Capitalismo não tem futuro sem atenção ao Bem Comum

Ao final de 2019, é cada vez mais evidente que o sistema econômico ao qual se convencionou chamar capitalismo é insustentável em sua forma atual, de hegemonia de um setor financeiro largamente descolado da economia real de produção de bens e serviços úteis à sociedade, que converteu a economia global em uma usina de geração de desigualdade e exclusão.

O crescente déficit de justiça social e a perda de um sentido positivo de futuro resultantes dessa distorção histórica são as principais causas dos ruidosos protestos que se multiplicam pelo mundo, desafiando e colocando em xeque as estruturas político-institucionais vigentes, acomodadas ao status quo e às agendas das elites dirigentes e cada vez mais alienadas das aspirações e interesses majoritários das sociedades.

Com poucas exceções, o cenário é recorrente no mundo ocidental e sinaliza o esgotamento do impulso pró-rentista deflagrado nos EUA, em 1971, início do desmantelamento do sistema monetário e financeiro do pós-guerra, aprofundado nas décadas seguintes pela mal denominada “globalização”, com a qual o sistema financeiro internacional converteu-se num fim em si próprio e tornou-se um parasita da economia real.

Igualmente, a hiperfinanceirização da economia subverteu os objetivos das empresas produtivas e os seus critérios de governança, com a prevalência dos “privilégios dos acionistas” e os resultados financeiros de curto prazo sobre todos os demais aspectos da estratégia e atuação das empresas, em detrimento até mesmo da sua sustentabilidade a longo prazo.

A continuidade desse quadro representa uma ameaça direta aos regimes democráticos e, em última análise, ao próprio processo civilizatório, como já admite um número crescente de representantes do Olimpo econômico e financeiro global.

No jornal que é o maior arauto da alta finança “globalizada”, o londrino Financial Times, o respeitado jornalista Martin Wolf tem dedicado ao assunto muitas das suas colunas semanais. Na de 18 de setembro, intitulada “Por que o capitalismo manipulado ameaça a democracia liberal”, ele admite que, nas últimas quatro décadas, esse “capitalismo rentista”, manipulado por empresas e indivíduos privilegiados, tem gerado “uma trindade nada santa de desaceleração do crescimento da produtividade, desigualdade explosiva e enormes choques financeiros”, inclusive, na economia mais poderosa do mundo, a estadunidense.

No artigo, Wolf repercute o inusitado manifesto da Business Roundtable, entidade que reúne a cúpula do capitalismo estadunidense, cujo tema é uma redefinição do propósito de uma empresa: sai o “privilégio dos acionistas”, entra o “compromisso com as partes interessadas” – os clientes, funcionários, fornecedores, comunidades e acionistas.

O manifesto, assinado pelos executivos-chefes (CEOs) de 181 das maiores empresas dos EUA, se compromete com cinco pontos: entrega de valor aos clientes; investimento nos funcionários, com salários e benefícios justos, apoio para treinamento e educação; tratamento justo e ético com os fornecedores; apoio às comunidades no entorno das empresas; e geração de valores de longo prazo aos acionistas.

“O sonho estadunidense está vivo, mas desgastado”, disse Jamie Dimon, presidente da Business Roundtable e CEO do megabanco JP Morgan Chase, um dos templos do capitalismo rentista fulminado por Wolf. “Grandes empregadores estão investindo nos seus trabalhadores e comunidades, porque sabem que é a única maneira de serem bem sucedidos a longo prazo. Esses princípios modernizados refletem o compromisso inabalável da comunidade de negócios para continuar a promover uma economia que sirva a todos os estadunidenses”, completou.

No outro lado do Atlântico, o templo por excelência do capitalismo globalizado, o Fórum Econômico Mundial (Fórum de Davos), dedicará a sua reunião de 2020 ao tema geral “Partes interessadas para um mundo coesivo e sustentável”, com o objetivo de dar um significado concreto ao conceito de “capitalismo das partes interessadas”, nas palavras do seu fundador e presidente, Klaus Schwab.

Schwab reconhece que “as pessoas estão se revoltando contra as ‘elites’ econômicas, que acreditam que as traíram” e, “com o mundo em tal encruzilhada crítica, nós devemos desenvolver um ‘Manifesto de Davos 2020’, para reimaginar o propósito e as avaliações de empresas e governos”.

Na reunião, serão discutidos a ameaça das dívidas empresariais e soberanas, os desafios da Quarta Revolução Industrial, as necessidades de requalificação de 1 bilhão de pessoas ao longo da próxima década, a superação de conflitos em áreas críticas do mundo e – inevitavelmente – os impactos das mudanças climáticas.

Por uma ironia histórica, essa inquietação ocorre um século após o célebre processo dos irmãos Dodge contra Henry Ford, então, o maior fabricante de automóveis dos EUA, em 1919. Nele, a Suprema Corte do Estado de Michigan apoiou o argumento dos irmãos, acionistas minoritários da Ford Motor Company, de que o objetivo das empresas era a maximização dos lucros dos acionistas, e não desempenhar funções sociais. Para Ford (que, não por acaso, detestava os banqueiros), o propósito de sua empresa era “fazer o máximo para todas as pessoas envolvidas, ganhar dinheiro e usá-lo, criar empregos e desenvolver carros que as pessoas possam usar… e, incidentalmente, ganhar dinheiro”.

Na verdade, Ford encarnava o espírito original do chamado Sistema Americano de Economia Política, corrente de pensamento econômico cujos preceitos construíram os EUA como a maior potência industrial e econômica do mundo, além de ter orientado os avanços de outras potências industriais, como a Alemanha, Japão, Coreia do Sul e outras. Um dos seus expoentes, Henry Carey, atribuía aos processos produtivos uma finalidade muito mais elevada: “O objetivo final de todo esforço humano é a produção desse ser que sabemos ser o homem, capaz das mais altas aspirações.”

Ou, como expôs um dos seus estudiosos, o dominicano francês Raymond Bruckberger, os conceitos econômicos de Carey tinham a pretensão de construir uma teoria da civilização, e não apenas justificar a busca de riqueza e poder, como criticava à Escola Clássica de economia política britânica.

Um século e meio depois que Carey publicou as suas principais contribuições, hoje, lamentavelmente, esquecidas, e um século depois de Ford, com a sucessão de crises que tem abalado a economia e as finanças globais desde a década de 1990, acrescida da escalada de protestos que se espalha pelo planeta contra o déficit global de justiça social, é significativo que o Olimpo econômico esteja se dando conta de que o capitalismo não pode prescindir da atenção ao Princípio do Bem Comum.

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