Nas últimas semanas, ocorreram novos fatos que sinalizam que a tão alardeada “ordem baseada em regras”, em resposta à guerra Rússia-Ucrânia, não terá um futuro duradouro. Apesar da propaganda trovejante vinda daqueles no “Ocidente” – EUA , União Europeia (UE) e alguns de seus aliados na Ásia – que a defendem (em vez da que era chamado “ordem baseada em leis”, após os horrores da Segunda Guerra Mundial), o que está surgindo é uma “ordem mundial multipolar” centrada na Rússia, China, Índia e nos países do “Sul Global” – África, América Latina, Oriente Médio e Ásia.
Esta configuração de poder é direcionada contra as sanções impostas unilateralmente pelos EUA e a UE, mas também responde a uma tendência crescente de relações comerciais “desdolarizadas” e à exigência de que o desenvolvimento seja baseado na soberania das nações. Efetivamente, um número crescente de nações tem negociado em suas moedas nacionais, enquanto, ao mesmo tempo, mais integrantes do “Sul Global” se propõem a engajarem-se em uma missão de paz na guerra Rússia-Ucrânia.
Um caso exemplar da crescente lacuna entre a unilateral “ordem baseada em regras” e a nova ordem multilateral foi a recente sessão do Conselho de Segurança das Nações Unidas, presidida pelo chanceler russo Sergei Lavrov, em 23 de abril, em Nova York.
Foi impressionante ver que, à parte os esperados discursos contra a Rússia dos representantes dos EUA, Reino Unido, França, Suíça, Japão, Malta e Albânia, a maioria dos demais atacou o que eles e seus povos percebem como uma “ordem mundial unilateral”, que tenta impor a sua “ordem baseada em regras” e sanções ao resto do mundo. Em vez disto, exigiam uma “ordem mundial multilateral” que defenda o “Bem Comum da humanidade, a paz como um Bem indivisível e a segurança entre todas as nações”, ao mesmo tempo em que apoiavam reformas nas instituições financeiras internacionais e a Carta da ONU como diretriz principal para o relacionamento entre as nações. Igualmente, houve fortes manifestações em favor de uma reforma no Conselho de Segurança, à luz da guerra devastadora em curso.
O representante dos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, afirmou que deveríamos “voltar ao mecanismo multilateral, que inclui a reforma das instituições financeiras internacionais, bem como a proteção do Bem Comum Global”. Declarações idênticas vieram de representantes da África, como o vice-chanceler de Gana, que destacou a importância do Movimento dos Não-Alinhados, exigindo “uma ordem mundial justa e equitativa” e reclamando da “crescente competição geopolítica”.
Por sua vez, o representante do Brasil enfatizou o papel do G-20, qualificou as sanções como uma “reação instintiva” e afirmou que medidas coercitivas unilaterais terão um efeito diferente em terceiros países. “O Brasil rejeita a velha ordem mundial hegemônica”, disse ele, acrescentando que “impor a visão de poucos sobre muitos é um ato imperialista e divisive”. Por isso, enfatizou que “todos os meios pacíficos devem ser usados para acabar com os conflitos (incluindo a Ucrânia) e não se deve desistir da diplomacia. O Brasil acredita em uma ordem multilateral e vai se engajar na luta por um multilateralismo renovado”.
Já o representante da China enfatizou que a ONU não deve servir apenas a alguns países, mas apoiar para que o “mundo multipolar se torne uma realidade”. Segundo ele, os países em desenvolvimento, na África, em particular, merecem desempenhar um papel maior na ONU. “Sanções unilaterais devem ser rejeitadas e existem para manter a hegemonia dos EUA sem base legal”, como “um monstro delirante”, causando muitos danos às relações internacionais. “Pedimos aos países que parem com as sanções unilaterais.”
Igualmente interessante foi o discurso do vice-chanceler cubano, enfatizando que, enquanto as desigualdades estão se agravando, há tentativas de impor uma “ordem unilateral”. “Reafirmamos a força da multilateralismo. Devemos promover a cultura da paz. Precisamos reformar o Conselho de Segurança da ONU. O mundo não precisa de sanções.”
O representante do Irã falou sobre “medidas coercitivas unilaterais”, que vão contra os princípios do “direito internacional”.
E seu colega do Egito reclamou de uma “monopolização” por parte de alguns países em relação ao desenvolvimento da África: “O que é necessário é uma coexistência pacífica com base na igualdade.” Ele também bateu na tecla da reforma das “instituições financeiras globais”: “Devemos reexaminar o sistema de segurança coletiva, corrigindo as injustiças históricas em relação à África e encontrar uma solução para os problemas financeiros.”
“Desdolarização” do comércio internacional
Em um recente vídeo divulgado no Youtube, o especialista alemão em Oriente Médio e escritor Michael Lüders fez algumas observações interessantes. Segundo ele: “Estamos presenciando atualmente o início da perda de poder dos EUA, da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e dos países ocidentais em geral. Estamos apenas no início de algo em âmbito regional e internacional, o que mostra claramente a perda de poder dos EUA e da UE. Novos contornos de uma ordem mundial descentralizada estão se tornando visíveis. A ordem mundial está em processo de mudança e a ideia de que regras fixas do jogo são pré-determinadas está sendo abalada. O cerne do conflito geopolítico: a potência mundial dos Estados Unidos passou do apogeu em termos de política de poder. Eles estão em confronto com a Rússia e a China. Tentativas estão sendo feitas para reordenar o mundo e usar adversários para prolongar o declínio. (…)”
Entretanto, ressaltou, novas alianças de poder político estão surgiram em relação à guerra. E um dos principais pontos de inflexão foi o fato de os EUA e a UE terem congelado ativos estrangeiros russos no montante de US$ 334 bilhões. A intenção era tirar dinheiro da Rússia para financiar a guerra e, ao mesmo tempo, provocar uma mudança de regime na Rússia: “O congelamento dos ativos estrangeiros russos foi ruim, porque nem todos os países pensam na linha pró-Ocidente e as relações comerciais estão se tornando cada vez mais desdolarizadas.” Assim, observa, “o comércio entre a Rússia e a China não é mais feito com base no dólar. Os Estados do ‘Sul Global’ e os BRICS também estão recorrendo a esse meio e começam a deixar de negociar entre si em dólares… Isto, por sua vez, terá um efeito sobre a capacidade de os EUA continuarem a sua geração de ‘dívida ilimitada’ e a capacidade de continuar gastando US$ 830 bilhões por ano em armamentos. Também é indicativa a mudança que está ocorrendo nos países do Golfo e no Oriente Médio, onde, nos anos 70, os EUA começaram a forçar os países produtores de petróleo a liquidar negócios de petróleo em petrodólares, permitindo aos EUA tomarem empréstimos em todo o mundo (ou seja, convertendo o dólar em arma)”.
O declínio dos EUA como potência mundial terá um efeito a longo prazo. Novas rotas comerciais estão surgindo, observou Lüders. Os russos estão investindo mais de US$ 100 bilhões para desviar os fluxos de petróleo para a China, entre outras ações. Agora, o petróleo russo segue em grandes quantidades para a Índia, que o refina e o vende ou reexporta a um preço muito alto, para a Europa e os EUA. “A coisa toda mostra que uma nova ordem mundial está surgindo, que inclui cada vez mais a Rússia, a China e o Sul Global.” Lüders acrescentou que a China também está emergindo como um ator importante na frente diplomatic, como demonstra a bem sucedida intermediação entre a Arábia Saudita e o Irã, ao mesmo tempo em que a Síria está retornando à Liga Árabe.
Alastair Crooke: “A guerra de Putin contra a economia liberal”
No contexto de um webinar estratégico sobre a multipolaridade, em 28 de abril, o ex-diplomata e ex-oficial de inteligência britânico Alastair Crooke, fundador e diretor do Conflict Forum de Beirute, fez interessantes colocações convergentes com as de Lüders: “Embora a mudança estrutural para um mundo multipolar seja agora bem compreendida em termos geopolíticos, o que foi esquecido é que o presidente [russo Vladimir] Putin está travando uma guerra financeira – uma guerra contra a teoria econômica liberal e uma guerra diplomática, para obter o apoio do ‘não-Ocidente’ e de aliados estratégicos importantes, como a China e a Índia.”
Para ele, enquanto Putin está comprometido em restaurar o patriotismo e reconectar a cultura russa com as suas raízes cristãs ortodoxas, a sua luta para restaurar a soberania do país implica uma mudança da estrutura econômica, do modelo neoliberal ‘anglo’ para outro que prevê uma maior auto-suficiência nacional: “Se uma ordem multipolar deve ser construída com base na soberania autossuficiente, outros países também devem sair do sistema econômico neoliberal, se puderem. Daí a necessidade de uma grande iniciativa diplomática da Rússia e da China para construir uma profundidade estratégica da nova economia.”
A questão-chave, observou, é como quebrar o aperto hegemônico do “ou estão conosco ou contra nós”. Como facilitar complementaridades mútuas que possam levar um grupo de Estados a um ciclo virtuoso de soberania autogerada – reforçada por corredores de transporte, como a extensa rede africana de trens de alta velocidade construída pela China para o comércio interafricano. O projeto sino-russo, portanto, é um desafio às premissas financeiras e econômicas nas quais repousa a “ordem baseada em regras” – e ajuda a desenvolver uma alternativa.
Para ilustrar o mantra hegemônico estadunidense – “conosco ou contra nós” -, Crooke se referiu a um discurso da secretária do Tesouro Janet Yellen sobre o relacionamento EUA-China, no qual deu a entender que a China havia prosperado amplamente sobre a ordem de livre mercado anglo-americana, mas agora está se voltando para uma “postura impulsionada pelo Estado” e “confrontacionista com os EUA e seus aliados”. “Os EUA querem cooperar com a China, mas total e exclusivamente em seus próprios termos”, disse ela. “Continuaremos a fazer investimentos críticos em casa, enquanto nos envolvemos com o mundo para promover a nossa visão de uma ordem econômica global aberta, justa e baseada em regras… A China deve seguir as regras internacionais de hoje”, enfatizou Yellen.
Segundo Crooke, o discurso de Yellen mostra um completo “fracasso” em reconhecer a “revolução” sino-russa, que não se limita à esfera política, mas se estende também à esfera econômica. Daí a importância de Putin e de seu colega chinês Xi Jinping para moldar uma saída das garras do paradigma financeirizado e neoliberal, ou seja, “uma economia real baseada em recursos versus uma economia baseada em financeirização massiva e derivatives financeiros que sugam o oxigênio da economia real”.
A análise muito interessante de Crooke deve ser analisada em conjunto com uma entrevista anterior dada por ele canal do YouTube Judging Freedom (30 de março), onde foi entrevistado pelo ex-juiz estadunidense Andrew Napolitano, que apresenta regularmente vozes dissidentes da comunidade estratégica e de inteligência dos EUA. Falando sobre a cooperação Rússia-China, Crooke foi questionado sobre a declaração do presidente chinês Xi Jinping, que, ao final de suas reuniões com Putin, em março ultimo, afirmou: “Estamos vendo mudanças que não ocorrem há 100 anos e, quando estamos juntos, impulsionamos essas mudanças.” Para ele, ninguém em Washington entendeu ainda a “dimensão da mudança” que está ocorrendo, por exemplo, no Oriente Médio: “O que vemos surgindo é uma nova arquitetura de segurança, como resultado da intermediação chinesa entre a Arábia Saudita e o Irã, que resolve muitas questões, incluindo a questão nuclear do Irã.”
Em sua avaliação, em certo sentido, o Irã deu garantias de segurança para o futuro da Arábia Saudita. Houve também a visita a Moscou do presidente sírio Bashar al-Assad, que foi este mês aos Emirados Árabes Unidos para participar da reunião da Liga Árabe. De acordo com Crooke, o que agora fica claro é que iranianos e sauditas irão cooperar para acabar com a guerra no Iêmen: “Há algum tipo de pensamento novo no Oriente Médio e em todo o mundo. Ele é dirigido contra a velha narrativa da hegemonia, segundo a qual ‘ou vocês estão conosco ou contra nós’. Os EUA entendem que os seus problemas não são os problemas do mundo e que não estamos de um lado ou de outro, mas escolhemos o nosso lado. Seguimos nossos próprios valores.”
Por que os EUA não querem um cessar-fogo e bloqueiam as negociações de paz
Napolitano questionou Crooke sobre a reunião entre Putin e Xi em Moscou, onde o presidente chinês propos um cessar-fogo na Ucrânia. Crooke citou a resposta do secretário assistente de Defesa John Kirby à proposta: “Ficaríamos preocupados se o resultado de tal reunião fosse o apelo ao cessar-fogo. Por enquanto, o cessar-fogo parece bom. Mas, na realidade, apenas confirma o sucesso da Rússia no terreno e não menciona a ocupação russa.” Na ocasião, Kirby foi questionado por um jornalista se isso significava que os EUA seriam contra o cessar-fogo em princípio ou porque ele for a proposto pela China. A resposta foi reveladora: “Eu disse muito claramente, é tudo sobre o princípio do cessar-fogo que, na realidade, apenas ratificaria os ganhos russos.”

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