Ciberataques e “poder das redes”: como reagir a esta ameaça?

Dois meses antes da decisiva eleição presidencial nos EUA, o Clube Americano-Alemão de Negócios de Bonn (AGBC, na sigla em inglês) organizou um importante fórum sobre o tema “Poder das redes – Você está cercado – Estarei te vigiando”. Com este provocativo título, o conferencista, Walter A. Bawell, ex-presidente do AGBC, assegurou um vivo debate. E quem venha a ser o próximo presidente estadunidense, terá que lidar com as impressionantes capacidades do que já se chama ciberguerra, em todas as suas formas. Igualmente, o tema influenciará as discussões transatlânticas e as relações com a China, Rússia ou Índia, seja quem for o eleito.

Bawell, cujo currículo inclui uma impressionante folha de serviço militar especializado em tecnologia de informação, inclusive na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), abriu os trabalhos com uma autêntica provocação: a canção Every breath you take, do grupo de rock inglês The Police, de 1983. As estrofes iniciais invocam medo:

Every breath you take (Cada respiro que você der)
And every move you make (E cada movimento que você fizer)
Every bond you break (Cada laço que você quebrar)

Every step you take (Cada passo que você der)
I’ll be watching you (Estarei te observando)

Every single day (Cada santo dia)
And every word you say (E cada palavra que você disser)
Every game you play (Cada jogo que você jogar)
Every night you stay (Cada noite que você ficar)

I’ll be watching you (Estarei te observando)

Oh, can’t you see (Oh, você não pode enxergar?)
You belong to me? (Que você me pertence)
How my poor heart aches (Como dói o meu pobre coração)
With every step you take (Com cada passo que você dá)

And every move you make (E cada movimento que você fizer)
And every vow you break (E cada voto que você quebrar)
Every smile you fake (Cada sorriso que você forjar)

Every claim you stake (Cada reivindicação que você fizer)
I’ll be watching you (Estarei te observando)

(…)

Bawell enfatizou que, com o rápido desenvolvimento na área do controle eletrônico da produção, a operação de pontos nodais cruciais de infraestrutura, como instalações energéticas, de água ou outras partes sensíveis da infraestrutura produtiva das sociedades, há um perigo real de que elementos hostis apoiados por entidades estatais possam desarticular o funcionamento de Estados inteiros em um único golpe. Um caso exemplar citado por ele foi o ataque cibernético chamado Stuxnet, com um malware (programa malicioso) autorreplicante que arruinou as ultracentrífugas de enriquecimento de urânio do centro de pesquisas iraniano de Natanz. Durante um longo tempo, especialistas estadunidenses e israelenses se empenharam em desarticular as centrífugas “por dentro”, por meio de comandos cibernéticos, com o objetivo de ganhar tempo e impedir que o Irã avançasse rumo à construção de uma bomba atômica. Aparentemente, os estadunidenses esperavam que, com o ataque cibernético, poderiam evitar que os israelenses bombardeassem o local – o que poderia ter deflagrado um conflito militar incontrolável. Sobre o caso, acaba de ser lançado o documentário de Alex Gibney, Zero Days, cujos anúncios afirmam: “Zero Days é um thriller documentário sobre a guerra num mundo sem regras – o mundo da guerra cibernética.”

Na palestra, Bawell fez referências às advertências do 1984 de George Orwell (publicado em 1948) sobre os efeitos da manipulação das informações. Segundo ele, sempre houve manipulações de informações ao longo da História, citando como exemplo o caso do chamado Despacho de Ems, a manipulação feita pelo chanceler prussiano Otto von Bismarck do telegrama que relatava o encontro entre o rei da Prússia e o embaixador francês, em julho de 1870, para provocar a esperada reação francesa que provocou a Guerra Franco-Prussiana de 1870-71.

Outro caso foi o da invasão dos computadores da empresa Sony Entertainments, em 2014, muito provavelmente, por hackers norte-coreanos, em retaliação ao filme A entrevista, que ridicularizava o líder do país, Kim Jong-un. No convite para a conferência, Bawell escreveu: “Imagine o que aconteceria se sabotadores norte-coreanos desembarcassem na Califórnia e dinamitassem o prédio da Sony; isto seria um ato de guerra.” Os ataques cibernéticos também podem ser considerados como ações “no limite da guerra”, afirmou.

A desarticulação das redes elétricas nacionais tornam mais “reais” as implicações mais amplas das modernas redes e sistemas de controle. Mesmo os EUA, com as suas avançadas redes e sistemas de controle das infraestruturas, são bastante vulneráveis. O mesmo vale para as redes que controlam fábricas, sistemas logísticos, bancos ou empresas públicas. “Imaginem que não haja eletricidade; não haverá esgotos, água corrente, gasolina e as prateleiras [dos supermercados] ficarão vazias”, disse Bawell.

Com tais cenários tenebrosos apresentados por Bawell, o debate, naturalmente, fluiu em todas as direções: Que segurança posso ter nos meus computadores, nas minhas comunicações? O que pode ser feito? Outros queriam saber como o ex-analista Edward Snowden deveria ser julgado: como traidor ou herói? (Para este autor, Snowden recorda as advertências de Dwight E. Eisenhower sobre o “complexo industrial-militar”, em seu discurso de despedida da Presidência estadunidense, em janeiro de 1961.)

Porém, deve-se enfatizar que nem todas as ideias das “fábricas de doidos” do Vale do Silício deveriam ser seguidas. Para ilustrar a mentalidade de algumas das maiores empresas ali sediadas, Bawell citou o livro de Dave Eggers, O Círculo (Companhia das Letras, 2014), uma ficção que descreve a mentalidade de uma empresa estilo Google chamada “O Círculo”, que incorpora todas as empresas de tecnologia conhecidas em um sistema universal que cria uma identidade online singular. A protagonista é uma jovem competente, ambiciosa e idealista, que, à medida em que sobe na empresa, começa a questionar tal poderio e os valores fundamentais da sua própria vida. (Este autor compartilha a visão de Baweel a respeito.)

Um especialista de uma empresa da Internet argumentou que essa nova tecnologia, que os leigos chamam “Internet”, incluindo os computadores e robôs “espertos” e as máquinas inteligentes que estão sendo desenvolvidas para a chamada “Indústria 4.0”, não deve ser obstaculizada. Igualmente, foi criticada a chamada “hipersensibilidade” dos alemães sobre a proteção de dados. Argumentou-se que outros países não são tão formais com respeito às leis de segurança de dados, e que os alemães deveriam tomar cuidado para não perder a competição nos avanços dessa tecnologia, em que os EUA ainda são o número um.

De minha parte, penso que também é preciso que nos preocupemos com aqueles que produzem as tecnologias para a “rede” e controlam uma parcela crescente da produção e das comunicações para fins privados. E questões mais importantes deveriam ser levantadas com respeito aos “princípios democráticos”: o direito de uma nação – em concerto com outras – é defender o seu povo. Especialmente, no mundo globalizado, as relações mundiais têm que ser ordenadas e orientadas pela experiência que levou, por exemplo, na Alemanha, à evolução do Estado Constitucional (Rechsstaat). Isto não significa que o impulso tecnológico e pró-inovação deve ser interrompido. Mas, se a infraestrutura crucial é vulnerável a ataques hostis e os sistemas não puderem ser reforçados ou protegidos, deveria ser considerada uma redução da conectividade dos sistemas. Isto pode causar menos problemas do que deixá-los expostos a ataques cibernéticos (Sandro Gaycken, da Universidade Livre de Berlim, discute algumas dessas ideias em seu livro de 2012, Ciberwar).

Naturalmente, novas formas de guerra estão emergindo. Mas isto não é o fim da história da humanidade. O ser humano não está sendo superado por máquinas inteligentes. O que se necessita, urgentemente, é uma discussão sobre as mudanças referentes ao “poder das redes”. O que deveria ser discutido é que o mando da lei não seja suplantado pelo “poder das redes”. Por conseguinte, o debate no AGBC foi de suma importância e nos convida a profundas reflexões.

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