COP-26: uma síntese da pajelança de Glasgow

A 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-26), realizada em Glasgow, foi uma autêntica pajelança, simbolizada pela forte presença da militância indígena entre os milhares de jovens que viajaram à Escócia para se manifestar pela “salvação” do clima global. Entre eles, a brasileira Txai Suruí, de 24 anos, da tribo Pater Suruí de Rondônia, que, a julgar pela sua intensa movimentação internacional, parece estar sendo cuidadosamente preparada para assumir um papel análogo ao da adolescente sueca Greta Thunberg, como face jovem do ativismo climático e indigenista brasileiro. De Glasgow, Txai viajou a Estocolmo, para participar de novas manifestações com a ícone da “cruzada verde” infanto-juvenil, para quem a conferência não passou de mais “blá-blá-blá” (G1, 19/11/2021).

Em primeiro lugar, foram estabelecidos acordos aos quais os países mais determinados não aderiram ou interpretarão à sua maneira. A Rússia, China, Índia e Austrália não aderiram aos acordos para a limitação das emissões de metano e do financiamento do uso energético de carvão. Por insistência da China e da Índia, o texto final da conferência amenizou o compromisso referente ao carvão, substituindo a expressão verbal “phase out” (eliminar) por “phase down” (reduzir), para grande desapontamento dos exaustos delegados encarregados da conclusão do documento.

Quanto aos EUA, o enviado presidencial especial para o clima, John Kerry, saiu de Glasgow elogiando os “progressos” da conferência e proclamando que seu país eliminará o uso energético do carvão até 2030. Todavia, poucos dias depois, o Departamento do Interior estadunidense anunciou o arrendamento de uma área de 324.000 quilômetros quadrados no Golfo do México para a exploração de petróleo, que deverá arrastar-se pelos próximos 50 anos, o que a diretora do Centro para a Diversidade Biológica, Kristen Monsell, considerou “uma enorme bomba de carbono” (RT, 18/11/2021).

O segundo aspecto relevante do convescote foi, uma vez mais, adiar qualquer compromisso financeiro dos países avançados quanto a transferências de recursos às economias em desenvolvimento, para apoiar os seus esforços de “descarbonização” das matrizes energéticas rumo à mítica meta de “carbono líquido zero”. Como afirma um resumo divulgado pela Chatham House, o principal centro de deliberação das elites britânicas: “Embora o Pacto Climático de Glasgow incite os países desenvolvidos a cumprir ‘plenamente’ o compromisso financeiro climático anual de US$ 100 bilhões até 2025, permanece incerto quando esta soma será totalmente levantada de fato – e se um total de US$ 500 bilhões será mobilizado entre 2020 e 2025 para compensar os déficits iniciais (Chatham House, 15/11/2021).”

Uma ideia da desproporção entre intenções e realidade pode ser vista no fato de que o Fundo de Adaptação da Convenção Quadro de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, estabelecido em 2010, disponibilizou apenas US$ 878 milhões para projetos e programas de adaptação climática em países em desenvolvimento. Em Glasgow, o Fundo celebrou uma doação recorde de US$ 129 milhões proveniente de 16 doadores, inclusive, pela primeira vez, os EUA e o Canadá (UNFCCC, 09/11/2021).

Sem muitos rodeios retóricos, a mensagem das nações desenvolvidas parece ser: não nos procurem, nós os procuraremos – algum dia.

Trocando em miúdos: quaisquer recursos externos com os quais os países em desenvolvimento estejam contando para financiar os seus planos de “descarbonização”, só virão por meio de investimentos privados cheios de condicionantes, a exemplo das que costumavam acompanhar os empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e de outras instituições multilaterais.

E esse é o resultado mais relevante da conferência: o aprofundamento da “financeirização” ambiental e climática, cujo arcabouço vem sendo construído nos últimos anos e entra agora em fase acelerada, com o objetivo pouco disfarçado de impor a agenda da “sustentabilidade” como árbitro supremo das atividades econômicas e políticas de desenvolvimento dos países que aderirem incondicionalmente a ela.

Entre as estruturas financeiras em preparação para tal finalidade, destacam-se a Aliança Financeira de Glasgow para o Zero Líquido (GFANZ) e o Intrinsec Exchange Group (IEG), ambas vinculadas aos níveis mais elevados da alta finança globalizada.

A GFANZ, cuja criação foi articulada por John Kerry e Mark Carney, ex-governador do Banco do Canadá e do Banco da Inglaterra e atual Enviado Especial das Nações Unidas para Ações e Finanças Climáticas, se autodefine como “um fórum para instituições financeiras principais acelerarem a transição para uma economia global zero líquido”. De acordo com o seu sítio (gfanzero.com), “os nossos membros incluem mais de 450 firmas financeiras em 45 países, responsáveis por ativos superiores a US$ 130 trilhões”.
O IEG (https://www.intrinsicexchange.com/ ) é uma iniciativa da Fundação Rockefeller com uma constelação de parceiros, entre eles, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Aberdare Ventures (empresa de capital de risco sediada em San Francisco, EUA), Ministério de Ambiente e Energia da Costa Rica, Danone, Conservation International, WWF, Amazon Conservation, Resolve (ONG de mediações ambientais e de saúde, sediada em Washington, EUA) e BirdLife International. A entidade é vinculada à Coalizão para Investimentos Privados em Conservação (CPIC), iniciativa da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), que reúne uma pletora de atores privados e institucionais para promover a participação das finanças privadas em atividades ambientais.

A ambição do IEG não é pequena – em linhas gerais, converter em capital financeiro “ativos naturais” avaliados em 4 quatrilhões de dólares. Como informa o seu sítio: “Nós somos pioneiros em uma nova classe de ativos baseada em ativos naturais e no mecanismo para convertê-los em capital financeiro. Estes ativos são essenciais, tornando a vida na Terra possível e desfrutável. Eles incluem sistemas biológicos que proporcionam ar limpo, água, alimentos, remédios, um clima estável, saúde humana e potencial social. O potencial dessa classe de ativos é imenso. A economia da natureza é maior que a nossa atual economia industrial e nós podemos explorar esse estoque de riquezas e produtividade para proteger e fazer crescer a natureza e transformar a nossa economia de uma maneira mais equitativa, resiliente e sustentável.”

Vale registrar que o montante de “ativos naturais” mencionado pelo IEG é da mesma ordem de grandeza que o dos ativos hiperespeculativos (principalmente, derivativos) existentes no sistema financeiro globalizado, estimado na casa de US$ 1,5-2 quatrilhões. A semelhança não é coincidência, apontando para a factibilidade de conversão de pelo menos parte dessa montanha de ativos virtuais em “ativos verdes”, ao mesmo tempo em que isto conferiria aos controladores do sistema financeiro o virtual controle sobre as atividades econômicas e políticas de desenvolvimento de grande parte do planeta.

Não obstante, a despeito do entusiasmo da militância “verde-indígena” nas ruas de Glasgow e das maquinações dos endinheirados altos caciques da aldeia financeira global, o desfecho pretendido pelos condôminos da agenda da “descarbonização” está longe de assegurado. As ausências de nações de peso de acordos que, de resto, sequer estabelecem metas factíveis, a visível disfuncionalidade das fontes energéticas “verdes”, a perspectiva de um inverno rigoroso, as contramarchas políticas que prejudicam uma maior cooperação entre a Europa e a Rússia no abastecimento de gás natural e outros elementos da realidade, constituem poderosos fatores capazes de criar problemas para tais planos. Mas, seja como for, países como o Brasil precisam assumir uma atitude pró-ativa em relação a eles, não se permitindo ficarem reféns das “finanças verdes”.

(Foto: Climate Change UN / Reprodução)

x

Check Also

A pajelança ambientalista de Glasgow: “faz-de-conta verde”

Os primeiros dias da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-26), em Glasgow, ...