{"id":108,"date":"2012-03-30T20:10:14","date_gmt":"2012-03-30T20:10:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=108"},"modified":"2012-03-30T20:10:14","modified_gmt":"2012-03-30T20:10:14","slug":"kony-2012-guerra-de-quarta-geracao-hollywoodiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/kony-2012-guerra-de-quarta-geracao-hollywoodiana\/","title":{"rendered":"Kony 2012: &quot;guerra de quarta gera\u00e7\u00e3o&quot; hollywoodiana"},"content":{"rendered":"<p>O v\u00eddeo come\u00e7a com uma declara\u00e7\u00e3o franca: \u00abOs pr\u00f3ximos 27 minutos s\u00e3o uma experi\u00eancia. Mas, para que ela funcione, voc\u00ea tem que prestar aten\u00e7\u00e3o.\u00bb Quem se dispuser a atender a sugest\u00e3o e prestar aten\u00e7\u00e3o em Kony 2012, como fizeram dezenas de milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo, nas \u00faltimas semanas, ser\u00e1 apresentado a um sanguin\u00e1rio senhor da guerra ugandense, Joseph Kony, l\u00edder do chamado Ex\u00e9rcito de Resist\u00eancia do Senhor (LRA, na sigla em ingl\u00eas), e \u00e0 lista de atrocidades cometidas por ele e seu bando, em mais de duas d\u00e9cadas. Ao mesmo tempo, ser\u00e1 convidado a contribuir financeiramente para a ONG respons\u00e1vel pelo v\u00eddeo, a Invisible Children, sediada em San Diego, EUA, al\u00e9m de apoiar uma interven\u00e7\u00e3o militar dos EUA para livrar os ugandenses do flagelo representado por Kony.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado na Internet em 5 de mar\u00e7o, o v\u00eddeo se tornou rapidamente o maior fen\u00f4meno da rede mundial, atingindo mais de 100 milh\u00f5es de vizualiza\u00e7\u00f5es em apenas seis dias. Por\u00e9m, com celeridade id\u00eantica, foi prontamente desmascarado como uma pe\u00e7a de propaganda oficiosa da agenda belicista de Washington, ao mesmo tempo em que o l\u00edder da ONG, o cineasta Jason Russell, via sua imagem de paladino cibern\u00e9tico instant\u00e2neo desabar com a rapidez de um e-mail, ao ser preso pela pol\u00edcia de San Diego, depois de ser flagrado se masturbando em p\u00fablico e visivelmente embriagado.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o se saibam as causas do comportamento ex\u00f3tico de Russell, n\u00e3o se pode descartar que ele se deva a um choque causado pela sua mete\u00f3rica fama internacional e, talvez, pelo colossal sucesso financeiro da campanha \u00abStop Kony\u00bb, que oferece um bracelete com tais dizeres pela m\u00f3dica quantia de 30 d\u00f3lares. Segundo o pr\u00f3prio Russell, foram vendidos 500 mil kits em apenas uma semana &#8211; o que, sem contar as in\u00fameras doa\u00e7\u00f5es recebidas pela ONG, representa nada desprez\u00edveis 15 milh\u00f5es de d\u00f3lares, um consider\u00e1vel refor\u00e7o ao seu or\u00e7amento de 8,7 milh\u00f5es de d\u00f3lares, em 2011.<\/p>\n<p>Para complicar o quadro, os supostos benefici\u00e1rios da iniciativa da Invisible Children, os ugandenses, reagiram veementemente contra o v\u00eddeo, muitos deles qualificando-o como parte de uma trama para justificar uma interven\u00e7\u00e3o militar estadunidense no pa\u00eds, onde cerca de 100 militares do Comando \u00c1frica (Africom) j\u00e1 atuam como \u00abassessores\u00bb do presidente Yoweri Museveni.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, Museveni encontra-se no poder h\u00e1 25 anos, \u00e9 mandante de atrocidades cometidas contra a popula\u00e7\u00e3o, em uma escala muito superior \u00e0 de Kony e seu LRA, e tem sido um importante apoiador das opera\u00e7\u00f5es militares estadunidenses na \u00c1frica, mantendo, inclusive, um contingente na Som\u00e1lia.<\/p>\n<p>Como esta Resenha afirmou, na edi\u00e7\u00e3o de 26 de outubro de 2011:<\/p>\n<blockquote><p>Embora o LRA se assemelhe mais a um bando de salteadores e estupradores do que a uma for\u00e7a guerrilheira e esteja em a\u00e7\u00e3o desde o final da d\u00e9cada de 1980, poucos acreditam que Obama teria se incomodado em ajudar seu colega ugandense, no poder desde 1986, se a \u00c1frica n\u00e3o estivesse no centro da agenda estrat\u00e9gica de uma renovada disputa por recursos naturais. Al\u00e9m do fato de uma importante jazida petrol\u00edfera ter sido descoberta em territ\u00f3rio ugandense, no in\u00edcio deste ano, outra motiva\u00e7\u00e3o da Casa Branca \u00e9 a crescente presen\u00e7a chinesa no continente. Como afirma o veterano jornalista estadunidense Eric Margolis, especialista na estrat\u00e9gia geopol\u00edtica de seu pa\u00eds: \u00abOs EUA tamb\u00e9m est\u00e3o preocupados com a penetra\u00e7\u00e3o chinesa na regi\u00e3o, com o fato de que eles v\u00e3o engolir todos os recursos econ\u00f4micos e ganhar influ\u00eancia nos governos regionais. Ent\u00e3o, talvez, os EUA queiram deter esse avan\u00e7o chin\u00eas na \u00c1frica Central (Russia Today, 19\/10\/2011).\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>De fato, em uma confer\u00eancia realizada em fevereiro de 2008, o vice-almirante Robert T. Moeller, ent\u00e3o vice-chefe do Africom, afirmou abertamente que o objetivo principal do rec\u00e9m-criado comando era proteger \u00abo livre fluxo de recursos naturais da \u00c1frica para o mercado global\u00bb, mencionando a \u00abruptura dos fluxos de petr\u00f3leo\u00bb, o \u00abterrorismo\u00bb e a \u00abcrescente influ\u00eancia da China\u00bb, como os principais desafios aos interesses estadunidenses no continente africano (AllAfrica.com, 14\/08\/2009).<\/p>\n<p>A promiscuidade da Invisible Children com a agenda oficial de Washington \u00e9 evidenciada pelo apoio financeiro proporcionado \u00e0 ONG pela <a href=\"http:\/\/www.usaid.gov\/our_work\/cross-cutting_programs\/transition_initiatives\/country\/uganda\/rpt0309.html\">Ag\u00eancia de Desenvolvimento Internacional dos EUA<\/a> (USAID).<\/p>\n<p>Curiosamente, uma cr\u00edtica inesperada ao v\u00eddeo veio de dois centros tradicionalmente ligados \u00e0 agenda do Establishment anglo-americano, a Escola de Economia de Londres (LSE, na sigla em ingl\u00eas) e o ultra-seleto Conselho de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (CFR) de Nova York. Em um artigo publicado em 13 de mar\u00e7o, no s\u00edtio do CFR, os pesquisadores Mareike Schomerus, Tim Allen, e Koen Vlassenroot, do Programa de Pesquisas sobre Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a da LSE, afirmam:<\/p>\n<blockquote><p>Ao se assistir o filme, fica claro que a campanha n\u00e3o se dirigia, primariamente, a reverter a din\u00e2mica de conflito na \u00c1frica Central. Kony 2012 \u00e9 uma quintessencial f\u00e1bula estadunidense, impressa sobre uma tela africana, que deflagrou um vigoroso debate sobre at\u00e9 onde a precis\u00e3o dos fatos pode ser esticada por uma boa causa, como se manipular o poder das m\u00eddias sociais e qual deveria ser o papel dos EUA na finaliza\u00e7\u00e3o de conflitos muito longe de casa. Talvez, n\u00e3o com surpresa, a exig\u00eancia feita no filme &#8211; de alguma forma, prender Kony por meios militares, com a ajuda dos EUA, como \u00fanica solu\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 il\u00f3gica e desorientada.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em s\u00edntese, Kony 2012 n\u00e3o passa de uma sofisticada experi\u00eancia hollywoodiana para o arsenal de \u00abguerra de quarta gera\u00e7\u00e3o\u00bb, com o qual os incorrig\u00edveis c\u00edrculos belicistas do Establishment pretendem sustentar a sua agenda hegem\u00f4nica, de \u00abguerra por recursos\u00bb e supremacia militar nas rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O v\u00eddeo come\u00e7a com uma declara\u00e7\u00e3o franca: \u00abOs pr\u00f3ximos 27 minutos s\u00e3o uma experi\u00eancia. 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