{"id":1205,"date":"2014-05-16T19:52:26","date_gmt":"2014-05-16T19:52:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=1205"},"modified":"2014-05-16T19:52:26","modified_gmt":"2014-05-16T19:52:26","slug":"o-retorno-dos-estados-soberanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/o-retorno-dos-estados-soberanos\/","title":{"rendered":"O retorno dos Estados soberanos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.msia.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/manifesta\u00e7\u00e3o-S-Petersburgo-AP.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1206\" title=\"manifesta\u00e7\u00e3o S Petersburgo AP\" src=\"http:\/\/www.msia.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/manifesta\u00e7\u00e3o-S-Petersburgo-AP.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/manifesta\u00e7\u00e3o-S-Petersburgo-AP.jpg 620w, https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/manifesta\u00e7\u00e3o-S-Petersburgo-AP-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando o Muro de Berlim foi demolido, em novembro de 1989, os estrategistas anglo-americanos consideraram o fato como uma evid\u00eancia do fim dos Estados nacionais soberanos e o in\u00edcio de um processo que levaria ao estabelecimento de um \u00abgoverno mundial\u00bb. Era o advento do \u00abfim da Hist\u00f3ria\u00bb, como o te\u00f3rico neoconservador Francis Fukuyama batizou a realidade emergente ap\u00f3s o colapso do imp\u00e9rio sovi\u00e9tico. Uma agenda de \u00abgovernan\u00e7a global\u00bb, que inclu\u00eda: a plena liberaliza\u00e7\u00e3o financeira e comercial do planeta; a privatiza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a das empresas p\u00fablicas; a n\u00e3o-prolifera\u00e7\u00e3o nuclear (pretexto para a imposi\u00e7\u00e3o de um aut\u00eantico \u00abapartheid tecnol\u00f3gico\u00bb aos pa\u00edses em desenvolvimento); a manipula\u00e7\u00e3o de causas de grande alcance, como os direitos humanos, para justificar interven\u00e7\u00f5es militares; a agenda ambiental, como pretexto para a obstaculiza\u00e7\u00e3o da industrializa\u00e7\u00e3o e da infraestrutura; a dissemina\u00e7\u00e3o da ideologia do g\u00eanero contra as tradi\u00e7\u00f5es familiares; e outros itens.<\/p>\n<p>A quebra do centen\u00e1rio grupo Lehman Brothers, em setembro de 2008, foi o marco que assinalou os limites da economia da chamada \u00abNova Ordem Mundial\u00bb do p\u00f3s-Guerra Fria. Epis\u00f3dio que demonstrou, simultaneamente, a incapacidade dos governos dos EUA e da Europa para controlar as pr\u00f3prias oligarquias que dirigem o n\u00facleo central do sistema financeiro e banc\u00e1rio global.<\/p>\n<p>Este quadro, que se perpetuava de m\u00e3os dadas com um poderio militar aparentemente ilimitado, que se mobilizava em uma cont\u00ednua \u00abguerra de recursos\u00bb &#8211; do Afeganist\u00e3o \u00e0 L\u00edbia, passando pelo Iraque -, encontrou o seu limite em meados de 2013, quando a diplomacia da Federa\u00e7\u00e3o Russa logrou deter um iminente ataque militar dos EUA contra a S\u00edria, que padece h\u00e1 mais de tr\u00eas anos com uma guerra civil alentada pelo eixo anglo-americano e seus aliados. A partir deste momento, a arquitetura geopol\u00edtica da \u00abNova Ordem Mundial\u00bb se decomp\u00f4s.<\/p>\n<p>A crise na Ucr\u00e2nia, instigada pela ostensiva pol\u00edtica de \u00abmudan\u00e7a de regime\u00bb promovida pelo governo de Washington, visa claramente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um \u00abcord\u00e3o sanit\u00e1rio\u00bb contra a R\u00fassia, acusada de pretens\u00f5es neoimperiais sobre os territ\u00f3rios da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Por\u00e9m, a realidade \u00e9 que Moscou tra\u00e7ou, primeiro, na S\u00edria e, agora, na Ucr\u00e2nia, uma linha vermelha contra a expans\u00e3o da agenda de \u00abgoverno mundial intensificada nos \u00faltimos 25 anos.<\/p>\n<p>Dois impulsos estrat\u00e9gicos est\u00e3o em confronto: o que favorece a agenda do \u00abgoverno mundial\u00bb e outro, ainda incipiente, que implica na reemerg\u00eancia dos Estados soberanos &#8211; j\u00e1 batizada \u00abressoberaniza\u00e7\u00e3o\u00bb por alguns observadores. Embora esta din\u00e2mica se encontre disseminada em v\u00e1rios lugares, claramente, a sua lideran\u00e7a encontra-se enfeixada nas m\u00e3os do presidente russo Vladimir Putin. Por exemplo, a pr\u00f3pria China, que tem sido ambivalente frente \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o financeira &#8211; da qual tem se beneficiado enormemente -, mant\u00e9m em seu interior um projeto de Estado soberano.<\/p>\n<p>A crise na Ucr\u00e2nia e a amea\u00e7a de retalia\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ocidental contra a R\u00fassia t\u00eam favorecido a concretiza\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a estrat\u00e9gica entre Moscou e Pequim, na qual esta \u00faltima teria o seu abastecimento energ\u00e9tico assegurado pela primeira. Outro exemplo \u00e9 o planejado canal interoce\u00e2nico na Nicar\u00e1gua, para cuja constru\u00e7\u00e3o, cujo in\u00edcio \u00e9 previsto para o final de 2014, os dois pa\u00edses j\u00e1 estabeleceram um acordo &#8211; no que ser\u00e1 um repto direto \u00e0 hegemonia colonial estadunidense sobre a \u00e1rea. E a R\u00fassia estabeleceu um acordo com o Ir\u00e3, para a compra de 500 mil barris de petr\u00f3leo por dia, o que tende a romper definitivamente a pol\u00edtica de san\u00e7\u00f5es contra Teer\u00e3.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>A \u00abcrise antropol\u00f3gica\u00bb nas elites hegem\u00f4nicas<\/strong><\/p>\n<p>Em um artigo publicado no jornal <em>O Estado de S. Paulo<\/em>, em 4 de maio (\u00abO retorno da geopol\u00edtica\u00bb), o professor do Bard College de Nova York, Walter Russell Mead, um influente pensador do <em>Establishment<\/em> estadunidense, analisa tal reviravolta estrat\u00e9gica global. Curiosamente, Mead desconstr\u00f3i os argumentos de Fukuyama sobre o \u00abfim da Hist\u00f3ria\u00bb. Al\u00e9m da nova realidade estrat\u00e9gica estabelecida pelas iniciativas diplom\u00e1ticas e pol\u00edticas russas, Mead levanta o tema do que chama a \u00abcrise antropol\u00f3gica\u00bb surgida no p\u00f3s-Guerra Fria, com a perda de sentido hist\u00f3rico individual pela gera\u00e7\u00e3o do per\u00edodo. Diz ele:<\/p>\n<blockquote><p>A segunda parte do livro de Fukuyama recebeu menos aten\u00e7\u00e3o, talvez porque exalte menos o Ocidente. Quando Fukuyama investigou o que seria uma sociedade p\u00f3s-hist\u00f3rica, fez uma descoberta perturbadora. Num mundo onde as grandes quest\u00f5es foram solucionadas e a geopol\u00edtica subordinada \u00e0 economia, a humanidade se assemelha muito ao \u00ab\u00faltimo homem\u00bb niilista descrito pelo fil\u00f3sofo Freidrich Nietzsche, um consumidor narcisista sem maiores aspira\u00e7\u00f5es alem da sua pr\u00f3xima visita aos centros de compras.<\/p>\n<p>Em outras palavras, essas pessoas seriam muito semelhantes aos burocratas europeus e lobistas de Washington dos dias atuais. S\u00e3o competentes para administrar seus neg\u00f3cios entre os indiv\u00edduos p\u00f3s-hist\u00f3ricos, mas compreender os motivos e se opor \u00e0s estrat\u00e9gias dos pol\u00edticos de um poder ultrapassado s\u00e3o dif\u00edceis para eles. Ao contrario de seus rivais menos est\u00e1veis e menos produtivos, esses indiv\u00edduos n\u00e3o est\u00e3o dispostos a fazer sacrif\u00edcios, est\u00e3o concentrados no curto prazo, facilmente se desviam do caminho e lhe falta coragem.<\/p>\n<p>As realidades da vida pol\u00edtica e os indiv\u00edduos nas sociedades p\u00f3s-hist\u00f3ricas s\u00e3o muito diferentes de aqueles em pa\u00edses como China, Ir\u00e3 e R\u00fassia, onde o sol da Hist\u00f3ria ainda brilha.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em s\u00edntese, a crise na Ucr\u00e2nia mostra o choque de dois mundos. Um que se pretende p\u00f3s-moderno, ou p\u00f3s-hist\u00f3rico, na linguagem de Mead; que se pretende o portador das novidades, atualizando as velhas receitas do \u00abgoverno mundial\u00bb com refletores luminosos mais sofisticados. E outro, que contempla a \u00abressoberaniza\u00e7\u00e3o\u00bb dos Estados nacionais, como a pedra angular da reconstru\u00e7\u00e3o da ordem civilizat\u00f3ria mundial, amea\u00e7ada de retrocesso pela crise sist\u00eamica em curso.<br \/>\n<!-- C\u00f3digo do Google para tag de remarketing --><br \/>\n<!--------------------------------------------------\nAs tags de remarketing n\u00e3o podem ser associadas a informa\u00e7\u00f5es pessoais de identifica\u00e7\u00e3o nem inseridas em p\u00e1ginas relacionadas a categorias de confidencialidade. 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