Ciência reprova “telhados brancos” em SP

Por uma meritória iniciativa do vereador Antonio Goulart (PSD-SP), a Câmara Municipal de São Paulo promoveu um debate sobre o tema “Telhados brancos: problema ou solução?”, para discutir o projeto de lei de sua autoria, que propõe a pintura de branco de tetos e telhados na cidade, para ajudar a combater os efeitos do aquecimento global. Embora o projeto tenha sido aprovado em primeira votação, em novembro de 2010, as manifestações contrárias de cientistas e pesquisadores, que apontavam a falta de base científica para a iniciativa, levaram Goulart a promover o debate.

No evento, realizado na segunda-feira 10 de outubro, no auditório da Câmara, a mensagem da ciência foi inequívoca: a medida proposta pelo projeto não terá qualquer influência sobre o clima, nem na escala urbana e, muito menos, na global. Mesmo os apoiadores da iniciativa, como o engenheiro iraniano-estadunidense Hashem Akbari, que a vem propondo em âmbito internacional, não conseguiram apresentar dados reais que comprovassem a sua utilidade, sendo Akbari contestado pela maioria dos debatedores.

A mesma reprovação ao projeto foi feita por representantes do Instituto de Engenharia e do Sindicato das Empresas de Compra, Venda e Administração de Imóveis de São Paulo (Secovi), que participaram da sessão de abertura do evento.

O debate demonstrou, uma vez mais, a falta de argumentos sólidos para justificar as propostas e políticas baseadas na suposta influência humana sobre as mudanças climáticas, tema que provocou algumas intervenções mais acaloradas.

Diante das críticas que recebeu, Akbari, também apresentado como Prêmio Nobel da Paz de 2007, por ser integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), viu-se obrigado a mudar o discurso. “Não uso a palavra pintar. Sempre promovo a ideia, encorajo as pessoas a buscar cores leves. Isso não vai ter aumento de custo e podemos economizar 1 dólar por metro quadrado em ar condicionado. Não quero que isso aconteça em 15 dias. Isso não vai acontecer da noite para o dia. E não estou fazendo uma proposta a partir do nada”, disse ele (G1 SP, 10/10/2011).

Para justificar a proposta, ele afirmou que, segundo seus cálculos, a pintura de uma superfície de 10 metros quadrados com cores claras permitiria a “neutralização” dos efeitos da emissão de até 10 toneladas de dióxido de carbono por ano.

Akbari, que coordena a iniciativa denominada “100 Cool Cities”, com a qual pretende reduzir as temperaturas de grandes cidades e reduzir o aquecimento global, disse também que gostaria que São Paulo se juntasse ao projeto.

Por sua vez, dois professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) criticaram enfaticamente o projeto de lei.

“A cidade de São Paulo já é em grande parte branca. Sugiro que o projeto não vá adiante porque não é interessante para a cidade”, afirmou o professor Silvio Soares de Macedo.

Para Fábio Mariz Gonçalves, a proposta é “elitista” e um de seus primeiros efeitos será promover um aumento do número de acidentes por quedas de lajes. “Essa proposta de lei é absolutamente patética se colocada diante da cidade que eu conheço. Mais de 70% de São Paulo é feita sem lei, é feita sem dinheiro, por autoconstrução. Uma parte da nossa população não tem janela no quarto. O teto pinga e a casa é mal construída. Se aprovarmos uma lei como essa, demandaria cuidado e rigor técnico enorme em troca de uma pequena contribuição. Estamos falando de um custo que nossa sociedade não tem condições de bancar. Se pedir para a população gastar R$ 40 para pintar de forma ordinária um barraco mal feito, ela não tem os R$ 40. Essa é uma discussão absolutamente elitista”, disparou.

O Dr. Antonio Jaschke Machado, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), demonstrou, com dados observados em anos de pesquisas, que a capacidade de reflexão da radiação solar das cidades, que, supostamente, seria ampliada com o seu “embranquecimento”, depende muito mais da geometria urbana do que da coloração das suas superfícies. Ademais, afirmou, um levantamento de dez anos da nebulosidade de São Paulo demonstrou que em menos de 10% do tempo a cidade tem um céu sem nuvens, e a maior parte deste período ocorre durante o inverno, quando a insolação se faz mais necessária.

Os três pesquisadores pediram a suspensão do projeto de lei.

Em sua exposição, o Dr. Ricardo Augusto Felício, professor de Climatologia do Departamento de Geografia da USP, demonstrou de forma categórica a incapacidade física de as ações humanas influenciarem o clima em escala global, apontando a influência de interesses políticos e econômicos na formulação de políticas públicas sobre as questões climáticas.

O comentário provocou uma irritada reação de Akbari, que interpelou o professor da USP, dizendo-se pessoalmente ofendido pela insinuação de que ele teria interesses financeiros escusos nas propostas que tem feito – o que, em momento algum, foi sugerido por Felício.

Outro debatedor que se mostrou incomodado foi o Dr. Vanderlei Moacyr John, professor da Escola Politécnica da USP, que iniciou sua exposição com uma preleção sobre a existência de uma “hierarquia na ciência”, segundo a qual as opiniões de certos cientistas, como os “céticos que afirmam que o aquecimento global não existe”, não teriam o mesmo peso que as dos “milhares de cientistas que afirmam o contrário”. Quanto aos telhados, o engenheiro, que tem um pós-doutorado pelo Instituto Real de Tecnologia da Suécia e é sócio fundador do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), não apresentou qualquer argumento em favor da medida, admitindo que a mera pintura não resolveria o problema. Sua proposta foi a de que se deveria promover os métodos de construção sustentável com incentivos fiscais e legislação seletiva.

Falando em seguida, o geólogo Geraldo Luís Lino, membro do conselho diretor deste sítio, cumprimentou a iniciativa do vereador Goulart, afirmando que se tratava de uma rara oportunidade de que os críticos dos cenários climáticos catastrofistas fossem ouvidos. Segundo ele, toda vez que isto acontece, fica evidente que as teses alarmistas não se sustentam em evidências científicas concretas, apenas em projeções de modelos matemáticos rodados em supercomputadores.

Respondendo diretamente às diatribes de Moacyr John, Lino afirmou que o conceito de “consenso numérico” é alheio à ciência, que se baseia em “uma convergência permanente de hipóteses e fatos observados no mundo real”. Ademais, enfatizou, a palavra “cético” teve o seu significado distorcido pelos defensores das teses alarmistas, pois “todo cientista que se preza e honra os seus compromissos com a ciência e a sociedade deve ser um cético permanente”, uma vez que a ciência tem avançado com o questionamento permanente do conhecimento existente em um dado momento.

Usando observações que comprovam as dramáticas e rápidas variações de temperaturas e níveis do mar ocorridas durante o período Quaternário, nos últimos 800 mil anos, Lino demonstrou que a natureza não precisa das emissões de carbono da Humanidade para provocá-las e, por conseguinte, a hipótese do “aquecimento global antropogênico” não passa no teste do método científico.

Ao final, Goulart afirmou que pretende usar os resultados do debate para repensar o texto do projeto de lei: “Nós vamos, com o conteúdo desse debate, procurar melhorar o projeto.”

Não obstante, será difícil levá-lo adiante, mesmo modificado, em função da oposição maciça e fundamentada dos representantes da academia e das entidades de engenharia e construção civil.

A repercussão do debate paulistano poderá influenciar propostas semelhantes, que estão sendo consideradas em outras cidades brasileiras. Se a ciência tiver a mesma oportunidade de se manifestar, os “telhados brancos” já foram reprovados.

2 comments

  1. White Roofs May Actually Add to Global Warming

    A new study published in the Journal of Climate claims that painting rooftops white—a method championed by energy secretary Steven Chu and others to combat climate change—only minimally reduces local cooling, and actually causes a slight increase in overall global warming.

    How the Heck:

    The researchers used a global climate model called GATOR-GCMOM [PDF], which incorporates a host of data from satellites and weather stations worldwide. It models how relationships between various environmental conditions, like the presence of clouds or pollutants, will affect local and global climate.
    The model found that more white roofs means less surface heat in cities (which is obvious enough to anyone who’s sat in a car with a black interior in the sun). Lower local temperature means less water evaporates and rises up to eventually form clouds, says lead author and Stanford University researcher Mark Jacobson. The decrease in clouds allows more sunlight to reach the Earth’s surface, leading to higher temperatures overall.
    The model also predicts that much of the light reflected by rooftops will eventually be absorbed by dark carbon soot and particulates that are especially prevalent in the air above urban areas. This could limit local cooling and cause warming elsewhere as the particles drift away.

    Not so Fast:

    One possible benefit to white roofs is the reduction of cooling costs for the buildings painted white, which isn’t explicitly addressed in this paper. This could make the practice useful in warmer climates, but at least one study has found that a switch to white roofs wouldn’t lead to energy savings on a global scale.
    The study didn’t calculate how the change would impact energy use, or how such a change could impact emissions and their effect on climate.
    Even with switch to 100% white roofs, the predicted increase in global temperature (0.13 F over 20 years) is quite small, and dwarfed by expected effects of greenhouse gases and carbon soot.

    To Paint or Not to Paint:

    Jacobson speculates that any energy savings in white-roofed buildings would be eaten up by increased energy use elsewhere (i.e., for cooling) from overall warming caused by white roofs. So it’s probably not a great measure for widespread use, he says. But in a warm, sunny climate, a white roof almost certainly doesn’t hurt on an individual basis and may help reduce the need for air-conditioning (as inhabitants of sultry climes have known for a long time).
    Conversion to white roofs is a bad idea globally, Jacobson says. Instead, if you want to make a difference, install a photovoltaic system or solar panels on your roof, which reflects light and also generates clean electricity.

    Reference: Mark Z. Jacobson and John E. Ten Hoeve. Effects of Urban Surfaces and White Roofs on Global and Regional Climate. Journal of Climate. 2011. DOI: 10.1175/JCLI-D-11-00032.1

    http://blogs.discovermagazine.com/80beats/2011/10/20/white-roofs-may-actually-add-to-global-warming/

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