China quer papel maior em instituições multilaterais

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Após a criação do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura (AIIB, sigla em inglês), com a participação da Itália e de outros grandes países europeus, a China e seus aliados no grupo BRICS decidiram continuar a construção de um novo sistema monetário internacional multipolar. Recentemente, o governo de Pequim solicitou a incorporação do yuan na composição dos Direitos Especiais de Saque (DES), a moeda escritural do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os DES foram criados como “instrumentos” das reservas do FMI, nos termos do Acordo de Bretton Woods de 1944. Eles são definidos com base em uma cesta de moedas: 41,9% em dólares, 37,4% em euros, 11,3% emlibras esterlinas e 9,4% em ienes. Até agora, esta composição não foi alterada. Anteriormente, os pedidos de participação chineses foram rejeitados por Washington, porque o yuan não era muito usado em transações comerciais internacionais e porque o governo chinês mantém um controle de fato sobre a movimentação de capitais, para evitar uma a valorização da moeda (e, consequentemente, prejudicar as suas exportações).

No entanto, muitas coisas mudaram. Nos últimos cinco anos, o yuan se valorizou em 10% em relação ao dólar, sem ficar à mercê da especulação internacional. E, contrariando todas as expectativas, desde 2007, as importações chinesas para os EUA dobraram.

Enquanto isso, Pequim implementa uma série de importantes reformas financeiras, principalmente, a introduçãode um sistema de garantia dos depósitos, o que permitirá ao seu sistema bancário operar internacionalmente sem comprometer a estabilidade. Hoje, os créditos comerciais denominados em yuans já representam quase 10% dototal mundial.

Com o crescimento das exportações chinesas, a internacionalização do yuan tem ganhado terreno sobre o dólar. Nos próximos cinco anos, a parcela do comércio exterior chinês denominada em yuans deve passar dos atuais 25% para 50%. A moeda chinesa já é a quinta nas transações globais. Há quatro anos, apenas 900 bancos internacionais operavam em yuans; hoje já são mais de 10 mil. Espera-se que, em 2020, o equivalente a cerca de 500 bilhões de dólares em yuans esteja integrando as reservas cambiais dos bancos centrais de muitos países domundo.

Até o final do ano, as difíceis negociações sobre a reforma de quotas do FMI e a participação do yuan nos DES deverão ser concluídas com sucesso – ou, pelo menos, se espera que que sim.

Nesse meio tempo, os BRICS deverão ratificar o acordo para a criação de um fundo de reservas no valor de bilhões de dólares em divisas internacionais (a contribuição da China será de 41 bilhões; Brasil, Rússia e Índia, 18 bilhões cada; e África do Sul, 5 bilhões). O fundo deverá ser usado para enfrentar qualquer problema relacionado com a balança de pagamentos e apoiar as respectivas moedas nacionais em caso de ataques especulativos. A Rússia, que assumiu a presidência dos BRICS no início de abril, está claramente muito interessada nesta iniciativa, da qual tem sido a principal promotora.

Da mesma forma, no campo das agências de classificação de risco, recrudesce o confronto entre os BRICS e as chamadas “três irmãs” – Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch. De fato, o último assalto foi liderado pela Moody’s, que rebaixou a nota da companhia petrolífera brasileira Petrobras para o nível Ba2, que equivale a investimento “especulativo”. Com razão, muitos brasileiros consideram a medida como um “roubo premeditado”. Como afirmou um comentarista: “O que vale mais, os três milhões de barris de petróleo produzidos por dia [pela empresa] ou as opiniões de analistas anônimos da Moody’s?”.

Por isso, os BRICS avançam com determinação nessa área, para evitar mais chantagens. A cada dia, ganha relevância a agência transnacional Universal Credit Rating Group (UCRG), sediada em Hong Kong e integrada pela agência chinesa Dagong, a russa RusRating e a estadunidense independente Egan-Jones.

Agora, a bola passa para o campo europeu. A União Europeia está atrasada em muitas reformas, tanto no campo interno como no internacional. Mas a recente decisão de alguns países europeus de participar na criação do AIIB parece um importante sinal de independência e iniciativa.

Setenta anos depois de Bretton Woods, é chegado o momento da emancipação europeia. Isto não significa um abandono dos primos estadunidenses “no meio do Atlântico”, mas ajudá-los a sair de uma situação difícil, que mistura perigosamente o seu débil unilateralismo, a sua nostalgia pela hegemonia passada e a tentação de um neoisolacionismo rancoroso e anacrônico.

A Europa tem que enfrentar esse novo quadro internacional e desempenhar um papel positivo de protagonismo e mediação, para proporcionar a tomada de medidas concretas no difícil caminho de um progresso global, sustentável e pacífico.

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