Delfim: governo tem que reconstruir a indústria

Se a presidente reeleita Dilma Rousseff quiser, realmente, recolocar o País no caminho do crescimento econômico, terá que se empenhar em recuperar a indústria nacional, devastada pelas políticas econômicas dos últimos anos. A avaliação peremptória é do ex-ministro Antonio Delfim Netto, que enfatizou o problema, em entrevistas à Folha de S. Paulo (2/11/2014) e à revista Carta Capital (5/11/2014).

Na Folha, Delfim destacou que, sem a recuperação do setor, tanto o crescimento como a continuação da inclusão social, que tem caracterizado os governos do PT, estarão ameaçados. Para ele:

A preocupação número um [da presidente] deve ser o seguinte: por que caiu o crescimento econômico brasileiro? Caiu porque murchou a indústria nacional. Por que murchou a indústria nacional? Porque há 40 anos ninguém olha o setor externo. Se você não expandir a economia, a inclusão social vai morrer, vai estagnar. Você tirou da indústria as condições competitivas. A política cambial foi uma tragédia ao longo desse período. E continua. Neste momento, ela precisa apresentar um programa coerente de como vai restabelecer a competitividade do setor industrial.

No diálogo com a jornalista Érica Fraga, o ex-ministro, conhecido como interlocutor dos governos petistas, apresentou a “receita”:

Como deve ser o programa?

Passa por muitas coisas. Primeiro, a compreensão de que política industrial não é cortar importação. Política industrial é formular um programa que reconheça que a importação é um fator de produção tão importante quanto a mão de obra e o capital, que é um fator decisivo para aumentar a produtividade da exportação, e que reconheça que estamos longe das cadeias produtivas por anos de abandono da exportação. Das 500 maiores multinacionais, 400 estão no Brasil. Você precisa de um diálogo é com essa gente. Para saber o seguinte: o que você precisa para voltar a exportar do Brasil? Mas não pode fazer isso reduzindo o lucro delas. O governo tem de tentar respeitar o sistema de preços, que é a melhor forma de alocação dos fatores de produção e do consumo.

O atual governo respeitou o sistema de preços?

Claramente não. Mesmo porque as ajudas pontuais não estavam ajudando a indústria coisa nenhuma. A indústria estava sendo destruída por uma valorização do câmbio que primeiro roubou sua demanda externa, depois roubou a interna.

O que falta então?

Tem que reconhecer: eu destruí um setor e vou reconstruí-lo. Ponto final. Na minha opinião, não precisa conversar com ninguém. Tem que apresentar um programa bom e transparente.

Para Delfim, a presidente terá que restabelecer um diálogo com o setor privado:

Acho que se criou uma distância entre o setor privado produtivo e o governo. No fundo, o setor privado produtivo achava que a Dilma era uma trotskista enrustida e ela achava que se trata de um bando de idiotas. Então, é muito difícil você ter feito um acordo.

Quanto aos prognósticos para 2015, ele considera que o cenário é “desconfortável”, mas não “apocalíptico”:

Vamos ter de ajustar. A situação do Brasil é desconfortável, mas não é apocalíptica. Na parte fiscal, inclusive em resposta à recessão que estamos vivendo, você ampliou o déficit nominal. Você praticamente eliminou o superavit primário e está assistindo pela primeira vez a um pequeno aumento da relação entre dívida e PIB bruta. Aqui você tem um problema sério. Você tem de fazer um programa para evitar o pior, que seria o rebaixamento do grau de investimento. Isso aumentaria todos os custos externos. Seria uma tragédia.

Na entrevista à Carta Capital, Delfim explicou ao jornalista Sergio Lirio, sem meias palavras, por que o Brasil parou:

Por ter sacrificado o setor industrial. A desvalorização cambial realizada por Arminio Fraga em 1999 permitiu uma expansão das exportações industriais. Mas o câmbio passou a ser usado como instrumento de combate à inflação, no lugar dos tradicionais mecanismos de política fiscal, monetária e salarial. A partir de certo ponto, a exportação morreu e a importação começou a crescer. A demanda de bens industriais não diminuiu, ela continuou por causa da política de Lula e de Dilma de incluir mais brasileiros no sistema bancário e do aumento da renda. O problema é que o poder de competição da indústria foi destruído. O consumo interno acabou suprido pelos importadores. Depois da recuperação rápida de 2009, a indústria estagnou. E você manteve o consumo por meio do déficit em contas correntes. Como o crescimento dos serviços é ligado àquele da indústria, também foi puxado para baixo. O Brasil ficou mais dependente do desempenho da agricultura.

Igualmente, ele enfatizou a urgência do diálogo entre o governo e o setor privado:

No discurso de posse, ela falou em diálogo. Portanto, a iniciativa precisa partir dela. Se quiser conquistar a confiança do setor privado, precisa se comprometer com uma política fiscal responsável. À medida que o Brasil crescer, é necessário restabelecer as políticas adequadas nas áreas monetária, cambial e de salários. (…) Se a sociedade absorve a ideia, age na direção de realizá-la, as expectativas vão na direção correta. O governo precisa de um programa absolutamente transparente e começar a honrar os compromissos. Se essa abertura ao diálogo permanecer, as condições de cooptar o setor privado estão criadas. Os empresários querem o mesmo do governo, a volta do crescimento.

Juntamente com as advertências, o ex-ministro se mostra otimista quanto às possibilidades da recuperação: “(…) O governo tem se aperfeiçoado. Na área de concessões isso é claro. Além disso, o Brasil tem programas magníficos, projetos monumentais, com taxas de retorno gigantescas. Nenhum outro país tem um portfólio tão impressionante. Com um mínimo de inteligência o Brasil vai voltar a crescer.”

Foto da página de abertura: Paulo Fridman (Bloomberg).

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