Dirigismo: a volta dos que foram – e recuaram da beira do abismo

Já se tornou lugar comum afirmar que a pandemia de Covid-19 escancarou as deficiências da globalização, com suas concentrações de certos setores produtivos em países com custos de produção menores (em especial, mão-de-obra), longas e complexas cadeias logísticas baseadas no conceito “just-in-time” e, acima de tudo, o aparente triunfo do neoliberalismo como doutrina orientadora da formulação de políticas econômicas. De fato, tem sido pedagógico observar a multiplicidade de manifestações de retomada do protagonismo econômico pelos governos, principalmente, nos países avançados, onde conceitos “antiquados”, como política industrial, protecionismo, produção nacional e até mesmo a detestada dirigismo, voltaram a frequentar os debates políticos.

A edição de 9 de outubro da revista The Economist, ironicamente, a porta-estandarte do neoliberalismo, traz um interessante relatório especial sobre o tema, com o significativo título “Precaucionismo”.

O texto inicia com o relato do dilema de um empresário de Austin, Texas, Lloyd Armbrust, que tornou-se um porta-voz informal das reivindicações protecionistas do empresariado estadunidense. No início da pandemia, ele decidiu fabricar máscaras de proteção e teve sua fábrica paralisada pelo defeito de um sensor eletrônico fabricado em Taiwan, que levaria dias para chegar, pausa suficiente para prejudicá-lo na competição com fabricantes chineses cujos produtos custavam menos que o valor do frete. Sem a intervenção do governo, advertiu, os EUA voltariam a enfrentar a escassez de equipamentos de proteção cruciais: “Precisamos fazer alguma coisa disso localmente. Simplesmente, temos.”

A reportagem mostra como a preocupação vocalizada por Armbrust se dissemina tanto no setor avançado como nas chamadas economias emergentes. Resiliência produtiva é a nova palavra de ordem que a sintetiza, como descreve este parágrafo emblemático:

É improvável que os formuladores de políticas deixem tudo por conta das companhias privadas. De fato, o governo Biden responsabilizou o impulso pela eficiência corporativa por algumas vulnerabilidades, e um objetivo de uma maior resiliência é agora a linha mestra da sua política comercial. Luz María de la Mora, subsecretária de Comércio Exterior do México, diz que “há uma reavaliação de quão longe podemos ir nessa globalização”. Isto significa procurar reforçar a indústria doméstica, de acordo com critérios que vão além dos mercados. No Japão, funcionários do governo estão considerando como manter as bases industriais em tecnologias e indústrias sensíveis. A Comissão Europeia adotou a resiliência como a “nova bússola para a formulação de políticas da União Europeia”, persuadindo até mesmo campeões do comércio aberto a se preocuparem com a “dependência estratégica”.

Aparentemente, nada como um choque de realidade para começar a afastar os obstáculos para uma longamente postergada rediscussão da economia e das finanças globais.

E o texto prossegue:

A urgência de reunir informações tem tomado a forma de uma onda de revisões de cadeias de suprimentos. O governo Biden está fazendo uma, assim como o governo britânico, que tem um “Projeto Defender” secreto, para identificar vulnerabilidades nas cadeias de suprimentos. Estas revisões buscam mergulhar em indústrias individuais e identificar fontes de suprimentos tão concentradas que justificam intervenções… A revisão estadunidense descobriu que a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) não sabia quantos ingredientes farmacêuticos eram adquiridos no exterior, somente o número de instalações registradas… Uma revisão feita pela Comissão Europeia identificou 137 de 5.000 produtos importados com um fornecedor estrangeiro dominante. Destes, apenas cerca de 34 eram difíceis de se substituir com outros fornecedores, representando apenas 0,6% das importações da UE em valor… O sensor que o Sr. Armbrust precisava valia mais para as suas operações do que os 5 dólares que custava… Em junho, o G-7 levantou a ideia de testes de estresse de cadeias de suprimentos, como os que são feitos com bancos.

A preocupação de estadunidenses e europeus tem um nome preferencial: China – da qual estão empenhados em reduzir a dependência. Por isso, nos dois lados do Atlântico Norte, outro velho conceito considerado ultrapassado está fazendo uma reentrada triunfal, apesar de não ser proferido abertamente, a substituição de importações, principalmente, em setores considerados estratégicos (outra palavra até há pouco proscrita): veículos e baterias elétricas, insumos farmacêuticos, equipamentos médicos, semicondutores, equipamentos de informática e telecomunicações e matérias-primas especiais, como terras raras.

Nos EUA, o conteúdo nacional nas compras governamentais foi elevado para 75% e o plano econômico do presidente Joe Biden contempla investimentos de US$ 250 bilhões para fomentar a indústria doméstica e US$ 52 bilhões especificamente para a de semicondutores. O Japão já concedeu US$ 4,2 bilhões em subsídios para trazer empresas de volta ao país ou diversificarem os fornecedores. A Europa já colocou o equivalente a US$ 7 bilhões na cadeia de baterias elétricas. E a própria China, que aprovou há pouco o seu 14º Plano Quinquenal, pretende aumentar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento em 7% ao ano, para atingir a autossuficiência produtiva (Paulo Gala / Economia & Finanças, 09/10/2021)

Outra evidência do retorno do Estado nacional ao jogo econômico vem da França, a pátria-mãe do dirigismo, onde o presidente Emmanuel Macron anunciou um colossal plano de investimentos de € 30 bilhões em cinco anos, para “aumentar a capacidade de crescimento da economia francesa pela inovação, para que o país possa continuar a financiar seu modelo de proteção social (RFI, 12/10/2021)”.

Evidentemente, de olho nas eleições de 2022 e sintonizado com as percepções de grande parte do eleitorado, Macron afirmou que o plano “França 2030” tem como objetivo a “descarbonização” da economia gaulesa, sinalizando uma reindustrialização com menores emissões de gases de efeito estufa. Por isso, uma significativa fatia de € 8 bilhões do plano será destinada ao setor energético, no qual terá destaque o desenvolvimento de pequenos reatores nucleares modulares, chamados SMS (Small Modular Reactor), além de melhoramentos na gestão dos resíduos radioativos resultantes das operações das usinas nucleares. Atualmente, a França gera cerca de 70% da sua eletricidade em usinas nucleares.

Além disso, Macron quer fazer da França uma “líder em hidrogênio verde”, com a construção de duas plantas de produção de hidrogênio a partir de eletrólise (que se viabiliza com fontes de eletricidade mais baratas).

Entre os setores contemplados no plano, estão: novos meios de transportes (€ 4 bilhões); inovações no setor agrícola (€ 2 bilhões); saúde pública (€ 3 bilhões); e semicondutores 2030 (€ 6 bilhões).

Em síntese, o velho, consagrado e testado dirigismo está de volta, resgatado pelos campeões do “globalismo”, que estão recuando do abismo onde a sua obstinação ideológica e estratégica ameaçava atirá-los.

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