Combinação de políticas econômicas para destravar o crescimento

André Araújo

Artigo originalmente publicado no sítio Jornal GGN, em 28 de abril de 2016.

No velho pensamento econômico anterior a 2008, conviveu-se com uma divisão entre o pensamento econômico ortodoxo e o conjunto de escolas consideradas heterodoxas, entre as quais a do Estado de bem-estar social e a escola desenvolvimentista do pós-guerra. Após a crise financeira de 2008, uma nova visão do pensamento econômico concluiu que a complexidade dos problemas não conseguiria ser atacado por esse modelo binário.

Nasceu pós 2008 o chamado “novo pensamento econômico” (new economic thinking) cujo centro de análise é o Instituto para o Novo Pensamento Econômico, de Nova York (INET), reunindo 650 economistas de todo o mundo, que consideram que a extrema complexidade da economia pós-globalizada não pode se entendida por análises puramente ortodoxas ou heterodoxas. O INET reúne Prêmios Nobel de Economia, catedráticos das melhores universidades do mundo e economistas de formação cultural bem mais ampla do que economistas de mercado que imperaram no ciclo neoliberal dos anos 70 a 90.

Uma política econômica, especialmente para países emergentes, não pode ser puxada por concepções de mero ajuste fiscal, na expectativa de que estes processos por si só irão gerar uma economia próspera pela criação de confiança dos mercados. Este modelo de ajuste fiscal mais juros altos, para combater a inflação, não trará resultados no prazo necessário para administrar agudos problemas sociais que precisam ser tratados concomitantemente com o controle dos gastos públicos.

Nas eleições americanas de 1932, o presidente Herbert Hoover propunha exclusivamente uma política econômica ortodoxa para, pela recuperação da confiança, trazer de volta a prosperidade, isso em meio a uma depressão que causou agudo desemprego. Franklin Roosevelt propunha duas políticas simultâneas, uma para melhorar a racionalidade da gestão do Tesouro e outra simultânea para gerar rápido emprego. Esta proposta venceu e nasceu o New Deal, uma combinação de ortodoxia financeira com grande intervenção do Estado para relançar a economia estagnada, pela expansão monetária e suporte às empresas, visando gerar emprego com a Corporação para Reconstrução Financeira (RFC) e o Programa de Serviços de Conservação, que gerou em um ano seis milhões de empregos.

No mesmo período e por outros caminhos, a política econômica do novo governo alemão do chanceler Adolf Hitler, que chegou ao poder no mesmo momento em que Roosevelt assumia a Presidência dos EUA, seguia política parecida. Por recomendação de Hjalmar Schacht, o Reichsbank providenciou instrumentos de ativação da economia industrial, paralisada por um desemprego que chegava a 40%, criação de uma moeda gráfica, os “marcos de compensação” e de uma quase moeda para expansão da demanda, os “Mefo Bonds”, bônus rotativos para financiar o rearmamento. Em três anos, o desemprego tinha desaparecido e a economia industrial alemã estava a pleno vapor.

Uma política exclusiva de ajuste fiscal mais combate à inflação, no quadro econômico atual do Brasil, não terá o tempo político suficiente para mostrar resultados, porque na sua primeira fase irá aprofundar a recessão, aumentando o desemprego.

A política de juros altos para combater a inflação é suicida em um quadro de recessão, uma vez que os juros altos visam esfriar a demanda que já esta baixíssima, o que é um contrassenso. Por outro lado, como os bancos deixaram de emprestar por falta de demanda de crédito e pelo alto risco de inadimplência, a liquidez empoçada nos bancos é imensa e não necessita de juros altos para absorver títulos públicos, única aplicação disponível no mercado, que irá para títulos federais de risco zero, mesmo com juros de 5%, por falta de outro campo de parqueamento de liquidez.

Há imenso espaço para a expansão monetária em investimentos de infraestrutura sem risco de inflação, pois não há no horizonte pressão de demanda, muito ao contrário, há excesso de capacidade industrial e de fatores de produção.

Implantar no quadro econômico de hoje uma política ortodoxa só aumentará a recessão, sem trazer nenhuma condição de crescimento, processo que necessita um instrumento de reignição da economia, que só pode ser o investimento público, ao qual se seguirá o privado por ele arrastado pela necessidade de reiniciar a produção.

No radar de um novo governo se aponta um conjunto de operadores ortodoxos, cujo conhecimento está vencido e que não dispõe das ferramentas para, ao mesmo tempo, conduzir o necessário controle dos gastos de custeio, onde há muito desperdício e ineficiência e, ao mesmo tempo, relançar a economia com instrumentos de puxada de demanda, para rapidamente criar emprego sadio na construção de infraestrutura. No quadro econômico de hoje é preciso fazer combinação de políticas, operando em mais de uma área ao mesmo tempo para produzir mais de um efeito virtuoso.

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