{"id":1437,"date":"2014-07-30T17:54:58","date_gmt":"2014-07-30T17:54:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=1437"},"modified":"2014-07-30T17:54:58","modified_gmt":"2014-07-30T17:54:58","slug":"brics-sentando-a-sua-propria-mesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/brics-sentando-a-sua-propria-mesa\/","title":{"rendered":"BRICS: sentando \u00e0 sua pr\u00f3pria mesa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.msia.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/brics1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1440\" title=\"brics\" src=\"http:\/\/www.msia.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/brics1.png\" alt=\"\" width=\"770\" height=\"434\" srcset=\"https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/brics1.png 770w, https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/brics1-300x169.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Em um artigo analisando as perspectivas do Brasil no grupo BRICS, o diretor do Instituto Brasil do King&#8217;s College de Londres, Anthony W. Pereira, fez uma curiosa e oportuna met\u00e1fora culin\u00e1ria sobre o bloco. Segundo ele, durante anos, a d\u00favida era se o grupo pretendia um lugar \u00e0 mesa ou queria mudar o card\u00e1pio; agora, vemos uma terceira op\u00e7\u00e3o: os BRICS podem se sentar \u00e0 sua pr\u00f3pria mesa, estabelecendo, assim, um grau de autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais pot\u00eancias mundiais (<em>The Brics Post<\/em>, 15\/07\/2014).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">De fato, a sexta c\u00fapula dos BRICS, realizada em Fortaleza (CE), em 15-16 de julho, deixa a impress\u00e3o de que os integrantes do grupo criado a partir de uma inspira\u00e7\u00e3o acad\u00eamica do economista Jim O&#8217;Neill entraram no restaurante sem qualquer inten\u00e7\u00e3o de antagonizar os donos da casa ou os frequentadores mais \u00edntimos destes, mas, apenas, criar um ambiente para poder comer melhor e, eventualmente, abrir espa\u00e7o para que outros comensais possam fazer o mesmo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Assim sendo, \u00e9 importante avaliar com a devida objetividade o alcance dos resultados da c\u00fapula, para se diminuir os riscos de superestim\u00e1-los ou subestim\u00e1-los.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">De in\u00edcio, vale enfatizar que os BRICS n\u00e3o representam um bloco pol\u00edtico intrinsecamente antag\u00f4nico aos centros de poder hegem\u00f4nico consolidados no eixo Washington-Nova York-Londres-Bruxelas. Como afirmou o presidente russo Vladimir Putin, em entrevista \u00e0 ag\u00eancia Itar-Tass, n\u00e3o h\u00e1 qualquer inten\u00e7\u00e3o de se converter o grupo em uma alian\u00e7a pol\u00edtica e, menos ainda, militar (Itar-Tass, 14\/07\/2014). Da mesma forma, a presidente Dilma Rousseff se referiu aos principais resultados pr\u00e1ticos da c\u00fapula: \u00abO banco dos BRICS e o arranjo contingente de reservas n\u00e3o s\u00e3o contra ningu\u00e9m. S\u00e3o a nosso favor. O banco vem trazer para a constata\u00e7\u00e3o [sic] de que o mundo \u00e9 multilateral (<em>Valor Econ\u00f4mico<\/em>, 16\/07\/2014).\u00bb<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">No entanto, sem nos iludirmos quanto \u00e0 perspectiva de que os BRICS constituam uma alternativa imediata ao status quo mundial, n\u00e3o h\u00e1 como negar que o estabelecimento de institui\u00e7\u00f5es financeiras paralelas ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) e ao Banco Mundial &#8211; o Arranjo Contingente de Reservas (CRA, sigla em ingl\u00eas) e o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, em ingl\u00eas) -, al\u00e9m da perspectiva de amplia\u00e7\u00e3o do uso das moedas nacionais no com\u00e9rcio intrabloco, conferem ao gupo uma consider\u00e1vel margem de manobra no cen\u00e1rio das mudan\u00e7as globais em curso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Talvez, a principal diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao eixo hegem\u00f4nico encabe\u00e7ado por Washington seja a troca de um marco baseado na confronta\u00e7\u00e3o\/submiss\u00e3o, voltado para o favorecimento dos interesses do Establishment olig\u00e1rquico transatl\u00e2ntico, por outro de coopera\u00e7\u00e3o para uma nova agenda de desenvolvimento, em que as eventuais diverg\u00eancias sejam solucionadas por meios n\u00e3o militares. Como afirmou Putin \u00e0 Itar-Tass:<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">O mundo moderno \u00e9, efetivamente, multipolar, complexo e din\u00e2mico &#8211; esta \u00e9 a realidae objetiva. Quaisquer tentativas de se criar um modelo de rela\u00e7\u00f5es internacionais onde todas as decis\u00f5es s\u00e3o feitas dentro de um \u00fanico \u00abp\u00f3lo\u00bb s\u00e3o ineficientes, regularmente, n\u00e3o funcionam direito e, em \u00faltima an\u00e1lise, est\u00e3o fadadas ao fracasso. Estas s\u00e3o as raz\u00f5es pelas quais o formato de intera\u00e7\u00e3o proposto pela R\u00fassia para estados de tal influ\u00eancia, como os membros dos BRICS, se mostrou ser necess\u00e1rio. Os nossos esfor\u00e7so conjuntos t\u00eam contribu\u00eddo, verdadeiramente, para refor\u00e7ar a previsibilidade e a sustentabilidade nas rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Em sua coluna dedicada ao assunto, o correspondente itinerante do Asia Times Online, Pepe Escobar, afirmou:<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">O que os BRICS est\u00e3o, agora, tentando apresentar ao Sul Global \u00e9 uma escolha: de um lado, a especula\u00e7\u00e3o financeira, fundos abutres e a hegemonia dos Senhores do Universo; do outro, o capitalismo produtivo &#8211; uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento capitalista alternativa \u00e0 oferecida pela Tr\u00edade (EUA, UE e Jap\u00e3o). \u00c9 claro que os BRICS t\u00eam um longo caminho a percorrer, de modo a projetar um modelo produtivo independente do \u00abmodelo\u00bb de capitalismo especulativo de cassino, que, a prop\u00f3sito, ainda em recupera\u00e7\u00e3o da maci\u00e7a crise de 2007-2008 (a bolha financeira ainda n\u00e3o estourou de vez).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Pode-se ver a estrat\u00e9gia dos BRICS como uma esp\u00e9cie de cr\u00edtica construtiva do capitalismo, em andamento; como se purgar o sistema da obriga\u00e7\u00e3o de financiar permanentemente o d\u00e9ficit fiscal dos EUA, bem como a s\u00edndrome da militariza\u00e7\u00e3o global&#8230; subordinada a Washington. Como disse o economista argentino Julio Gambina, a quest\u00e3o chave n\u00e3o \u00e9 ser emergente, mas independente (Asia Times Online, 15\/07\/2014).<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Como anunciado, o NDB ter\u00e1 um capital inicial de 50 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, divididos igualmente entre os cinco s\u00f3cios, com uma capitaliza\u00e7\u00e3o inicial de 2 bilh\u00f5es e o restante complementado nos pr\u00f3ximos sete anos. No caso brasileiro, o capital inicial sair\u00e1 de recursos do Tesouro Nacional. A finalidade geral do banco, que ser\u00e1 sediado em Xangai, China, ser\u00e1 o fomento de projetos de desenvolvimento, \u00e0 maneira do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), no qual foi inspirado. Al\u00e9m da capitaliza\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, o banco dever\u00e1 administrar fundos de investimentos formados pelos s\u00f3cios, que n\u00e3o entarar\u00e3o no seu capital e poder\u00e3o ampliar a sua capacidade de alavancagem de recursos &#8211; e aumentando o peso relativo da China na institui\u00e7\u00e3o, por ser o s\u00f3cio com maior capacidade financeira. Eventualmente, o banco poder\u00e1 se abrir a novos s\u00f3cios, mas os BRICS dever\u00e3o manter at\u00e9 55% do capital (<em>Valor Econ\u00f4mico<\/em>, 16\/07\/2014).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Al\u00e9m de financiar projetos nos pa\u00edses membros, o NDB poder\u00e1 faz\u00ea-lo em outros pa\u00edses. Em Fortaleza, o ministro da Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio da \u00c1frica do Sul, Rob Davies, afirmou que o bloco poder\u00e1 ter um importante papel no apoio \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o do continente africano:<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Se voc\u00ea pega o simples exemplo do caf\u00e9, a \u00c1frica ganha 6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano com o caf\u00e9 que colhe, mas s\u00e3o os torrefadores e misturadores de fora do continente que capturam 94 bilh\u00f5es de d\u00f3lares de valor agregado a esse caf\u00e9. Isto \u00e9 insustent\u00e1vel e se quisermos promover um crescimento inclusivo e sustent\u00e1vel, tem que ocorrer mais agrega\u00e7\u00e3o de valor na \u00c1frica. Isto se aplica n\u00e3o apenas ao caf\u00e9, mas a toda uma variedade de mat\u00e9rias-primas. Os pa\u00edses dos BRICS podem ajudar a \u00c1frica a se industrializar e tirar milh\u00f5es de pessoas da pobreza (<em>The Brics Post<\/em>, 15\/07\/2014).<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">J\u00e1 o CRA, um fundo de conting\u00eancia para emerg\u00eancias financeiras, no montante de 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, ser\u00e1 constitu\u00eddo por parcelas diferentes das reservas de cada membro e n\u00e3o ser\u00e1 aberto a outros pa\u00edses. O aporte ser\u00e1 feito da seguinte maneira: China &#8211; 41 bilh\u00f5es de d\u00f3lares; Brasil, \u00cdndia e R\u00fassia &#8211; 18 bilh\u00f5es cada um; e \u00c1frica do Sul &#8211; 5 bilh\u00f5es. Em caso de necessidade, cada pa\u00eds poder\u00e1 recorrer aos demais em uma propor\u00e7\u00e3o da sua parcela, sendo 0,5 para a China, 2 para a \u00c1frica do Sul e 1,5 para os demais. Por\u00e9m, em uma demonstra\u00e7\u00e3o de que o grupo ainda n\u00e3o se livrou totalmente das amarras do FMI, a ideia \u00e9 que apenas at\u00e9 30% desses valores seja liberada como empr\u00e9stimo de curto prazo, sendo necess\u00e1rio um acordo de ajuste de contas com o Fundo para sacar o restante (<em>Valor Econ\u00f4mico<\/em>, 16\/07\/2014).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">No campo pol\u00edtico, a declara\u00e7\u00e3o da c\u00fapula evitou, cuidadosamente, qualquer afirmativa que pudesse ser interpretada como antagonista ao eixo hegem\u00f4nico do Atl\u00e2ntico Norte, mas reiterou em v\u00e1rias oportunidades uma profiss\u00e3o de f\u00e9 no multilateralismo, ressaltando o papel da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), \u00abcomo a organiza\u00e7\u00e3o multilateral fundamental, incumbida de ajudar a comunidade internacional a preservar a paz e a seguran\u00e7a internacionais, a proteger e promover os direitos humanos e a fomentar o desenvolvimento sustent\u00e1vel\u00bb (Declara\u00e7\u00e3o de Fortaleza, 16\/07\/2014).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Fora da agenda oficial, Putin prop\u00f4s uma perspectiva das mais interessantes: o estabelecimento de uma alian\u00e7a energ\u00e9tica no bloco. \u00abN\u00f3s propomos o estabelecimento da Associa\u00e7\u00e3o de Energia dos BRICS. Sob este &#8216;guarda-chuva&#8217;, poderiam ser criados um Banco de Reservas Energ\u00e9ticas e um Instituto de Pol\u00edticas Energ\u00e9ticas dos BRICS\u00bb, disse ele (Novosti, 15\/07\/2014).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Trata-se de uma proposta de alt\u00edssimo peso geopol\u00edtico potencial, pois reuniria um dos maiores produtores mundiais de hidrocarbonetos (R\u00fassia), um a caminho dos dez maiores (Brasil) e dois dos maiores consumidores (China e \u00cdndia). E, muito provavelmente, capaz de gerar ruidosos grunhidos em certas capitais da Am\u00e9rica do Norte e da Europa &#8211; mas os benef\u00edcios potenciais superam os riscos por larga margem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">Ainda na \u00e1rea energ\u00e9tica, e ainda mais promissora, seria uma articula\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os cient\u00edfico-tecnol\u00f3gicos, de que todos os membros do grupo disp\u00f5em com a qualidade necess\u00e1ria, para uma agenda coordenada de pesquisas de futuras fontes energ\u00e9ticas, como a energia do v\u00e1cuo qu\u00e2ntico ou energia do ponto-zero (<em>zero-point energy<\/em>, em ingl\u00eas). Iniciativa que, ali\u00e1s, n\u00e3o precisaria esperar por uma alian\u00e7a como a proposta por Putin, podendo ser implementada em um prazo relativamente curto, no \u00e2mbito das linhas de coopera\u00e7\u00e3o cient\u00edfico-tecnol\u00f3gica j\u00e1 previstas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">No cen\u00e1rio global, manifesta-se um \u00abcansa\u00e7o\u00bb com a petrifica\u00e7\u00e3o das estruturas de governan\u00e7a criadas no p\u00f3s-guerra. Ademais, o G-8 retornou ao seu formato original de G-7, ao expelir a R\u00fassia. O G-20 jamais chegou perto de cumprir a promessa inicial de servir como uma plataforma para a reforma do sistema financeiro internacional, prometida pelo ent\u00e3o presidente franc\u00eas Nicolas Sarkozy. Com isso, o BRICS surge como um espa\u00e7o alternativo de delibera\u00e7\u00f5es relevantes, com todas as condi\u00e7\u00f5es de representar uma mesa interessante para comensais cansados do velho atendimento.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um artigo analisando as perspectivas do Brasil no grupo BRICS, o diretor do Instituto Brasil do King&#8217;s College de Londres, Anthony W. Pereira, fez uma curiosa e oportuna met\u00e1fora culin\u00e1ria sobre o bloco. 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