre a\u00e7\u00f5es multilaterais para reorientar o campo de jogo em favor das na\u00e7\u00f5es mais pobres, enquanto, \u00e0 noite, tramam vergonhosamente uns contra os outros, frequentemente, em conjunto com os seus supostos opressores econ\u00f4micos no Ocidente. N\u00e3o h\u00e1 virtualmente nada que os une, al\u00e9m do ressentimento e suspei\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio ocidental, em parte, justificados, em parte, n\u00e3o. Eu lhes desejo boa sorte com o seu novo banco de desenvolvimento, mas quando se trata de onde ser\u00e1 constru\u00edda a pr\u00f3xima represa, e quem ir\u00e1 constru\u00ed-la, \u00e9 a\u00ed que sair\u00e3o as fa\u00edscas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Seguindo a linha de muitos analistas, inclusive, nos pr\u00f3prios BRICS, que se apegam \u00e0 parte em detrimento do todo, o que Warner reflete \u00e9 uma certa perplexidade e incapacidade de enxergar uma ordem global que n\u00e3o seja subordinada pelos interesses representados, predominantemente, na City de Londres, Wall Street e no Pent\u00e1gono.<\/p>\n<p>Na contracorrente, um comentarista que avaliou corretamente a situa\u00e7\u00e3o foi o arguto Fyodor Lukyanov, editor-chefe da revista <em>Russia in Global Affairs<\/em> e colunista da ag\u00eancia Novosti. Em sua coluna de 29 de mar\u00e7o, depois de descrever as enormes diferen\u00e7as entre os membros do grupo, ele foi ao cerne da quest\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>Os BRICS est\u00e3o sendo reunidos e movidos para a frente, n\u00e3o tanto pelos requisitos dos seus pa\u00edses membros, mas pela situa\u00e7\u00e3o geral no mundo. As mudan\u00e7as s\u00e3o r\u00e1pidas e imprevis\u00edveis, e as receitas para a resolu\u00e7\u00e3o dos assuntos internacionais oferecidas pelos l\u00edderes usuais (o Ocidente), ou n\u00e3o funcionam, ou produzem o efeito oposto. H\u00e1 uma demanda por solu\u00e7\u00f5es alternativas, embora, no momento, nenhum Estado individual que esteja desempenhando um grande papel regional (e os pa\u00edses dos BRICS entram nesta categoria) tem a oportunidade (ou o desejo) de oferecer uma vis\u00e3o global abrangente.<\/p><\/blockquote>\n<p>Igualmente, Lukyanov chama a aten\u00e7\u00e3o para um fator que dever\u00e1 ter uma grande relev\u00e2ncia para que o bloco possa desempenhar esse papel, o retorno de Vladimir Putin \u00e0 presid\u00eancia da Federa\u00e7\u00e3o Russa:<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) O futuro presidente russo v\u00ea o fator unificador no fato de que todos os pa\u00edses do BRICS, n\u00e3o apenas t\u00eam vis\u00f5es similares sobre a necessidade de uma nova ordem mundial multipolar, mas, mais importante ainda, compartilham o mesmo valor b\u00e1sico &#8211; a soberania nacional como elemento estrutural fundamental do sistema mundial. Este conceito \u00e9 uma alternativa ao enfoque ocidental, que se baseia na premissa de que, hoje, a soberania n\u00e3o \u00e9 mais sagrada e imut\u00e1vel como era no passado.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o \u00e9 casual que Putin tenha se mostrado ser o estadista mundial mais afinado com os princ\u00edpios e ensinamentos de Roosevelt, cuja agenda j\u00e1 mencionou em v\u00e1rias oportunidades como um guia para a supera\u00e7\u00e3o da presente crise global, por exemplo, no semin\u00e1rio \u00abAs li\u00e7\u00f5es do <em>New Deal<\/em> para a R\u00fassia e o mundo de hoje\u00bb, realizado em Moscou, em fevereiro de 2007, por ocasi\u00e3o do 125o. anivers\u00e1rio de nascimento do presidente estadunidense &#8211; ignorado em seu pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 c\u00fapula, embora muita \u00eanfase tenha sido dada \u00e0 discuss\u00e3o sobre um \u00abBanco dos BRICS\u00bb, que rivalizaria com o Banco Mundial como banco de desenvolvimento, \u00e9 de grande relev\u00e2ncia que a proposta se mantenha de p\u00e9 e dever\u00e1 ser objeto de aprofundamento de estudos pelos pa\u00edses membros. Evidentemente, n\u00e3o se cria uma institui\u00e7\u00e3o do g\u00eanero da noite para o dia, principalmente, uma com o potencial impacto pol\u00edtico e econ\u00f4mico que teria uma institui\u00e7\u00e3o de fomento com recursos pelo menos na mesma magnitude do Banco Mundial e fora do controle dos centros financeiros ocidentais. Se Bras\u00edlia, Moscou, D\u00e9lhi, Pequim e Pret\u00f3ria mantiverem o \u00abgostinho\u00bb do protagonismo conjunto que parecem estar sentido, o banco poder\u00e1 ser apenas uma de uma s\u00e9rie de novidades positivas para um cen\u00e1rio global que est\u00e1 carente delas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qualquer an\u00e1lise minimamente realista do presente cen\u00e1rio global aponta para o esgotamento do modelo de organiza\u00e7\u00e3o dos assuntos mundiais consolidado em torno da hegemonia econ\u00f4mico-financeira e pol\u00edtico-militar do eixo Washington-Nova York-Londres e seus ap\u00eandices europeus e israelenses. Definitivamente, as aspira\u00e7\u00f5es e necessidades do mundo crescentemente complexo, interdependente e interligado do s\u00e9culo XXI se mostram incompat\u00edveis &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-147","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-assuntos-internacionais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=147"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}